Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 2

Capítulo 54: De mim, que te admira

22 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Setor Oeste da Academia de Palas

 

As chamas púrpuras e vermelhas chocaram-se no meio do campo em uma grande explosão, que só não varreu tudo ao redor pois os responsáveis por ela contiveram seus ataques. Para uma quinta-feira, Shuyu e Tatsuyu estavam bem animados para ter embate pirotécnico daquele nível.

Fosse pela amizade, pelas magias similares ou pelo tempo que não eram postos um contra o outro, roxo e escarlate podiam ser encontrados em todos os cantos na forma de brasas errantes. Em poder de fogo, o príncipe levava a melhor, mas seu amigo estava determinado a não entregar a vitória de bandeja naquela aula. 

O motivo era… bem, desesperador.

— Qual é, Shuyu, entrega essa pra mim! Eu não passo na prova da professora Kitani! — implorou, focado, o moreno. Mais uma explosão abafou sua voz. — Por favor!

— É muito otimista da sua parte achar que eu consegui, Tatsu! Eu também tô ferrado!

— Mas você é inteligente, porra!

— Não pra teoria mágica! Chama de Muspelheim!

— Brasa do Olimpo!

A onda de choque varreu o espaço ao redor do ponto de encontro entre as ondas de fogo rivais. Tinham sorte que a área designada a eles seria restaurada mais tarde por outros Guardiões especializados, ou teriam sérios problemas para custear seu conserto. “Benefícios de ser um aluno de Palas, parte 51: se quebrou na aula, tá isento de culpa”, disse Tatsuyu, alguns meses atrás, após um leve acidente na aula de Controle de Mana.

Durante o período inteiro, trocaram golpes com máxima potência, determinados a impressionarem a professora mais rígida dentre o corpo docente. Só os fortes sobreviveriam ao treinamento desumano de Hakua Kitani — nas palavras sinceras de Akashi, os métodos dela seriam facilmente colocados como violações de direitos humanos em qualquer outro cenário. 

Enquanto estivesse sob as ordens da Academia de Guardiões de Palas, eram meras pedras de sal que os alunos deveriam engolir se quisessem perseverar em suas futuras carreiras. Os garotos com poderes de chama sabiam disso e evitavam, à qualquer custo, serem vítimas da recuperação. Ou, em melhor definição, da tortura particular da professora de Combate Mágico.

A exaustão já batia à porta de Tatsuyu quando o som do apito salvou-o de mais uma rodada de ataques. 

— Tempo esgotado! Quem conjurar mais um feitiço a partir de agora terá que fazer hora extra. — Os olhos cor de lavanda intimidaram mesmo os estudantes mais ousados. Nem o galã de gelo teve a audácia. — Ótimo. Vejo que finalmente entraram nos eixos, e bem a tempo do anúncio que devo passar.

Sussurros reverberaram pelo campo, tornando óbvia a inquietação dos jovens. Mais uma prova? Algum teste insano surpresa? Vindo da professora Kitani, qualquer coisa era possível. A mulher ajeitou os cabelos negros para limpar seu campo de visão e, de repente, uma majoritária parte da sala estava de joelhos. 

Tatsuyu estava incluso. Com o pouco que conseguiu manter de pé sua cabeça, podia enxergar brevemente a situação dos demais colegas de classe: apenas Togami, Heishi, Koyo e Zuko não se dobraram ao poder desconhecido. Os demais membros de seu grupo estavam em uma posição similar à dele, ainda que alguns lutassem para se igualar ao quarteto.

— Primeiro semestre e já fora da influência do Decreto de Pendragon? O último que fez isso… faz algum tempo que presenciei — comentou Hakua, curiosidade e nostalgia em suas palavras. — Bem, ainda estão proibidos de se mover. Meu aviso será breve.

“Temos data à Seleção Anual dos Esquadrões. O aviso veio de última hora, nem estávamos contando com a possibilidade de ocorrer este ano… O que importa é que vocês têm até quinze de maio para atingirem o seu máximo se quiserem ser recrutados por algum dos Generais. Para todos os nossos nobres herdeiros, permitam também um conselho.

“Seu status não importa. Sua família não importa. sua posição na hierarquia não importa. Se você não for capaz de impressionar um deles, se considere de reforço da minha matéria até o próximo recrutamento. Não dou aula para fracotes, e quero acreditar que nenhum de vocês se contentarão com isso. 

“Suas notas do bimestre vão influenciar se podem sequer participar. Agora, troquem as duplas, a aula segue até mais tarde hoje, fiquei sem paciência. Quem reclamar, são vinte voltas na Academia inteira!”

Os olhos dela pararam de brilhar, libertando todos de seu comando. Mesmo com permissão para se mover, Tatsuyu ainda permaneceu sem se mover por alguns segundos — três semanas? Era muito pouco tempo para dominar por completo a Mão do Ferreiro, quanto mais igualar sua mana às dos quatro prodígios da sala. Togami, em especial, fazia esforço para não se mover durante o discurso.

 Como funcionaria a seleção? Quais os critérios? Quantos poderiam ser escolhidos? A falta de orientações claras parecia ser intencional por parte da Longinus; o exame de entrada foi da mesma forma. Aquilo o deixava muito mais ansioso do que a condição de estar com as notas em dia para ser apto a participar.

Um sentimento ruim preencheu seu peito, e sua mana começou a queimar seu corpo de dentro para fora. “Não posso perder essa chance. Não de novo”, repetia para si, desesperado para encontrar uma saída possível de ser seguida. Não ter êxito nesta tarefa servia como combustível à sensação sufocante.

Conseguiu, antes que fosse consumido pela sua chama interna do amargor, tirar seu novo tesouro de seu armazém espiritual. Diante do reluzir delicado da pulseira de flores, pôde respirar sem problemas mais uma vez, tomado pelo conforto da memória feliz de seu aniversário. Shuyu também se aproximou ao perceber o problema, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar.

— Eu estou bem — reafirmou o moreno, com um sorriso fraco. — Valeu, Shu.

— Disponha.

Do outro lado do grupo, uma das novas duplas formadas não poderia ter uma química pior. O garoto de cabelos vermelhos bufou quando foi obrigado a disparar mais um raio na direção de seu oponente, que parecia mais preocupado com seus pensamentos do que com a luta entre eles. Cogitou, por algumas vezes, denunciar à Hakua o comportamento desrespeitoso, mas sabia que ela não iria se dar ao trabalho de repreendê-lo.

Afinal, não tinha motivos para Kai Tamaki ser alvo de reprimendas educacionais, não com seu histórico escolar impecável. Bem diferente do baixo rendimento intelectual de Koyo, o nobre ateniense tinha boas notas nos exames teóricos. Chamar a professora Kitani seria dar um tiro no próprio pé, ainda que ela fosse mais rigorosa com os treinos do que com provas escritas. Com isso, contentou-se em analisar as ações do garoto durante os choques entre suas magias.

Os olhos cinzentos desviavam sempre para a esquerda. O foco deles só poderia ser um: Reiko Chiwa, a princesa de Sophis, que duelava com algum colega de classe desconhecido ao harenariano. O Guardião da Hidra podia ser um tanto ignorante acerca de relações sociais, de fato — suas poucas amizades ao longo da vida nunca foram duradouras —, porém reconhecia aquela emoção estampada no rosto do nobre. Era a mesma que a Fera de Lerna tentava forçar em seu coração, a qualquer custo.

Obsessão. Não amor, não carinho, não ciúme. Talvez existissem em algum canto de seu interior aquelas boas intenções; ali, aos olhos prateados de Koyo, não. Kai olhava para as costas da garota como uma raposa observa um coelho indefeso, sem vontade alguma de prestar atenção em seus arredores. 

— Poderia aprender com ele, Gintei… Que sentimento delicioso que sinto vindo desta mana ardente! — A própria entidade reptiliana, com suas sete vozes distintas, se manifestou em seu subconsciente. — Ao invés de guiar os cordeirinhos, deveria devorá-los de uma vez.

— É por isso que seu poder vai continuar na minha mão.

— Até onde você acha que consegue controlar minha influência, mortal bobinho? — riram as muitas cabeças. — Eu te escolhi por uma causa. Eu sei o que há dentro de você e o que te aguarda no caminho à frente. Você não pode fu…

Calar a voz da Fera de Lerna foi a única resposta do jovem ao ter seus ideais confrontados. Aquelas palavras provocativas, direcionadas aos seus pontos mais vulneráveis, sempre pareciam tão genuínas que um arrepio percorria sua nuca toda maldita vez. 

Não era pela maldade imbuída no timbre sibilante da Hidra. E sim pelo medo dela estar certa, no fim das contas, sobre Koyo Gintei ser uma pessoa ruim.

 

 

— Depois de imobilizar os Takahashi, será que preciso mesmo treinar?

A dúvida dita em voz alta ecoou pelo caminho ladrilhado. Com a lua tendo substituído o astro-rei no céu, a maior parte dos alunos já havia se recolhido para evitarem quaisquer punições por estarem fora do horário. Alguns poucos veteranos, com mais contatos e coragem para se defenderem dos professores, ainda arriscavam estender seus treinos o máximo possível.

Naochi, enquanto Segunda Cadeira, tinha direito a um “passe livre” dentro da Academia. Se queria usá-lo naquele momento? Essa resposta nem ele tinha certeza, tinha de confessar.

O dia foi longo o suficiente. Entre impedir que Hikaru e Hinata Takahashi pulassem no pescoço um do outro durante a reunião de comunicação da Seleção Anual e apartar a briga de Shino e Koushi por este ter olhado com malícia a gêmea citada anteriormente, sentia o esgotamento emocional de lidar com aquela mesquinharia lhe alcançar.  

Mesmo Keishi notou que seu companheiro de bar estava desanimado, então foi liberado de seu turno de patrulha naquela noite. Um sinal claro para descansar, se não fosse por um ínfimo detalhe: Naochi não era um guerreiro somente de aparências. O retorno de Taniko o lembrou que sua posição de Segunda Cadeira nunca estaria garantida. A troca de escala virou motivo para buscar sarna para coçar.

Ser o vice-representante do corpo discente não lhe era suficiente. Lá no fundo, escondido entre o deboche ácido e a personalidade descontraída, havia o orgulho genuíno de um bellano em busca do topo — ficar à sombra do protegido da Líder Suprema não estava em seus planos. Koushi não estava mais do que alguns degraus acima de si próprio.

Sua vontade ardente era o que o guiava ao campo no setor oeste, em paralelo ao trabalho incansável de seu cérebro de processar novas ideias para testar ao longo da noite. “Freya não consegue me dar mais dicas que isso… Maldito sejam os nobres que ficaram com ela por tanto tempo”, praguejou, apertando o passo. A chuva acima de sua cabeça estava cada vez mais próxima.

Não esperava ter os olhos repentinamente atingidos por uma onda majestosa de luz, vinda direto do campo de treino. Por instinto, reduziu sua emissão de mana ao mínimo e diminuiu  o ritmo da corrida, até o silêncio voltar a perdurar em seus arredores.

Os movimentos firmes e graciosos da greatsword envolta em brilho branco beiravam o angelical; entretanto, não era a fluidez deles que causaram perturbação em Naochi. Os tempos, as batidas, os ângulos… A cada ataque desferido pelo garoto no centro do campo, estava mais certo de estar diante de alguém replicando o Hino dos Três Mil Soldados, a técnica de luta da casa real de Bellato.

Ao longo dos anos sob supervisão de Amaka, presenciou o príncipe Zuko realizar aquela mesma “dança” inúmeras vezes. Ainda que imperfeita, o rapaz desconhecido demonstrava ter estudado-a com enorme afinco para manusear a lâmina daquela forma. “Quem é este…”, ponderou o loiro, seus olhos violeta hipnotizados no balançar suave da arma.

Momento algum parecia adequado para interromper o treinamento árduo de seu provável novato, levando Naochi à decisão de procurar um novo lugar. No breve instante em que desviou o olhar, o encanto foi substituído por uma surreal agressividade. A surpresa não o impediu de bloquear o corte de luz disparado contra ele com seu punhal.

— Bom saber que preciso aprender a detectar mana em todas as direções em tempo integral. Mais uma meta pra lista.

— Ousado da sua parte. Se eu fosse um criminoso, a escolha de poupar sua vida já teria ido pelo ralo.

— Eu estava pronto pro que der e vier! Com isso aqui, eu analisei cada movimento seu…

O Segunda Cadeira virou-se para observar o que ele queria dizer com “isso”. As íris atentas do veterano perceberam, de cara, as partículas amarronzadas presentes sobre os olhos do garoto — a julgar pela maneira que cobriam por completo o campo de visão dele, deveria ser parte de alguma técnica ocular. 

— Vamos do começo, garoto. Nem sei quem você é.

— Mas eu sei quem você é. Você reconheceu a dança que copiei do Zuko — pontuou. — Akashi Kousho. Colega de quarto do Zuko.

— Chamar ele pelo primeiro nome é um feito e tanto — brincou o loiro. Algo similar à cautela permeava os cantos de suas expressões. — Para ter sido escolhido como colega de quarto de um príncipe, você é um talento raro. 

— Não, longe disso.

Akashi soltou seus cabelos esverdeados para ajustá-los melhor sob a tiara, usada para evitar os cachos mais longos de obstruírem seu rosto. O treinamento encharcou os tecidos vestidos por ele, cuja parte de cima do uniforme encontrava-se jogada para o canto da quadra. Todas essas condições adversas em nada lhe importaram para colocar o sorriso mais sincero, de orelha a orelha, em seus lábios.

— O Zuko, esse sim é um talento raro. Eu só quero ser como ele, e a única forma de superar esse obstáculo é aprendendo como ele luta.

— Eu posso tornar isso realidade.

— Não quero, obrigado.

A negativa instantânea trouxe confusão ao fluxo lógico de Naochi. Ora, se queria ser melhor do que um novato, a orientação de um membro do alto clero da Academia de Palas era o caminho perfeito para que isso fosse possível. Era o mais sensato a se fazer, independentemente do resultado final que fosse atingido.

Com essa incerteza, o Guardião de Freya encarou seu novato. E, então, entendeu o porquê não aceitaria sua proposta. A chuva começou a cair, molhando-os dos pés à cabeça.

As orbes de Akashi, que voltaram à sua usual tonalidade grafite, admiravam seu próprio reflexo na lâmina de sua espada. Nada havia mudado de fato em suas feições, com exceção da faísca nítida em seu interior tornando-se um braseiro dentro de suas janelas da alma. 

— Zuko não aceitaria o caminho mais fácil. Seria injusto eu aprender as técnicas dele enquanto ele não tem a chance de conhecer as minhas. — A hipótese de Naochi se confirmou com aquela constatação. — Por isso, obrigado, senhor Shogi, mas rejeito sua proposta.

— Você não parece ser de Bellato. — Sem contexto, o chute do loiro pareceu desconexo do assunto anterior. — Ainda assim, devo admitir que você tem cara de quem se daria bem por lá.

— Vou considerar isso um elogio.

— E é mesmo! — concordou o veterano. Akashi guardou sua arma. — Não vou me meter na rivalidade de vocês, em respeito ao que me mostrou, mas posso te pedir uma coisa?

— Claro.

A mão direita de Naochi tocou o ombro do rapaz de pele parda, num gesto de camaradagem. Depois de anos como o único capaz de se aproximar em pé de igualdade do príncipe de Bellato, ver alguém capaz de estar ao lado do filho de sua mestra era… tocante, na falta de uma palavra melhor.

Sob as gotas de chuva pesadas, Shogi ponderou como dizer aquilo sem colocar sua cabeça em risco se Zuko descobrisse. Não estava mais falando da história amplamente conhecida e divulgada em todos os continentes, sobre a maldição da família real ou as mortes do rei e de seu herdeiro — era uma confissão genuína de sua vida, enquanto plebeu, ao lado dos sobreviventes destas narrativas.

Era de Zuko e Amaka, não do príncipe e rainha amaldiçoados.

— A mestra Ryoujin nunca viu ele se aproximar dos outros. Nem ninguém se aproximar dele… — confessou, aos sussurros. — Ele é uma pessoa difícil, você já deve saber. Eu só consigo lidar com ele porque já estou acostumado.

“Quando vi ele com vocês, foi a primeira vez que ele parecia… neutro. E cara, como isso é um negócio estranho considerando quem ele é! Depois de anos, eu nunca tive esperança que isso seria possível.

“O que eu quero dizer é pra cuidar dele. Vai ser chato, vai ser um tanto arisco de vez em quando, mas ele não faz isso por mal. Aquela cicatriz é a causa de todos os problemas.”

— Eu senti isso também. Vou ter cuidado, prometo.

— Confio em você. — Naochi tomou distância rapidamente, a passos pesados em vista da chuva grossa. — Preciso achar um campo de treino pra mim. Vê se não fica até depois do horário!

— Pode deixar!

Despediram-se com acenos um para o outro. Em seu interior, desejavam que Zuko jamais soubesse daquela pequena troca de segredos entre eles. Tinham pescoços a manter no lugar.

 

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