Volume 1
Capítulo 22: Caça e caçador
28 de Janeiro de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Alfheim, Lua das Fadas
— Sinto que tem algo de errado com as árvores.
A voz de Hanako ecoou pela estreita trilha que o trio seguia dentro da mata fechada, fazendo-os parar de caminhar. Os olhos heterocromáticos de Togami brilharam enquanto ele esquadrinhava seu campo de visão em busca de anormalidades indicadas pela colega, mas nada encontrou fora da mana natural das árvores.
Para a sorte dos participantes que foram capazes de chegar até ali, não havia quaisquer animais, grandes ou minúsculos, em todo o perímetro da ilha. Logo, tomaram a liberdade para explorar em busca de plantas comestíveis — guiados, claro, pelo extenso conhecimento de botânica de Reiko. “Minha especialidade, ervas nutritivas”, foi a maneira que ela, entusiasmada, deu início à sua busca por entre a flora local.
Porém, o sol já se despedia do céu alaranjado e não tinham conseguido mais do que algumas frutas. Somado ao fato de não terem ainda compreendido o objetivo da segunda fase da prova, a frustração estava cozinhando em banho-maria o emocional dos adolescentes. O prazo limite da primeira fase deveria ter se encerrado há pouco tempo.
— Não comemos faz horas, Hana, você deve estar zonza — clarificou Reiko, sem desviar os olhos do caminho. — Vem cá, pensei nisso agora, você não consegue criar pés de frutas?
— Não, a infusão de mana para criar algo assim é muito alta e não confio que consiga lutar depois.
— Que merda.
— Mas esse não é o assunto! Como eu disse, eu tenho certeza de não estou alucinando que as árvores estão se movendo depois que passamos por elas.
— Não tirando teu mérito, amiga, mas o Togami sentiria primeiro que você o problema.
De soslaio, percebeu as orelhas dele ficarem bem vermelhas. Apesar de não ter expressado qualquer som, tinha certeza de que ele concordava com Reiko — não que pudesse ser diferente para isso.
Se ele havia sido capaz de sentir o Fio Fantasma de Naochi, teria notado quando os troncos saíssem completamente de posição. Era uma linha de pensamento racional, a melhor característica da princesa de Sophis. Ainda assim, Hanako não conseguia relaxar diante do desconforto crescente em seu peito.
Togami terminou sua análise da área ao redor e conteve novamente sua mana branca, meneando a cabeça negativamente.
— Olha, eu tenho que concordar com Vossa Alteza — desabafou o menino — eu me sinto observado há algum tempo, mesmo sem uma ameaça clara. Também não senti nenhuma aura esquisita fora sem ser de pessoas que estavam na ponte.
— Eu também não. O problema é que essas árvores estão se mexe…
Em um piscar de olhos, Togami saltou sem aviso sobre as duas garotas, derrubando-as. Um par de flechas passou nos pontos onde antes estavam os corpos delas — pela velocidade que estavam, o tempo de reação das princesas não seria suficiente para esquivarem do ataque surpresa. Passos suaves sobre a relva macia puderam ser ouvidos próximo deles.
— Tae estava, ah… certa sobre você. Que reflexos admiráveis.
A fala sonolenta veio de uma jovem de baixa estatura, que surgiu do mais absoluto nada entre duas árvores — antes, não havia um traço de mana sequer vindo daquela direção. O arco em suas mãos mostrava que foi a responsável pelo ataque silencioso, mas não foi ele que fez Reiko reconhecer a recém-chegada, trajada em um uniforme feminino da Longinus com bordados azul-turquesa.
— Apaguei tantos antes de vocês que nem sei mais o que é pra falar… — bocejou novamente a mulher. Estavam tão paralisados que ela teve tempo para rememorar. — Ah, sou Midorima Kochiwa, general dos Sentinelas das Ondas.
“Seu objetivo é conseguir me acertar um golpe direto, independente de como. Com isso, será permitido que sigam pela ponte mais adiante em direção à cidade de Palas. Não se preocupem, eu vou mediar meus poderes de acordo com a aura que sinto em vocês, para que tenham chance. Ah, e se lutarem em conjunto, vou somar os níveis dos três para lutar.
Vocês têm 3 dias para vencerem, e quem não conseguir está desclassificado do exame. Ficou alguma dúvida? Pois bem, vocês passaram nesse primeiro desafio, então vou esperar vocês na ponte.”
A falta de resposta soou como uma confirmação aos olhos puxados da militar, que acenou uma última vez antes de desaparecer tão de repente quanto surgiu. Hanako, diferente de seus colegas, não se levantou de imediato. “Derrotar uma Guardiã do alto escalão”, refletiu a ruiva, apática.
— Isto é impossível — murmurou a princesa. — Não existe maneira alguma de vencermos, ainda mais contra a número 4 da Longinus.
— Não dá pra só esperarmos ela dormir? — sugeriu Togami com inocência.
— Ela é a pior escolha possível para fazer esse tipo de ideia. — Reiko atraiu a atenção do garoto com suas palavras. — A especialidade dela é a manipulação inconsciente. Mesmo dormindo, ela não vai ficar desprotegida nem desatenta. Dizem que ela é melhor até que a Líder Suprema nisso.
— Então ela está sentindo tudo o tempo inteiro, basicamente?
— Isso, senhor Togami. Essa é a “Arcanjo Inerte” para os desconhecidos: um ser intransponível por qualquer meio que não a força bruta — concluiu Koufuku.
Hanako não queria admitir a derrota depois de tanto esforço para chegarem ali. Porém, frente a um obstáculo tão absurdo, o companheiro de time das princesas apenas encarou o ponto de onde a flecha anteriormente foi disparada com empolgação tremenda.
— Certo, então. O que resta então é passar por cima dela na base da porrada!
— O quê?! — exclamaram as princesas conjuntamente.
— Isso mesmo. Vamos descansar por hoje e amanhã a gente vai derrubar essa invencibilidade dela!
— Desde quando você é tão emocionado assim? — questionou Reiko.
— Estou aprendendo com uma certa falastrona aqui.
O olhar debochado junto do elogio repentino fez Chiwa pintar suas orelhas de vermelho sem querer, o que Hanako não deixou passar despercebido. Teria outro momento mais apropriado para falar disso e — apenas talvez — provocar a amiga sobre a reação dela.
Tentaram discutir um plano enquanto se alimentavam, mas foram vencidos pelo cansaço em menos de uma hora. Sob a vigia de Togami, as princesas embalaram no sono profundo, deixando o garoto sozinho com os próprios pensamentos.
— Será que você passou por algo assim, Tsuyo?
Não tinha ninguém para recepcionar aquela pergunta, entregue ao vento gélido por meio de um sussurro.
28 de Janeiro de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Yggdrasil, Lua do Dragão
A noite já envolvia a Lua do Dragão quando o disparo voou por entre as árvores. Parada sob a sombra de um largo tronco, a desconhecida com imensas roupas negras deixou sua respiração fluir poucos instantes após recepcionar o grito estridente de seu alvo, atingido pela certeira flecha dela.
— A Mimi vai ficar triste se eu não passar — comentou para si mesma, mexendo no corpo inconsciente do rapaz. Achou os suprimentos dele escondidos sob o casaco. — Já tenho muitos mantimentos, mas ainda não entendi o que fazer nessa segunda fase.
— Se não sabe, por que continua saqueando outros colegas, Kyorai?
A pergunta inquisitória surgiu de dentro de sua própria mente. Sendo mais clara, da belíssima deusa de longos cabelos, prateados como os dela, que formou sua imagem no subconsciente de sua receptáculo. Era notório também o contraste feito entre a pele pálida da divindade e a de tom ébano da Guardiã, que se mesclava às suas vestes enquanto sob o manto da escuridão.
Kyorai Shikage suspirou, de certo não preparada para ter uma discussão com sua Bênção a essa altura da competição.
— Estar preparada para qualquer coisa é o melhor plano, Ártemis — retrucou a garota, pondo-se em movimento mais uma vez.
— Sei que não mais conversamos como antes, mas sei que essa face fria e solitária não combina com você.
— E justamente por não combinar que devo continuar usando ela.
— Que seja, Kyorai. Este é meu último conselho para você… — A deusa desfez, aos poucos, sua projeção. — Se a aura que eu senti mais à frente for o que estou pensando, seguir sozinha será sua ruína.
Largada à própria sorte, a Guardiã refletiu sobre as palavras que acabou de ouvir. Que aura seria essa? Não sentira nada até então sem ser resquícios de poder de um participante ou outro, então não fazia a menor ideia do que pensar.
De arco pronto para atirar, partiu floresta à dentro em busca de respostas.
— Agora que finalmente conseguimos sentar, eu só tenho a dizer uma coisa pra vocês… — Haruhi suspirou audivelmente. — Puta que pariu, viu? Como vocês dois foram abatidos tão fácil?
— Já falei pra vocês, Ayame foi atingida por uma flecha e caiu. Fui ajudar e tomei também — retrucou Tatsuyu, sentado sobre uma pedra. — Depois, acordei com o Shuyu na minha orelha.
— Mas você não viu mesmo quem te deu uma flechada, Tatsu? Não tinha nem lugar para se esconder na ponte! — Heishi entrou na conversa, igualmente frustrado.
— A única vaga memória que tenho é que a pessoa sumiu na noite depois de me roubar. Não consegui ver nada do rosto.
Quase 15 horas se passaram desde que Ayame e Tatsuyu foram acordados de seu desmaio, o que levou o quinteto de Yggdrasil a ter que ultrapassar os próprios limites para chegar a tempo em seu destino final. Com muito esforço, os pés deles pisaram na Lua do Dragão meia hora antes do pôr do sol, colocando-os agora na fase principal do exame prático da Longinus.
O saque que sofreram, contudo, obrigou-os a ir atrás de suprimentos logo que a floresta ergueu-se diante deles. Exaustos, esfomeados e definitivamente afetados pelo calor intenso do fim de verão, o fracasso em encontrar mais do que um punhado de frutas comestíveis foi a cereja do bolo de infelicidades.
Todos estavam com suas paciências no limite. Como se não bastasse, uma certa dupla parecia esquecer que estavam — ou ao menos deveriam estar — unidos em prol de um ideal conjunto. As palavras ofensivas mal fizeram esforço para chegar aos ouvidos do príncipe.
— Tudo culpa dessa cabeça de vento que não conseguiu sentir um ataque à distância — culpou Heishi, próximo a um tronco caído. — É boa de esconder e péssima de sentir. Combina contigo.
A maneira que as íris castanhas de Ayame se incendiaram acendeu um alerta na cabeça dos demais. Ela apontou o dedo indicador para o rapaz, furiosa como só Reiketsu era capaz de deixá-la.
— É, talvez tivéssemos chances se a donzela aí não tivesse que ser contida igual um animal selvagem.
— Do que você tá falando? — O moreno de olhos safira colocou-se de pé diante dela. — Eu estava sendo fiel aos meus princípios!
— Princípios tão bons quanto esse seu cabelo de merda!
— Ou quanto sua percepção mágica, talvez?
— Vocês dois conseguem calar a porra da boca? — urrou Haruhi, massageando a própria testa. — Estou cansada das picuinhas de vocês, o tempo inteiro ficam se bicando igual duas crianças estúpidas!
— Mas Haru… — tentou Heishi, em vão.
— Eu já disse pra ficar calado!
As serpentes no cabelo de Haruhi sibilavam em ressonância umas com as outras, aumentando a intensidade do som. Ver aquele emaranhado de répteis remexendo-se furiosamente assustou Ayame, que logo assumiu uma postura mais amena — ainda que distante de concordar com a amiga.
— Estamos presos nessa ilha de merda até descobrirmos o que é e como passar na segunda fase do exame. Então, por favor… — As íris esmeraldinas de Haruhi moveram-se entre os rostos dos dois. — Deixem essas provocações para quando tivermos um quarto pra tacar vocês dois e deixarem vocês ou se matarem ou se pegarem de uma vez.
— Prefiro a morte! — responderam em uníssono os dois, sem hesitar.
Shuyu não conseguiu conter sua leve risada. A loira gostava de soltar veneno em suas palavras, como percebeu nos últimos dois meses que esteve junto a ela — contra o galã de gelo, então, era seu entretenimento pessoal. “Pena que a Ayame foi vítima colateral”, pensou ao se levantar. Era o papel dele manter o laço deles naquele momento.
— Muito bem, vamos comer rapidinho o pouco que temos e partir em busca da resposta sobre essa prova — comandou o príncipe aos demais. — Tatsu, vem comigo para darmos uma olhada mais pro sul. Deve ter alguma pista naquela direção.
— Claro!
A dupla saiu com pressa, um tanto inquieta pelo ar desconfortável que se instaurou no “acampamento”. Ao menos, os membros restantes sabiam apreciar a própria companhia e acataram o silêncio enquanto degustavam da pouca quantidade de comida concedida a cada um deles. A única iluminação que tinham eram as poucas brechas pelas quais as copas das árvores deixavam passar os raios lunares, pintando o chão com suas cores suaves.
Subitamente, após alguns minutos ouvindo apenas o barulho de mastigação constante, Ayame baixou seu sanduíche com certa hesitação. Falar ou não falar? Ao mesmo tempo que seu ego implorava para não fazer aquilo, sabia que o grupo unido seria a maior chance de vitória que teriam. Pela maneira que Heishi a encarava, deveria ter feito a mesma cara de quando lutaram, quase 3 meses atrás.
— Eu não queria ter que dizer isso primeiro — iniciou a garota — mas desculpa, Reiketsu. Foi mal ter falado aquilo de ti.
— Você bateu a cabeça? — indagou o jovem, assustado. — Tu é a Ayame mesmo?
— Claro que sim, imbecil. Só estou fazendo o que acho certo, ainda mais que vamos precisar trabalhar em grupo em mais uma etapa.
— Sabe, se você me der um beiji…
— Já me arrependo de ter tentado ser simpática. Morra — proferiu a garota, com asco preenchendo sua expressão.
— Espera aí, tô brincan…
Sons de passos, lentos e constantes, atingiram os tímpanos atentos da Guardiã da Medusa, que se ergueu num salto. Pela análise sensorial rápida de seu cérebro, o estímulo veio do sul, mais especificamente do mesmo ponto em que Tatsuyu e Shuyu desapareceram algum tempo atrás. “Estranho, não senti nenhuma aura sem ser dos meninos…”, ponderou ela.
Os três alunos deixaram suas armas em prontidão para a batalha e aguardaram o próximo movimento com os músculos tensionados. Das sombras, surgiu apenas uma pessoa envolta em vestes negras, cambaleante e sem aura alguma à vista — algo atípico para o contexto que se encontravam.
Como alguém com uma quantidade indetectável de mana estava no meio do exame para a Academia de Palas? Ayame baixou um pouco a guarda de seu florete, curiosa com o que a figura desconhecida poderia representar. Mantinha-se alerta, porém, para qualquer reação que precisasse adotar.
Perigo? Esperança? Não sabia ao certo.
— Ei! Quem é…
Antes que a garota pudesse completar sua frase, o baque seco do corpo do recém-chegado pôde ser ouvido à distância.
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