Volume 2
Capítulo 53: A cega justiça
18 de Abril de 4818 - Local desconhecido
— Cara, que carne boa. Veio mesmo de Leoni até aqui sem precisar congelar?
— Quando se tem uma magia de espaço-tempo capaz de teletransportar, acho que não precisam congelar.
— Nanami, às vezes acho que te falta um pouco de senso de humor.
— Eu só esclareci sua dúvida. Você não queria ser respondido?
Mitsuko revirou os olhos. Estar no meio de um dos muitos patetas impacientes e do mais centrado de seus colegas era sempre uma experiência complicada e que, na minoria das vezes, terminava com ela sendo empurrada ao uso da força para separá-los. Algo, no mínimo, cômico, considerando que Juuzo Nanami era seu guarda-costas e não o inverso.
Ainda assim, os olhos bicolores do rapaz pareciam dispostos a defender-se da agressividade do terceiro. “Deveria ser um dia de folga e estou de novo servindo de babá”, refletiu, cansada — não tinha muitas oportunidades de descanso entre uma missão e outra, então um momento de calmaria lhe era bem-vindo.
Por cordialidade, acompanhou os dois únicos membros presentes dos Arautos no jantar fornecido pelo principal chef da fortaleza sombria. Poucos minutos foram necessários para a ruiva perceber o quanto amargava sua própria decisão em sacrificar sua rara tranquilidade em troca de ser mediadora de conflitos.
De cabelos alaranjados e olhos amarelos como um trovão, o garoto sentado ao seu lado esquerdo com certeza atazanava Juuzo por mero divertimento. Os comentários e provocações infantis, a falta de vocabulário, até seus trejeitos… Mitsuko não conseguia acreditar que Hyouma Nagi fosse mais velho que seu colega. Ou pior, que era meses mais novo do que ela.
— Que seja! Vem cá, o chefe saiu? — A voz estridente do jovem adulto, agora recostado em seu assento, ecoou pelo amplo salão. — Quer dizer, só tem a gente aqui! Que porra de lugar silencioso do cacete!
— Uma carga em Kostarie chamou sua atenção nos relatórios — explicou Mitsuko. Era a chance perfeita de assumir as rédeas da conversa. — Não tenho ideia do que seria capaz de atraí-lo para fora desta ilha, mas… algo fez isso. Até os Cavaleiros partiram com ele.
— A justiça é mesmo cega com o chefe, né? — debochou Hyouma. — Nem nós conseguimos andar tão livremente pelos reinos…
— Por isso que ele é o mestre, Nagi.
— Volta a ler tua revista de moda e não me enche, ô, cabeça de fósforo queimado!
— Claro.
Por deboche ou por mera incapacidade de compreender ironia, o guarda-costas da mulher voltou sua atenção à capa estampada por duas mulheres lindas, ambas vestidas em maiôs super-chiques. Com Mayumi Nekoren na imagem, o esperado era que todo e qualquer olhar fosse atraído magneticamente à sua imagem divina, mas este não era o caso.
Juuzo admirava, sem vergonha alguma, a figura diminuta logo ao lado da mulher mais bela do planeta, os cabelos dourados desta ignorados em prol dos fios loiros de sua companheira de fotos. Seus parceiros conheciam-no o suficiente para estarem cientes de que tentar interagir com o Guardião de Cérbero agora era um caso perdido. Estava, como gostavam de dizer, “hipnotizado” pela modelo baixinha e seu maiô rosado.
Aquilo pareceu mexer com o ego de Hyouma de maneira um tanto intensa. O som de faíscas, a forma que a mana dele tomou corpo diante de sua raiva, era audível à distância — o colega de olhos bicolores não tinha a menor ideia de como sua indiferença representava um ataque pessoal ao outro. As íris do mais velho queimavam de pura ira.
— Você é retardado, Nanami?
— Não? Eu só fiz o que você falou. — Juuzo não desviou o foco das páginas para responder. — Se você entendesse um pouco de moda, talvez seria capaz de ver a beleza da senhorita Youju. Olha que caimento bom… Ela ficou ainda mais bonita.
O soco veloz do garoto-relâmpago não foi o suficiente para pegar o outro de supetão. Uma das manoplas surgiu no pulso direito do moreno no instante do impacto, cujo choque gerou uma onda capaz de balançar os cabelos de Mitsuko. Diferente do esperado, o incômodo de Juuzo teve um motivo diferente para ocorrer, uma vez que ser atacado não surtira efeito algum em seu corpo.
— Ei, imbecil, você quase queimou a capa!
— Ó, que bonitinho! O cãozinho de satanás está com raiva! — “Isso deveria ser uma autocrítica?”, Juuzo comentou para si. — Deixa eu carbonizar o seu brinquedinho favorito pra ver se você aprende a respeitar os mais velhos!
— Não vem falar dos meus hobbies se você quer manter os den…
— De joelhos.
A ordem de Mitsuko não pôde sequer ser contestada — a força deixou as pernas deles no instante em que os tímpanos processaram as palavras da mulher. As joias sobre seu busto e pescoço emitiam um brilho alaranjado, assim como seus olhos esmeraldinos. “Devem ser magietras caríssimas”, deduziu Hyouma, ainda paralisado pelos poderes misteriosos dela.
Para a Mensageira se dispor a realizar qualquer feitiço, sua paciência deveria estar bem curta. Mesmo os mais antigos membros dos Arautos sequer conheciam as magias que a emissária pessoal do chefe tinha na manga, de tão ocasionais que eram suas utilizações. Pois bem, Juuzo agora tinha um problema muito maior do que o Guardião à sua frente para lidar.
A aura da garota, diferente do usual, não era disforme. A energia moldava-se ao seu redor de maneira esquisita, tomando volume e formatos específicos demais para serem naturais. Em meio ao silêncio sobre eles imposto, uma silhueta gigante de energia alaranjada surgiu na sala.
— Para ser desrespeitado até pelo cão da família… Está mesmo sem moral alguma, Zeus.
— Volta pro teu canto, bruxa da caverna. Pelo menos meus filhos nunca me odiaram. — A mana vermelha de Hyouma quem se pronunciou contra a deidade. — Não enquanto os humanos não estavam na jogada.
— Vocês dois falam como se eu não tivesse consciência. Morram de uma vez.
— Três cérebros e não consegue compreender que não morreríamos nem se o mundo acabasse.
— Só você mesmo, Izanami, pra achar que alguém sem ser o corno do teu marido liga para o que você fala — cutucou o Cão do Submundo, ácido. — Quer dizer, nem ele. Tem um motivo pra você ter ficado presa naquela caverna cheia de vermes.
— Se materialize, Cerberus, pra eu arrancar cada uma das suas línguas!
As três deidades, que, em tese, deveriam ser mais racionais do que seus receptáculos, estavam a um passo de se projetarem para continuarem sua briga mesquinha no lugar dos humanos. Ainda que não pertencessem ao mesmo panteão, sabiam muito bem os podres um do outro, o suficiente para sorrir falsamente, em ameaças veladas. Os dois rapazes questionavam-se de onde teriam conhecido as lendas uns dos outros.
Não seria ali que descobririam. Com Hyouma e Juuzo controlados, a ruiva suprimiu a sua deidade de volta para seu interior — Izanami era demasiado temperamental para ficar exposta, ainda mais quando as emoções da Mãe da Morte influenciavam as suas próprias. Seus aliados entenderam como um sinal para seguirem, por misericórdia, o gesto de paz e a imitaram. A calmaria voltou a reinar no salão principal.
— Têm sorte da ausência do chefe e deles. — Um arrepio subiu a espinha de ambos, locutora e ouvintes. — O tempo na câmara solitária seria um passeio no parque perto do que aquelas aberrações fariam com vocês.
— Qual é, uns bichos gigantes de pele cinza te dão tanto medo assim? — provocou Hyouma. A voz trêmula não a enganava. — Eles nem sabem falar, não tem porque termos medo.
— Quem dera eu tivesse sua ingenuidade. A idade é mesmo apenas um número…
— Ei, pegou pesado pra porra nessa aí!
— Uh, claro. Liberar. — A voz da mais velha libertou-os do comando anterior. — Como estão livres por algum tempo, sintam-se à vontade para fazerem o que quiserem. Eu vou deitar, boa noite.
— Boa noite, senhorita Mitsuko.
— É, boa noite!
Eventualmente, os sons da conversa (ou, talvez, nova discussão) entre os jovens deixou de atingi-la. O tamanho daquela fortaleza era surpreendente, quando levado em conta ter sido construída em um local tão isolado. “Está ficando apertando com o tanto de novos membros…”, bufou Mitsuko, enfim diante da porta de seu quarto. Girou a maçaneta para entrar sem demora.
Ao contrário do ar mórbido e pesado da estrutura, o cômodo da Mensageira era pintado em tons pastéis bem aconchegantes: o amarelo suave das paredes era intercalado por uma ou outra faixa rosada, e os móveis eram todos em uma cor creme perfeita aos olhos da garota. No centro dele, a cama, bem arrumada e repleta de pelúcias dos mais variados animais, convidava-a de maneira tentadora a se deitar em suas vestes atuais.
Conseguiu combater muito bem sua preguiça com um bom banho no chuveiro da suíte. A sonolência tornou a busca pelo seu adorado pijama roxo de cetim em seu guarda roupa uma tarefa morosa — o péssimo costume de deixar as coisas jogadas dentro dele nunca a ajudava quando tinha pressa. Nunca foi tão feliz em sentir o tecido macio em suas mãos como naquele instante.
Durante o curto tempo se vestindo, as íris esmeraldinas vagaram por curiosidade na direção do espelho. Não havia abotoado a parte superior ainda, então deslizou a camisola pelo ombro para revelar a tatuagem espiral em seu braço. Uma sensação nauseante revirou seu estômago sem aviso prévio.
O símbolo dos Arautos. A marca de que, não importassem suas intenções, trabalhava para aquele cujo único desejo era o puro caos, mágico e social. Um lembrete de todas as ações que um dia tomou em prol dos objetivos de seu mestre, mentor e cuidador; atos dos quais teve participação direta e indireta. Cada um de seus colegas tatuou a conexão com a organização em um lugar diferente, mas apenas ela o fez no ombro, onde sempre veria com facilidade.
As emoções dentro de si eram conflitantes. Era a coisa certa a se fazer? Todos os crimes, todas as violações humanas e éticas das quais estava ciente, tudo isso era mesmo por um mundo melhor? Ela tentava convencer a si de que sim, suas ações tinham um propósito muito mais profundo do que ela gostaria.
Ao mesmo tempo, tinha a forte impressão de estar cometendo um erro. Izanami vivia repetindo a ela que não, mas não confiava tanto assim na deidade milenar como bússola moral. Mesmo que um dia se arrependesse do que fez, não havia como se desvencilhar daquela maldita tatuagem.
Ele sabia de tudo. Saberia que teve aqueles pensamentos e que cogitou a traição mais uma vez. No fim das contas, daria mais uma missão importante nas mãos de Mitsuko, como se de nada suspeitasse, para que fosse cumprida com maestria pela garota de cabelos carmesim.
Afinal, só existiu um ser no mundo capaz de desafiar o Homem das Sombras Vivas. E, para a infelicidade da Mensageira, não havia nem mesmo como clamar seu nome em busca de ajuda.
— O que eu faço, vó?

19 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Setor Norte da Academia de Palas
A chave amarela de Keiko destrancou a porta principal do conjunto 522 com um clique claro. Fosse por falta de costume ou comodismo, não lembrava onde diabos havia guardado o objeto antes — Haruhi e Kyorai sempre estavam presentes no apartamento quando chegava, logo nunca precisou se importar com algo tão trivial. Depois de passar quase quinze minutos em frente ao conjunto, a vergonha a lembraria sempre dali para frente de mantê-la em algum lugar fácil.
Como de praxe às quatro residentes, largou a mochila e os sapatos nos móveis do hall privativo para organizar mais tarde — costume da Guardiã da Medusa, a mais chata com manter as coisas no lugar — e partiu direto na direção dos quartos. Aquele dia foi tão exaustivo que considerou apenas soltar o cabelo e apagar na cama.
Quer dizer, era seu plano, se o cheiro claro de tinta fresca não tivesse acionado sua curiosidade. Nenhum dos espaços comuns havia sido pintado nos últimos dias, então de onde vinha aquele aroma? Seu nariz aguçado guiou-a até a frente da porta branca da suíte do lado oposto à sua. Aquele era o quarto de Akane.
Reconsiderou a ideia de meter o nariz onde não era chamada. Apesar da melhora exponencial na relação entre ela e sua compatriota, se considerarem “amigas” era um exagero. Fora dos holofotes, a pequena ruiva continuava com o incômodo e preocupante hábito de chamá-la pelo título do qual tentava se desvencilhar. Ao menos, não o fazia em público, o que dava um respiro para Shikiba.
Não que desgostasse por completo da garota. Akane era uma ótima amiga — desastrada, desesperada e um tanto impulsiva, claro, mas com inigualável gentileza em sua alma. “Até entendo o porquê dela ser um Arcanjo…”, era o que passava por sua mente quando observava a baixinha se deslocar apressadamente de um lado a outro para ajudar um colega necessitado.
Com a distância de Akashi desde o incidente em seu encontro, a presença da ruiva era muito bem-vinda, ainda que não fosse admitir isso. As noites melancólicas, degustando do chá oriundo de sua terra natal enquanto o sono não vinha tomar seu corpo, eram menos solitárias com ela.
Talvez, apenas talvez, fossem sim amigas. Foi por isso que empurrou a porta, após duas batidas sem resposta.
— Yamazaki? Você que tá com tin…
— S-S-Sacerdotisa! Não olhe!
Tal qual um criminoso pego no flagra, a garota tinha os braços erguidos e usava o corpo como cortina para ocultar algo entre elas. Ao seus pés, latas de tinta nas cores branco, amarelo e vermelho confirmaram sua hipótese inicial, Akane era mesmo a responsável pelo cheiro. Um quarto pote, este de material desconhecido para a loira, foi aquele que mais a intrigou.
Como sempre, a plebeia estava a um passo de desmaiar, tamanha a vergonha para si. Keiko aproximou-se dela para averiguar melhor o que estava fazendo, o que só piorou o seu estado de espírito.
— O que tá fazendo? E o que é isso aqui? — Pegou a ferramenta similar a uma espátula em mãos para analisar. O líquido viscoso escorria pela sua ponta. — Nunca vi…
— A-Argamassa…
— Quê?
— E-Eufizumburaconaparedep-porquemedesconcentreieentãoeu compreitudoetôtentandoresolver… ah, sozinha!
— Calma, fala devagar! Não entendi nada além do “sozinha”!
O pedido de Shikiba teve outra resposta, muito mais visual. A ruiva deu um passo para o lado para revelar o motivo de seu desespero anterior.
Um buraco. Quer dizer, um baita buraco na parede do dormitório, logo abaixo da janela, que deveria ter uns vinte centímetros de diâmetro. Pelo formato circular impecável, era claro ter sido obra de magia, com a culpada logo atrás de si, em posição de cócoras e mãos à nuca. Agora, podia compreender um pouco dos motivos para tanta pressa.
— Eu quis resolver porque é mais barato e menos estressante do que falar com o professor e descontarem do meu salário…
— Olhando pra você, não parece menos estressante.
— Qualquer coisa é menos estressante do que admitir publicamente minha incompetência em controlar mana. Impossível, prefiro a morte — cravou, com assustadora seriedade. — Ai, que dor de estômago…
— Tá, isso aqui… argamassa, né? — Akane meneou em concordância. — Isso eu entendo, deve ser pra tampar o buraco. Mas por que tintas de várias cores?
A vermelhidão de Yamazaki se intensificou, algo que Keiko duvidava ser possível. Parecia ponderar mais uma vez entre ocultar ou confessar a ideia em sua mente — quanto mais ia de uma ponta a outra do seu raciocínio, maior a ansiedade em seu corpo, que acabava por desestabilizar sua mana. Mais alguns segundos e certamente o buraco inicial seria o menor dos problemas.
O “golpe” carinhoso no topo da cabeça vermelha tirou-a do fluxo repetitivo e sem solução, e o sorriso acolhedor da loira foi suficiente para ter confiança. “Pode confiar em mim”, era o que ele dizia, tinha certeza de que esta era a mensagem. Por isso, Akane encheu o peito e tentou erguer a cabeça.
— É que… eu sinto falta de casa, sabe? — admitiu ela. Seus olhos castanho-escuros refletiam a nostalgia de seu ser. — Meu quarto… não, a fazenda inteira dos meus pais é cheia de cor. Principalmente vermelho e amarelo.
“Podiam ser os cercados, as paredes, os móveis… tudo lá sempre foi super colorido! Minha vó que pintou tudo quando eu nasci, e minha mãe brigou com ela porque sentia que isso era ela me mimando demais. Acho que, hoje em dia, ela tem isso como uma lembrança dela, mesmo que nunca fale muito sobre isso.
“E meu pai… a gente brigava. Às vezes. Quase todo dia. Foi só eu falar de sair de casa que tudo isso parou e ele começou a falar de como a casa ia ficar cinza sem o ‘céu’ dele pra colorir tudo. No dia que saí com a minha mochila pra pegar um barco, cruzar o mar, andar mais uns 3 reinos e fazer o exame, ele não sabia nem o que dizer pra mim. Só foi falar comigo de novo quando mandei uma carta dizendo que passei, e foi pra agradecer o dinheiro que tava com a carta!
“Então, quando eu olho pra esse quarto branco, sem nenhuma cor em canto nenhum, eu fico triste porque lembro que não posso voltar pra casa. Eu sei que é idiota e infantil, até porque eu que escolhi vir. Aí eu pensei ‘e se eu pintar o quarto pra mim?’ e pareceu uma ótima ideia!”
— Não somos tão diferentes.
— M-Mas a senhorita é muito mais corajosa, sacerdotisa! — Akane não conseguia conter sua empolgação. — Pra sair da segurança do Recanto do Leão e vir direto pra onde o Lobo possui alia…
— Yamazaki.
— Perdã…
— Não, não tava te reprimindo! — rebateu Keiko. A outra levantou uma sobrancelha de dúvida. — É sério.
— Certo, o que seria então?
A Guardiã da deidade leonina inspirou fundo. Tinha de usar as palavras certas, se quisessem refletir a mensagem em seu interior.
— Como… eh, você acredita na profecia? Aquela profecia, que o Leão vai retomar o trono e tudo mais?
— Claro! — respondeu, sem hesitar, a baixinha. — Eu sempre acreditei porque meu pai vivia contando histórias que já tinha visto o Leão quando era mais novo… Aí, quando eu te vi, eu tenho certeza! O Leão existe mesmo!
— E como você tem certeza de que sou eu? Quer dizer, como você tem certeza de que eu quem vou concluir a profecia?
Pelo visto, sua questão não era tão fácil assim de interpretar, quiçá responder com propriedade. Se nem o oráculo particular do Recanto do Leão era capaz de afastar os medos do coração da jovem, não seria uma camponesa guiada pela crença cega que o faria. Ao menos, era isso que acreditava.
Akane sorriu para ela. Um sorriso amplo, ainda que sem graça, antes de deixar sua boca transparecer seus pensamentos.
— Ora, porque você está na minha frente! Não consigo duvidar que você veio botar a mão na massa!
— E-Então você acredita… apenas por eu estar aqui? — repetiu a garota, seus olhos prateados bem abertos pela afirmação. — Só isso foi suficiente? Eu estar aqui?
— Sim, ué. É isso que todos os cultos do Leão sempre pregaram. “O Leão irá surgir quando for a hora da libertação”. Você surgiu, então a profecia vai se cumprir!
Era ingenuidade — ou fé, chamasse como quiser — demais para o cérebro de Keiko processar em tão pouco tempo. Embora fosse ciente do quanto era ignorante ao mundo real e seus perigos, o otimismo quase utópico de sua colega de quarto era de outro nível. “Ela consegue falar tudo isso sem hesitar”, refletiu, descrente, “Queria eu ser assim”.
— Outra coisa que sei é que não podemos fazer isso sozinhas! Faz umas semanas que a senhorita está muito, muito para baixo! — As palavras de Akane fizeram seu coração saltar uma batida. Pensou nele. — Não posso aceitar! Conte para mim os seus segredos, mestra!
— Que conversa estranha de vocês.
Uma terceira voz fez a mais baixa da dupla quase infartar ali mesmo. O cabelo branco de Kyorai, um pouco mais longo do que quando passaram a morar juntas, estava reluzente sob a claridade da lâmpada da sala. Keiko perguntava-se quando ela chegou e até que ponto do diálogo esteve presente — independente disto, deveria seguir com cautela.
Recuperando a postura usual, repetiu meticulosamente o roteiro de suas palavras para driblar aquela situação da melhor maneira possível. Calou Akane com os olhos, apenas por garantia.
— Estava ajudando ela a pintar. A piada de “mestra” é por eu ser ótima pintando.
— Oh, mesmo? — Não foi suficiente, óbvio, para desmascarar as suspeitas de Kyorai. — Ela parecia estar falando tão sério…
— Claro, isso é um trabalho sério. Agora, Yamazaki, fala pra mim uma coisa — disse Keiko, virando então para a ruiva. — Como diabos você pintou o teto?
— Asas de anjo! — O par angelical feito de mana surgiu em suas costas. — Tô aprendendo ainda a me manter no ar, por isso tá meio torto.
— Já sabemos o que treinar então. Kyo.
— O que eu tenho a ver com isso?
— Pega a escada pra mim, por favor? Só por… precaução.
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