Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 2

Capítulo 48: O futuro incerto

30 de Março de 4818 - Continente de Origoras, Cidade-Estado de Palas, Setor Leste da Academia de Palas

 

Hanako estava cansada — até demais — da rotina puxada como aluna da Academia de Palas, embora lhe fosse desanimador admitir algo assim. Independente de quem olhasse para suas orbes âmbar, poderia ver a derrota refletida nelas. Só o fato de que esteve a um passo de ignorar o treino marcado para desmaiar na cama e descansar era, por si só, preocupante. Não sabia sequer como havia conseguido chegar ali naquele dia.

Para piorar sua degradante condição, aquela era a quarta e última semana de treino do mês. Ou seja, na opinião de Dai e seus pupilos, era o dia perfeito para uma sessão dedicada quase exclusivamente a combates reais, com seu primeiro oponente sendo Togami e sua hiper velocidade. 

— Corte Flamboyant!

O florete envolto em mana alaranjada dançou rente ao rosto de Togami, que desviou com certa facilidade. Sabia que ele era rápido, mas desde quando era rápido o suficiente para não ser atingido nem à queima roupa por golpes de uma arma tão leve? “Há uma grande diferença com relação ao começo das aulas”, pensou, pouco antes de ser sua vez de repelir um ataque horizontal. O choque doeu mais do que o esperado.

Do canto do olho, pôde ver o professor e mestre de ambos, Dai, anotar algo em seu caderno. O nervosismo não a deixava pensar direito, dificultando suas reações e errando a sincronia de sua lâmina com o corpo do adversário. Na sua concepção, desde o pareamento, a derrota já havia sido escrita em pedra — quaisquer que fossem suas tentativas, seriam frustradas pelo puro talento de Shinwa e sua deidade. 

Duas palmas altas e todos pararam, como era combinado antes de quaisquer lutas supervisionadas pelo professor de Controle Divino. O foco caiu sobre a silhueta larga e de pele escura, que não mais segurava seu diário de anotações.

— Muito bem, vamos fazer uma pausa de dez minutos. — Todos desmancharam suas armas em mana. A princesa das fadas agradeceu cedo demais. — Senhorita Koufuku, preciso de um segundo de sua atenção.

Akane notou a herdeira ao seu lado congelar no lugar. As mãos trêmulas posicionaram-se nas laterais do corpo enquanto ela marchava, em silêncio, em direção ao homem: teria ele percebido sua indisciplina? Qual seria a punição por tamanho desrespeito à boa vontade do docente em ensiná-los fora de seu horário de trabalho?

Milhares de cenários desfavoráveis ecoavam em sua mente, retroalimentando uns aos outros e elevando seu batimento cardíaco. Não sabia se por medo, pelo cansaço ou pelo calor excessivo para uma tarde de outono, mas poderia desmaiar a qualquer instante. Seria uma ótima forma de conseguir seu merecido repouso e, quem sabe, suportar por mais algum tempo o estresse gerado pelas avaliações mensais.

— Sim, professor Onishi, senhor… — Mascarou os sentimentos com o máximo de polidez que conseguia. — Deseja fazer algum comentário acerca de minha performance, suponho?

— Correto. Sente-se. 

— Obrigada.

Em um gesto de cavalheirismo, ele inverteu de posição com a garota, que sentou-se no banco de pedra. O corpo inteiro de Hanako relaxou visivelmente, confirmando o palpite de Dai. Sua aluna estava mesmo na pior condição possível para frequentar um treino pesado, e ainda assim fez questão de aparecer.

A ruiva se assustou quando seu mestre ajoelhou-se diante dela sem aviso.

— O-O qu…

— Senhorita Koufuku, hoje não é um bom dia para a senhorita — atestou o professor, complacente. — Estive observando seu desempenho, e a queda dele no exercício de hoje não é o que estava esperando. O que houve?

Não esperava, jamais, aquelas palavras. Como se sentisse toda a carga emocional e física dos últimos sobre seus ombros, a postura de Hanako desmoronou em um piscar de olhos. Queria muitas coisas: o abraço da sua mãe, um docinho, sua cama, chorar… Este último, nem precisaria esperar, pois a água começou a acumular-se sob os olhos âmbar contra a sua vontade. Para sua sorte (ou azar), estavam sozinhos e ela estava de cabeça baixa.

Embora tentasse muito, nenhuma palavra saía de suas cordas vocais — sentia que, assim que abrisse a boca, desabaria de chorar e não teria a menor capacidade de lutar contra sua vergonhosa atitude de criança mimada. Repetia palavras de motivação e repreensões ao seu comportamento para tentar, em vão, reposicionar a máscara de princesa perfeita sobre si.

Afinal, não havia nada de errado. Era só uma semana mais exaustiva do que o normal, em conjunto com a possibilidade que estivesse naqueles dias, o que a deixava emocionalmente instável. Titania a avisou mais cedo do fluxo de mana bagunçado em seu interior.

— Eu… eu s-só estou cansada — murmurou, entre soluços baixos — cansada das avaliações, dos trabalhos, da Re… Chiwa sendo uma insensível! Tudo!

— Vejo então que não é cansaço apenas. — Dai estendeu um lenço amarelo para ela, junto de uma garrafa d’água. — A senhorita ainda é jovem. Não precisa deste nível de autocobrança, tem muito pela fren…

— Eu quero s-ser mais forte!

Diferente do seu usual tom composto, o desejo de Hanako saiu de sua boca em alto e bom som. O professor, pego de surpresa, colocou-se de pé para encará-la de cima, como se avaliasse a genuinidade de suas palavras — a tensão voltou ao peito de Hanako, cujos batimentos alcançavam seus tímpanos.

— E por quê? — De início, a pergunta a confundiu. — O que te faz levantar todos os dias e lutar pelo que acredita? A ser mais forte?

Se fosse para ser sincera, muitas coisas poderiam ser sua motivação. Sua mãe, seus amigos, seu reino, ele… todos eram opções muito válidas e seriam aceitas por Dai como respostas apropriadas. Porém, algo diferente estava entalado em sua garganta há muito, muito tempo.

Daquela vez, não seria pelos outros que se esforçaria. As silhuetas de Reiko, Togami, Tatsuyu e todos os seus colegas passaram em sua mente, sempre de costas para ela. Não queria ficar para trás.

— Não quero só não ser um peso. Eu quero poder lutar ao lado dos outros! — declarou a princesa, por fim. — O-Ou, pelo menos, poder ajudar quem estiver na frente!

A ponderação de Dai teve um resultado positivo, e este logo mostrou o mais próximo que conseguia de um semblante satisfeito. Hanako estendeu o lenço de volta para seu dono, que o recusou e seguiu na direção dos demais alunos. “Eles atrasaram, esses malditos”, pensou.

— P-Professor, seu…

— Guarde contigo. E, sempre que estiver desacreditando de si… — Dai não se virou para falar. — lembre-se que eu a escolhi como discípula. Entendeu?

— S-Sim, senhor! 

— Senhores e senhoritas, eu havia dito dez minutos! De volta ao campo!

 

 

— Às vezes, Dai, você nem parece o meu Guardião. 

— O que quer dizer?

— Olha a alegria da princesinha! Você já foi mais duro. — O deboche na voz do guerreiro forçou o professor a revirar os olhos. — Teria a Chama Implacável desistido de queimar tudo ao seu redor?

— Silêncio, Sieg.

Siegfried, o Caçador de Dragões, estava correto — após as palavras inesperadamente gentis do docente, havia muito mais vivacidade nos voo ágil de Hanako e suas asas arco-íris. Com mais de uma década de experiência lecionando, ele sentia que estava conseguindo se tornar um professor melhor.

Ainda assim, havia um longo caminho a percorrer. Suas memórias, tanto passadas quanto atuais, ainda estariam ali para lembrá-lo de sua jornada e de todas as falhas presentes nelas. Como comandante, falhou uma vez com seus subordinados e não poderia repetir este erro. “Me pergunto se é isto que Taniko vem sentindo…”, refletiu, distraindo-se por alguns segundos do campo de batalha.

— Ah, Togami, cuidado! — Ouviu a voz de Akane chamar, do outro lado do campo.

O breve desvio de atenção foi suficiente para uma quantidade muito maior do que o esperado de mana atravessar o campo em direção à Togami, que confrontava Shino em um duelo feroz. Pôs-se em posição de avanço, o escudo de madeira e magietra pronto para intervir em defesa de seu aluno.

Sua preocupação se mostrou infundada. A mana branca do plebeu o envolveu pouco antes de ser atingido pelo feixe de energia e, num piscar de olhos, ele estava ao lado de Dai como se nada houvesse acontecido. O homem o encarou, embasbacado, dar um soquinho no ar em comemoração a seja lá o que tinha feito.

— T-Togami! Tá tudo bem? — Akane agarrou o braço dele para inspecioná-lo de cima a baixo. — Não se m-machucou? Desculpa, p-perdi a paciência com o senhor Shogi!

— Ei, o que eu tenho a ver com i…

— Funcionou! Uma vez na vida você foi útil, Metatron! — anunciou o baixinho, sem se importar com a preocupação de todos ao redor. — Professor, cê viu essa? Foi um Luz Fugaz perfeito!

— Um o quê? — repetiu Dai.

— Luz Fugaz! É o nome que dei pra essa técnica de supervelocidade! — “Esse aí é o gênio que não bate bem, pelo visto”, confirmou o docente. — Metatron me deu uma dica de que, se eu me concentrasse o suficiente, conseguiria fazer isso! Legal, né?

Enquanto o garoto era recheado de perguntas e elogios de seus colegas de treino, a mente de Dai vagou para bem longe da situação. Todos os relatórios acerca de Togami, sem exceção, mencionavam o elevado grau de genialidade mágica daquele harenariano desconhecido pelo alto escalão da Longinus. Sem uma origem para traçar, os professores foram instruídos a ficarem de olho nele.

Embora seu poder fosse assustador, nada nele indicava rebeldia ou maldade — era bem relacionado, demonstrava algum esforço nas matérias teóricas e, apesar de combativo, era bem gentil com os demais. Estava longe de ser o mais técnico da turma, quando comparado à Zuko.

Era impossível ignorar, contudo, como as coincidências pairavam ao redor dele. Da maestria que mostrou no exame de entrada aos muitos estilos diferentes com a magia de luz nas aulas de Palas, quase todas as habilidades demonstradas pareciam réplicas de poderes de muitos notórios membros da Longinus.

A “Luz Fugaz”, como Shinwa havia apelidado, era uma cópia mais fraca do Passo do Deus de Trovão, de Shiro Sorako. Com o sumiço do homem desde o início de fevereiro, não havia como Togami ter conhecido aquela técnica pessoalmente, o que lhe enchia de dúvidas. 

Como? De onde vinha a capacidade de imitar, ainda que de modo imperfeito, os movimentos de tantas pessoas com as quais nunca interagiu? Todos os colegas dele sempre apontavam sua ignorância com o mundo ao seu redor, não tinha como ser coincidência. E Metatron, pelo visto, estava envolvido em todos os passos daquela incógnita ambulante.

Mais tarde, teria que agendar uma reunião urgente com Kotomi para discutirem as possibilidades. Até lá, continuaria a manter o potencial latente de Togami Shinwa sob sua constante observação.

 

 

30 de Março de 4818 - Continente de Cielunia, Reino de Bliz, Palácio Real de Glacia

 

Alegria seria um eufemismo para o sentimento que preenchia o interior da Guardiã de Jofiel naquele momento. Assobiando pelos corredores em tons frios do tão conhecido Palácio Real de Glacia, os cabelos loiros de Mayumi balançavam com as passadas dançantes que a moça dava. Felicidade estava estampada em seus lábios enquanto admirava a chave feita de gelo mágico.

— Dei sorte de esbarrar no Kiki logo cedo — cantarolou. O rodopio alegre daquela mulher bonita atraiu os olhares de alguns serviçais. — Um saco ele estar sempre em reuniões. Ignorar uma moça bonita dessas na sua frente pra ir sentar com uns velhos? O que ele tem na cabeça?

— Talvez a maturidade que lhe falte, Mayumi.

— Xiu, Jofiel!

A afirmação do Quarto Arcanjo provou-se verdadeira, uma vez que a reação da loira foi fazer o biquinho mais infantil possível. Por vezes, questionava-se de sua decisão na hora de escolher seu receptáculo — também tinha pena do recluso rei de Bliz, condenado sem culpa a ser perseguido pela tempestade tropical dos sentimentos de Nekoren. 

Várias vezes tentara, admitia, afastar sua Guardiã daquela obsessão mesquinha e sem sentido, sempre sem sucesso. Como uma deidade tão antiga quanto a existência de Ouras, era incapaz de compreender sentimentos fúteis: por que buscar tão incansavelmente por algo que em nada a tornaria mais forte? 

Mesmo a visita daquele dia era uma má otimização do pouco tempo livre entre os trabalhos de modelo e capitã. Tempo esse que seria desperdiçado por Mayumi para atormentar o novo monarca com seu amor sufocante; era capaz de tolerar as ações dela apenas porque, muitas vezes, percebeu a aura azul-celeste de Yukihane fraquejar diante dos avanços. Não o suficiente, claro.

— É o quarto de sempre, então tenho que virar à direi…

— Mimi? 

Do quarto escuro ao lado de Mayumi, que congelou no lugar, um sussurro feminino ecoou das sombras. Pela fresta da porta entreaberta, pode ver duas orbes esmeraldas encararem-na de baixo a cima, estudando cada traço de sua silhueta. Ambas permaneceram em suas posições, imóveis, por alguns segundos.

Uma mão pálida, adornada por joias vermelhas, escapou da escuridão na direção da Guardiã — mais especificamente, na direção de seus cabelos. Antes que tocasse um fio sequer, a desconhecida suspirou e seus olhos perderam todo o brilho efêmero de antes. Mayumi sentiu a aura mover-se.

Do cômodo, revelou-se a figura de uma mulher de cachos e vestes negras, cuja qualidade e beleza eram palpáveis. Seu caminhar era vagaroso, como se algo invisível delibitasse seus movimentos elegantes. Apenas quando colocou os olhos prateados no colar, com uma única pedra mágica em seu centro, foi que a Guardiã de Jofiel reconheceu-a de fato.

— Oh, Contadora de Mitos… Perdoe-me minha indelicadeza — saudou Mayumi, com uma mesura respeitosa — mas não sou quem procura.

— O Crepúsculo clamou por um sacrifício. Uma vida e uma alma, a eles entregues para que o tear da mudança entrasse em ofício.

— Perdão?

— Tudo está destinado a transformar-se assim. Luz ou escuridão? Paz ou solidão? Um demônio ou um serafim? Um paradoxo eterno, uma lembrança do céu, uma memória do inferno.

As palavras ditas por Kiyo desde que começou a frequentar o palácio de Bliz ganharam sentido diante do recital macabro da Contadora de Mitos. Há muito tempo, fora alertada do caso daquela mulher morena com olhos distantes e falas desconexas — o triste caso de uma casca vazia, guiada apenas por loucura e luto. 

Em um gesto de bondade e pena, a loira pegou-a pelo pulso para guiá-la até onde teria certeza de que estaria segura.

 

 

— Com licença, Vossa Majestade e senhor Tsukishi.

Mayumi não aguardou resposta, adentrando a sala do trono logo após duas batidas. O anfitrião estava pronto para repreendê-la, até perceber a silhueta mediana atrás da jovem e indicar com os olhos para seu conselheiro fazer o mesmo. O horror na expressão de Tomoya apertou o coração do rei.

— Junko! — O nobre segurou as mãos de sua esposa com ternura. — O que faz fora do quarto sem mim? 

— Mi… mi — chamou, apontando seu indicador à garota ao seu lado. — Ca…sa.

O silêncio ensurdecedor era desconfortável para todos os presentes, com exceção da mulher incapaz de raciocínio coerente. Pela dor nas íris castanhas do homem mais velho no recinto, discutia consigo mesmo sobre como destruir a doce ilusão de sua amada, como Mayumi havia feito minutos atrás e não havia surtido o devido efeito.

Mimi não voltaria para casa. Afinal, não havia casa para voltar.

— Não, Jun… ela não é a nossa menininha.

O rosto de Junko Tsukishi procurou o da loira. A cena anterior repetiu-se, com a mulher estudando a aparência da estrangeira antes de suspirar e balançar a cabeça. Trêmulas e frágeis, as mãos dela buscaram conforto em seus próprios cabelos, usados por ela para ocultar as bochechas fundas. 

— Fio… vermelho. Roxo… olhos. Escuro, muito escuro.

— Acho que precisamos ir. Peço desculpas por interromper nossa reunião, Majestade — desculpou-se Tomoya, incapaz de desviar o foco de sua mulher. — Não é seguro para Junko.

— Como se eu tivesse o direito de impedi-lo, senhor Tsukishi — brincou Kiyo. O conselheiro apertou a mão do rei, que se levantou. — Continuemos em um momento mais oportuno. Por ora, este assunto é mais importante para você, não teria cabeça para discutir mesmo que o forçasse.

— Admiro sua percepção e sensibilidade. Isto apenas me faz ter certeza de que meu apoio a ti foi a melhor decisão naquela época. 

No rosto gélido do Guardião de Psonen, Mayumi percebeu um mínimo sinal de emoção. Conhecendo-o como conhecia, não era nada de bom, uma vez que nem reagiu à despedida dos Tsukishi. Ainda assim, ela o acompanhou pelos longos e torturantes minutos em que o rei permaneceu em inércia, mais calado que o normal. Por experiência, Kiyo não a escutaria ou reagiria aos seus estímulos.

Sem chorar, sem falar, sem se mover. Yukihane não expressou nada fisicamente, pois não era digno da piedade dela ou de seus súditos. O mundo ao seu redor tornara-se um oceano silencioso, sufocando-o com suas águas, frias até para o rei de gelo. Tentou nadar para a superfície, onde sol o alcançaria e seria liberto do miasma maldito nele impregnado.

Em vão. Todo o seu esforço, como sempre, era inútil — restava-lhe aceitar a força das águas e orar pela sua benevolência de lançarem-no à terra. Sozinho, com sua única companhia sendo o vai e vem das bolhas d’água ilusórias ao seu redor, aguardaria sucumbir à correnteza do vazio.

De repente, um calor morno em seus dedos o puxou à realidade, antes que o desespero consumisse por completo sua mente. A sensação súbita de voltar a sentir desnorteou seus sentidos, quase o fazendo perder a estabilidade, ao passo que a sensação de enjoo fisgou seu estômago. A mulher ao seu lado o encarou.

Mayumi dispensou qualquer formalidade ou autorização para agarrar sua mão. Em um cenário normal, Kiyo desviaria de seu contato ou apenas mandaria soltá-lo, mas não foi o que aconteceu: a primeira coisa que fez foi cobrir os dedos cálidos da jovem com os seus — um sinal de fraqueza mais forte do que ele pôde suportar. 

Sentia-se mal por acorrentá-la a si, por não saber como recusar os sentimentos dela e libertar a garota da prisão da incerteza, será que ela o abandonaria? A ideia lhe fazia mal, ainda que parecesse o mais racional e gentil a se fazer. Aparentemente, nenhum de seus pensamentos era sequer partilhado pela loira e seus olhos prateados.

— De volta, Kiki? — indagou a dama, com um sorriso. Pelo olhar a ela direcionado, sua resposta era afirmativa. — Que bom. Desta vez, foi rápido. 

— Não precisa ficar.

— E ainda assim, eu escolhi ficar. Eu sei, sou incrível, não precisa agradecer.

A brincadeira dela não surtiu efeito. Desfazendo o contato físico e visual com Mayumi, o rei ajustou suas vestes brancas e inspirou fundo para retornar por completo aos eixos. “Não posso ficar parado, estou atrasado”, pensou. Logo antes do almoço, teria um evento no qual foi requisitado por alguns membros da Vanguarda do Céu.

Sua atitude distante, ao contrário do esperado, não entristeceu sua companheira. Havia um olhar de cumplicidade, como se a frieza com a qual foi tratada não a incomodasse em nível algum. Tudo que ela fez foi admirar, apaixonadamente, os movimentos de Kiyo, com aquelas íris hipnóticas e gentis.

— Kiyo.

— Desculpe.

— Até quando você pretende continuar com isso sozinho?

— Até eu ter uma resposta para tudo isso, Mayumi. — De novo, amargura temperava suas palavras. — Foram os Tsukishi que perderam tudo naquela noite. Tudo por eu tê-los escolhido.

— As ações do seu irmão caberiam apenas a ele — insistiu a capitã, firme. — Você sabia da índole dele, Kiyo. Só não podia acreditar que ele ia descer o nível ainda mais.

— Mesmo assim, quem resolveu foi o General Sorako — rebateu o monarca. O gelo contornava a sola de seus sapatos. — Não há nada a ganhar comigo, Mayumi. Não enquanto eu não trouxer paz ao coração da senhora Tsukishi.

— Então…

Mayumi se pôs na frente dele, para que não pudesse prosseguir sem olhá-la diretamente. Sua aura rosa encobriu-os com uma sensação confortável de calor, algo muito diferente do sentido por ele antes. Melodias líricas acalmaram suas ideias e limparam a sujeira de sua mente.

Acima de todos os outros fatores, as mãos da loira em seu rosto eram a principal responsável pelos batimentos ritmados de seu coração.

— Eu vou te esperar, Kiki. Eu já esperei tanto, mais alguns anos não farão diferença — riu ela, sem rodeios, ao afastar as mãos dele. — Mas hoje eu quero jantar com alguém. E se você não estiver a fim… terei que achar outra pessoa pra isso.

— Tsc. — O estalo de língua foi nítido.

— Sei o que isso significa, queridinho! Portão Sul, às 19 horas, viu?

Tal qual sempre fizera, Mayumi levou consigo as preocupações do jovem para bem longe uma vez que cruzou o batente para seguir o caminho até o quarto habitual. Não precisaria escutar a resposta do governante para saber, apesar das repetidas negativas, que ele estaria lá conforme orientado.

Afinal, havia apenas uma pessoa no mundo capaz de derreter o coração do inverno. Através de muita insistência, a vitória seria certa.

 

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