Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 2

Capítulo 50: Rosas vermelhas de sangue

5 de Abril de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Setor Oeste da Academia de Palas

 

Um grito estridente precedeu o despertar súbito de Tatsuyu. Suor frio escorria pelas laterais do rosto pálido — pela dor na mandíbula, aqueles olhos, vermelhos como os dele próprio, fizeram mais do que encharcar seus cabelos e acelerar o batimento cardíaco a níveis alarmantes. Colocar-se de pé deveria ser uma tarefa banal, mas estava sendo um esforço tremendo aos membros trêmulos.

Mesmo quando conseguiu, seu estômago o lembrou do porquê não deveria fazê-lo. O sabor amargo dos líquidos intestinais pincelou o fundo de sua língua e o fez correr para o banheiro para evitar uma tragédia maior. Nem o jantar escapou do forte expurgo promovido pela sua mente, atormentada por ilusões e lembranças. 

A náusea não era importante. O gosto horrível da comida desperdiçada por seu corpo não era importante. Todo o efeito do trauma em seu corpo não era importante, pois só poderiam ser curados quando as feridas invisíveis em sua alma fossem cauterizadas. Provava, mais uma vez, não possuir o poder para isso. Não naquele momento.

Por quase meia hora, colocou para fora todas as suas emoções, boas e ruins, junto dos pedaços meio-sólidos de alimentos. A descarga foi o caminho de saída para tudo que corpo e mente recusavam-se a aceitar em seu interior, restando apenas a apatia.

E como era doce sentir o vazio.

Nada estava realmente fora do comum para ele. Acostumado à dor latente do fim de vômito e certo de que não mais estava numa zona de risco, permitiu-se sentar sobre o tapete branco de seu toalete para aspirar o ar, pulverizado com aroma de lavanda. “Tenho que agradecer a Hana pela ideia. Incensos são mesmo ótimos”, anotou, em algum canto de seu subconsciente, para não se  esquecer depois.

— Que belo início pra esse dia tão especial, né? — debochou sozinho. — Nem tinha motivo pra ser diferente.

— Você se esqueceu da dose do seu remédio hoje, Tatsu.

O garoto optou por ignorar, por ora, a fala de sua Bênção, direcionando-se para o armário principal do cômodo. Dentro de uma gaveta, escondida aos olhos menos atentos, havia uma pequena caixa de veludo em cor vinho; seu maior e mais precioso tesouro. Com cuidado, retirou-a do esconderijo e a levou para cima da cama.

O conteúdo dentro dela era simples: um par de anéis de ouro que, embora riscados, ainda continha o mesmo brilho daquela época. Tatsuyu pegou o maior do par, muito mais danificado do que sua contraparte, e encaixou-o em seu anelar esquerdo. Era nítido o desgaste causado pelo uso da peça, enquanto o menor mantinha-se quase intacto.

Lágrimas rolaram de seus olhos vermelhos, já inchados, sem ele perceber. Por conta do descontrole emocional, sua mana preenchia o quarto em uma constante de expansão e retração, aquecendo-o. Era cômico: apesar da sensação cálida sobre sua pele, o frio de seu coração ainda predominava. Como se o abraço gélido de suas dores fosse gelo puro, capaz de ignorar o calor escaldante do ambiente.

Sem direcionar o olhar para a deidade, trouxe seu mais valioso pertence para perto de seu coração. O deus da forja encarou-o com pena, ciente dos pensamentos de seu receptáculo. Muito mais do que mera amargura pelas lembranças, o garoto afundava-se em desgosto e ódio a si mesmo — como sempre fazia, todos os anos.

— Pô, Festo, todo esse tempo comigo e ainda acha que ia mudar algo? — ironizou, melancólico. — É 5 de abril. Nada do que eu fizesse ia mudar isso.

— Você não tem como viver assim para sempre, garoto. Isto é tudo que posso dizer quando você fica arisco desta forma — retrucou a deidade, voltando ao seu estado de reclusão. — Feliz aniversário, Tatsu.

O mortal não o ouviu. Com o cantarolar sinfônico dos pássaros em seus ouvidos, Tatsuyu aguardou o alvorecer em completa inércia, embora Hefesto suplicasse que o garoto ao menos tentasse descansar. Nem os primeiros raios de sol arrancaram qualquer reação de suas feições estáticas, presas ao ciclo vicioso de memórias que insistia em alimentar. 

“Poderia ter sido diferente. Eu deveria ter morrido. Eu fugi. Nada disso é real. Dói, dói, dói, dói, dói. Me tirem daqui. Mãe. Pai. Haru. Heishi. Alguém. Qualquer um. Dói, dói, dói.”

Enquanto as vozes torturavam-no e riam de seu infortúnio, tudo que fez foi abraçar a sua única lembrança daquele tempo há muito perdido e lamentar, sozinho, o destino a ele entregue. Tudo isso para, ao início da manhã, deixar o seu quarto com o mais natural sorriso que conseguiu esboçar no espelho e cumprimentar seus colegas com empolgação.

Afinal, era seu aniversário de quinze anos. E eles não precisavam saber o porquê das mangas longas em um dia quente de outono.

 

 

— Ok, Hanako, você já fez de tudo! Treinou o discurso, presente em mãos… — A embalagem foi posicionada na linha de seus olhos. — é só entregar! Isso, só dar na mão dele e dizer “Feliz aniversário, senhor Tatsuyu!”, simples assim.

Embora repetisse a si sua convicção, seu corpo não colaborava para expressar a mesma confiança. Repetidas vezes, naquele dia, fora repreendida por sua distração, e por muitos de seus professores — ser uma coincidência era improvável, disto estava ciente. Quando o sinal de fim das aulas soou, foi a primeira a se levantar e partir apressadamente para seu quarto.

Arrumar o cabelo, passar maquiagem, escolher o melhor vestido, o melhor sapato ou as melhores sandálias… O tempo que demorou apenas para terminar de decidir suas roupas foi suficiente para Reiko, Ayame e Yoko chegarem ao apartamento e encontrarem-no de ponta cabeça por conta do desespero da princesa das fadas. Sua melhor amiga caiu na risada ao abrir a porta da suíte e dar de cara com uma Hanako provando o mesmo vestido pela enésima vez.

— R-R-Rei! Fecha a porta, eu estou me trocando!

— Foi mal, Hana, é que tá muito na cara. — A ruiva ergueu uma sobrancelha, confusa. — Você quer tanto assim que o Tatsu olhe pra ti? 

As bochechas da faeri enrusbeceram com intensidade. Seu olhar direcionou-se da amiga à pequena caixa branca sobre sua cama, embalada com cuidado pela garota mais cedo, e uma memória não tão distante passou por sua mente.

— Então o senhor Togami é capaz disso? — divagou Hanako, mordendo a ponta do seu dedão esquerdo. — Ele te contou isto, senhorita Yamazaki?

— Não, descobri enquanto ele falava com a Einatsu. Ele tava todo pimpo…

— Dia, meninas.

— Bom dia, Haru! — Akane perdeu por completo o foco no que estava falando. — Que cara é essa?

A loira encostou sua testa à mesa, nitidamente exausta. As leves falhas em sua maquiagem quase sempre impecável não passaram despercebidas pelas íris atentas da princesa. Algo estava errado com a Guardiã da Medusa, que, pelo raciocínio lento e respostas pouco assertivas, confirmava não ter dormido o suficiente.

Para tirar o sono de Seishin… Hanako duvidou de imediato se tal coisa seria possível de resolver. Ao menos, não custava mostrar o mínimo de hombridade à sua colega de classe para tentarem achar uma solução viável ao possível problema.

— Haru, seu rosto está terrível. Não conseguiu dormir?

— Não. Fiquei pensando demais num presente de aniversário pro Tatsu. — Suas amigas a encararam em confusão. — Ah, ele não contou pra vocês? Semana que vem é aniversário dele. Podem vir, se quiserem, ele gosta de vocês mas não consegue chamar mulheres pra casa dele. Penso num bicho tímido.

O som indiscutível de um lápis rolando ao chão atraiu o foco tanto de Haruhi quanto de Akane. A julgar pela posição congelada de Koufuku em sua cadeira, a revelação de que a data mais importante de sua paixonite estava a 7 dias de ocorrer paralisou-a na hora. Akane até tentou, em vão, tirá-la do transe passando sua mão na frente do rosto da princesa.

Aquele e os próximos dias passaram num piscar de olhos, todos com a mesma pergunta que atormentou sua amiga se repetindo no subconsciente de Hanako. O que poderia dar de presente para Tatsuyu? O recente relacionamento estabelecido com o garoto não lhe fornecera informações para isso — céus, se nem a melhor amiga dele conseguia pensar em algo, como poderia sequer cogitar ter uma ideia melhor?

Por vezes, era preenchida pelo desânimo. Repensar todos os momentos vividos com o garoto moreno de olhos vermelhos fazia seu coração apertar-se em angústia, pois não era capaz de dizer nem mesmo o que eram. Colegas de classe? Amigos? Se o último, quão próximos? Seria a consideração entre eles recíproca, como tentara implicar até então com suas ações, ou teria falhado em transmitir isto para Fukushu também? 

Tudo isto era sufocante. Hanako queria afogar-se no amor dele, ainda que esta não fosse a decisão “correta” a se fazer. Queria ser capaz de remendar o coração machucado de seu amado, de fazê-lo sentir confortável para confiar a ela seus mais íntimos medos. Queria amar e ser amada, acima de qualquer coisa.

No fim, sua obsessão por um bom presente deu frutos. Era este o pacote carregado em seus braços, especialmente para ele, e que seria entregue ao destinatário, independente de quaisquer forças tentando evitar a faeri de concluir seu objetivo. Diante da enorme porta do hall privativo, conferiu uma última vez sua localização e guardou o presente em seu armazém espiritual.

— Prédio 190, apartamento 403. Estou no lugar certo — reafirmou ao guardar o presente de volta ao reino espiritual. — Será que é estranho eu chegar sozinha? Mas Rei e Aya iam demor…

— Oh, então era você, Hanako! Bom ver que chegou cedo, entra aí!

Nem para piscar teve tempo e foi puxada para dentro da habitação pela mão firme de Haruhi, trajada em um belo vestido azul-marinho com um decote um tanto… ousado, na sua opinião. As serpentes estavam ausentes naquela noite, deixando os fios dourados da loira livres para serem trançados como ela bem quisesse. 

A beleza dela era estonteante. Podia ver a dedicação em se arrumar para o evento pelo batom vermelho-escarlate, o delineado perfeito e o blush suave, perceptíveis apenas para quem prestasse muita atenção em seu rosto. Mesmo o caminhar dela era equivalente ao de uma modelo de alto nível.

Se comparada ao corpo pouco farto e vestido turquesa apagado da princesa, a diferença era ainda mais gritante. A tiara de princesa faeri, muito bem posicionada sobre seu cabelo alaranjado, era o único diferencial ao seu favor: em sensualidade, cores e até na maquiagem, Seishin havia destruído suas esperanças de ser um ponto focal de atenção da festa.

Considerando também o fator dela já estar lá antes mesmo do horário marcado… Uma pitada de inveja e ciúmes amargou a boca de Hanako. “Tudo bem… não tem nada demais, ela só é a amiga de infância do senhor Tatsuyu”, consolou-se a ruiva. Acompanhou a garota na direção de novas vozes, ouvidas da sala de estar do conjunto.

Sentado logo no campo de visão ao adentrarem o cômodo, teve a vaga impressão do sorriso de Tatsuyu aumentar ao ver a dupla colocar os pés no ambiente — os dentes brancos brilhavam, reflexo das várias luzes da casa ligadas sem necessidade. O corpo de Hanako estremeceu com a ideia de estar sendo avaliada naquele exato momento por sua paixão. Tinha que agir para fazer valer à pena.

Aproximou-se antes de Haruhi e reuniu toda a coragem em seu interior para falar.

— Senhor T-Tatsuyu! — chamou, com voz falha. — F-Feliz ani… feliz a-aniversário!

— Obrigado, Hana! Fico feliz de ter vindo.

“Entrega pra ele, Hana!”, orientou Titania, em seu interior, diante do silêncio de sua Guardiã. Tatsuyu manteve o olhar sobre ela, atento ao movimento repetitivo da boca de sua amiga e aguardando mais algum pronunciamento. Sons de batidas à porta, entretanto, jogaram um balde de água fria sobre a garota, pois o menino partiu para atendê-la. Como sempre, hesitara tempo demais, e sua chance foi desperdiçada por sua própria culpa.

Pouco a pouco, o grupo formado pelos alunos da 1-1 próximos ao aniversariante fez-se presente. Mesmo Kyorai e Zuko o fizeram, por consideração ao que era considerado o elo central de todo o círculo dos novatos. A cada novo membro adicionado ao ambiente festivo, mais distante se tornava o suéter amarronzado de Tatsuyu das mãos de Hanako, até chegar ao ponto onde esta e Reiko, recém-chegada à comemoração, foram direcionadas a um assento no canto da sala.

Enquanto a princesa de Sophis conversava com qualquer um que se sentasse próximo o suficiente, a ruiva estava anestesiada com sua frustração. Por vezes, os olhos âmbar semicerrados procuravam Fukushu em busca de uma segunda oportunidade, apenas para vê-lo ou na companhia de algum dos garotos ou a maldita serpente esfregando-se nele. Não deveria ter raiva dela por jogar o jogo do amor dentro das regras.

Continuar ali era uma tortura a qual não estava disposta a passar. A cozinha vazia parecia um ótimo local para se esconder durante algum tempo de sua vergonha e tristeza, então se levantou para partir naquela direção. A sua companhia ficou intrigada com o movimento repentino, erguendo uma sobrancelha de curiosidade.

— Pra onde cê vai, Hana?

— Pegar uma bebida… — murmurou em resposta a faeri. 

Reiko tentou chamá-la, mas não teve sucesso — sua amiga seguiu para o cômodo ao lado para espairecer em um local mais silencioso. Acima de tudo, tinha que ter raiva de sua própria incompetência, que a impedia de ser como Haruhi e partir para a investida. A única culpada por aquela situação era ela.

Seu momento de silêncio, ao contrário do esperado, a deixou ainda mais para baixo. Memórias, tanto do seu passado quanto dos dois meses em Palas, inundaram sua mente, levando-a de um lado ao outro de sua vida a cada poucos segundos. Sentia vontade de chorar pela sobrecarga emocional, por que tinha que ser tão patética?  Até quando continuaria daquela forma? 

Desde que se entendia por gente, Hanako sempre esteve à sombra de algo e, apesar de ter declarado seu desejo de mudar isto, não fazia a menor ideia de como. Os conselhos filosóficos de Dai ou as ideias revolucionárias de Reiko não eram claros o suficiente para ela; quanto mais pensava, menos sentido pareciam fazer.

— Sabe, querida… — Titania se infiltrou em seu fluxo de pensamentos. — você deveria só confiar mais em si mesma. Não precisa ser igual à Chiwa, mas poderia ser bem mais.

— Esse incentivo não ajuda em nada! — retrucou a princesa.

— Porque você está buscando nos outros uma força que já existe em você, Hanako.

— Então onde? Em que lugar, dentro de mim, isso existe? — O suspiro pesado deixou os lábios comprimidos. — Era para eu ter entregue isso logo que chegamos, mas eu não consegui. Quanto mais eu vejo chegarem perto dele, menos vontade eu sinto de tent…

— Finalmente consegui me livrar deles um tempinho!

Hanako assustou-se com a voz atrás de si, quase derrubando o copo em suas mãos. Não havia prestado atenção em seus arredores desde o momento em que Titania lhe dirigiu uma palavra (um péssimo hábito, se perguntassem a ela), mas não fora isso o principal fator para seu espanto.

O dono daquela sinfonia angelical em forma de timbre masculino sorriu para ela com alegria, aproximando-se com cuidado da garota. 

— Vi que você tá há um tempo aqui e fiquei preocupado que estivesse passando mal — comentou o garoto. Koufuku sentiu seu coração falhar diante dos rubis brilhantes dele. — Tá tudo certo?

— E-Estou. Só q-queria ficar um pouco sozinha.

— Entendo. Quer que eu saia? Aí aviso pra ningué…

— P-Pode ficar!

“Gosto da sua companhia”, queria adicionar, ainda que sem coragem. Se antes o mau-humor preenchia seu ser, a inundação de alegria anestesiava até a ponta de seus dedos delicados e a deixava à beira de explodir. Sem aviso ou tempo para que se preparasse, ele se fez presente por livre e espontânea vontade, algo inesperado até em seus melhores sonhos.

Ambos estavam tímidos demais para saber o que fazer. Todo o ambiente ao seu redor parecia mais interessante aos olhos agitados do casal, que se aproximou inconscientemente. “Tá, e o que falamos agora?”, pensaram, sem saber, em uníssono.

— Eu…

— Eu…

— V-Você primeiro!

— Não, o senhor!

— Ok… — Inspirou fundo para buscar as palavras certas. — Obrigado por vir, Hanako. Achei que comemoraria só com a Haru e o Heishi mais um ano, foi uma baita surpresa ver esse tanto de gente chegar!

— A-A Haruhi me convidou, o senhor não estava sabendo de todos os convidados? — O choque era nítido em suas palavras. Ele coçou a nuca, sem graça. 

— Não, nem planejava uma festa pra ser sincero. Haru que me empurrou pra fora do quarto quando começou a chegar uma galera — riu o moreno. — Nunca tive tanta gente pra comemorar. Tô tentando ficar um tempinho com cada um pra agradecer a presença.

Tatsuyu notou o ânimo da garota murchar um pouco depois de suas palavras, sem compreender o motivo para isso. Sua deidade, por outro lado, rolava de rir em seu interior, aumentando sua confusão: vê-la desanimada, tanto antes quanto agora, lhe causou um enorme desconforto. Era diferente do que sentia quando Haruhi chorava por suas ações, ou quando Heishi lhe abraçava e dizia que ficaria tudo bem.

Por instinto, sua mão ajustou um cacho desarrumado para trás da orelha dela, o que assustou a faeri. Suas bochechas coraram diante do rosto gentil de Fukushu e seus olhos vermelhos semicerrados, mas pouco durou — por debaixo da manga do suéter, percebeu um conjunto de cortes, pequenos e discretos, em sua pele. 

Os papéis se inverteram, e a mão quente de Hanako puxou o braço dele à altura de suas íris âmbar em um movimento ousado. As feridas descobertas fizeram-na engolir em seco e encarar, com preocupação, cada canto de suas expressões. Entre enjoo, choque e empatia, ela tentou soar o menos intrometida possível.

— Eu…

— Eu sei. Nojento, né? — Ele apenas sorriu de volta. — Desculpa te fazer ver isso. Eu entendo se for embora ou preferir fingir que não viu.

— Claro que não! Eu vou cuidar disso! 

— Como as…

O brilho da mana alaranjada de Hanako felizmente não atraiu a atenção para o canto onde estavam, ou teriam uma baita síncope para explicar o que estava acontecendo. Uma a uma, as marcas causadas por ele próprio em seu corpo sumiram pelos poderes da princesa das fadas, cujos sentidos concentravam-se apenas naquela tarefa.

Mantiveram-se naquela posição por alguns segundos, até a garota agarrar o outro braço e repetir o que fez no primeiro há pouco. Sem palavras, nem dela nem dele, apenas o puro desejo de Hanako de poder acabar com aquelas dolorosas lembranças que assombravam o coração de seu amado. Queria, de alguma forma, que aquele pequeno gesto fosse capaz de curar até as mais profundas cicatrizes de seu interior, invisíveis e pulsantes.

Quando acabou, Koufuku sentiu um alívio enorme em ter concluído com perfeição seu trabalho. Porém, não teve tempo sequer de respirar, pois ouviu o nariz do garoto fungar fora do seu campo de visão, bem como o braço renovado cobrir seus olhos. “Ele está chorando”, constatou ao ver uma lágrima escorrer ao lado do sorriso falso.

— Sabe, isso me lembra quando meu… avô, é, avô, tentava me dar sermão por cair na rua — confessou Tatsuyu, ainda sem olhar para a colega. — Ele ficaria puto da vida comigo de me ver assim. Sempre penso isso.

— Isto não é algo para se envergonhar, Tatsu!

Em mais um ato fora do normal, Hanako afastou tudo que pudesse impedir o contato visual direto com ela. A visão do rosto marcado pela dor da perda lhe encheu daquele sentimento que Reiko insistia em provocá-la sobre. O sentimento que estava disposta a ofertar, sem esperar nada em troca, para aquele rapaz de alma e mente atormentadas.

— Se você precisa de alguém para te escutar, eu posso sempre… — Aproximou-se ainda mais dele. — sempre, te ouvir! É-É para isso que amigos servem, não?

Tatsuyu perdeu a capacidade de falar, atordoado pelo carinho da ruiva para consigo. A garota tomou distância após, subitamente, dar-se conta da enorme grosseira que acabara de cometer. Se arrependeria? Com toda a certeza do mundo, mais tarde o faria. Ali e agora, não.

— Você tem razão. Tenho que colocar isso na cabeça — concordou, apontando para si. — Isso vale mais do que qualquer coisa.

— F-Falando nisso, eu tenho um presente! 

— Hm?

A pequena caixa branca surgiu nas mãos de Hanako, sendo passada em sequência às dele. Pelo brilho curioso nos rubis atentos, o presente teve uma boa apresentação — ponto para a faeri, comemorou — para seu novo dono. Com cuidado, o plebeu desfez o laço rosado e destampou a embalagem.

Sobre um estofado azul-bebê, repousava uma pulseira de luminescência singular: os adornos desta, moldados em formato de rosas desabrochadas, eram todos de cor alaranjada como os cabelos da princesa e polidos de modo que Tatsuyu jamais havia visto. Sem dúvidas, fora um presente caro e muito bem pensado exclusivamente para ele.

Mesmerizado. Essa era a palavra perfeita para descrever o que sentia ao observar cada entalhe presente na joia em suas mãos.

— Isso… nunca vi algo tão bonito — atestou por fim, para a alegria da remetente. — Dá até dó de usar no dia a dia. Vou ter que deixar isso guardado pra nunca estragar.

— É um símbolo de sorte em Alfheim — explicou Hanako, dirigindo-se à porta do cômodo. — Se p-puder usar nos momentos importantes, m-melhor! Feliz aniversário, senhor Tatsuyu!

“Consegui, consegui, consegui! Eu consegui mesmo entregar!”, era tudo na mente da nobre, de volta à área comum do conjunto. Saltitante, retornou para o assento ao lado de Reiko, que “conversava”, na falta de uma palavra melhor, com uma certa donzela de cabelos pôr-do-sol.

Quer dizer, pela expressão de culpa de sua melhor amiga e de ira da colega de quarto, tinha medo de presenciar um assassinato ali mesmo.

— Amaterasu que me perdoe, mas… — As mãos pálidas agarraram com força os ombros de Reiko entre os sussurros de Yoko. — puta que pariu, Chiwa. A minha vontade nesse exato instante é arrancar a sua cabeça do seu pescoço!

— J-Juro que foi sem querer! Ele me provocou também! — murmurou de volta a ateniense. A chegada de Hanako foi sua carta de escape perfeita. — Hana, minha linda, que bom que chegou! O Tatsu tava te procura… epa, calma aí, tu não acabou de sair da cozinha?

— Sim…

— Danadinha, eu vi ele entrando lá agora! Que fof…

— Fique quieta de uma vez, sua imbecil.

— Isso doeu, Yoko! 

A princesa das fadas estava ciente de seu papel mediador para evitar uma briga maior entre as duas. Pela próxima meia hora, sua função foi a de se colocar entre as duas forças incontroláveis e impedir a escalada do conflito cuja culpa, em sua opinião, era totalmente de Reiko. Até convencer a princesa do sol a não seguir com a eliminação da ameaça, seria deveras complicado.

Tamanho era sua determinação em seguir nesta tarefa que não percebeu o par de orbes esmeraldinas posicionadas sobre ela, nem o sentimento por trás deles. Entre remorso e amargura, as serpentes de Haruhi sibilaram ao vento o medo da loira, que fingia indiferença ao bebericar alguma das muitas opções ofertadas pelos colegas.

Afinal, seria mesmo uma competição justa?

 

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