Volume 2
Capítulo 51: Cicatrizes abertas
7 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Plaza Sul
— Prontinho, menina! Ficou um luxo!
— Obrigada, senhora Miyamoto!
Ayame levantou-se num pulo, ainda vestida na capa protetora, e rodopiou em frente ao espelho. Poucas coisas em seu dia a dia eram tão satisfatórias quanto ver seu cabelo azul-gelo brilhar após uma sessão merecida de embelezamento. Estava há tanto tempo se privando disto que as pontas estavam quase alcançando seus calcanhares.
Quando Keishi a avisou que seria temporariamente enviado à base do Esquadrão das Montanhas em Yggdrasil, a Guardiã de Eolo não hesitou em trocar o uniforme por um conjunto de shorts e regata pretos e partir para visitar o salão indicado por Shino, na área sul da cidade. Um dia a menos de treino não a tornaria menos prodigiosa, como bem sabia.
“Tenho que voltar mais vezes e agradecer a Shinonon”, pensou enquanto pagava o serviço no caixa e saía com um aceno à cabeleireira. Não tinha mais planos para o fim da tarde, talvez passear mais um pouco pela região? Keishi não costumava trazer sua filha para aqueles lados, seja lá por qual motivo, então agora aproveitaria a liberdade de ser uma aluna da Academia de Palas para satisfazer sua curiosidade.
Quer dizer, isto que havia arquitetado em sua cabeça até notar uma figura de estatura mediana e chamativos cachos salmão, parada à porta do salão. Os olhos ciano estavam parcialmente cobertos pela sombra de seu cabelo, mas Ayame tinha certeza de que encaravam com receio e hesitação a entrada.
— Ichi! — chamou, colocando a mão sobre seus ombros. O rapaz quase desmaiou ali mesmo. — O que cê tá esperando pra entrar? Vai fechar daqui a pouco!
— É-É um salão feminino!
— E daí? É um ótimo lugar, e seu cabelo vai ficar maravilhoso! — Ela jogou seus fios para trás para posar a ele. — Olha só como ficou! Agora entendo a Shinonon estar sempre bonita.
— E-Ela também te recomendou aqui?
— Sim. Tava mais que certa, viu?
— Ainda assim… acho que vou procurar outro lugar. Não sabia que era só de mulheres.
— E, de novo, qual o problema, Ichi?
Os punhos dele empalideceram com a força que ele apertou sua camiseta vermelha. Não sabia como explicar para alguém que não estava numa situação parecida o que era o sentimento em seu peito — mais do que medo, relutava em adentrar um ambiente daqueles por orgulho.
Ele não era uma mulher. Nunca fora, para início de conversa; não podia se sujeitar a algo assim por vontade própria. De maneira quase caricata, sentia a necessidade de reafirmar ao mundo sua identidade enquanto homem. Se fosse visto ali e os rumores se espalhassem, não haveria como evitar os olhares maldosos e palavras murmuradas nos corredores. Afinal, ele mesmo as teria causado.
“É porque eu sou homem. E eu preciso provar que sou homem, não posso entrar num espaço de mulheres”. Era o que gostaria de confessar, sem rodeios, à garota diante de si, cujos olhos castanhos aguardavam suas palavras. Nenhuma palavra saiu, contudo, e ele apenas quebrou o contato visual quando a pressão se tornou grande demais.
— Acho que consigo imaginar. — Ayame encarou a porta, pensativa. — É um baita motivo besta, viu?
— O quê? — grunhiu o nobre. — O que quer dizer com isso?
— “Olha, eu sou um homem, e cortar o cabelo em salão é coisa de mulher!”, é o que você tá tentando dizer, mesmo que com seus motivos. — A voz da garota imitou a de um certo usuário de magia de gelo. — Mas, de verdade, que argumento merda, parece até o Reiketsu!
— Aya… você alguma vez já teve dúvida de quem você era?
— Não. — Ele abriu a boca para falar, mas uma rajada de vento o calou. — Vou repetir, do que isso importa quando nenhum de nós tem dúvida de quem você é? Você é nosso amigo Ichika, e nada do que os outros otários falarem vai mudar isso.
Era a primeira vez em muito tempo que a palavra “amigo” era usada para definir o nobre solano. Deveria ser óbvia a consideração que seus colegas tinham por ele — até mesmo convidado ao aniversário de Tatsuyu havia sido, por que tinha dúvidas? Mais do que isso, por que ainda desconfiava de pessoas que o acolheram tão bem durante todo aquele tempo?
De repente, sentiu-se envergonhado por ter repetido com eles o que sempre fizeram consigo. “De novo você estragando tudo, Ichika”, julgou-se, abraçando o próprio corpo em autodefesa e prestes a chorar. Ayame, contudo, não estava com paciência para suas lamúrias e logo o arrastou para dentro do salão.
— A-Aya! Eu já di…
— Senhorita Miyamoto, tem um encaixe agora pro fim da tarde? — gritou a menina, antes de dar uma piscadela ao rapaz. — Trouxe um cliente, e o dele é por minha conta!
Seria infantil demais chorar por uma atitude tão pequena. E, naquele momento, Ichika aceitou ser uma criança, pelo menos um pouco.

— Tenham cuidado na volta, queridos!
— Obrigado, senhora Miyamoto!
— Até a próxima! Mês que vem eu volto pra aparar as pontas de novo!
A lua tomou conta do céu por completo durante o longo período até Seiyama se acalmar de sua crise de choro e o corte de seu cabelo em si. A tesoura da mulher, embora precisa, era lenta pela idade de sua usuária, como Ayame lhe avisou de antemão.
— Obrigado mais uma vez, Aya.
— Imagina! É pra mimar meus amigos que o Kei me dá dinheiro — gabou-se a garota, de peito estufado. — Eu já falei que comecei a ganhar dinheiro, mas ele ainda manda mesada!
— Então o Reiketsu é seu amigo? — O olhar confuso fez Ichika rir. — Ouvi da Haru que ouviu dele que você deu alguns lanches quando soube que ele tava sem dinheiro pra trazer um. Muito gentil da sua parte.
— A-Aquele idiota… sim, eu dei lanches porque ele não parou de encher o meu saco até eu dar um pedaço pra ele!
— Então não é mentira.
— Shiu!
— Eu nunca vou entender o porquê existirem humanos tão teimosos com suas próprias emoções.
A aura azul de Ayame contrariava sua expressão irritada de maneira bem cômica. Como Eros bem disse, a Guardiã de Eolo era uma incógnita à análise emocional de Ichika: ao mesmo tempo que sentia desprezo pelo galã de gelo nas palavras dela, suas ações indicavam um mínimo de cordialidade entre eles. “Curioso, bem curioso.”
— Voltando pro que importa, cabelo curto combina contigo bem mais do que o médio! — elogiou ela. — Brilhante assim, então… que fofura!
— Sinto que ela exagerou no spray de brilho. — Com um suspiro, pegou um dos fios para olhar mais de perto. — Espero que o pessoal do dormitório não ache estranho.
— Ué, ser bonito virou crime?
— Pro Akashi, acho que não — brincou Ichika. — Agora, pro Koyo e pro Ryoujin… Tenho minhas dúvidas se eles sabem o que é um xampu. Às vezes, me sinto um pouco deslocado lá dentro.
— Somos bem mais parecidos do que você pensa.
O Guardião de Eros virou-se para ela com surpresa em sua expressão, sem entender o que ela queria dizer. Diferente do usual sorriso radiante, tristeza permeava os canto da face maquiada de Ayame — os olhos castanhos transpareciam a melancolia de dentro de sua alma e a falta de qualquer brilho neles era descomunalmente incômoda.
Mesmo o caminhar da menina havia mudado, tendo assumido um passo lento e irregular. Seja lá o que passou pela mente dela, havia surtido um grave efeito em seu bom humor de antes, ao ponto de Ichika não ter a mínima noção do que sequer dizer a ela. Concordar? Questionar o motivo daquela afirmação? Nenhuma daquelas ideias lhe parecia adequada o suficiente diante do poço de negatividade repentino.
— É verdade que nunca duvidei de quem eu era, mas… — A pausa foi para conter o gosto amargo de atingir sua boca. — eu já quis não ser eu.
“Parando pra pensar, nem eu sei quando foi que eu comecei a me maquiar ou tentar pentear o cabelo. Só sei que, em algum ponto, fugir do meu medo não era mais a resposta. Eu precisava encarar isso de frente, eu gostava de ser bonita! Acho que o Shu teve um dedinho nisso também.”
As bochechas, vermelhas com o rubor suave, carregavam agora um sorriso simples, como quem lembrava de algo há muito enraizado em seu coração. Para um bom entendedor, meia palavra bastava — a leveza com a qual Ayame abordava sua experiência traumática o fazia se sentir horrível por considerar seus problemas “grandes demais”.
— Eu… desculpe, Aya. Não estou em posição nem de reclamar considerando seu caso.
— Ichi, nada disso! Como eu falei, tudo isso faz muito tempo — confortou a garota, as mãos posicionadas atrás de seu corpo. — Eu tive tempo e apoio para me reerguer, tô até de alta! Meu psicólogo me dizia sempre uma coisa.
— O quê?
— “As marcas sempre ficam, mas nós que definimos se serão nossa força ou nossa fraqueza” — citou, como um mantra. — Tenho isso colado na minha cabeceira! Não posso mudar o que passei, mas posso fazer igual ao Kei e impedir que aconteça com os outros, né?
Conhecer a vida particular de uma das mais prodigiosas alunas da Academia de Palas apenas serviu para aumentar a percepção de grandeza de Ichika acerca de sua nova amiga. Para ter tanta força e enfrentar o abismo dentro de si… poderia contar nos dedos quem suportaria algo assim e, no fim, estaria sorrindo daquela maneira.
Como ele, ela não era imune à dor de seus pensamentos e receios. O que separava a filha do General Houseki de si era que, todo dia, ela escolhia e aceitava a dor para torná-la mais forte.
— Falando do presente, te confesso que tá foda viver com essas princesinhas, viu? — Ayame bufou em alto e bom som. — Vidas super perfeitas e aquela ruiva amarga vive com cara de quem chupou um limão azedo. Nunca vou entender.
— Me desculpe, mas você não pode falar mal da princesa do meu reino na minha frente — reprimiu, de brincadeira, o garoto. — Mesmo você sendo tão bonita quanto uma.
— Obrigada. Ser uma diva requer muito de mim! Um dia, o Shuyu ainda vai notar o que tá perdendo!
A mente de Ichika fugiu um pouco da conversa enquanto Tengoku entrava em sua espiral de reclamações sobre como o príncipe de Yggdrasil insistia em desviar de seus avanços ousados ou dos óbvios flertes por ela jogados. Algo que atormentou sua mente desde o fim do exame de admissão, quando viu Yoko sendo carregada por Shou em direção a ala médica.
Havia algo estranho no relacionamento dos herdeiros de Yggdrasil e Helias. Algo muito estranho, e que muito provavelmente não deveria ser do interesse dele por um bem maior. Se sua teoria estivesse correta, uma Ayame triste seria o menor dos problemas para se lidar.
Apesar de entender isto, seu apreço por Yoko e o desejo de ver a amiga feliz eram muito maiores do que seu bom senso. Se envolver e, se fosse possível, oferecer um ponto de apoio à princesa solitária era seu dever. Afinal, não havia ninguém que concordasse com o deus do amor, Eros, mais do que ele — barreira alguma deveria impedir a semente do amor de florescer.
Ainda que isso causasse sofrimento a outros, Ichika permaneceria leal a seus ideais. Até o fim.

8 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Setor Sul da Academia de Palas
Katsuoka não conseguia deixar de notar o quanto sua melhor amiga era incrível. Bonita, muito gentil e amorosa, Shino Einatsu era tudo e mais um pouco que qualquer pessoa poderia pedir de alguém que tivesse desejo de se relacionar, e ele não era diferente. Poderia admirá-la lutar o dia inteiro, se lhe deixassem.
A lâmina da katana passou rente ao seu rosto, não o ferindo por muito pouco. Havia um pequeno detalhe que, por conta de sua paixão incontrolável pela nobre solana, havia sido temporariamente ignorado durante os últimos 30 segundos.
— Katsu, você deveria primeiro terminar a luta com ela antes de ficar encantado pela beleza dela! — Boitatá foi direto ao ponto. — Você vai perder o pescoço assim! Parece até que encontrou a Iara!
— A professora Youju não é comparável à Shinonon.
— Na sua concepção de bobo apaixonado, não mesmo — retrucou a deidade. — Próximo pela esquerda, recomendo abaixar.
As instruções da Chama Protetora nunca eram falhas — Katsuoka esquivou do corte horizontal com um movimento digno de uma flexibilidade reptiliana. Seu desvio perfeito fez a oponente grunhir de raiva para ele, seus lábios rosados formando um biquinho fofo de frustração.
— Katsu, você é muito ensaboado! Que droga de esquiva foi essa?
— Eu deveria te deixar me acertar por qual motivo mesmo?
— Porque eu tô me esforçando e mereço a vitória! Cê tá sempre no mundo da lua!
— E mesmo assim eu sei exatamente do que você gosta e do que te irrita. Ah, e por onde você vai atacar.
Shino arqueou uma sobrancelha como quem dizia “eu duvido!”, sorrindo de volta para ele antes de voltar ao ataque furioso. A cada erro da jovem, o Guardião de Boitatá nomeava uma das coisas favoritas da Einatsu: gatos, caipirinha, caramelo, as aulas de Professora de História Política e Legislação… poderia continuar isso por muito mais tempo do que sua parceira tinha de paciência.
— E, pra acabarmos, o infeliz do Fuyusen — praguejou, ao mesmo tempo que preparava um disparo de seu arco.
A arma foi destruída pelo corte veloz da Terceira Cadeira, nitidamente incomodada com o que havia sido dito. Algo nos olhos azuis, tão belos e tão radiantes, não estava de acordo com sua afirmação ácida acerca do colega de classe deles, ausente naquele dia por conta de um compromisso dos Vigias da Sabedoria. Podia sentir a encarada perfurante de Shino atravessar seu corpo.
— Tá, me rendo. Ponto pra você.
— O Kou não é uma pessoa ruim, Katsu! — declarou a jovem, desfazendo sua katana em partículas rosadas. — Você que tem picuinha com ele desde o primeiro ano!
— Nem deixar você ir no show do Aster ele deixou!
— Porque eu que provoquei!
— Nossa, ele tem um ego tão frágil assim?
— Vai se f…
Um golpe certeiro na cabeça de cada um dos colegas os fez se calarem na hora. Pela aproximação sorrateira, só uma pessoa ali era capaz de ter feito isso — aceitaram em silêncio a punição, cientes de que contestar seria pior. A experiência trazia mesmo a sabedoria.
Encarando-os, Dai manteve a postura firme e ereta de um mestre rigoroso. Quando teve a certeza de que seus alunos ouviriam suas palavras com atenção, deixou-se suspirar antes de dizê-las.
— Não sei o motivo de estarem brigando — confessou o professor — mas peço que deixem para resolverem fora da minha aula. De preferência, em particular, para não afetar suas reputações.
— Sim, professor — responderam em uníssono.
— Muito bem. Não relaxem, ou os novatos vão alcançá-los antes que percebam. — Ambos notaram uma luz incomum nos olhos grafite dele. — Em especial, a princesa de Alfheim.
— Achou sua segunda favorita, professor? — provocou Shino. — Ou melhor, sua nova favorita, já que o Taniko não tem aparecido…
— Não tenho favoritos, senhorita Einatsu. Apenas gosto de ver a evolução daqueles dedicados à causa. — A garota revirou os olhos, o que tirou uma risada de Katsuoka. — Agora, de volta ao treino, andem!
— Claro, claro, professor…
Shino levou uma cotovelada de aviso de seu colega, iniciando uma nova discussão entre eles enquanto se afastavam do docente. “É nítido como ela fica bem mais solta perto do Morimoto… Que relação esquisita”, divagou o homem, despretensiosamente. Tantas vezes, ao longo do último ano, havia visto a pobre donzela chorar em seus treinos adicionais, sempre com o mesmo motivo: o namoro (se é que podia chamar assim) com Koushi Fuyusen, o Primeira Cadeira.
Contudo, o contato direto com o plebeu de Helias e atual mais poderoso aluno de Palas o deixava conflituoso quanto ao que sentir. Nenhuma das ações do rapaz na presença do professor refletia as palavra de Shino, muito menos o desgosto de Katsuoka acerca de sua personalidade. Era como se as atitudes de namorado, colega e aluno fossem pertencentes a três pessoas separadas, cada qual com suas qualidades e defeitos bem claros.
Não caberia a ele julgar, claro. Isto era um assunto pertinente somente àqueles nele envolvidos — sua função como professor era se intrometer caso a situação escalasse para algo fora do padrão adolescente com o qual estava acostumado. Logo, Dai ignorou o jovem casal e voltou a anotar seus pensamentos sobre cada um dos presentes em sua aula.
O tique-taque de seu relógio de pulso guiou o ritmo de seu lápis, rápido e resoluto. Poucos eram tão apaixonados pela educação quanto a Chama Implacável, cujo histórico de relatórios de alto nível foi de grande ajuda para poupar outros professores desse mesmo esforço. De canto de olho, notou uma figura sem uniforme se aproximar rapidamente, puxando seu foco para ela.
A mulher em vestes pouco elegantes, ainda ofegante, saudou-o ao se curvar.
— M-Major Onishi! Sua presença é solicitada na Sala do Trono de Olympia!
— Mestra Haruki está mesmo com tempo de sobra… — bufou. Com duas palmas, atraiu a atenção de seus discentes. — Turma, aula encerrada. Não percam o foco em seu treinamento pessoal, dispensados!

— Nunca me acostumo com os elevadores mágicos… — A reclamação de Dai poderia ser ouvida por qualquer um no andar. — Alguém pra me receber? Entrar sem bater aqui é pecado!
“Faz mais de um ano que não pisamos aqui”, comentou a voz de Siegfried, enquanto seu receptáculo caminhava pelo corredor largo na direção da sala do trono. De fato, muito tempo havia se passado desde a última convocação do major aos aposentos da Líder Suprema: desde aquele incidente e a renúncia de Dai ao seu cargo anterior, só frequentou os andares mais baixos da grande torre.
Diante da grande entrada ao principal cômodo do piso, sentiu seus membros deixarem de obedecê-lo. Embora sua mão estivesse posicionada sobre a maçaneta prateada, não encontrava forças para empurrar a porta de madeira e adentrar aquele local específico, repleto de más e boas memórias. “Seria tão mais fácil se aquela mensageira tivesse subido comigo… maldito sistema de verificação de mana”, praguejou.
Ninguém se manifestou quanto ao seu pedido para entrar, e não deveria deixar uma anfitriã tão majestosa esperando. Inspirou fundo para, com tudo que tinha dentro de si, quebrar o silêncio absoluto no ponto mais alto de Palas com seus passos pesados. A porta escancarou-se com um clique; pelo visto, não estava trancada.
A sala, porém, não estava vazia. Seu sangue gelou ao notar, sentado no caminho entre a entrada e o trono, uma figura perturbadora.
Grande e parruda, seu tamanho estava longe de ser o mais assustador do que Dai percebeu em poucos segundos. Sua aura era tão densa que sufocava o docente sem nem estar direcionada a ele, como se preenchesse cada canto da sala com sua presença esmagadora. Os longos cabelos brancos — ou seriam pelos? — apenas davam uma mera noção de sua silhueta animalesca. Mesmo de costas, Dai sentia-se profundamente ameaçado por aquele ser desconhecido.
Com o máximo de cautela, fez surgir em suas mãos a espada do Caçador de Dragões, com a qual posicionou-se para matar aquela fera. Apenas de ver o tamanho de suas patas, tinha receio de que um único golpe talvez não fosse suficiente para derrubá-la. A fina camada de mana envolveu o fio da lâmina com um fulgor cinza-claro.
Onde estaria Taeka? Teria a mais forte Guardiã sucumbido a um ataque sorrateiro, bem no coração da capital da Longinus? A possibilidade pesava nos braços do homem, não poderia fracassar. Não quando tudo dependia dele mais uma vez.
— Poxa, Dai, nem parece que te passei a cadeira de professor uma década atrás! — Uma voz grossa, vinda da criatura, se pronunciou. — Agora, baixa isso aí. A coisa vai ficar feia se eu tiver que me defender.
O susto de Onishi dispersou sua mana pelo ambiente, o que fez o desconhecido rir ainda mais. Num movimento lento e imponente, a fera ergueu-se para, enfim, revelar sua face ao Guardião de Siegfried, cujos um metro e oitenta e quatro não se comparavam ao tamanho dele. Não havia como não reconhecer aqueles olhos azuis intensos ou a boca com duas grandes presas escapando de sua mandíbula inferior, só não esperava ver o dono de ambas naquele momento.
O rosto de Dai brilhou ao encará-lo.
— Mestre Nokogiri? — chamou, hesitante. O homem acenou com a cabeça. — Quase morri do coração, como está diferente! Não te vejo desde o velório…
— Pra um bom entendedor, pequeno gafanhoto, meia palavra basta — ironizou, seu sorriso pontiagudo bem exposto. — Não tenho tempo para cuidar desse pelo, nem quem cuide dele por mim. Não é como se tivesse motivo pra isso também.
— Depois de tantos anos com a antiga mestra, preencher a falta dela não deve ser fácil.
— Cinco anos não é suficiente nem para que eu esqueça do toque dela, garoto.
Nokogiri, que mais parecia a mistura perfeita entre um humano gigante e um lobo, buscou algo dentro dos muitos bolsos de sua capa branca. Entre grunhidos e murmúrios, demorou algum tempo até encontrar o que procurava: um maço de cigarros e um isqueiro dourado, inscrito com as iniciais “T.N.” em sua lateral.
Fumar em espaços fechados era proibido. Quem, em sã consciência, tentaria impedir um lobisomem de consumir a nicotina por ele desejada? Não seria Dai, um homem sensato, que faria essa loucura. Limitou-se a recusar a oferta de uma tragada e a aguardar a chegada de Taeka à sala.
— Não pediram sua roupa branca de volta?
— Pediram. Eu que não dei — esclareceu o mais velho, com o cigarro entre os dentes. — Não iam fazer nada de bom com isso, só descartar. Não sou nada maneiro sem ela.
— Ora, Toshi, você fica bem com ou sem ela!
O tom bem humorado característico da Líder Suprema da Longinus interrompeu o diálogo entre os dois colegas. Por trás do trono, surgiu um arco pouco iluminado, do qual irrompeu uma figura de cabelos dourados e olheiras aparentes. Dai ajoelhou-se, gesto que não foi repetido pelo seu mestre.
— Só diz isso pra puxar meu saco.
— Já passei dessa fase, pai.
— Koyuki e eu nunca acreditamos nem que você tinha deixado de ser criança, Tae! — Sem cerimônia, afagou o topo da cabeça dela com enorme intimidade. — Espero que Rei esteja cuidando bem de você.
— T-Toshiro! Para de insinuar essas coisas!
— Foi mal, foi mal — disse ele, rindo. — Nosso convidado está meio confuso ainda do porquê foi chamado. Vamos deixar de enrolação.
Taeka acenou com a cabeça antes de conjurar, de seu armazém espiritual, uma prancheta repleta de papéis e fotos, que flutuou na direção do professor. A cada página virada, Dai notava uma infinidade de ângulos de uma mesma construção, similar a uma torre medieval, sem nenhuma pessoa em destaque. Conhecia aquele lugar muito bem, e os relatórios escritos de maneira apressada confirmavam seu entendimento.
Um filete de fumaça escapou da boca da Líder Suprema. Os olhos alaranjados ganharam uma opacidade assustadora, como se ela se tornasse uma marionete de suas próprias palavras — como ambos os presentes bem sabiam, isso significava o “estado de fluxo” da loira, seu mais poderoso momento de análise de informação.
— Shiro nos encaminhou essas fotos que ele mesmo tirou. A Torre dos Mil Lutos não aparenta ter problemas, mas… — Uma segunda prancheta substituiu aquela nas mãos de Dai. “A precisão dela sempre me impressiona” — o que está rolando nesse castelo chamou a atenção dele.
— O que a família Tetsumi tem com isso? Eles sempre foram muito colaborativos em nossas tarefas enquanto Guardiões.
— Vou concordar com o moleque nessa, Tae. Mesmo na minha época, eles nunca deixaram de prestar esclarecimentos.
— O clã Tetsumi pode até não estar envolvido nisso, o que me incomoda é o relato do Shiro. Leiam antes de tirar suas conclusões.
Conforme a orientação, os olhos grafite seguiram as linhas narradas pelo atual General da Brigada das Chamas. Entre descrições do local, entrevistas inesperadas com aldeões e até rabiscos de mapas mentais, nada parecia de fato preocupante ao ponto de convocarem um antigo General à Sala do Trono de Olympia. Porém, em meio aos muitos relatos, um deles, escrito numa página inteiramente dedicada a ele, tinha um tom esquisito.
Pelo título, era a transcrição de uma conversa com uma velha senhora, na faixa dos 80 anos. “Senhora E”, como teve seu nome ocultado pelo jovem Guardião, contava a ele de muitas coisas: sobre a reclusão dos moradores do castelo local, a vida pacata no vilarejo, o sumiço habitual de donzelas… “Espera, sumiço de mulheres?”, desacreditou do que lia, sua cara de espanto bem aparente.
A cada linha, o absurdo era maior. Não eram duas, três ou dez meninas. Pelo que a idosa e muitos outros depois dela confessaram a Sorako, algo estranho vinha ocorrendo nos últimos anos na região ao redor do castelo Tetsumi. E uma figura era descrita em diversos parágrafos.
Uma mulher pálida, com cabelos caramelo e olhos preto-piche. Em todas as suas aparições, estava sempre acompanhada das garotas sumidas, sua presença e beleza sobrenaturais atraíam os olhares dos moradores. Os homens que ousaram tocá-la sem permissão foram infectados por uma doença debilitante, mas que se dissipou misteriosamente após alguns dias.
Parecia um verdadeiro conto de horror, tirado de um autor mórbido demais para ser realista. Sua veracidade era o motivo daquilo ser tão preocupante aos olhos do Guardião de Siegfried.
— Como nada disso foi reportado pelo Conde Tetsumi?
— Exatamente essa questão que investigaremos, Dai. — Taeka tragou mais um pouco da fumaça. — Minha única hipótese até então é que ele esteja envolvido. Como não posso provar, ordenar sua detenção seria declarar guerra à Kostarie e ameaçar a proteção da Torre.
— O loiro esquentado também falou para esperarmos ele voltar para avaliar o que fazer. Há cheiro de interferência externa. — Toshiro soltou a fumaça para acompanhar sua filha.
— E como também não podemos provar a participação de Eromi, mesmo com histórico… estamos numa sinuca de bico. — Pai e filha concordaram com a fala do major. — Então o que eu devo fazer, exatamente?
— Existe grande chance da missão ser dividida em dois continentes. O último relatório do Shiro veio de Eromi, e ele tem outro caso para investigar em Orbisla — clarificar a mulher. — Com isso… precisarei que você comande essa missão.
— Impossível, mestra.
A negativa imediata do professor o fez ser encarado com um misto de empatia e frustração pela comandante. Toshiro Nokogiri, que não demonstrava interesse em se posicionar neste conflito, deu um passo para trás para sair da linha do olhar fulminante da Líder Suprema.
— Dai. Não, Major Onishi — enfatizou Taeka — eu entendo o que levou à sua renúncia e, embora não seja do meu feitio, aceitei que se afastasse de seu cargo. Mesmo que tenha causado problemas ao Shiro por fazê-lo assumir antes da maturidade.
— Se entende, sabe que e…
— Contudo, não posso tolerar fraqueza. Não de você, Chama Implacável. — A angústia no rosto do professor doeu no coração dela. — A culpa não foi sua, Dai. Por isso, peço para se preparar para voltar à tempestade. Dispensado.
Onishi cerrou os punhos — pela liberação de mana cinza, muito tinha a dizer para sua superior, mas não o fez. Com um sussurrante “Sim, mestra” e uma mesura, deixou o cômodo com pisadas duras sobre os ladrilhos brancos.
Quando não mais podiam sentir a aura do professor, Taeka permitiu-se aninhar nos pelos de Toshiro, tal qual um filhote em seu protetor. Com Reiyo distante demais para secar suas lágrimas, restava apenas o velho Rei Lobo para acolher seus sentimentos dolorosos e sinceros. O abraço dele sempre a envolvia num cálido conforto.
— Obrigada, pai.
— Não há de que, alecrim dourado.
Seu subordinado ferido não tinha como saber que, quando dizia para não carregar um fardo desnecessário, estava falando mais consigo mesma do que com ele.
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