Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 1

Capítulo 21: Perigo desconhecido

27 de Janeiro de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Yggdrasil, Entre Dragetenner e a Lua do Dragão

 

Como o esperado, o cair da noite trouxe consigo o vento gélido para castigar o quinteto de Yggdrasil. Distantes do continente, era como se estivessem em alto-mar — o único som que interrompia o silêncio absoluto era o som das passadas ritmadas e o quebrar das ondas junto aos pilares de sustentação da estrutura, firmes na batalha de resistência contra a água salgada. 

Fosse para frente ou para trás, não havia terra alguma, apenas a infinita extensão da ponte feita de magietras, sempre tocando o horizonte. Cerca de 12 horas se passaram desde a largada, então os muitos grupos de alunos estavam espalhados pelos trechos do caminho. Quanto mais longe foram, mais pessoas Tatsuyu e seus amigos viram cair pelo cansaço da armadilha mágica montada pela Longinus, restando na corrida apenas aqueles que compreenderam o truque.

Admirava o brilho das estrelas sobre sua visão, encantado pela total ausência de luz artificial. Durante os bons anos que esteve em Yggdrasil, poderia contar nos dedos quantas vezes teve a chance de ter uma vista como aquela.

— Atchim!

O espirro de Haruhi desfez o transe dos demais membros de sua equipe. O foco absoluto na tarefa de não se cansar enquanto corriam os deixou alheios ao frio cortante que, aos poucos, instalava-se no ambiente com mais força. A umidade do mar tornava a sensação de suor grudando à pele muito pior do que nos treinos em terra.

Shuyu assumiu como líder de seu bando e, com uma ordem firme vinda dele, todos diminuíram o ritmo até pararem por completo e sentarem-se encostados à mureta da ponte. Quer dizer, jogaram-se ao chão, tamanho era a exaustão física e mágica.

— Será que essas coisas continuam drenando mana mesmo dormindo? — perguntou Heishi. — Vai ser inútil descansar se for o caso.

— Acho que não, deve ser só a mana exposta — rebateu Ayame, deitada com os cabelos esparramados pelo chão — e se drenar, com certeza é menos do que recuperamos quando estamos em repouso.

— Eu já não faço ideia do quanto corremos! 

Para quem havia começado bem, Tatsuyu estava totalmente destruído. Entre os cinco, foi o que teve mais dificuldade para acompanhar o deslocamento constante na última hora, precisando da intervenção gentil de Ayame diversas vezes. Seu campo de visão foi tomado por uma garrafa de água metálica, balançando como uma pinhata na frente dele.

Nem percebera quando o príncipe se aproximou dele.

— Bebe, mas não muito. Não sabemos como vai ser a segunda fase e se teremos como reabastecer nossas reservas. — Fukushu concordou com a cabeça. — Eu chuto que ficaremos nessa prova por quase uma semana.

— Concordo com o Shuyu. É bom estar precavidos — complementou Haruhi, também com uma garrafa em mãos.

Mudos, cada um comeu ração. Não tinham energia para baterem papo desnecessariamente, e a fome os atingiu depois de tanto tempo sem comida — a tensão era também um fator determinante para manter mesmo a alegre Ayame em silêncio quase absoluto.

“Se economizarmos bem, todo o nosso estoque de comida deve durar mais uns 3 dias”, arquitetava Mizuchiko em sua mente. Era um cenário até que otimista, considerando as dificuldades que teriam pela frente e a incerteza sobre a segunda prova. Sua mestra e mãe sempre o levou ao limite de todos os treinos, o que lhe permitia, naquele instante, manter a cabeça fria.

— Vejo que Suika te ensinou bem, garoto — elogiou Nidhogg em sua mente — só que você vai ter um problema pra manter esse plano.

O som de mastigação não passou despercebido dos ouvidos sensíveis do herdeiro. Seus olhos fitaram Heishi, o responsável pelo barulho e que estava comendo muito mais do que o necessário. Sentiu sua paciência cair em queda livre, embora suas palavras tenham saído bem plácidas.

— Heishi, o que você está fazendo?

A pergunta soou mais como uma ameaça do que qualquer outra coisa, deixando os demais em alerta à transgressão do Guardião de Búri. Não que isso o tivesse impedido de morder mais um cacho de uvas inteiro, mastigando-o sem pressa alguma para responder e engolindo-o em sequência. As safiras dos seus olhos conectaram-se às esmeraldas de Shuyu, cujo formato assumido agora era o de um olho de dragão.

— Comendo, ué. Nunca fez isso? — debochou, com um sorriso.

— Eu acabei de falar que precisamos racionar.

— E eu discordo de você e estou comendo a minha comida. Qual o problema? 

Ayame notou pequenas escamas, púrpuras como os cabelos do garoto, surgirem no pescoço e mãos de Shuyu. 

— Isso não é bom… — murmurou, deixando a própria garrafa no chão. — Ei, Shu…

— Heishi, eu aguentei sua arrogância insuportável até aqui — cortou-a o príncipe — mas não posso deixar que ela atrapalhe o grupo. Vou pedir uma última vez: pare de comer.

— Não. Aqui você não tem autoridade, Shuyu, então eu apenas rejeito sua imposição.

O punho do nobre quase se conectou ao rosto de Heishi, que defendeu de última hora do ataque súbito. Tanto a aura púrpura do príncipe quanto a azul-gelo do plebeu lutavam pelo pequeno espaço entre eles, sem se misturarem. Shuyu estava decidido a colocar ordem na situação, nem que fosse pela força bruta de Nidhogg.

Trocaram alguns golpes de mãos nuas, alguns encaixando e outros não, até os membros do grupo se recuperarem do choque inicial por vê-los lutar e decidirem interferir. Tatsuyu e Ayame seguraram seus respectivos amigos assim que eles se preparavam para mais uma investida. A força do embate havia deixado alguns hematomas bem visíveis em ambos — Heishi tinha um olho roxo e Shuyu pingava sangue pela boca.

— Não podemos brigar entre nós! — gritou Tatsuyu, com os braços envolvendo um Reiketsu furioso. — A gente vai ser atacado se não ficarmos unidos!

— Shuyu, se controla! — Os punhos do príncipe mexiam-se nervosamente ao tentarem alcançar o pescoço do garoto de gelo. — Eu sei que está por um fio aqui, mas se você perder a cabeça é pior pra gente!

— Me larga! — rugiram ao mesmo tempo os dois combatentes.

Os poderes de Heishi eram muito mais perceptivos quando descontrolados — o ar ao redor deles formava cristais de gelo, de tão baixa que era a temperatura emitida por ele. Haruhi assumiu a frente da situação ao dar largas passadas na direção de Tatsuyu e Heishi, este ainda em total cólera.

— Heishi Reiketsu, a gente disse pra você… 

O punho da garota foi jogado para trás, antes de ser impulsionado contra o estômago de Heishi.

— Parar!

Um soco direto da Guardiã da Medusa foi suficiente para desmaiar de imediato o garoto, desativando a influência da magia de gelo no ambiente na hora. Pelo som que o impacto entre a mão fechada e o abdômen de seu colega gerou, seria o suficiente para quebrar uma parede com facilidade. O mais impressionante para os demais, contudo, foi que Haruhi não havia fortificado seus braços com sua aura.

Ou seja, aquele era um golpe apenas com a própria força dela, sem qualquer interferência externa. A loira limpou as mãos em sua roupa com uma bufada audível.

— Estou com frio de novo, idiota, parabéns! — ironizou para o desmaiado. — Esqueci que você não me ouve. Enfim, problema resolvido.

— Você é mesmo humana, Haruhi? — O questionamento de Shuyu fez ela afiar os olhos para ele. — Tudo bem, desculpe. Você é sim uma bela dama

— Obrigada.

Com os ânimos mais baixos, estabeleceram o ciclo de vigilância para que todos pudessem descansar. Ayame e Tatsuyu se voluntariaram para serem os primeiros a ficar de guarda, receosos que qualquer outra combinação causasse intrigas pelo cansaço ou ferimentos. Em minutos, foram capazes de ouvir os roncos dos três sob sua proteção.

“Agora que lembrei que quase não falei só com a Ayame”, refletiu o garoto, subitamente consciente de estar a sós com uma garota que não fosse Haruhi. Não pelo motivo que gostaria, claro — seu nervosismo vinha do desconforto de não saber o assunto que poderia abordar com ela.

O tempo quietos fez Ayame tomar a dianteira, percebendo que ele não o faria.

— Você era de Paxoria também? 

— Oi? — disse o garoto, pego de surpresa pela pergunta.

— Paxoria, em Éden. A vila que Shuyu disse que foi destruída por aquele filho da puta. 

Tatsuyu meneou a cabeça de leve, concordando. A Guardiã de Eolo desviou o olhar para o céu noturno, recheado de estrelas. Estarem isolados naquele lugar tornava a vista bem mais bonita — embora ela preferisse estar naquela situação com Shuyu.

A luz era refletida pelos olhos castanhos de Ayame, mas estes, como Tatsuyu pôde ver, estavam opacos e distantes. Um sentimento de melancolia tomou corpo na forma de uma lágrima solitária derramada pela lateral do rosto dela, que manteve sua expressão mesmo quando o líquido quente tocou a pele de seu braço.

Um soluço entalado saiu de sua garganta, e o conterrâneo estendeu um lenço para ela em gentileza. Demorou algum tempo até que ela tivesse condições de pronunciar alguma palavra mais complexa, situação que Fukushu não teve a irresponsabilidade de pressionar para se resolver.

— Sabe, às vezes eu sonho com o passado e como tudo seria diferente se eu ainda tivesse o papai e a mamãe aqui. — A voz dela carregava a mágoa em seu coração, embora estivesse mais calma. — Eu amo a minha vida hoje, mas nunca consegui deixar de pensar.

— Você estar feliz com a sua situação não quer dizer que dores do seu coração se fecharam. Pelo menos, eu penso assim — admitiu Tatsuyu. — Eu também sonho com aquele dia, todas as noites. Ainda assim, sinto que a cada dia eu esqueço mais dos meus pais, do rosto deles e da minha antiga casa.

— Eu também tenho esquecido aquele tempo — lamentou Ayame. — Não sei se é porque faz sete anos que aquilo aconteceu ou porque eu inconscientemente quero esquecer. Me sinto frustrada.

— Se não podermos lembrar do passado, acho que é um sinal para pensarmos no futuro, né?

Tatsuyu riu com sua própria fala, impressionado que ele, de todas as pessoas, estava aconselhando planejar o caminho à frente não amargar o que ficou para trás. No silêncio de sua constatação internamente cômica, Ayame contemplou as palavras dele com seriedade.

Keishi uma vez lhe disse algo similar. Pelas poucas lembranças presentes em sua memória, ficar refém de algo fora de seu controle também não seria algo que seus pais gostariam de vê-la fazendo. Do que adiantaria gastar sua única e preciosa passagem pela terra afundada em melancolia?

Quando os encontrasse no pós-vida, queria poder contar a eles as aventuras que viveu, os momentos que chorou e as alegrias que sentiu. Viu-se sorrindo sem perceber.

— Rapaz, eu dizendo isso. Que ironia.

— Não, você tá certa, Tatsu. Talvez, só talvez, a gente deveria construir um futuro melhor. — O sorriso dela se direcionou então a ele. — Mas sabe, eu não lembro de ninguém com o sobrenome “Fukushu” na época.

— Nem eu com “Tengoku”. Nome inventado, acertei?

— Correto. Acho que crianças não pensam muito além do óbvio mesmo.

Os dois riram, não tão surpresos com a falta de criatividade de seu passado infantil. O clima pesado foi se esvaindo conforme o assunto progrediu: falaram sobre as paisagens de Paxoria, de hobbies, de treinos… Eventualmente, Tatsuyu se viu mais uma vez frente àquela questão.

— Não sei se deveria perguntar isso, mas você gosta da Haru, Tatsu? 

— Eu nunca entendi o motivo de acharem isso — respondeu na lata. — Ela é minha melhor amiga, só isso.

— Bem, eu que não vou discut…

De repente, a perna esquerda de Ayame foi atingida por uma flecha prateada, fazendo-a gemer de dor. O garoto se moveu para ajudar a colega — antes que pudesse, porém, algo perfurou também suas costas. Ayame caiu inconsciente pouco depois. Não demorou mais do que 10 segundos para sentir seu corpo ficar dormente, começando pelo local atingido até sua cabeça. 

Estava perto de Shuyu, se estendesse um pouco mais a mão, poderia encostar nele, o que seria suficiente para acordá-lo… 

Uma bota negra pisou em seus dedos, impedindo que continuasse. Era incapaz de sentir a dor ou gritar como deveria naquela situação.

— Sinto muito, não fará isso — sussurrou uma voz fria. — Farei bom uso disso.

Com a pouca força que restou, virou o rosto para cima, na tentativa de identificar o invasor. Coberta por vestes escuras que faziam um ótimo par com sua pele negra, não sabia dizer se era um menino ou uma menina, apesar de ter visto o cabelo curto de cor prateada reluzir ao luar.

Pelo arco branco em suas mãos, deduziu que fora ele quem os atacou.

— Uma pena que só vocês dois estejam com as bolsas materializadas. Bem, adeus.

Com a vista cada vez mais turva, Tatsuyu não soube dizer ao certo se o desconhecido havia mesmo se tornado um com a noite ou se seus olhos o traíram. Fosse como for, o veneno em suas veias cumpriu seu papel e o fez adormecer sem maior resistência.

 

 

28 de Janeiro de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Tellus, Lua da Natureza

 

Zuko e Akashi foram os primeiros a chegar ao destino final, como era de se esperar. Os primeiros raios de sol tentavam achar seu caminho entre a densa folhagem das árvores, embora o astro-rei fosse demorar um pouco mais para irromper no horizonte. O calor da ilha era intensificado pela umidade advinda da floresta, deixando os cabelos loiros de Zuko molhados de suor.

Desde o encontro entre eles, há cerca de 11 horas atrás, as conversas foram escassas — não que o garoto de cabelos verdes não tenha feito tentativas falhas. Apenas para serem rebatidas com total frieza por parte do nobre.

“De onde você?”, “Qual sua deidade?” e muitas outras perguntas foram jogadas em momentos aleatórios para o príncipe, cuja recusa constante foi ineficaz contra o entusiasmo de sua companhia. O único momento de verdadeiro plenitude foi quando Akashi decidiu dormir por conta própria, mas nem dormindo sua percepção desligou.

— Por que tu dorme abraçado com uma lança? — A pergunta soou mais como um deboche do que como curiosidade genuína. — Não só isso, mas eu tenho certeza que sua mana tava oscilando. Você tava mesmo dormindo?

— Eu preciso mesmo responder? — bufou o loiro, recostado sob uma árvore.

— Claro, somos parceiros, pelo menos por agora. Preciso entender seus pensamentos para estarmos em sincronia quando for a hora de lutar.

— Eu não sei qual o seu plano, mas ficarei aqui até o início da tarde. Quero saquear alguns mantimentos dos outros.

— Que ideia vil!

A confissão de apelar pelo método “maléfico” fez Kousho franzir as sobrancelhas em reprovação. “Pelo visto, ele é um daqueles paladinos da virtude”, suspirou o monarca, bebendo mais um gole de sua garrafa. Seu mau humor atraiu a atenção de seu protetor, Diarmid, que se projetou em seus pensamentos.

Belo como sempre, os cabelos negros e um tanto oleosos do Protetor dos Heróis escorriam pelo seu rosto. Sob o olho esquerdo, havia uma mediana pinta avermelhada, conhecida como “Marca Mágica do Amor” — pelas histórias que a deidade contava a ele, até mesmo deuses brigavam pelo seu corpo quando ainda era mortal.

— Sinto saudade de ter divergências assim com companheiros de batalha — depôs o ser místico, mão sobre o queixo liso.

— Eu trocaria de lugar com você — afirmou Zuko, em sua mente. — Pessoas são complicadas demais.

— Acredite, garoto, eu já fui antipático igual você! Só um parceiro que não desiste fácil como esse Akashi pra te fazer mudar de ideia. 

— Conhecemos ele há menos de 24 horas, Diarmid.

— E usando meus poderes meio divinos e minha intuição, eu posso dizer com confiança que ele será seu melhor amigo.

O bellano revirou os olhos com o direcionamento da conversa. Se tinha uma coisa que detestava, isto era a insistência de sua Bênção em uma ideia de amizade profunda e incomensurável com outras pessoas. — como num conto de fadas infantil. Perdera a conta há muito tempo de quantas vezes Diarmid persistiu em dissuadir o garoto para aceitar a ideia.

Não precisava de amigos. A companhia de suas armas e de sua mãe era mais que suficiente para prosseguir firme na constante batalha que era a vida. “Nem parece que já foi rei de Bellato”, pensou o garoto. A deidade, claro, escutou seu contra-argumento.

— Justamente por ter sido o rei dos bellanos no pior período da história que eu conheci tanto a maldade quanto a compaixão dos homens.

— Dá para parar de ler meus pensamentos sem permissão?

— Se você descobrir como pensar mais baixo… Seu pai fazia isso. — Os olhos safira de Zuko tomaram-no mentalmente como alvo. — Tudo bem, foi mal. Mas seja um pouco menos antipático, por favor.

O loiro concordou só para dar fim à conversa, reconectando-se ao ambiente. Pela maneira que Akashi o encarava, posicionado sobre um galho próximo à copa de uma árvore, deveria estar falando com sua própria Bênção.

Antes que pudessem trocar quaisquer palavras, uma aura gigantesca surgiu do outro lado da densa mata. Se não podia ser um participante, só havia duas opções: um invasor ou um Guardião. Independente de qual fosse a resposta, Zuko e Akashi estavam completamente cientes de que a segunda etapa seria bem pior do que esperavam.

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