Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 1

Capítulo 3.1: Visões

17 de Outubro de 4817 - Continente de Origoras, Reino de Yggdrasil, Academia Real de Dracone

 

— Shihan… Vossa Majestade, o que vem achando dos possíveis aspirantes do ano que vem?

— Muitos com potencial, mestre. Mas aquela duelando com o Shuyu, meu filho… Tengoku, certo? A que ficou no topo da academia depois dos exames práticos.

Da mais alta cabine do estádio de Dracone, dois homens discutiam, sentados um ao lado do outro. O rei, Shihan Mizuchiko, de cabelos e barba púrpuras, estreitou os olhos para observar com mais clareza os estudantes duelarem entre si — seu peitoral de ferro, cujo centro era preenchido por um relevo de ouro em formato de cabeça de dragão, reluzia ao toque dos raios do sol poente, enquanto ele analisava todas as batalhas ocorrendo nos campos de terra com suas esmeraldas afiadas.

— Ayame Tengoku, discípula e… filha, acho que assim podemos dizer, do senhor Houseki. Também, a Guardiã de Eolo, o Senhor dos Ventos — listou o conselheiro real, Youzaki Mekurao, sem rodeios.

— A destreza dela com aquela rapieira é assustadora para a idade, mas tem algo a mais, Youzaki — reforçou Shihan para seu braço direito. — Estou acostumado à maestria em magia de vento da senhorita Kouta, e aquela garota está fazendo algo que nunca vi ela fazer.

— Pelo que me lembro, ela é uma Abençoada desde jovem. De fato, o ar ao redor dela está carregado de mana, mas não compreendi o porquê de estar desgastando tanto o estoque mágico com essa técnica.

— Para criar uma técnica nova mesmo antes de entrar em Palas… Só poderia ser a protegida da Besta Blindada — ponderou por fim o rei, ajustando-se em seu trono. — Vamos ver como isso irá se desenrolar para o meu garoto.

O conselheiro acenou em concordância, acomodando-se ao lado de seu rei enquanto pensava o que o monarca teria visto de tão interessante.

Os cabelos azul-gelo de Ayame ondularam com a ventania gerada pelo choque entre a rapieira branco-perolada e a espada negra do príncipe, obrigando a menina dar um salto para trás. Chamas arroxeadas a seguiram pelo campo, como se estivessem vivas, pegando de raspão em sua saia de uniforme preta.

Com um movimento de sua própria lâmina ao aterrissar, o ar cortou o avanço da técnica de seu oponente, permitindo que abrisse um sorriso traiçoeiro. Arrumou uma mecha de seu longo cabelo antes de colocar-se em posição, partindo para mais uma investida rápida enquanto envolta em sua aura azul-celeste.

— Por que está tão devagar, Alteza? Acertei algum nervo muito importante? — provocou Ayame, rindo de seu rival. — Cuidado pra não dorm…

Antes de completar sua frase, labaredas voaram em sua direção. Ela deu um mortal para evitar a onda de fogo, invocando outra lâmina de vento em pleno ar para cortar as chamas.

As mãos do príncipe firmaram-se sobre o cabo roxo de sua espada quando Ayame voltou a correr velozmente pelo campo, quase que sem deixar sua sombra para trás. Os olhos esmeraldinos, como os de seu pai, seguiram o movimento de maneira cautelosa, buscando a brecha necessária para contra-atacar — no entanto, sentia-se, pouco a pouco, mais entorpecido. Suas pálpebras pesavam toneladas, tornando difícil manter os olhos abertos.

Ele balançou, ainda alerta ao possível ataque de sua oponente. “Foco, Shuyu! Elimine os movimentos desnecessários, mexa o menor número de músculos possível, mantenha o ritmo… Foco, foco!”, disse para si mesmo, como um mantra. Sua percepção sensorial notou que Ayame estava se aproximando, desta vez pelas suas costas.

Mesmo ciente do ataque, o peso de seus músculos o fez bloquear desajeitadamente, aparando o corte vertical descendente mas não impedindo de seus braços receberem quase toda a energia do impacto. A dor considerável e seu instinto natural o fizeram ter certeza de que um osso tinha saído do lugar. “Essa doida ainda vai me matar um dia…”, pensou enquanto sua regeneração rearranjava seus membros para a posição certa.

A lâmina negra foi incendiada pela sua magia para que tomasse a dianteira na batalha, embora tudo que seu corpo implorasse para ele era que parasse para descansar. Um a um, Ayame se esquivou de todos os golpes de Shuyu, que então sentiu as pernas fraquejarem e caiu de joelhos. A hesitação de seu adversário permitiu a garota e sua rapieira realizarem seu tão aguardado banquete.

— Corte Arco-íris! — Sete golpes foram aplicados em sequência no herdeiro do trono, fazendo manchas vermelhas surgirem em seu uniforme.

O rosto de Ayame foi tocado também pelo sangue quente. Sentiu-se tão bem ao ter o cheiro férreo alcançar suas narinas… Ela precisava de mais para se satisfazer, para satisfazer aquilo que tinha dentro de si. E, por essa razão, reiniciou suas estocadas com a arma, cada vez mais rápidas e cada vez mais agressivas.

Shuyu tentava acompanhar o ritmo na defesa, apesar da dormência estar debilitando seus sentidos aguçados. Ela o cortava onde sabia que ele sentiria mais dor mas receberia menos dano, como uma verdadeira tortura — tudo pelo prazer de ver sua vulnerabilidade, tal como um leão brincando com sua presa.

A arma de mão única da menina, a esse ponto, já estava banhada em várias partes em sangue. Ayame se divertia em esfolar a carne de seu rival. Um sorriso largo em sua face surgiu ao provar o líquido com a ponta da língua.

— Que sensação maravilhosa… Preciso de mais — murmurou ela, entre um ataque e outro.

— Shuyu! Foque na luta, está vacilando muito! 

A voz grossa dentro da cabeça de Shuyu reverberou intensamente, causando uma breve dor de cabeça no menino. Nidhogg, o Dragão da Árvore dos Mundos, tentava restabelecer o equilíbrio das funções corporais de seu receptáculo por conta própria, mas a tarefa parecia difícil demais mesmo para uma deidade tão poderosa. A projeção mental do dragão, cujas escamas eram da mesma cor púrpura que os cabelos de Shuyu, rugiu de preocupação quando ele foi atingido por mais um golpe.

— Sua lagartixa dos infernos, eu estou tentando meu melhor! É como se eu não conseguisse respirar!

— É bom você manter o respeito, moleque, ou eu facilito essa garota te dar uma surra! — ameaçou o réptil, fazendo o garoto engolir em seco. — Tudo que percebi até agora é que ela está emitindo magia. Não consegui estudar a técnica direito porque você não está captando informações o suficiente. Tente aguentar até eu conseguir decifrar isso.

Com um grunhido de dor e frustração, Shuyu assentiu para si mesmo, tentando manter a postura. Seu esforço, claro, foi em vão — minutos depois, Ayame achou a brecha perfeita para perfurar a coxa direita dele. O nobre ajoelhou-se e a regeneração, já fraca, parou completamente. A menina de cabelos azuis levantou sua lâmina, conjurando uma camada mágica sobre o fio e mirando o centro do peitoral de seu adversário.

Desta vez, o golpe seria fatal. A rapieira respondeu ao comando de sua portadora e avançou em um golpe descendente, apenas para ser parada por uma súbita barreira de rochas que surgiu em frente ao rapaz.

— Senhorita Tengoku, não é a primeira vez, mas digo de novo: treinos não devem passar da linha de machucados superficiais — informou calmamente o homem, que apareceu como um fantasma entre eles.

O sorriso sádico de Ayame transformou-se em um afetuoso ao ver aquelas orbes verde-musgo a olhando com tanta tranquilidade — teve que se conter para não disparar na direção dele e envolvê-lo em um abraço apertado. O recém-chegado vestia um casaco preto de mangas compridas, calça cargos e botas, todas negras com detalhes em azul e verde. Porém, o sobretudo nos mesmos tons era a peça que tinha o detalhe mais importante sobre sua identidade.

Estampada no centro das costas, uma ponta de lança, dentro dela uma cabeça de coruja abaixo de uma estrela de 5 pontas — o símbolo da Longinus.

— Desculpe, Keis… professor Houseki. 

— Francamente. Esses ferimentos só não vão demorar para fechar porque estou aqui. Se controle mais, querida.

— Certo, desculpa, professor. Está bem, Alteza?

A arma da garota desapareceu em partículas de energia. Ela estendeu a mão direita para o príncipe de cabelos arroxeados, ajudando-lhe a levantar enquanto, um a um, os ferimentos do rapaz foram se fechando com a magia de cura esverdeada do professor em conjunto com a aura púrpura do príncipe.

— Tô sim, Ayame. Você ficou forte de novo, e como me cansou tão rápido? Algum truque novo que não me mostrou antes? — indagou o garoto, agora cem por cento recuperado. — Tenho quase certeza de que foi algo envolvendo manipulação complexa de mana, me pegou de calça curta.

— Tinha pensado em anular seu fogo enquanto lutávamos. Fui tentar eliminar o oxigênio que serve de combustível para você, mas acabei te deixando sem respirar.

— Às vezes acho que você só finge ter 14 anos, Ayame. Que sacada genial, nunca pensaria nisso. 

Shuyu afagou o topo da cabeça, com um sorriso de orgulho em seu rosto destinado exclusivamente para ela, que corou. “Sempre essa atitude despreocupada e sem noção…”, reclamou para si mesma, envergonhada. A menina de olhos castanhos se afastou do toque dele quando se deu conta da situação, pigarreando para recuperar sua estabilidade.

— Você ficou quase dois minutos lutando comigo sem um pingo de oxigênio nos pulmões, Alteza. Tinha quase certeza de que a técnica não funcionava a essa altura — explicou, enrolando um de seus fios na ponta do dedo e com as bochechas ainda rosadas. — Tenho certeza que você vai ser ainda mais incrível que Sua Majestade ou o Kei.

O ego do príncipe ficou dividido pela informação. Por um lado, estava feliz com seu progresso. Por outro, contudo, não conseguia ter confiança o suficiente para concordar que seria capaz de ser mais forte que Keishi Houseki e Shihan Mizuchiko, duas figuras de amplo renome na Longinus. 

Shuyu escutava de muitos súditos que seu pai hoje era uma mera sombra do seu auge. Alguns ousam dizer que, se não fossem as circunstâncias envolvendo o nascimento do príncipe, talvez o atual rei teria entrado no ranking dos 10 melhores Guardiões de sua era. Perto do talento de seu pai, sentia-se atrasado demais.

— Acho mais fácil meu último sonho se realizar do que eu ter uma capacidade mágica melhor que a do professor Houseki — retrucou o rapaz, agora caminhando para fora da arena.

— Qual é, qual foi a coisa mais estranha que você já sonhou? 

—  Um anjo segurando uma espada engolindo a Lua. Outro foram duas figuras musculosas devorando duas serpentes. Nem os cartomantes da corte entenderam, então eu que não vou. 

A garota que o acompanhava apenas aumentou o sorriso amarelo após a fala desinteressada do garoto. Ela deu tapinhas de leve no ombro esquerdo de Shuyu, rindo baixo. Seus desarrumados e ondulados fios de cabelo, que chegavam até sua cintura, dançavam contra o vento no ritmo de seus passos.

— Vossa Alteza, com todo respeito, acho que você precisa de um psicólogo.

— Eu gostaria que alguns sonhos fossem reais… Não seria de todo ruim — murmurou ele, sua mente viajando para um campo de flores e para uma certa garota de longos cabelos ruivos. 

— Claro, claro. Bem, como estamos liberados por hoje, que tal sairmos um pouco? Pra esfriar a cabeça.

— Para a minha depressão, tenho um jantar com os nobres para falar sobre a Oferenda do Dragão. Impossível fugir dessa vez — explicou, coçando a nuca em claro desconforto.

Para a tristeza de Ayame, sua investida sutil falhou. Não que tivesse muitas esperanças, claro, mas foi o suficiente para que não conseguisse mais utilizar um tom mais suave.

— Vossa Alteza, sabe que tem…

— Ayame, me chame de Shuyu de uma vez, temos a mesma idade e você está em uma posição melhor que eu nessa escola. Não precisa me tratar como superior. — A interrupção súbita seguida de um elogio tirou Ayame dos trilhos. — Além disso, você é minha única amiga de verdade. Me trate como uma pessoa normal quando estivermos só nós dois, beleza?

A palavra “amiga” deixou um sabor amargo na boca da garota. Da melhor maneira que pôde, ela mascarou seu incômodo — na visão dela, não se tratava de nada além de uma coisa boba, não valia a pena estragar aquele breve momento a sós.

— Tá, tá, Shuyu. Você sabe que vai ser assim até termos outro príncipe, você querendo ou não. Vê se não se mete em encrenca sendo teimoso, bobinho.

Ayame deu um beijo rápido e envergonhado na bochecha do príncipe, acenando antes de sumir pelos corredores iluminados pela luz do fim de tarde. Deixado para trás, ele resmungou uma confirmação silenciosa antes de girar seus calcanhares no sentido contrário ao dela.

Caminhou pelos corredores, imerso em seus próprios pensamentos sobre a luta de mais cedo. Em retrospecto, conseguiu enxergar toneladas de erros que, em um cenário real, poderiam custar sua vida. Somando essa imersão ao fato de estar cabisbaixo, estava completamente alheio aos seus arredores.

Apenas quando esbarrou em uma pessoa que vinha no corredor transversal ao dele que percebeu sua desatenção. Entretanto, antes que pudesse pronunciar uma única palavra sequer, fora distraído pela aparência do homem à sua frente.

Os cabelos lisos e de um marrom-claro belíssimo formavam uma combinação perfeita com os olhos, amarelados como a areia do deserto ao meio-dia — sem falar da pele negra, tão incomum ao reino de Yggdrasil. Percebendo a hesitação de Shuyu, ele tomou as rédeas da conversa, com um sorriso sem dentes no rosto e um brilho de curiosidade em suas orbes gatunas.

— Ora, se não é Vossa Alteza Shuyu Mizuchiko. É um prazer conhecê-lo pessoalmente. — A voz sedosa dele causou arrepios na nuca do príncipe. — Enji Sekisuna, rei de Harenaris. Já nos vimos antes, mas nunca nos apresentamos cara a cara.

As vestes de altíssima qualidade corroboraram para a apresentação do jovem, que deveria estar na casa dos 30 anos. Buscando de seus conhecimentos adquiridos ao longo das muitas viagens com seu pai e dos livros, havia mesmo um ar de nobreza harenariana no conjunto de túnica branca de mangas longas e calças de tecido leve e amarelado, além do “sobretudo” bege e bordas douradas que completava sua aparência.

Parecia amigável, na percepção de Shuyu, embora uma aura imponente o envolvesse. “Amigável até demais”, repetiu em sua mente, ainda sob o olhar intenso do monarca do reino vizinho. A mão dele estava estendida.

— É um prazer, Vossa Majestade. Espero que aproveite a breve estadia em Yggdrasil.

Hesitantemente, o príncipe de Yggdrasil acatou o cumprimento. No instante seguinte ao toque entre as palmas dele e do rei de Harenaris, sentiu toda a energia vital de seu corpo se esvair, como se tivesse sido subitamente roubada pelo contato físico com o nobre. Sua visão começou a girar e girar, com imagens velozes ao seu redor causando fortes náuseas nele.

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