Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 2

Capítulo 55: Tempo contado

23 de Abril de 4818 - Continente de Aquapia, Reino de Orbisla, Arredores de Pleiance

 

— Aquele loirinho putanheiro… É bom que só o inferno de descobrir as coisas, mas pra descrever, puta merda!

Para a sorte de Shiro, nenhum de seus companheiros de esquadrão estava por perto para repreender seu péssimo vocabulário. Ainda assim, a raiva que sentia pelo alvo de suas ofensas não diminuiria tão cedo, não importassem quantos adjetivos pejorativos dissesse.

O informante da Longinus, responsável pela missão de reconhecimento do local onde estava naquele instante, foi pessoalmente repassar a informação a ele ainda em Kostarie. O que parecia, de início, a pista perfeita tornou-se uma das buscas mais longas do General em muito tempo. Isso porque o homem, denominado por Sorako como “imbecil tarado” não sabia descrever como chegou, semanas antes, ao alvo.

Dois dias se passaram desde que colocou os pés em Orbisla e, somente agora, estava com ampla visão do ponto de interesse de sua investigação. “Vou botar esse arrombado no espeto quando voltar”, pensou o Guardião de Raijin, furioso pelo tempo perdido. Não tinha muito espaço para divagar possíveis punições para Vento Ventania — coisas mais importantes mereciam sua atenção, como aquela diante de seus olhos azuis.

Quase oculta entre as montanhas, a estrutura hexagonal de pedra escura erguia-se no horizonte a cerca de dez quilômetros do posto de vigia de Shiro. Sua visão aprimorada servia como telescópio para avaliar cada abertura e fechamento do amplo portão principal, em busca de uma pista sequer sobre o que faziam além dele.

As memórias do encontro com seus anfitriões no país fez seu rosto ganhar um tom de seriedade.

— Vai partir já, General Sorako? Não quer nem descansar?

— Agradeço a preocupação, Touma. Mas não posso demorar um segundo sequer.

— Ao menos, fique conosco para o jantar. Quero te dar alguns detalhes adicionais. 

O rei e o comandante da Brigada das Chamas trocaram um olhar rápido. Embora Raiju estivesse numa posição hierarquicamente inferior ao seu calouro, o apreço pela saúde deste era genuíno desde os tempos da Academia de Palas. Somado à cultura milenar de seu país de realizar calorosas recepções, Shiro sabia que seu antigo colega de esquadrão não aceitaria “não” como resposta.

Por este motivo, seguiu o monarca, seu braço direito e a rainha consorte até o salão de jantar. A conversa entre o casal estava bem animada, então o rapaz de baixa estatura logo atrás deles diminuiu o passo para ficar ao lado de Shiro, que admirava as tapeçarias ao longo do corredor.

— O Rai e a rainha parecem bem felizes nos últimos tempos — sussurrou Touma, atraindo a atenção do loiro para o moreno e sua mulher de cabelo castanho. — Acho que é porque o pequeno Kou começou a manifestar a mana dele. Só de não ser negra como a do filho dos Ryoujin, isso parece ser um ótimo sinal.

— Podemos não falar de Bellato?

— Foi mal. Só tava desconfortável com o silêncio.

Pisar no calo mais sensível de todos apenas piorou a impaciência de Shiro. “Bem que a Shou comentou… ele tá ficando cada vez pior”, concluiu Touma, ao passar suas íris cor de cereja sobre o perfil nem um pouco amigável do colega. Teria que se contentar com a mudez dele pelo restante do caminho.

Para a sorte do jovem, chegaram logo ao cômodo reservado para a refeição. Criados circulavam de um lado para o outro, carregando mais e mais coisas pela sala e locais adjacentes — ainda que estivessem apressados, todos paravam o que estavam para cumprimentar Raiju com um sorriso, que lhes era retribuído sem demora tanto por ele quanto pela esposa. Uma das criadas mais velhas aproximou-se com um colar em mãos.

— Boa noite, Majestade! Está linda como sempre! 

— São seus olhos, senhora Kubo! E obrigada por trazer meu precioso — agradeceu a rainha. — Kou já foi dormir? 

— Sim, senhora Kurai! — Uma outra mulher foi quem a respondeu, parando ao lado da empregada mais velha. — Tivemos alguns problemas só para fazê-lo tomar banho, mas agora está tudo em ordem!

— Obrigada, queridas, estão dispensadas por hoje! Ótimo trabalho.

— Com sua licença — disseram, em uníssono, antes de deixarem o espaço apenas ao casal e os dois convidados.

Serviram-se rapidamente com o banquete preparado pela equipe do castelo, com exceção de Shiro. Os olhos prateados de Raiju encontraram as safiras do General a encará-lo, sedentas pela informação prometida a ele. “Nem tocar na comida ele tocou ainda… Assustador”, pensou ao limpar a garganta para falar.

— Touma. Fique à vontade agora para contar o que ouviu dos guardas — comandou o monarca. — Toda a situação com meu filho me impediu de ouvir com mais clareza.

— A equipe responsável pela costa oeste esteve ocupada, nos últimos meses, com uma série de incidentes esquisitos. Cargas sem destinatário chegaram mais da uma vez ao porto. — Coçou o topo de seus cabelos encaracolados, um tanto desconfortável sob o olhar intenso de Sorako. — Não só isso, interceptamos outros que vinham com crianças desaparecidas à bordo.

“A coisa só piora quando interrogamos os tripulantes dessas embarcações. Muitas vezes, eles nem sequer sabiam do material que estavam carregando, e demonstravam enorme confusão mental para dizer como as obtiveram. Era como se estivessem hipnotizados até serem colocados na cadeira de interrogatório.”

—  A quantidade de vezes que vi esse roteiro esse ano é espantosa. Sempre é um caso sem solução.

— As crianças também foram questionadas sobre como foram parar ali. As respostas foram bem variadas, entre sequestros e aliciamentos, então acho que não conseguimos tirar nada disso.

— Permitam-me, senhores, fazer um apontamento? — Kurai levantou-se de sua cadeira, para surpresa até mesmo de seu marido. — Acho que estão ignorando um ponto crucial desta história.

— Qual seria, Majestade? — Shiro autorizou-a a seguir com um aceno. 

—  Chegamos a catalogar a nacionalidade destas crianças? 

— Majoritariamente de Nebula, Bellato e Kostarie. Não que esperasse algo diferente de bárbaros — destacou Touma, com incrível acidez na voz.

— Se sabemos que estes reinos são… problemáticos, para não ofendermos o senhor Sorako com palavras mais duras — ponderou a rainha — por qual motivo trariam estes jovens para cá? Aquapia não é um continente perfeito, mas está longe de ter qualquer forma de escravidão permitida em suas terras.

— Se juntarmos essa conclusão ao que recebi daquele insuportável… O problema vai ser bem maior do que imaginei.

— Tem certeza de que seguirá sozinho, Shiro? — questionou Raiju. — Ainda que Touma seja jovem, ele é o Escudo da Coroa por um motivo.

— Não precisa se preocupar com isso. É até melhor eu ir sozinho.

Aquela fortaleza era suspeita demais para não estar envolvida na situação. Como um Guardião de elite, poderia muito bem entrar pela porta da frente com suas credenciais e revistar o local inteiro em segundos — ninguém poderia impedi-lo, nem pela força, nem pela lei. 

Contudo, tinha experiência o suficiente para saber que ocultar traços de atividades ilícitas era bem mais simples do que a maior parte das pessoas imaginava. Teria de lutar contra sua ânsia por resolver o problema pelo caminho mais bruto, pelo bem da missão ao qual fora designado e dos possíveis reféns.

Os minutos seguintes não corroboraram ao seu pensamento anterior. Quanto mais tempo passava, mais desinteressante ficava o repetitivo ciclo de carroças entrando e saindo pelo portão frontal: as cargas, expostas, não eram nada fora do padrão. Alimentos, lenha, lixo orgânico… De fato, nenhum produto excêntrico. Talvez Vento Ventania estivesse errado. Improvável? Com certeza, mas poderia acontecer até com os melhores espiões. 

A falta de interação abria espaço para a sombra de seu coração espreitar seu subconsciente. O verdadeiro demônio dentro de si se manifestou em sua mente, seus olhos amarelos e pele vermelha impossíveis de ignorar nem pelo mais centrado dos Guardiões.

— Eu sinto seu desejo pelo conflito, rapaz… Por que não vai lá e faz um massacre? — A voz dele era alta e estridente. Digna do elemento por ele encarnado. — Ninguém vai questionar seus métodos se der resultado.

— Insistir é realmente sua diversão — suspirou Shiro, sem desviar o foco de seu alvo — mas não tenho mais a mesma cabeça. Sangue sem propósito é fugir da lição que aprendi.

— Não tente pagar de filósofo, Sorako. Isso não combina com você.

— Não me enche.

— Pois espero que reconsidere quando estiver na sarjeta.

As palavras de Raijin não demoraram a fazer sentido.

Seu sentido de batalha apitou. A katana de fio amarelo surgiu em suas mãos bem a tempo de impedir o impacto da manopla esverdeada contra seu rosto, num golpe que seria capaz de desmaiá-lo pela força aplicada.  Seu oponente não foi supreendido pela defesa reativa dele, emendando uma série de socos velozes contra Shiro. 

O Guardião se atentou aos detalhes entalhados no metal e na aparência do rapaz, que o forçava a usar sua velocidade supersônica para esquivar. Não lhe eram estranhos os olhos bicolores, com aros vermelhos circundando a parte azul de suas íris, muito menos as luvas de metal usadas por ele. O vasto catálogo de procurados rodou em sua mente, em busca do cruzamento perfeito.

— Juuzo Nanami.

Ser identificado fez seu atacante hesitar por um segundo, tempo mais que suficiente para Shiro cortar a lateral de seu braço com um corte-relâmpago. Juuzo gemeu pela dor queimante da ferida cauterizada, enquanto o loiro deu um passo para trás.

— O Cão do Submundo. O que faz  aqui? — inquiriu, ainda em posição de combate.

— Não lhe devo resposta alguma, Demônio do Relâmpago.

— Claro que não. Por isso… — Em um piscar de olhos, Shiro estava a centímetros dele. — vou arrancar de você daqui a pouco.

Outro choque entre a lâmina e a manopla tremeu o ar, e o vilão foi empurrado para trás pela força massiva de seu inimigo. Ao redor dele, faíscas azuis preenchiam o curto espaço montanhoso com energia prestes a ser descarregada contra a outra parte. Receio preencheu o interior de Juuzo.

“Ninguém me avisou que teria um General aqui… Porra, Reiyama, cadê você?”, praguejou para dentro. Nunca sequer considerou a possibilidade de que poderia dar de cara com um guerreiro tão formidável e, para seu azar, impiedoso como Sorako. Enfrentar o sexto melhor Guardião do planeta não deixava as chances muito a seu favor.

Porém, entre se entregar à justiça e lutar sua liberdade, escolheria sempre o segundo, sem hesitar. Por esta razão, avançou mais uma vez, punhos em riste e reforçados por uma camada de magia escura. A mana em suas manoplas tomou a forma de uma boca canina enorme.

— Mandíbula da Amargura!

— Queda do Trovão! 

O choque entre o soco ascendente e o corte descendente pressionou Juuzo contra o chão. A diferença de poder entre ele e Shiro era nítida demais para vencê-lo num mano a mano, estava ciente — seria ingenuidade da sua parte acreditar em um resultado distinto deste.

A cada vez que seus punhos eram retaliados pela katana, sentia o cansaço de acompanhar os movimentos imprevisíveis cobrar seu corpo por um descanso. Nenhum dos seus ataques conseguia conectar com o corpo dele, e a recíproca não era verdadeira quando percebia os ferimentos surgirem em seu corpo sem ter a chance de impedi-los. 

Não só na técnica que Nanami perdia para o General. Enquanto tinha seu estoque mágico drenado para manter-se apenas um pouco abaixo do rendimento físico de seu inimigo, Shiro demonstrava um vigor sem igual em cada avanço ou defesa. Fosse por reflexo ou predição, tudo que Juuzo tentava falhava miseravelmente em acertar o vulto amarelo movendo-se em alta velocidade em seu campo de visão.

Alguma coisa. Tinha que tentar qualquer coisa se não quisesse ser engolido pela tempestade de raios em pessoa, só que raciocinar ao mesmo tempo que evitava ser fatiado estava longe de ser uma tarefa simples. A aura dele estava em todos os lugares, pressionando-o a manter seu corpo em estado de alerta. A mente entorpecida não notou o perigo de, subitamente, não visualizar uma leitura sequer ao seu redor.

— Passo do Deus do Trovão.

Um corte, uma morte. A técnica suprema de Shiro que, desde que a desenvolveu, foi letal em 100% dos casos que a usou contra uma vida; ali, não seria diferente. Seu adversário não tinha nível para entender nem o que aconteceria no próximo segundo, quando a lâmina encontrasse sua bainha e o sangue esguichasse de seu pescoço.

Logo, o fato de não escutar o típico som da carne sendo rasgada pelo metal gélido, Shiro soube que algo estava errado. Seu corpo girou em 180 graus, na direção do alvo que acabara de trespassar.

A aura rubra, responsável pela defesa de seu inimigo inicial, era maior do que a do próprio Guardião de Raijin. O sorriso maldoso daquele homem alto de cabelos negros exibia os dentes pontiagudos de sua boca, que traziam uma sensação macabra, quase animalesca ao seu visual.

Estas nem eram suas características mais notáveis: observar as longas garras feitas de magia de sombras e os olhos escarlates bem abertos foi tudo que Shiro precisou para identificar quem era ele. E, também, para fazê-lo perceber que seu informante estava certo, no fim das contas. O homem encarou-o como um predador diante de uma presa digna de sua caça.

— Olá, Shiro! Ou devo dizer… Demônio do Relâmpago? — Hyoshin parecia se divertir com seu terror. — Fui enviado pra garantir que nada seria feito contra o nosso cão de guarda… Chego aqui e você já vem chutando ele desse jeito? Que vergonha, você tem que pegar alguém…

O Lobo da Névoa cruzou a distância entre eles com um impulso, pronto para o bote.

— Do seu tamanho!

Colocar a katana em frente ao corpo impediu que tivesse todas costelas rachadas pela garra poderosa de Hyoshin, mas não que Shiro fosse arremessado contra uma das cadeias rochosas mais próximas. O estrondo tremeu a terra aos pés de Juuzo, que olhou para seu companheiro com raiva e agradecimento.

— Ninguém sentiu esse tanto de mana entrando no campo de defesa? Me falaram que era só um invasor, não a porra de um General!

— Foi justamente pelos guardas sentirem que o chefe me enviou. Você é burro?

— Tá, tanto faz. 

— O bom é que você cansou ele um pouco. É uma pena, vai ser uma luta chata com ele todo fudi…

Os instintos ferozes do Lobo da Névoa moveram suas mãos-garra à altura do rosto, e a lâmina energizada do General fincou-se nelas ao invés de fazê-lo nos olhos de seu alvo. Um estalo de língua frustrado deixou a boca ensanguentada de Shiro ao se afastar da dupla mais uma vez.

Ele tinha energia para brigar. Se passasse um pouco de seus limites, talvez conseguiria vencer Hyoshin em um duelo de velocidade e dar um fim tanto nele quanto em Juuzo. Contudo, a conversa deles dava a entender de que algo dentro daquela área estava detectando a mana de todos que estivessem dentro dela — se esse fosse o caso, eliminar ambos enviaria mais e mais guardas, até que estivesse cansado demais para retaliar.

Não era seguro seguir sozinho. O tempo em missão, sem descanso algum entre cada ponto de investigação, afetaria demais sua capacidade de  manter o ritmo, ainda que lhe incomodasse admitir. Pior ainda se fossem todos de nível similar ao de Hyoshin.

Um portal de cor púrpura surgiu atrás da dupla, dando espaço para uma terceira figura se juntar aos dois vilões. O recém-chegado olhou ao redor, ocupado entre analisar a condição física dos participantes, até um suspiro vazar de seus lábios.

— Precisamos mesmo de três para conter esse aí?

— Qual é, Izumi, caçar um desses metidos a herói não é uma baita diversão?

— Só faço o que sou ordenado, Fenrir. Não pense que somos iguais.

— Chato pra cacete.

De cabelos negros espetados e olhos carmesim, o segundo suporte de Juuzo já tinha seu nome bem conhecido, dado acontecimentos recentes que envolveram sua presença. Aparecer ao lado dos outros dois também confirmou a suspeita de Shiro: o Lobo da Névoa, o Cão do Submundo e o Príncipe Infernal do Orgulho nunca tiveram qualquer relação divulgada.

Não havia razão para Hyoshin Reiyama, Juuzo Nanami e Izumi Genshoku estarem todos no mesmo lugar, mas era exatamente isso que estava acontecendo diante de seus olhos. Pela maneira casual de chamarem uns aos outros, esta era a ponta de um enorme e perigoso iceberg.

O mais alto do trio de criminosos sentiu a aura do Guardião tremer.

— Ei, ei, ei, o que está fazendo? Ninguém te autorizou a correr, relâmpago! — urrou Hyoshin. — Temos muitas perguntas a te fazer antes de cortar tua cabeça. 

— Acho que correr é sua única opção, garoto — brincou Raijin em sua cabeça. — Eu te darei mais poder se você matar um dos três na fuga.

— Não quero suas propostas malucas agora. Depois eu penso nisso.

— Nos ignorar não é uma boa pedida, Raijin — Izumi rebateu, com sua própria katana em mãos. — É deselegante até para um verme como você.

— Não tenho nada pra tratar com vocês. Se me permitem…

O loiro guardou desfez sua arma em partículas azuis, para a confusão de seus inimigos. Sua mana comprimiu-se em um único ponto no interior de seu corpo, na sequência sendo distribuída tal qual uma descarga elétrica. A última coisa que o trio viu e ouviu naquele instante foi o clarão e o som de uma trovoada, nesta ordem. 

Quando os sentidos de todos, desorientados pela potência do estímulo, retornaram ao normal, não havia mais sinal algum de Shiro ou de sua aura nos arredores.

 

 

Correr risco de vida fez Juuzo esquecer como era infernal estar dentro daquela estrutura. Mesmo temporariamente com a audição prejudicada pela magia de relâmpago usada contra eles, os gritos agudos ecoavam pelas paredes e penetravam sua carne até a mais profunda camada, preenchendo-o com a agonia presente naquelas vozes.

Pensar nisso, alguns anos atrás, o faria vomitar de desgosto. Hoje, escutar as súplicas daquelas crianças, fossem elas de dor ou desespero, lhe soava como uma ária maldita, um convite ao amargor que um dia viveu dentro daquelas mesmas paredes. Tudo que podia desejar a elas é que tivessem a mesma força que ele teve para suportar a tempestade.

Um dia, como vítima; outro, como carrasco. Era irônico, se parasse para pensar.

— Ser enviado pra cá só pra tomar um trovão na cabeça e ficar meio surdo o dia inteiro… — murmurou Izumi, que o acompanhava pelos corredores em direção à ala hospitalar. — Pelo menos, serviu para espantar a Longinus por algum tempo.

— Reiyama já foi embora?

— O mestre chamou Fenrir pelo portal. Acredito que queria discutir a situação de hoje.

— Mas e a proteção da base?

— Se nem o mais poderoso de nós se importa, por que deveríamos?

— Isso não é justifica…

De repente, o mundo tornou-se mudo. Em uma pessoa normal, isto causaria confusão — em Juuzo e seu acompanhante, o silêncio súbito, como se estivessem em uma nova dimensão, foi recebido de bom grado. Estavam próximos daquela cela. O Guardião de Cerberus encarou o corredor escuro à direita deles, em busca do fim dos ladrilhos encardidos.

Durante os muitos anos em que patrulhou a fortaleza, aquele corredor fora poucas vezes visitado por ele. Não havia necessidade de mais de um guarda, não quando o responsável pelo cômodo repleto de magietras jamais deixava seu posto. Era até estranho ver aquele espaço estreito sem a figura maciça cinzenta de escleras brancas bloqueando a passagem.

— Para onde o levaram? 

Juuzo deu de ombros.

— Nunca sabemos de nada, Genshoku. Mas a segurança foi reforçada enquanto ele não retorna ao posto.

— Os Guardiões já sabem deste lugar — grunhiu Izumi. Suas íris escarlates queimavam de frustração. — Será que o mestre não considera a ideia de mover a pesquisa para outro lugar? Pontos de apoio não faltam.

— A cobaia… — Usar aquele termo a uma criança indefesa amargou a língua de Juuzo como há muito não sentia. — apresentou instabilidade, pelo que ouvi. Não existe um método seguro para isso agora.

— Mas…

Um urro macabro atingiu os ouvidos de ambos os rapazes. Nem humano, nem monstruoso, o som perturbador era um misto de um choro infantil à mais primordial ira de um deus. O Guardião de Lúcifer se viu obrigado a manter as orelhas cobertas até não sentir mais as vibrações. Já o seu colega não expressava qualquer sentimento diante da experiência a que foram submetidos, com seu olhar pesaroso fitando a porta.

— Que porra foi essa?

— Ora, Genshoku… — Juuzo respirou fundo, vendo as magietras se ativarem e a cela tremer com a magia captada. — Isso é exatamente o que o chefe quer que aconteça.

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