Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 2

Capítulo 52: Querida irmãzinha

10 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Yggdrasil, Arredores de Hiekaja

 

Há cinco meses, a residência dos Shinwa adormecia no mais absoluto silêncio. Sem o irmão mais velho, a única coisa que consolava Yona Shinwa durante as noites era Juju, a gata de pelúcia que Togami comprou de presente anos atrás — as marcas de lágrimas no tecido cinza seriam um baita incômodo à garota, se não estivesse concentrada em contê-las.

Desde a saída do garoto de Hiekaja, teve notícias dele apenas uma vez, em fevereiro: pelas palavras de sua mãe, o garoto teve êxito em sua jornada até Palas, de onde escrevera a carta recebida pelos demais membros da família. A alegria infantil da pequena não foi suficiente para tirar de seus pais aquele olhar de revolta, forçando-a implicitamente a guardar para si aqueles sentimentos “impróprios”.

Por que era errado estar feliz que seu irmão deu mais um passo na direção desejada? A concepção de amor, para Yona, era essa. Comemorar quando o outro comemorasse, chorar quando o outro chorasse. Qualquer outra forma de enxergar o laço de afeto entre eles não faria sentido algum depois de ser criada desde a primeira infância nesta ideia.

Sua mãe havia deixado o quarto há pouco. Sozinha sob a luz do luar, era o único momento no dia em que estava livre para expressar toda a sua saudade. Cada soluço era seguido de uma intensa súplica por uma resposta, apenas uma, do porquê não podiam ir atrás de Togami. Yona abandonaria seus amigos da escola, seu quarto rosa e todos os seus amados bichinhos de pelúcia se isso significasse estar junto dele mais uma vez.

Mais do que ninguém, sabia o quanto Togami sentia-se sozinho. Ela era a única que entendia a triste solidão daquele garoto tão ferido e tão arisco, cuja personalidade atrapalhada ocultava a enorme dor em seu peito. Muitas vezes o viu chorando, escondido entre os campos de milho, apenas para fingir um sorriso a ela logo em sequência e seguirem com a brincadeira que estivessem fazendo.

Em menor grau, compreendia — ou, ao menos, tentava compreender — o tratamento do pai ao seu irmão. O homem mais amoroso do planeta tornava-se, com o mais velho, o pesadelo da casa. O olhar na noite que Togami deixou-os para trás… ela não conseguia esquecer.

Tudo aquilo lhe fazia mal. Nos dias em que a mente lhe pregava peças e não tinha como fugir das lembranças, deixava que o choro limpasse, temporariamente, a sua alma e drenasse cada gota de sentimento ruim em seu coração, até que o abraço de seu irmão querido estivesse ao alcance de suas mãos diminutas. Juju sempre lhe acompanhava, seu ponto de apoio quanto tudo parecia solitário demais.

Sem forças após minutos de lamentação, seus olhos azuis ergueram-se para os milhares de astros espalhados pelo céu noturno, como se procurassem alguma das estrelas em específico. Sua mãe costumava dizer que os mortos tornavam-se os pontos brilhantes, e que estariam sempre ali para ouvir e atender os desejos da loira. 

— Vô, vó. Nunca vi vocês na vida, mas queria uma coisa — chamou a voz fina e vacilante da criança.  — O meu irmãozão tá em algum lugar, sozinho… Eu não gosto que ele tá sozinho! Ele sempre chora quando é assim!

— Yona… 

A menina assustou-se em ter sido respondida por um timbre masculino, vindo da janela do quarto. Apesar de sua crença fervorosa, jamais acreditou que algo assim aconteceria com ela — uma euforia misturada ao medo preencheu seu ser e suas íris azuis. 

— Vô? Você é o vovô?

— Não, pequena. Você pode não se lembrar de mim… — As sombras ganharam vida, materializando-se na forma de uma silhueta alta num dos cantos do quarto. — mas eu lembro de te segurar nos braços como se tivesse sido ontem.

Aos poucos, a mana negra dissipou-se em partículas para revelar a aparência de seu novo visitante. Sua pele era fantasmagórica, de uma maneira quase angelical — era como se o brilho dela, contrastante às vestes negras do rapaz, o transformasse em uma aparição divina. Contudo, o que mais chamava atenção era a cor das orbes gentis a encarando.

Duas lindas pérolas rosa-violeta, sua cor favorita, reluziam na escuridão, iluminando tanto o cômodo como o peito de Yona. Mesmo com motivos para tal, não se sentia minimamente ameaçada pelo desconhecido diante dela e sua furtividade impressionante, capaz até de driblar a detecção mágica de seus pais. Empolgada, saltou das cobertas em sua direção para vê-lo mais de perto.

— E quem é você? — A curiosidade ingênua dela era adorável. — Se não é o vô ou a vó, é o…

— Sim, querida. É o seu “manozão” — riu o recém-chegado. — Você era tão pequena, e olha agora! Está uma verdadeira princesinha.

— Yoshi! 

Não havia cenário racional para Tsuyoshi Shinwa, o primogênito de Raku e Yoime, estar ali, vivo, ao alcance das mãos dela. Suas mais antigas lembranças não a enganavam. “Yoshi” estava morto e fora enterrado num caixão ébano no cemitério de Hiekaja, há poucos quilômetros dali, para sempre ser visto e honrado por aqueles ao seu redor.

Yona sabia de tudo isso, e ainda assim optava por ignorar os fatos para se agarrar àquele corpo que a abraçava e balançava de um lado a outro num abraço repleto de amor dolorido. As mãos dele levantaram a menina à altura de seu peito, aninhando-a em seus braços antes de alçar voo pela noite estrelada. Pelo menos, naquele instante, Tsuyoshi era real para ela, para seu coração necessitado.

Foi por acreditar ser real, ao mesmo tempo que estava ciente de que todas as respostas e sensações nada significariam ao fim daquele sonho, que deixou as lágrimas molharem seu rosto já inchado de tanto chorar mais cedo. O homem limpou cada uma delas, até que a dor cessasse.

Não demorou muito até realizarem um pouso suave numa clareira próxima, com um lago ao centro e dezenas de árvores altas criando sombras em todas as laterais dela. O delicioso contato da sola descalça com a relva primaveril trouxe um enorme e genuíno sorriso à face chorosa de Yona. Tirando os próprios sapatos, Tsuyoshi acompanhou-a de perto enquanto ela explorou os arredores.

Foi no pequeno amontoado de flores diversas, posicionados à beira do lago, que a loira encontrou seu maior encanto. Quando virou-se para comentar a beleza destas com seu irmão, encontrou a mão pálida dele estendida em sua direção, junto de um sorriso contido.w

— Aceitaria uma dança, princesa Shinwa? — convidou, de maneira brincalhona, Tsuyoshi. — Tome cuidado apenas para pisar no meu pé.

— Claro que aceito!

A diferença de tamanho atrapalhava-os um pouco — não o suficiente, claro, para que não seguissem rindo e conversando, com o garoto dobrado à altura de Yona para que ela pudesse observar bem cada movimento de seus olhos. A luz da lua, refletida no espelho d'água natural, contribuía para a menina sentir-se num verdadeiro filme de fantasia de época, os favoritos de sua mãe.

Entre conversas despretensiosas, rodopios e algumas quedas cômicas por parte da pequena, o tempo passou e passou. As estrelas brilhavam mais forte, os pássaros cantavam mais alto e Yona, enfim, sorria, como há muito não acontecia. Os dentes brancos irradiavam alegria a um mundo que não merecia, depois de tirar dela tudo que mais importava.

A maldade desta realidade desonesta e injusta não era o bastante para aplacar a pureza da Shinwa mais nova. Ela, que não aceitava o triste destino de sua família, contemplava-o de frente com a graciosidade de seu ser, para que nunca pudesse tomar a crueldade como normal.

Contudo, mesmo aquele bastião de bondade tinha sua fraqueza. Quando os primeiros cantos das aves do amanhecer soaram aos seus ouvidos, percebeu que seu belo sonho estava próximo do fim. As mãos pequenas apertaram os dedos do rapaz em busca de um conforto temporário à inevitável despedida. De olhos marejados, encarou-o.

— P-Por que você nunca voltou, Yoshi? — A pergunta permeou o imaginário infantil por anos. Ali, se fez presente para que ele, o espectro de seu passado, pudesse ouvir. — Papai sempre disse que você não voltou pra ver a gente, nenhuma vez! Eu… eu…

— Não chore, pequena. Isto não importa agora.

— Claro que importa! O papai e o mano… eles sempre pensam em você. A mamãe também, mas menos — contou a garota, na esperança de convencê-lo. — Temos que chamar a mamãe! Ela vai ficar tão feliz em te ver!

— Não adianta, Yona. — Sua negativa a fez arregalar os olhos. — Ainda que custe a dizer, tudo isto é um sonho. Você não lembrará de nada muito específico depois de dormir, mas saiba que eu estive aqui para me despedir.

— E-Eu não quero dormir! Eu não quero ficar sem v-você ou o mano Togami, por f-f-favor! Por fa…

Uma onda de cansaço repentino exauriu todas as forças restantes em seu corpo, sem que pudesse sequer completar sua frase. “Eu não sentia nada um minuto atrás….”, foi o último pensamento que cruzou a mente de Yona antes de se render ao sono profundo. Não conhecia o suficiente de magia, mas tinha certeza de que era alguma técnica de indução ao sono.

O corpo dela não fez contato com o chão, pois Tsuoyoshi acolheu-a em seus braços para realizar o caminho oposto: desta vez, em direção ao ponto inicial da singela aventura deles. Ao atravessar a janela do cômodo rosa, Yona estava já roncando para toda a vila ouvir, com zero possibilidade de ser despertada mesmo por uma bomba. “Bom sinal”, deduziu o visitante.

Com todo o cuidado do mundo, colocou seu pequeno tesouro na cama larga demais para ela, em seguida utilizando a coberta bordada para ocultar as provas de sua passagem por aquele local. Os rastros de mana eram apagados rapidamente pelos fluxos de energia escura exalados por suas mãos e pés, e o som de qualquer movimento tornou-se inaudível dentro do campo de ação de sua aura.

Quando estava certo de sua ocultação perfeita, o rapaz flutuou até a janela, pousando em seu parapeito para admirar a menina dormir um pouco mais. Foi sua vez de ser tomado pela emoção silenciosa — o que mais poderia perder se ficasse? Quanto mais teria que sacrificar para manter a paz criada pela sua ausência? Se decidisse se entregar e trabalhar junto da Longinus mais uma vez…

— Shinwa. Não te deixes iludir pelas noções mortais.

— Eu ainda sou humano, Nix — rememorou Tsuyoshi, frustrado. — Ela não merece passar por esse destino. Não de novo.

— E este é o único jeito para que ela tenha um destino. — Fria e absoluta, a voz feminina da Noite Primordial terminou de podar o desejo de seu receptáculo. — Vá. Antes que você seja tentado pela mudança.

Cumprindo as ordens de sua protetora, o homem deixou o quarto rosa na direção da floresta profunda onde sua parceira o esperava. “Espero que Hikari não tenha dormido…”, pensou, preocupado com um dos péssimos costumes da mulher loira em questão. Mesmo após sete anos ao lado dela, ainda sentia que nada havia mudado.

No meio da trajetória, a mente do mais velho dos Shinwa foi inundada por uma dor de cabeça poderosa e repentina. Sabia o que viria a seguir: como esperado, flashes de memórias de momentos que jamais viveu piscaram em seu subconsciente, colocando-o de joelhos pela intensidade. Sua aura desestabilizou e formou um casulo ao seu redor.

Uma cama, um beijo, um choro. Uma espada, um golpe, um grito. Dia e noite, Sol e Lua, trevas e luz, todos em perfeita e singular harmonia. Não existia clareza na clarividência de Nix, cujas visões atormentavam-no desde a infância. A idade lhe trouxe experiência apenas para lidar com elas, nunca para compreendê-las em sua essência. A julgar pela sua relação com a deidade, não via um horizonte próximo para solução.

As paredes que o isolavam do mundo real foram destruídas por um golpe rápido da lança amarela, cujo cabo era adornado por entalhes de trovões e nuvens de tempestades. O puxão realizado pela usuária da arma retirou-o das sombras, sendo esta substituída pelo abraço caloroso de uma jovem bem mais baixa que ele.

— Tava preocupada contigo, Yoshi. Que bom que vim te buscar! — Os olhos castanhos dela buscaram os violeta dele, paixão transbordando de ambas as partes. — Nix não vai tirar você de mim, querido.

— Obrigado, Hikari — sussurrou ao retribuir o afeto dela. — Por que será que isto só acontece quando estamos em missão?

— Deve ser algo com o… ele neutralizando os poderes de todos nós. Nunca escutei o Thun quando estou lá também…  — ponderou a loira. — Vai me contar o que viu desta vez, ou é segredo também?

— Sempre tem que ser segredo, cabeçona. 

— Qual é, nem uma palinha? Você vai me matar de curiosidade!

Os soquinhos provocativos de Hikari não seriam suficiente para extrair a verdade dele. Em algum canto de seu ser, Tsuyoshi suplicava que este fosse o caminho correto para proteger aqueles sorrisos para ele tão importantes.

 

 

“Oi, maninha!

Sou eu de novo. Dessa vez, demorei menos, né? Mamãe que vai estar lendo, como sempre, então espero que esteja se comportando enquanto ela faz isso.

Tenho muito pra falar dessa cidade enorme que tô morando agora. É até estranho dizer isso, mas tem tanta coisa legal no meio dessa selva de pedra… Parece que a cidade nunca dorme! No comecinho da manhã ou no fim da noite, sempre tem alguém andando por aí. Sei porque já fugi do quarto algumas vezes pra acompanhar a Rei nas peripécias dela.

Falando nela, esses dias ficou curiosa com você, mas não quis falar muito com ela. Ela tava toda ‘ai, porque o aniversário do Kai’ e todo esse bla-bla-bla de idiota apaixonada, não sei o que ela vê nesse cara! Eu até fui na festa porque ela me arrastou, e ver aquele sorriso falso já me irritou e fui embora! Claro, roubei um pedaço de bolo antes disso (risos).

A Academia é enorme. Tipo, muito grande mesmo! A nossa escola parece uma casa de bonecas perto do tamanho dos prédios. Até agora tô perdido com alguns lugares, mas acho que vou me acostumar. Também provei um monte de coisa diferente nas cantinas que tem por aqui, vou deixar algumas fotos que tirei (dos doces) pra vocês verem aí. Quando der, quero te trazer em todos esses restaurantes e pagar com meu dinheiro.

Meus professores são bem malas, a dona Arakawa não é nada perto deles! Eu estudo o dia inteiro e quase reprovei em algumas matérias, então é bom você começar a estudar se quiser vir pra cá um dia. E não, mãe, dessa vez eu não colei, nem tem como! A professora Youju é boa demais em sentir mentira, não posso negar que tentei. Se até a Haru sofreu na prova dela, acho que tirar um 6 tá bom.

Na carta que você me mandou, você perguntou da Hana e da Rei e pediu uma foto delas. Como seu irmãozão aqui é um baita fotógrafo, consegui fazer essa foto em grupo não só com elas, mas com todos os meus amigos que já fiz aqui. O Kai (é o com pose de insuportável, dá pra sentir quem é) tava na ponta, então corta o ladinho da foto pra não ficar feia. No verso dela, deve ter (se eu não dormir enquanto faço) um papelzinho dizendo quem é quem. Somos todos lindos, né? De qualquer forma, você ainda é mais. 

O papel tá acabando e esqueci de comprar mais, então vou me despedir por aqui. Amo vocês duas, mãe, Yona. Vejo vocês um dia desses.

- Togami Shinwa

 

— Mãe, não é legal! Olha todas essas comidas, parece tudo tão gostoso!

— Eu sei, filha, seu irmão deve ter feito de propósito… — Yoime acariciou o topo da cabeça de sua caçula. — Aqui, toma. É a que ele está com os amigos.

— Deixa eu ver… — Os olhos, azuis como os da mãe, esbugalharam segundos após ter o retrato em mãos. — Mãe, olha que garotas bonitas! Mas parece que a Rei não sabe pentear o cabelo…

— Nem você, mocinha. O sujo falando do mal-lavado — riu a mulher. O beicinho de sua filha só serviu para fazê-la gargalhar ainda mais.

— M-Meu cabelo tá lindo! Eu só não sei arrumar igual… o mano fazia.

“Oh, não.”

Por acidente, Yoime empurrara a filha para o tópico proibido. Sua boca abriu e fechou algumas vezes em busca de uma saída para desviar a conversa de volta a um rumo agradável — diante da opacidade nas safiras anteriormente preenchidas de encanto, a matriarca dos Shinwa sentiu não ter o direito de pronunciar qualquer palavra.

Restava-lhe aguardar, com o peito corroído pela culpa e saudade, sua amada filha sucumbir às lágrimas e derramá-las, até que nada mais tivesse para chorar. O aperto firme dos dedos infantis na coberta trouxe a ela uma memória distante, há muito enterrada nas profundezas de sua mente. A imagem visualizada pelas suas orbes naquele instante mesclou-se com aquela dentro de si.

Os cabelos em degradê de seu filho do meio ocultavam seu rosto. Mais cedo, o garoto havia desaparecido, e nenhum dos moradores do vilarejo de Hiekaja sabia onde ele poderia ter ido — liderados pelos pais da criança, a força-tarefa empenhava-se na tarefa de trazer para casa o pequeno Togami. A chuva naquela tarde era pesada, ao ponto das gotas geladas ignorarem as capas de chuva da equipe de buscas.

Após horas de muita procura e ansiedade, um dos vizinhos trouxe o menino sumido à frente da residência dos Shinwa. O desespero de Yoime e Raku não arrancou qualquer informação sobre o que ou onde seu agora mais velho estava: as palavras dele eram ásperas, evasivas, buscando claramente ser liberto daquele interrogatório o mais rápido possível.

A mãe tentou, em vão, conter a ira do patriarca da família pelo desacato. Os gritos ofensivos não melhoraram nada, pois, após Raku Shinwa bater a porta atrás de si, Togami permaneceu ajoelhado sobre o chão de madeira de seu quarto, tal qual a ordem de seu pai. Inerte, tal qual uma marionete aguardando seu mestre retornar para voltar a se mover.

Yoime sentou ao lado dele, na tentativa de diminuir a distância, tanto física quanto emocional, entre eles. 

— Filho… eu e seu pai só queremos entender o que você estava fazendo sozinho por aí — consolou a mulher. — Sei que ele disse algumas coisas feias… mas você vai continuar sendo nosso amor! Nunca esqueça disso, ok?

— Yoshi dizia a mesma coisa. A mesma coisa, mãe!

Choro surgiu nos cantos de olho do mais novo. Embora tentasse com fervor, não conseguiu conter toda a sua mana dentro de si — as mechas de seu cabelo oscilavam entre o branco e o preto, e seu olho esquerdo perdera por completo o azul característico da família de sua mãe. O agonizar indiscreto de sua prole era dolorido demais de assistir.

O enterro de Tsuyoshi e Hikari não foi o fim do pesadelo da família; no mesmo dia em que juraram à nova Líder Suprema da Longinus que nunca mais iriam se envolver com suas atividades, um raio jogou uma maldição sobre Togami. Os fios de cabelo negros perderam a cor e o olho direito transformou-se em prata, mas estas eram apenas as mudanças visíveis. 

Junto de tudo isto, a aura do garoto de onze anos passou por um crescimento exponencial, muito além do esperado para a transição da idade. O receio não se limitou ao círculo familiar — em poucos dias, todos os moradores sabiam da condição anormal de Togami, e os rumores sobre a família começaram.

A linhagem de Raku. A “união errônea” de um harenariano com uma draconiana, amaldiçoada por Osíris e Nidhogg por renegarem suas culturas. Nem Yona, uma criança à época, escapou das acusações da multidão sem rosto, que proferia palavras pelas costas dos quatro Shinwa. Os pais de Hikari foram vítimas colaterais das profanidades e sucumbiram à pressão, rapidamente deixando Hiekaja para viverem longe de tudo aquilo.

Ao passo que Yoime e Raku não precisavam se expor à vida rotineira fora de suas funções, o mesmo não podia ser dito de Togami. Na escola ou nos campos, o medo transmutou a opinião pública sobre ele em um amálgama de mentiras desconexas umas das outras, com o único objetivo de afastá-lo de outros de sua idade. Pouco a pouco, o sorriso gentil dele morreu para dar lugar à apatia diante de si.

— Yoshi não pode voltar, filho. Você sabe disso.

— Mas o papai pode! Mesmo assim, ele não volta! Ele prefere ficar e não olhar pra mim ou pra Yona!

— Eu odeio isso! — A voz do passado ecoou a de sua filha no presente. — Eu queria o mano! Eu queria ele de volta em casa!

“Se contenha, querida. Eu sei que é difícil, mas você precisa”, orientou a voz da ninfa Aqua em sua cabeça. Em momentos como aquele, tinha inveja da liberdade de seus filhos para se expressarem; nada os impedia de serem eles mesmo além de sua própria coragem. “Isso quer dizer que os criei bem”, foi o que concluiu, em reflexão.

Ali, deveria ser forte. Pela sua princesinha.

— Que tal contar do sonho que você teve ontem? Você comentou na hora do café, mas teve que ir pra escola… 

— Tá bom…  Yona enxugou os filetes de lágrimas, tentando se acalmar. — O Yoshi apareceu, mas eu não reconheci ele. 

— O seu irmão? Ele apareceu? — Suas pernas bambearam.

— Sim! Ele me levou pra um lago aqui perto, era tão bonito! Eu disse que ele tinha que voltar pra te visitar e ele disse que não podia. Aí eu senti sono e acordei na cama.

A criança seguiu a narração de seu incrível sonho, o que lhe trouxe de volta um pouco de seu bom humor. Involuntariamente, em certo ponto, a matriarca dos Shinwa deixou de prestar atenção — não havia dito à pequena, mas havia um último trecho antes da finalização da carta de Togami. Um trecho que, assim como Yona, revelava que a morte de Tsuyoshi Shinwa não foi o ponto final à sua história.

“Sabe, mãe, agora eu entendo o Yoshi e a Hikari não terem voltado tanto pra casa. Aqui é onde não tem problema eu ser diferente, todo mundo é! Pela foto, acho que dá pra ver. Será que era assim que ele se sentia, sentado numa cadeira igual essa e pensando nas mesmas coisas que eu?”

 

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