Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 1

Capítulo 18.2: Sentimentos doloridos

24 de Janeiro de 4818 - Em algum ponto do Mar de Sangue, entre Origoras e Ignasia

 

Sons de metal batendo contra metal ecoavam pelos corredores do grande navio, que seguia viagem pelas águas cálidas do Mar de Sangue. Com a embarcação inteira reservada pela monarquia de Bellato, as salas de treinamento eram ocupadas por dezenas de alunos da Academia Real de Warrea — meninos e meninas, todos com roupas leves, duelavam entre si.

Espadas, lanças, alabardas, martelos… todo tipo de arma era usada nos combates intensos. Por vezes, uma ferida mais séria interrompia as demonstrações e os curandeiros entravam em cena, mas os demais não perdiam o ritmo. Com apenas três dias para o início do exame prático da Longinus, tempo era um recurso precioso demais para ser desperdiçado com outra coisa que não os treinos.

— Muito bem, troquem de parceiros! — ordenou Amaka, de pé sobre um palanque. — Exceto você, Zuko.

— Sim, senhora!

A garota que seria a próxima dupla do príncipe respirou aliviada. Para qualquer um ali, podiam sentir a diferença de nível entre os demais alunos e o rapaz: ele estava em uma sequência de abates insana, com seis incapacitações seguidas sem nem mesmo levar um arranhão.

Zuko esperou pacientemente pela sua próxima instrução, postura impecável — como herdeiro do trono do reino da guerra, era seu dever ser o soldado perfeito, independente da situação. Meditava de olhos fechados junto à sua deidade quando captou uma vibração quase invisível no ar.

A espada de guarda-mão curto e empunhadura dourada surgiu nas mãos do herdeiro, que bloqueou o projétil atirado contra si. A risada espalhafatosa de Naochi explicou para ele tudo que precisou para o enfurecer.

— O que está fazendo, Shogi? — O olhar de Zuko, tão afiado quanto sua lâmina, se colocou sobre o outro loiro.

— Cumprindo ordens, Alteza! Eu serei seu próximo oponente — defendeu-se ele, punhais em riste. — Um bellano é capaz de reconhecer uma batalha iminente sem que um anúncio seja necessário. 

O príncipe suspirou com o entusiasmo de seu novo adversário. Não esperava menos de sua mãe para levá-lo ao limite de suas capacidades atuais. A espada menor desapareceu e deu lugar à sua espada de duas mãos, ato esse que surpreendeu o outro jovem.

— Oh, você largando a Beagalltach numa luta comigo? — provocou Naochi. — Achei que não me levava a sério, Alteza.

— Tenho poucas chances de duelar com alguém que realmente valha a pena. E preciso melhorar o manejo da Nóralltach ou serei como aquele plebeu de Dracone, que perdeu para si mesmo.

— Aproveitarei essa chance, então.

De tão imersos que os combatentes se encontraram em derrubar um ao outro, o que deveria ter sido um duelo rápido estendeu-se por quase meia hora. Os outros alunos murmuravam discussões sobre as capacidades técnicas de Zuko, enquanto alguns outros falavam do esforço que o príncipe fazia para manter aquela luta em pé de igualdade. Naochi não tinha um terço do suor que escorria pelo rosto do príncipe, para a não surpresa dos presentes.

A rainha, sentada em sua cadeira para observar o progresso dos discípulos, estava em absoluto silêncio há algum tempo. Sua única íris rubi passava de um lado a outro do campo repetidamente, ora sobre seu filho, ora sobre seu protegido. Vê-los lutar com tanto fervor deixava Amaka satisfeita.

Memórias do passado ousaram fluir em sua consciência: dos tempos em que seu marido e filho duelavam com a mesma empolgação, rindo quando caíam cansados de treinar. Das refeições em família, dos momentos de paz, dos momentos de meditação… Uma a uma, estas lembranças se esvaíram tão rápido quanto surgiram, deixando-a novamente à mercê da realidade.

Ainda assim, seu sorriso não vacilou. Amargar o passado de nada serviria.

— Muito bem, hora de encerrar! — anunciou a mulher com duas palmas. — Vamos almoçar!

Todos, exceto Zuko e Naochi, dispersaram-se rapidamente na direção do refeitório do navio, intimidados pelo tom autoritário da rainha. Os dois jovens seguiam em seu mundo de batalhas, alheios aos sons externos e ignorando o ambiente ao redor.

Amaka não era de ficar irritada, mas se havia algo que a tirava do sério, isso com certeza era ser ignorada. Contudo, não tinha como repetir o gesto de Taeka e se impor por meio de sua mana — comparada à de qualquer um deles, era imensamente menor e menos densa. Se viu obrigada então a ir pelo jeito difícil.

— Eu disse…

Sua aura branca envolveu seu corpo, como uma fina camada translúcida, mais fina que um véu. Os passos que dava na direção dos rapazes tornaram-se mais velozes e mais leves.

— Para…

Os músculos se retesaram e se expandiram. O tapa-olho negro desapareceu e revelou o rubi, antes opaco, brilhando como uma estrela. Os combatentes iam se chocar dentro do próximo segundo.

— Pararem a luta!

Colocando-se entre eles, Amaka desarmou-os em um piscar de olhos. Confusos pela súbita interrupção, não tiveram tempo nem mesmo de reagir aos cascudos que receberam, um após o outro. Os dois jovens até pensaram em reagir agressivamente à intromissão da rainha, mas esse desejo sumiu quando perceberam quem havia cometido tal ação.

Embora Amaka não emitisse nem uma gota de mana além do necessário, sua pose de luta era assustadora, mesmo sem sua espada em mãos. Zuko e Naochi engoliram em seco, ajoelhando-se.

— Desculpe, mestra. - O mais velho encostou sua testa ao chão. — Foi um tremendo desrespeito da minha parte.

— Igualmente, senhora. Peço perdão pelo meu mau comportamento.

— Vocês, jovens, são empolgados demais — suspirou Amaka, cruzando os braços. — Admiro o entusiasmo, mas, se eu fosse mais severa, os deixaria sem comer.

A ameaça de ficar sem comida depois de uma luta tão intensa os fez implorar por piedade, o que fez a rainha rir de leve. O bom humor, não obstante, durou pouco — ela e Naochi sentiram uma aura desconhecida e notória caminhar lentamente pelo corredor. Demorou um pouco para Zuko captar, mas logo entendeu o recado e se colocou em posição.

Ambos saíram pela porta no mesmo instante, imobilizando a pessoa sem hesitar. A garota portadora daquela presença misteriosa soltou um grito de susto ao ser pressionada contra o solo por três pessoas. A lâmina de Amaka estava rente ao seu pescoço.

— Quem é você? E como entrou aqui? — questionou a rainha, fria como aço. — Este navio está reservado para os alunos da Academia Real de Warrea.

— P-P-Podem pelo m-menos me solt…

— Responda as perguntas primeiro.

A menina, cujos cabelos loiros eram firmemente segurados pela nobre, sentiu a espada aproximar-se de sua pele. Não havia forma pacífica de se livrar daquela situação. Zuko aproveitou o tempo que ela parecia divagar sobre como prosseguir para estudar sua aparência.

Olhos puxados e prateados, fios ondulados, altura média. Sem ser pela capa preta que cobria um vestido listrado amarelo e branco, não havia nada de suspeito no visual dela. Embora estivesse certo de que ela não representava perigo algum, o fato dela ter entrado despercebida na embarcação da família real era impossível de se ignorar.

— K-Keiko S-Shikiba — gaguejou ela. Amaka ordenou que afrouxássem a imobilização. — Keiko Shikiba, esse é meu nome. Vim de Leoni.

— Shikiba? É extremamente similar à Saikiba….

A menção ao sobrenome do governante de Leoni pareceu deixá-la desconfortável. Agora, Keiko era mantida imóvel no lugar apenas pela rainha enquanto o interrogatório continuava.

— É uma mera coincidência, eu juro! — suplicou ela. — Eu estava dormindo em um dos containêres e acordei aqui. Nem mesmo sei para onde estamos indo!

— Dormindo em um contêiner? — A desconfiança de Amaka aumentou. — Por quê?

— Fugi de casa e não tenho dinheiro. Um senhor do porto disse que aquela área não era usada com frequência e decidi ficar por lá enquanto pensava no que fazer. 

— Então, você dormiu e acordou aqui?

— I-Isso! Exatamente isso! — concordou Keiko, empolgadamente.

— E como escondeu sua mana todo esse tempo?

A loira fez uma careta engraçada. Seu cérebro estava trabalhando em capacidade máxima para responder de maneira satisfatória aos questionamentos sem sobrecarregar-se com o nervosismo. Se prestassem um pouco mais de atenção, talvez escutassem as engrenagens da cabeça dela funcionarem.

— Digamos que sou péssima em manipulação consciente, mas manipulação inconsciente é meu dom — afirmou a jovem. — Se duvida, me apaga rapidinho!

Amaka não deixou ela se arrepender de pedir — com um golpe rápido na nuca, Keiko foi ao chão. Como ela havia dito, sua aura marcante se dissipou no mesmo instante que seu corpo perdeu a rigidez. Havia passado no teste da rainha para ficar viva, pelo menos por enquanto.

A governante do reino da guerra ponderou por alguns instantes sobre o que fazer. Por fim, ergueu seu rosto para o filho e o discípulo, centrada e um tanto risonha.

— Garotos, chamem a enfermeira.

— Ai, ai, ai! 

Keiko Shikiba acordou em um salto. As dores que sentia em seu corpo indicavam que sua carcereira não só havia a nocauteado como também não fez o mínimo esforço para evitar que se chocasse com o solo. Bem, o que importava é que estava viva, ao menos por ora. 

Suas íris olharam de um lado para outro, buscando compreender onde estava. Ainda sentia o balanço suave do oceano a mexer o navio, então não deveria ter apagado por tanto tempo — duas, três horas, talvez? 

— O sol ainda não se pôs — constatou para si mesma. — Caramba, que fome! Em casa, eu já teria pego até um lanchinho da tarde…

— Não tem problema, logo você voltará.

Pelo visto, não estava sozinha. Naochi, apoiado em uma parede, encarou a menina com deboche, embora seus olhos violeta não fossem tão ameaçadores quanto ele acreditava serem. A ideia da frase dele demorou algumas sinapses até fazer sentido na mente recém-acordada da loira.

— Pera, o quê?

— Isso mesmo, senhorita, você voltará para Leoni. Assim que chegarmos em Tellus, para ser mais exato — ressaltou o loiro.

Receio tomou as rédeas de Keiko. Ainda que tivesse tido a tremenda sorte de ter conseguido cruzar a fronteira entre Leoni e Eromi, sabia que fazer o caminho de volta seria imensamente mais arriscado. Afinal, eles saberiam de sua existência e tudo seria arruinado para sempre.

Seus caninos afiados apertaram seus lábios, furando-os sem querer, e as mãos dela apertaram-se em punhos. Não podia ter seus planos frustrados, não agora que havia chegado tão longe.

— Me deixem ir! 

— Claro que não. Você não está em posição de demandar nada, garotinha — brincou Naochi. — Por que faríamos o que quer?

— Vocês não gostam de Hyoku Saikiba, certo?

Se era para cair, ela não cairia com seu trunfo em mãos. Sua afirmação pareceu capturar, brevemente, o interesse do jovem, que afiou o olhar.

— O que quer dizer?

— Chame a senhora que me apagou. Ela é sua líder, correto? — constatou Keiko, mais confiante. — Eu só direi para ela. Sei que será útil.

Minutos depois, como Shikiba desejou, Amaka Ryoujin estava com sua única íris vermelha sobre ela, intrigada pelo motivo de ser convocada por seu estimado discípulo. A garota intrusa inspirou profundamente antes de começar a colocar suas cartas na mesa.

— Achei que tinha sido clara quando disse que a deportaria. — O tom ríspido da rainha indicava sua impaciência.

— Com certeza, seria mais prático, Vossa Majestade — concordou Keiko, ciente de estar falando com uma nobre. — Contudo, acredito que esteja aberta a negociar pelo preço certo.

— E o que poderia comprar meu silêncio ao governo de Leoni sobre uma menina fugitiva com alto potencial de ser uma espiã? 

— Uma ameaça de guerra por parte deles seria suficiente? — provocou a prisioneira.

Mais uma vez, viu-se sob o pesaroso e julgador olhar da rainha e seus subordinados. Estudavam, em silêncio, até que parte de suas palavras seria verdade — falar de guerra durante o período de comando de Taeka Haruki na Longinus era insanidade. Um conflito armado jamais ocorreria enquanto a Líder Suprema respirasse o mesmo ar que eles.

Após alguns segundos, foi Zuko quem se colocou à frente da discussão.

— Leoni jamais entraria em guerra conosco — frisou o príncipe. — São uma nação agrícola, e há séculos não tem o desejo de expandir seus domínios.

— Sim, somos mesmo um país de trabalhadores rurais — admitiu a jovem — mas não estou falando apenas de Leoni.

— Explique-se de uma vez.

Foi a vez da governante de cortar o assunto. Keiko sabia, por sua expressão, que Amaka não estava duvidando nem um pouco do que dizia. A vitória estava nas mãos da garota leonina.

— Hyoku Saikiba está angariando seguidores. Não sei quem, nem o que planejam, mas tenho certeza de que não é algo bom. 

— Suas afirmações são demasiadamente infundadas — rebateu a rainha. — Os Saikiba firmaram um acordo após o incidente entre Leoni e Bellato.

— Você está certa, Majestade. A palavra de um lobo, entretanto, de nada vale, como deve bem saber.

Keiko tirou do ar um grande pedaço de papel e entregou para o trio ali presente. Para a surpresa deles, era um mapa muito bem detalhado do caminho a ser tomado a partir de um ponto ao norte de Leoni, em Ignasia, até o centro de Origoras — mais especificamente, a sede da Longinus, Palas.

Vários lugares aleatórios pela superfície do mapa indicavam a palavra “ajuda”, sem explicação alguma. Amaka, porém, não tinha vontade de compreender o que deveria ser. Keiko Shikiba tinha coisas mais valiosas para contar a ela.

— Muito bem, vejo que estamos com algo que vale a pena discutir — expôs a mulher. — Você sabe para onde vamos?

— Não, realmente não sei.

— É exatamente no ponto final do seu mapa. — Naochi apontou para o centro do mapa. — Palas, a cidade dos Guardiões. Todos os alunos de Bellato aqui irão fazer a prova do exame de admissão. É seu objetivo também?

— Isso muda alguma coisa para eu juntar informações sobre os planos de Saikiba? 

— Se entrar na Longinus, com certeza terá uma rede muito maior de contatos — comentou despretensiosamente a rainha — mas a prova não será fácil. Meu filho irá prestar este ano também.

Zuko encarou sua mãe e, em seguida, Keiko. Pela maneira que seu rosto estava com as sobrancelhas franzidas, não estava nem de longe satisfeito com a mera ideia de ter uma colega durante a prova.

— Não quero atrapalhar Vossa Alteza em seu teste — disse por fim. — Gostaria apenas de ser libertada após chegarmos ao porto. A partir disso, decidirei meu caminho.

A ansiedade precedeu o silêncio súbito de Amaka, cujo olho se fechou suavemente. “O que ela está pensando?”, perguntou-se Keiko — teria sido pouco convincente? Ou será que a rainha encontrou alguma inconsistência em suas palavras? Para ela, restava apenas aguardar a decisão final da líder de Bellato, suor escorrendo disfarçadamente pelas palmas fechadas.

— Certo, estou decidida — anunciou Ryoujin. — Senhorita Shikiba, aprecio a consideração em não se colocar no caminho de meu filho. 

— É o justo pela sua hospitalidade. — Claro que não acreditava que tinha sido bem tratada, mas isto não viria ao caso. — Como isso teria conexão com o assunto anterior?

— Deixarei a senhorita ir, mas com a condição de vê-la na Longinus este ano.

— O quê? — exclamaram os dois garotos em uníssono.

— Caso não consiga, farei questão de informar seu desaparecimento às autoridades. Se irão te capturar ou não, aí será com você — brincou Amaka, risonha.

Keiko engoliu em seco. Aquela mulher sabia mesmo como manusear as informações e itens que tinha em mãos — não à toa que era a chefe de Estado do reino mais politicamente caótico do mundo, pelo visto.

Não havia saída. Era concordar com os termos oferecidos ou ter o destino mais indesejado possível para si. Shikiba escondeu seu incômodo com uma expressão leve de simpatia, estendendo a mão para a rainha. Os olhos puxados encararam a íris rubi com enorme gratidão.

— Não acho que haja proposta melhor para atender os interesses de ambas as partes, Vossa Majestade — confessou Keiko. — Conto com os senhores apenas para me guiar até o local do exame. De lá, estarei por minha conta.

Apertaram as mãos para firmar o acordo. Não era exatamente o que Keiko esperava quando saiu de casa há quase 10 dias atrás, mas ao menos tinha um novo plano para seguir.

“Vou provar que está errado, pai.”

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