Volume 1
Capítulo 9.1: Caminhos cruzados, destinos entrelaçados
Togami estava imobilizado. Como assim ele havia desaparecido? Isso nunca aconteceria. Não com alguém do calibre dele, embora o mensageiro estivesse dizendo exatamente o que fora designado a falar.
O rosto de sua mãe, tão alegre momentos antes, desfez-se em lágrimas enquanto sua irmã mais nova demonstrava em sua face a confusão sobre o porquê da tristeza. Togami não tinha as palavras necessárias para realizar o trabalho de irmão mais velho e ensinar a irmã naquele momento.
Afinal, nem ele sabia o que era o luto.
O tempo voou por um instante — agora, estava no pequeno funeral. Seu eu do passado não percebeu na hora, porém ela também estava sendo enterrada com ele. Como gostavam de dizer, o amor deles transcenderia barreiras.
As roupas negras lhe causavam asco. Togami queria ir embora, queria ir estudar para ser como o rapaz cujo corpo não fora encontrado para poderem se despedir dignamente. Era incapaz de aceitar a dor. Tudo que passava em sua mente eram as poucas palavras que o guiaram desde que se entendia por gente.
A luz forte o atingiu em seu esconderijo na floresta. Aquele que havia herdado, por assim dizer, do jovem que enterraram mais cedo. A frase que o moveria clareou-se em sua mente.
Quero vê-lo de novo.
O brilho forte das paredes de mármore branco polido inundou a visão embaçada de Togami, que mantinha os olhos semicerrados para não ser cegado pela luz. Seu raciocínio ainda estava lento — não era capaz de distinguir a quem pertenciam as silhuetas que caminhavam ao redor da cama que estava deitado, nem suas vozes.
O ar entrava por seus pulmões com imensa dificuldade. Não tinha a mínima ideia como havia chegado ali. Sua última lembrança foi ver Tatsuyu ser atingido e, então, desmaiar.
— Ah, ótimo, você finalmente acordou, porteiro de maquete. Ou será que é porteira? Seu cabelo é meio longo e você é baixinho.
Dois grandes olhos verde-piscina preencheram seu campo de visão, encarando-o com curiosidade. A têmpora de Togami tornou-se aparente com a raiva que sentiu da mulher, o que o fez levantar o braço.
Não tinha noção de que doeria tanto apenas para mover os músculos. A mulher a sua frente percebeu seu desconforto, aplicando mais uma dose de analgésicos sem mais palavras. Ela era boa de achar as veias de Togami.
— Eu não me mexeria se fosse você. O senhor Houseki pode até consertar o corpo, mas as dores mais fortes não somem na mesma hora — comentou didaticamente a moça de cabelos pretos. Togami não sabia deduzir sua idade. — Koushi é bem habilidoso. Eu teria exagerado e perfurado pelo menos um dos seus pulmões com aquela cotovelada magnífica.
Demorou um tempo até ele conseguir pronunciar algo de maneira apropriada. Sua boca ainda estava um pouco dormente e a falta de ar era penosa, bem como a secura típica do despertar.
— Onde está… o Tatsuyu? — balbuciou o garoto na cama.
— Na unidade ao lado. Naochi não pegou leve, então o trabalho do senhor Houseki foi um pouco mais complicado.
— Quem… é… você?
— Suika Jishima, comandante do Exército Real de Yggdrasil e major do Esquadrão das Montanhas da Longinus — apresentou-se com uma saudação militar — e, também, a Guardiã de Aquiles.
Suika ajustou uma de suas marias-chiquinhas negras. Embora vestisse roupas mais casuais — sandálias púrpuras, uma saia esmeralda e uma camisa social feminina branca —, sua aura vermelha-escarlate indicava que ela não estava ali a passeio.
Togami sentia-se à vontade na presença dela, apesar da pressão mágica. Saber que sua carcereira pertencia à maior organização militar do planeta o fazia acreditar que não estava ali para executá-lo. Não por hora.
— Me enviaram aqui para ficar na vigia enquanto você estava inconsciente. Sua Majestade está resolvendo a crise diplomática que você causou ao acusar um nobre de fraudar um duelo real.
— Não é uma acusação, era verda…
— Você pelo menos tem noção do que fez ou seu intelecto é proporcional ao seu tamanho?
Togami mordia o lábio com raiva — sabia muito bem que sua atitude era um crime, e que as repercussões seriam desastrosas. Ainda assim, não voltaria atrás em sua convicção.
— Só fiz o que eu achava certo! — reforçou ele, agora sentado com as costas retas. — E com certeza não se compara ao sentimento de humilhação que a princesa passou.
A mulher descruzou as pernas e inclinou o corpo para frente. Seu pingente de cabeça de dragão balançou diante da visão de Togami, agora oprimido pela aura dela estar tão próxima. Se não fosse por isso, talvez seria capturado pela beleza natural dela.
— Nem sempre o que você acredita é a melhor coisa a se fazer, criança tola — disse ela, retornando à sua posição. — De qualquer maneira, tenho algumas perguntas a você.
— Não pretendo dizer nada sem ser na presença do rei ou de um juiz.
Suika parou de beber sua xícara — pelo cheiro, Togami deduziu ser chá mate — e o encarou. Os braços cruzados confirmavam que o garoto falava sério em se manter calado, o brilho determinado de sua íris única azul quase oculta pela longa franja.
— Embora minha opinião não importe no seu julgamento, você ganhou meu respeito, garoto. — Para a surpresa dele, ela sorriu calorosamente, antes de apontar a cabeça para a porta. — E aposto que uma outra pessoa concorda comigo.
Passos rápidos foram escutados por trás da porta de correr de vidro fosco, que foi aberta segundos depois por uma garota de longos cabelos castanhos ondulados. O sorriso animado em seu rosto combinava até demais com seus olhos azuis radiantes — era a primeira vez que a via na vida, mas Togami sentiu-se cegado pelo brilho dela.
Um arrepio inexplicável percorreu seu corpo quando os olhares deles se cruzaram. Foi uma sensação indescritível.
— Obrigada pela permissão, major Jishima! — agradeceu a menina euforicamente. — Você! Togami, certo?
— E-Eu mesmo.
— Cara, aquilo foi incrível! Achei que ninguém teria coragem de se rebelar contra aquela injustiça, mas você foi lá e se meteu sem pensar duas vezes! Eu nunca teria essa determi…
— Calma, calma, calma, uma coisa de cada vez! Quem é você?
Capturado pelo redemoinho de energia de Reiko, o ar debochado do menino foi completamente neutralizado. Conhecia a mulher que servia de vigia pelo nome, ainda que não soubesse seu rosto até então. A princesa, porém, era desconhecida para ele.
— Reiko Chiwa, primeira princesa de Sophis — apresentou-se com certa pressa — e entrei aqui com a ajuda da major Jishima.
— Mas eu não sou um prisioneiro responsável por causar uma crise diplomática?
— De fato, sim, você era, mas minha mãe está terminando as negociações pela sua liberdade nesse exato momento. Mais uns cinco minutinhos e tudo vai estar tranquilo — atestou a princesa, fazendo uma careta para ele.
Tamanho foi o espanto que Suika engasgou com sua bebida. Um plebeu sairia ileso depois de ofendido um nobre e causado um incidente diplomático monumental? “Shihan não é disso, ele é bem rígido”, refletiu a mulher — sua confusão foi capturada pela sagacidade de Reiko.
— Sei que devem estar pensando sobre o motivo para isso. Quem pediu pela sua liberdade fui eu. — A princesa colocou a palma sobre a lateral direita de seu peito, de nariz empinado. — Sendo sincera, fiquei interessada em você, e a minha mãe teve esse sentimento também.
Togami a observou com descrença. Primeiramente, por sua espontaneidade: do pouco que escutou da nobreza, eram formais, rígidos e muito pouco expressivos, totalmente oposto à Reiko até aquele momento.
Segundo, era o tamanho da generosidade. Ter a vida salva o colocaria em dívida com a família real de Sophis, o que possivelmente seria pago com muito trabalho. Sua guarda subiu por puro receio.
— Tá, acho que posso confiar em você — atestou, contrariando seus preconceitos — mas por qual razão você não ficou ofendida por interromper um evento oficial entre reinos?
A frase dele não soou muito bem aos ouvidos da princesa. As bochechas dela inflaram em irritação, o que Togami achou infantil — fofo, mas infantil.
— Nós de Sophis não pensamos em plebeus como inferiores. Além disso, também venho trazer a “proposta”, se podemos chamar assim.
— Vai me fazer trabalhar até a morte para vocês? — Togami riu com sua própria desilusão. — Não, muito obrigado. “É mais digno morrer livre do que viver em uma corrente”, como diz um ditado harenari…
Nem teve tempo de completar sua resposta. Um tapa forte, sem aviso prévio, foi desferido em sua bochecha esquerda, fazendo-a arder de dor. Ele acariciou o local com a mente vazia por alguns momentos.
Quando encarou Reiko, ela tinha um largo e irritantemente encantador sorriso no rosto. Em deboche, a garota também balançava a mão, como se doesse nela tê-lo agredido.
— Ops, escorregou — justificou por fim, com uma piscadela.
Sem perceber, deixou sua máscara irônica e “controlada” cair.
— Isso doeu, sua desparafusada! — reclamou ao se recompor. Sua cabeça moveu-se rapidamente para desviar de um projétil de magia sólido disparado por ela. — Tá tentando me matar?
— Prazer, “Princesa Falastrona”, maus modos são meu sobrenome — retrucou. Seus olhos transpareciam malícia para ele. — Bem, não que você tenha melhores, mas vou te perdoar dessa vez. Devo ser estranha mesmo.
— Se sabe, por que diabos você não me explica nada?
— É só você parar de me questionar e pelo menos escutar calado por um minuto. Preciso repetir… — Conjurou outro feitiço. — ou vai colaborar?
— Certo, estou escutando.
— Ótimo.
A aura dourada dela deixou claro que não havia espaço para piadas. Togami relaxou no leito, e ela controlou sua emissão de mana para um nível menos ameaçador.
— Quero que você venha com a minha família para a Academia de Camones, em Sophis. Eu vejo potencial em você, e minha mãe quer te treinar pessoalmente — resumiu a menina, curta e direta. — Não vamos te obrigar a nada. Porém, se essa for sua vontade, esteja no castelo de Dracone pela manhã de 5 de novembro. Ah, e vamos pagar tudo.
— Eu já não sou um Guardião?
Aquela pergunta ingênua fez Reiko e Suika, que até então estava em silêncio total, quase irem ao chão de surpresa. A princesa logo tomou o controle de suas emoções de volta, atordoada pela afirmação inocente.
— V-Você tá brincando, né?
— Claro que não. Já sou o Guardião de uma deidade, não tem como treinar pra ser algo que já sou, tem?
— É, princesa, ele está falando sério — murmurou Suika, segurando a risada. — Garoto, acho que está confundindo os termos.
— Como assim?
Suika deixou as palavras de lado. Da pequena bolsa escondida atrás das pernas torneadas, retirou uma pequena insígnia redonda, na qual a imagem gravada era uma cabeça de lança ao redor de uma coruja e uma estrela.
— Você não é um Guardião se não tem isto — explicou a mulher, apontando para o emblema. — Ser Guardião de uma deidade implica apenas que você é um Abençoado ou Amaldiçoado. Ser um Guardião da Longinus é que realmente te dá o título que estamos falando.
— Como bem disse a major, apenas quem se forma na Academia de Palas se torna um Guardião. Eu vou prestar o exame em janeiro, e qualquer um entre 14 e 19 anos pode prestar — complementou Reiko.
— Ah, eu já ouvi falar de Palas! É aquela cidade no meio de Origoras em que todo mundo é insanamente forte! — A faísca infantil da mente de Togami acendeu sua empolgação. — Acho que tinha um na minha vila até… Uns anos atrás.
— Bem, eu tenho quase certeza de que você seria capaz de passar no exame de admissão. Sua habilidade de adaptação em combate foi fantástica mais cedo — elogiou a militar.
Togami ponderou sobre o assunto. O rosto de seus pais passou por sua mente — eles certamente não seriam tão receptivos com a ideia de outro filho se afastar de casa. Não depois do que aconteceu com ele.
— Ei, Togami — chamou amigavelmente Reiko, tirando-o de seus pensamentos — não precisa confiar em mim. Mas eu acredito que existe coragem dentro de você para mudar muita coisa errada nesse mundo. O primeiro passo deve ser tentar, né?
— Vou contar com sua ajuda para descobrir, princesa Chiwa.
— Reiko. Me chame de Reiko, não gosto de honoríficos — esclareceu ela, logo em seguida. — E eu não pedi permissão antes, mas vou te chamar de Togami. Lide com isso.
— Claro, Reiko.
Apertaram as mãos em acordo, sorrindo um para o outro. A princesa sentou-se ao lado de Suika para aproveitar a agradável sessão de chá com a major.
— Você perguntou mais cedo do outro garoto. Segunda porta à direita aqui nesse corredor, ele já deve estar acordado. Senti a aura dele crescer agora há pouco.
— Obrigado, major. Se me permite…
— Não demore muito. Sua Majestade deve ir falar com ele em breve. — Reiko deu o aviso, respondido por ele com um aceno.
O rapaz traçou lentamente seu caminho até a porta, fazendo seus longos fios degradê tremularem com o movimento. “Ele realmente é baixinho”, pensou Reiko enquanto bebericava sua xícara.
As costas expostas pelo avental de hospital eram de alguém que treinava há muito tempo. Anos mais que ela. Um sentimento de curiosidade única aflorou em seu peito, porém teria que deixá-lo para outra hora.
Togami bateu à porta do quarto indicado, o coração batendo nervosamente. A aproximação de uma silhueta pelo vidro fosco apenas aumentou o suor em suas palas.
— O tampinha que lutou junto com o Tatsu? — questionou o rapaz de cabelos pretos que o recebeu. — Veio fazer o que?
— Me deixe entrar para falar com ele, por favor.
Além do enorme Heishi, que barrava sua entrada, conseguiu visualizar Tatsuyu, sentado na cama, e uma garota de cabelos loiros conversando baixo. A voz dele fez com que uma das serpentes do cabelo dela emitisse um som agudo.
Mal teve tempo de assimilar a situação — sentiu as presas perfurarem sua roupa, balançando-o furiosamente no ar como um boneco. Seus pés estavam bem distantes do solo quando ela estava próxima o suficiente para ver seus olhos esmeraldinos, preenchidos por uma fúria sem igual.
— Veja se não é o anão de jardim que quase começou um conflito internacional. — Haruhi estava coberta por sua aura esmeralda. — Você quase matou meu melhor amigo, seu filho da puta!
Togami não ousou se mover, receoso de ser perfurado pela força que as serpentes exerciam. Sentia um forte remorso apossar-se dele, o que, pelo visto, fora sentido pelo garoto de íris rubi.
— Haru, coloca ele no chão. — A garota olhou com descrença para Tatsuyu. — Por favor.
Quando os pés do menino encostaram o chão límpido, prostrou-se diante do trio, o rosto colado ao chão. O Guardião de Hefesto aguardou pacientemente a próxima fala do rapaz com uma expressão curiosa.
— “Que a bênção divina o recompense em meu lugar” — citou Togami, amargura transbordando na voz — é assim que os meus antepassados demonstravam estar em dívida com alguém, o que é meu caso.
— Tá aí uma ótima cantada para uma bela moça — debochou Heishi, fingindo anotar na palma da mão.
Haruhi foi rápida em desferir uma cotovelada que tirou o ar do garoto de olhos azuis.
— Peço desculpas pelo comportamento deles. Estão nervosos pelas últimas horas, devem ter sido bem estressantes — Tatsuyu recebeu olhares de surpresa de seus amigos por ter direcionado o sermão a eles. — Eu fiz aquilo porque você apenas me inspirou a ter coragem. Não se preocupe.
A calma transparecida pelo garoto era fascinante. Havia um ar de bondade mesclado a uma suave melancolia ao redor dele, tal qual um arauto da boa nova.
Togami murmurou mais algum agradecimento, pronto para deixar o local e voltar para casa. O sol se punha ao longe, e ele tinha certeza de que estava mais lento que o normal. Entretanto, ao seguir para a porta, encontrou uma figura consideravelmente mais alta que ele, além de imponente.
— Desculpem a minha intromissão.
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