Volume 1
Capítulo 8: O Homem dos Olhos de Serpente
— Como ousa?
Shihan levantou-se de seu trono, circundado em sua aura azul. Segurado por seu filho, estava sedento para condenar aquele garoto por tamanha insubordinação — preparava-se para descer à arena.
— Shihan, pare — ordenou Taeka, com frieza. — Quero avaliar esse garoto, então se controle.
A Líder Suprema estudou a aparência do garoto enquanto acendia um novo cigarro. As roupas indicavam não pertencer à nobreza, e também não era fisicamente robusto. De fato, parecia apenas uma criança.
Contudo, ela havia percebido a presença dele desde o momento que ele se aproximou da arena, tamanha era sua aura — a cor branca era um detalhe adicional deveras curioso, bem como o cabelo em degradê.
“Um Abençoado? Para chegar à arena no intervalo que chegou, um especialista em velocidade…”, deduziu a loira, escutando os comentários da plateia ficarem cada vez mais altos.
— Um harenariano…
— O que esse rato sujo está fazendo?
— Sempre um deles causando problemas…
Reiko segurava-se em seu assento para não se rebelar. Embora estivesse tão chocada quanto os demais pela entrada repentina de um novo elemento em pleno espetáculo, para proferirem insultos tão pesados na presença do representante daqueles que ofendiam era um desrespeito sem igual.
Taeka Haruki não teve a mesma sensibilidade para pisar em ovos.
— Não digam tais ofensas em minha presença! — ordenou a mulher, sem rodeios. — Amaka, deixe Naochi testá-lo. Afinal, é a honra do “Fio Fantasma” do seu aluno que está em jogo aqui.
— Todo prazer, mestra Haruki. Usarei os meus punhais ao seu serviço!
Com um salto suave e uma pirueta performática, o rapaz pousou em frente ao seu adversário. Limpou os ombros de seu uniforme da Longinus, de detalhes magenta como sua aura, com um sorriso presunçoso no rosto; a diferença de altura entre eles era considerável.
— Então, eu tenho que lutar com você? Uma criancinha de um metro e meio? — debochou o discípulo de Amaka, com uma entonação que beirava o menosprezo.
— Eu te garanto que posso fazer esse seu rostinho bonito ficar bem fudido.
— Não acho que você saiba usar um terço da aura que emite sem se machucar — retrucou enquanto analisava suas unhas de esmalte azul — o que é uma pena. Gosto de rapazes fortes.
— Deixa que eu ajudo ele então!
Das arquibancadas, saltou um novo intruso, cujos olhos rubi queimavam com a excitação. Assim como o primeiro, usava roupas comuns, embora fosse bem mais alto — o garoto de cabelos em degradê o reconheceu.
— Tatsuyu Fukushu? — murmurou, chocado.
— Eu mesmo — riu o rapaz, virando em seguida para Naochi. — Ter educação é o mínimo. Esqueceu de perguntar o nome dele!
— E por que eu deveria me importar? Por mim, eu mataria esse cara aqui e agora por acusar um grande amigo de ser uma fraude.
— Eu vi o fio.
As palavras do rapaz de cabelo monocromático atiçaram algo no jovem mais velho entre os três. Os olhos violeta dele perfuraram a alma de Tatsuyu, como quem buscava uma mentira nos menores gestos dos invasores.
— O que disse?
— O fio de mana que estava ligado ao punhal mágico que você cravou nas costas da princesa — reiterou o baixinho com seriedade. — Nem ela deve saber que foi enganada. Ele sumiu logo depois que você acertou ela no meio da luta, mas o fio continuou ali, preso a ela.
— Se mais ninguém além de você viu esse fio, como pode provar que não passa de uma desculpinha para invadir um evento da nobreza?
— Assim.
Nenhum dos dois se moveu. Segundos depois, o rosto de Naochi contorceu-se de raiva e ele levantou o braço de modo defensivo. O vento causado pelo choque entre dois objetos invisíveis deixou claro que havia algo de errado.
— Ocultar mana não é um conceito complexo, apenas pouco divulgado. Vocês enganaram até um dos seus para criar uma superioridade que não existe pra aquele cara. — Desprezo fora derramado pelo garoto, de uma forma semelhante ao que Tatusyu se lembrava da situação que estiveram há um mês atrás.
— Depois de tantas ofensas, acho que devo me apresentar! Naochi Shogi, Segunda Cadeira da Academia de Palas, ao seu dispor — apresentou-se o loiro, ignorando a hostilidade anterior. — E quem seriam vocês, plebeus de Dracone?
— Tatsuyu Fukushu.
— Togami — sussurrou o baixinho. — Hora de fazer você pedir desculpas para a princesa.
Colocaram as espadas em riste, prontos para iniciarem um ataque conjunto. Antes que pudessem se mover, uma aura sombria os envolveu, restringindo os movimentos de ambos — diferente da mana de Naochi, Togami não teve a menor possibilidade de rastrear essa.
— Quanta confiança para alguém que não está atento à própria sombra — brincou uma quarta voz atrás deles. — Ensinarei a vocês uma lição sobre respeito a um veterano.
Das sombras dos portões de entrada, um rapaz loiro um pouco mais alto do que Tatsuyu surgiu aos olhos do público. Vestido em um uniforme da Longinus com detalhes brancos, sua pele parda fazia um bom par com os olhos vermelho-coral.
Suas pupilas causaram calafrios nos dois garotos imobilizados. Finas e verticais, assemelhavam-se às de uma serpente e estavam totalmente fixas neles. A aura negra intimidadora ao seu redor envolvia também a grande espada de duas mãos de lâmina púrpura que carregava despreocupadamente.
— Sou Koushi Fuyusen, Primeira Cadeira da Academia de Palas. Eu também serei seu oponente.
Koushi surgiu atrás de Togami e Tatsu em um piscar de olhos. Sua presença mágica era esmagadora e, diferente da pressão de Taeka, era maléfica — senti-la causava náuseas em Togami. Se perguntassem em qualquer outro cenário, tinha certeza de que o confundiria com um vilão.
Os dois loiros se colocaram um ao lado do outro e a dupla de plebeus foi liberada de sua prisão de sombras. Naochi fez dois punhais prateados surgirem em suas mãos: entalhados nas lâminas em dourado, os números 1 e 2 eram uma incógnita para Tatsuyu, que buscava em seus adversários alguma informação para combatê-los.
— A-Assim que a moeda tocar o chão, o duelo não oficial irá começar! — anunciou o juiz, ainda perdido. — Estão preparados?
Os quatro assumiram posições de preparação, concordando em silêncio. Togami estudou as auras e movimentos de Naochi e Koushi com atenção. “São perfeitas demais… É como se estivessem limitando ao mínimo possível, mas ainda sou capaz de sentir toda a pressão que causam”, constatou o rapaz, assustado com a harmonia corporal.
Inspirou uma última vez antes da moeda tocar o solo, para afastar a negatividade. Era uma batalha difícil, mas com certeza não impossível. O tilintar leve do metal encontrando a terra iniciou de vez o conflito.
Togami disparou em alta velocidade contra Naochi, que aguardou a aproximação do adversário. Com um giro em seu eixo, pegou força o suficiente para prender a espada do atacante entre seus punhais. Naochi sorriu, e Togami também.
— Lâmina de flash!
Pego de surpresa, o loiro recebeu por completo o brilho ofuscante emitido pela arma. O ataque de Togami às pernas do loiro só não funcionou pelo disparo de energia escura que veio em sua direção.
— Truquezinho bom, pirralho — riu Koushi, o encarando — mas isso não funciona comigo. Sombra e luz são naturezas opostas.
Togami esquivou de mais um rajada de energia negra. A aura de Koushi expandiu-se por seus braços e vazou de maneira disforme, como uma rede sobre a dupla. Quando a matéria escura começou a se mover como serpentes, era tarde demais.
— Cobra Sanguinária! — O nome da técnica indicava tudo que precisavam saber.
As chamas de Tatsuyu evitaram que seu companheiro fosse mordido. Naochi, recuperado de sua breve cegueira, tomou a dianteira para aproveitar a brecha criada por seu parceiro de batalha.
Na arquibancada, Reiko havia deixado seu assento para observar melhor a batalha. Um misto de sentimentos tomava conta de si — quem eram aqueles que estavam desafiando a ordem? O que buscavam? Se eram capazes de ver algo que nem ela viu, o quão fortes eram?
Tantas perguntas e nenhuma resposta faziam a Guardiã de Atena enlouquecer de curiosidade. Ela queria muito se intrometer e falar com eles.
Zuko, que havia retornado para a área há pouco tempo, tirou a atenção de Reiko por alguns instantes ao caminhar em sua direção.
— Creio que já tenha ouvido falar de “Naochi das Lâminas Róseas”, certo, senhorita Chiwa? — perguntou com grande presunção.
— Claro, como não teria ouvido sobre o segundo melhor aluno em Palas hoje, sem contar os herdeiros do trono?
— Aqueles dois não tem chance — afirmou, convicto, o príncipe — ele recebeu o treinamento diretamente da melhor usuária de mana em toda a Longinus. Dois amadores serão massacrados pela dança dele.
Reiko viu a série de ataques velozes, alternados por rodopios e saltos, ser executado com precisão. Chutes e rajadas de mana também faziam parte do espetáculo acrobático mortal de Naochi.
Zuko, para sua infelicidade, estaria certo.
No campo, Togami defendia-se das lâminas brilhantes do Segunda Cadeira com muito esforço. Ele não tinha abertura para respirar, tamanha era a velocidade do rapaz — seu melhor ali não era suficiente.
— Um mortal seguido de um giro para a esquerda — indicou a voz em sua mente um segundo antes dele ser atingido. — Corte vertical com a mão direita e depois um na horizontal com a esquerda.
De novo, sua deidade estava certa.
— Resolveu trabalhar, Metatron? — ironizou o rapaz, se defendendo de mais um golpe. — Achei que só via o passado.
— Eu estou apenas clareando o que você já tinha percebido. Boa sorte.
— Sua dica é mais que o suficiente, valeu!
A interrupção de Metatron fez Togami perceber os padrões de movimentação de seu adversário. Apesar dos ataques de Koushi, que escapava de sua luta com Tatsuyu vez ou outra, mantinha-se em um ritmo frenético, disposto a encontrar a chave para a vitória.
Quem ria agora era a princesa de Sophis, observando a confiança na face de Zuko quebrar. Palavras não seriam suficientes para descrever a maneira que o interesse de Reiko no rapaz de cabelos degradê a capturou.
— Esse baixinho aí… Que curioso — falou para si mesma, voltando a atenção para a luta.
Por outro lado, Tatsuyu e Koushi travavam um embate desleal. O loiro era superior em qualquer aspecto possível — feridas se espalhavam pelo corpo do Guardião de Hefesto, que não podia fazer nada a não ser lidar com a dor e proteger seu companheiro como fosse possível.
Descobrira também, para sua infelicidade, que a espada roxa de Koushi não era apenas muito afiada como continha um veneno anticoagulante. Queimava alguns de seus ferimentos para cauterizar, mas logo voltavam a sangrar, causando-lhe forte tontura.
“Rápido e forte, além de magicamente superior. Tenho que pará-lo logo ou vou cair duro de hemorragia”, analisou Tatsuyu, defendendo mais um golpe horizontal.
Apesar do bloqueio, uma das serpentes negras de Koushi mordeu profundamente seu ombro. O rapaz incinerou o “animal”, e a sua fraqueza aumentou.
O Primeira Cadeira percebeu quando seu inimigo assumiu uma postura repentinamente agressiva. Tatsuyu, aos olhos dele, estava desesperado e carente de opções para vencer.
— Forja Explosiva! — gritou o rapaz de cabelos pretos enquanto corria ao redor do campo.
Esferas negras de fogo explodiram, criando uma cortina de fumaça escura. Num tudo ou nada, o Guardião de Hefesto pulou para um ataque direto com sua espada — havia usado todas as suas cartas na manga.
Óbvio que o melhor guerreiro em treinamento de Palas não seria vencido pela falta de visão. Koushi moveu sua lâmina sem demora para bloquear o golpe.
— Ponto de Quebra!
Togami já havia visto essa técnica. Assim como ocorreu com ele, Koushi baixou a guarda achando estar seguro, o que fez sua lâmina ser partida ao meio. Perder sua arma de supetão fez o Primeira Cadeira ficar sem saber o que fazer.
Shiro Sorako, que também via as batalhas da entrada da arena, ficou embasbacado. “Não foi força bruta nem magia. Foi puramente técnica, nada mais”, analisou em sua mente. Nas várias vezes em que viu uma arma espiritual ser estilhaçada, havia uma disparidade gritante entre os oponentes.
Aqui, por outro lado, Koushi era o mais forte aluno da Academia de Palas inteira. Era o primeiro em uma década a ser cotado ao cargo de capitão antes dos vinte anos de idade, possuía uma talento mágico singular e era Guardião de uma deidade há muito tempo.
Se havia alguém que ele não esperava ter a arma quebrada, esse alguém era Koushi Fuyusen.
Tatsuyu detectou essa hesitação minúscula como sua abertura. Emendou sua investida com outro balanço de sua espada, pronto para encerrar em um único ataque. O rapaz teve o breve vislumbre de algo brilhar sob a luz solar, cortando o ar em sua direção.
— Koushi, abaixe!
A ordem de Naochi foi obedecida de imediato. O punhal de brilho magenta atingiu o torso de Tatsuyu, após ser arremessado em um momento de descuido de Togami.
Perfurado pela lâmina, o Guardião de Hefesto caiu inconsciente, tomado pelo choque de dor — o objeto atravessara seu corpo, então certamente não tinha chances de levantar naquele momento. Koushi inspirou profundamente enquanto encarava os fragmentos de sua arma desaparecerem em partículas negras.
— Tatsuyu! — clamou Togami, desviando o foco de sua luta. — Levanta, ainda não acabamos!
A interrupção breve de seu fluxo de pensamento, causado pela preocupação com o parceiro de luta, foi o bote final. Sentiu uma pressão atingir seu peito com força e, de repente, não era mais capaz de respirar. Seu tórax latejava de dor.
— Quebrei algumas costelas só por garantia — explicou Koushi, vendo o rapaz se debater no chão. — Ele não vai fugir agora. Me controlei o suficiente para não permitir que estilhaços perfurem seus órgãos internos.
O loiro agachou ao lado de menino invasor e deu um golpe de piedade preciso na nuca dele. O corpo de Togami tornou-se inerte e a sensibilidade de seus ouvidos foi diminuindo cada vez mais, entre assobios, elogios e um grito de desespero vinda da arquibancada.
— Tatsuyu!
Foi a última coisa que o garoto escutou antes do silêncio ensurdecedor.
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