Fios do Destino Brasileira

Autor(a): PMB


Volume 1

Capítulo 18.1: Sentimentos doloridos

24 de Janeiro de 4818 - Continente de Origoras, Reino de Alfheim, Palácio Real de Forestrie

 

Hanako não poderia estar mais ansiosa. Sob o sol fraco de inverno, que penetrava as densas copas de árvores apenas em pontos específicos do trajeto, a princesa das fadas caminhou em direção aos portões da cidade, trajada em seu vestido verde-lima de verão e sapatilhas negras. O que, neste caso, envolvia descer longas escadas espirais até o solo, para só então poder seguir o caminho de terra.

A capital, Forestrie, era exótica. Nenhuma de suas estruturas utilizavam o solo como base, apoiando-se sobre os enormes e firmes troncos das árvores milenares. Diziam as histórias do folclore local que as mudas da Floresta das Fadas, que ocupava todo o território, teriam sido plantadas por Titania, Gaia e Freyr antes mesmo do início da Guerra Divisora.

Quase todas as cidades de Alfheim seguiam um modelo semelhante de construção. Com o passar das eras, uma parte da sociedade faeri passou a ocupar a parte mais abaixo das áreas suspensas, embora fossem minoritários. Em pleno inverno, alguns pontos de neve cobriam as árvores, embora suas copas ainda se mantivessem pelos poderes etéreos.

Era nessa área que tropas de defesa repousavam, aguardando sua princesa como foram instruídos na noite anterior. O enorme posto de guarda, construído com apoio nas duas margens do rio Halla, conectava-se perfeitamente ao muro que delimitava a área da capital.

— Bom dia, Vossa Alteza! — saudou um dos guardas. — Já me foi informado sobre a chegada da comitiva de Sophis. O mensageiro chegou há pouco do porto de Flyfiria.

Hanako concordou com a cabeça, murmurando um “obrigada” em seguida. Pelo jeito, acordara cedo demais, mas não podia evitar.

Com apenas 3 dias para o início do exame prático e a vinda iminente de sua melhor amiga, Koufuku estava uma pilha de nervos. Mais cedo naquela manhã, sua mãe já a havia repreendido pelos maus modos à mesa, bem como pelo cabelo ruivo desarrumado — estava apressada demais para pensar em leviandades. Desculparia-se com ela mais tarde, claro.

Percebendo a demora que se sucederia, resolveu descansar à sua maneira. Sua aura tangerina brilhou por um instante e, logo atrás de si, surgiu um emaranhado de plantas semelhantes a um banco, no qual se sentou confortavelmente. Viu alguns dos soldados murmurarem algo enquanto mantinham os olhos fixos nela.

Nos quase dois meses de treinamento sozinha, a princesa havia evoluído muito mais do que o esperado por seu pai, que atuava como seu mentor. Apesar de não estar tão boa na parte ofensiva, sua magia elemental passou muito as expectativas da família real — fato esse que não se restringiu às conversas do palácio. Não que isso tivesse diminuído seus temores de não passar na prova prática.

O som do trote de cavalos atiçou seus sentidos, e a confirmação de sua hipótese se deu com a ordem do chefe da guarda, em seu lugar acima do rio.

— Abram os portões!

Dito e feito. As grandes muralhas de madeira clara permitiram a entrada da carruagem, escoltada por quatro homens no uniforme da Longinus. O veículo ainda estava em movimento quando sua porta se abriu e Reiko Chiwa saltou na direção de sua melhor amiga.

Pega de surpresa, Hanako caiu junto da princesa estrangeira. O abraço apertado que a ateniense aplicou nela fez a ruiva sentir que um osso havia saído do lugar.

— Hana! — gritou a menina, eufórica. — Que bom te ver, senti tanto sua falta! Feliz Ano Novo!

— F-Feliz Ano Novo, R-Rei. Eu t-também senti a sua falta… Pode sair de cima de mim agora? 

A Guardiã de Atena acatou o pedido de imediato, limpando o casaco de pele que vestia — Togami, que até então estava despercebido para a princesa local, acenou timidamente para ela, usando seu próprio conjunto de inverno. Quando os olhos bicolores dele encontraram os de Reiko, viu a amiga apertar os olhos e fechar a cara.

“Será que brigaram?”, deduziu Hanako enquanto os soldados e Togami descarregavam a carruagem. Em sua mente, a imagem de uma mulher ruiva, cujos olhos safira refletiam bondade sem tamanho, tomou forma.

— A resposta não é óbvia, minha flor? — riu a voz dentro de sua cabeça. — Pelo pouco que senti, foi uma briga feia.

— Mas eles estavam se dando tão bem antes do Ano Novo…

— Mesmo para vocês, um mês é um longo tempo. — Titania falava em tom baixo e calmo, quase que sussurrando. — A resposta que procura não deve demorar a aparecer.

A mão de Reiko, movida velozmente por ela em frente ao rosto de Koufuku, a trouxe de volta ao plano material. Pela cara de frustrada que a estrangeira fazia, nada do que diria poderia justificar sua atitude desatenta. Hanako limpou a garganta antes de falar.

— É bom saber que chegaram inteiros. A Floresta das Fadas pode ser um pouco complicada. Às vezes — comentou para mudar o foco da conversa. — Achei que Sua Majestade Chiwa viria.

— Mamãe não quer sair em janeiro agora que está sem Atena. Disse que deve demorar o dobro de tempo pra resolver a papelada anual.

— Essa questão de adaptação é complicada… — Hanako fechou os olhos para pensar. — Sua Majestade, meu pai, também está incomodado com a maneira que o estoque mágico dele vem acabando rápido.

— Sim, pra eles deve ser tipo perder um braço. Vamos indo, tô com fome! 

— Mas e o Toga…

Novamente, a mera menção ao nome do garoto fez Reiko franzir o cenho, mesmo que por pouco tempo — o sorriso que veio em seguida estava estranhamente artificial e exagerado. A Guardiã de Atena pegou sua amiga pela mão, arrastando-a para longe da carruagem a passos pesados, até estarem perto da escadaria que as levaria à área principal de Forestrie.

Quando atingiram a plataforma suspensa, Hanako notou como a expressão de sua amiga havia mudado. Não mais era raiva que preenchia sua face, mas sim uma frustração amarga, denotada pelos lábios apertados e testa pressionada. Titania acertou sua previsão: ela começaria a desabafar ali mesmo, pela maneira que inspirou fundo.

— Foi mal, mas ele tá me dando nos nervos faz um mês! — confessou Reiko, soltando todo o ar em seu peito enquanto massageava sua têmpora. — Tudo porque eu não concordei com ele quase matar meu melhor amigo!

— Espera, o qu…

— Desde então, ele não me responde, vive de cara feia e nem mesmo treina a sério comigo! Sério, que raiva daquele baixinho filho da puta!

— Reiko Chiwa! — A garota murmurou um “desculpa”. — O que exatamente aconteceu?

A ateniense começou a narrar toda a situação ocorrida entre eles antes das comemorações de fim de ano, a maneira que se trataram nas últimas semanas e como foi a viagem de vinda até Alfheim. A cada frase de sua melhor amiga, Hanako tinha mais certeza de apenas um fato, entalado em sua garganta desde o meio da longa explicação.

— Rei, você tem algum tipo de distúrbio cognitivo? — perguntou a ruiva.

— Muito engraçado, Hana — riu a garota. Por algum motivo, a faeri não a acompanhou.

— Eu não estou brincando, Rei. — A voz séria fez a risada dela morrer aos poucos. — Kai não está certo em momento algum dessa história, e nem você.

— Mas…

— Mas nada, Reiko! Por favor, deixe de lado o seu sentimento bobo por um nobre e peça desculpas ao seu amigo! — cortou a princesa, indignada. — Não percebe que é você quem está afastando ele e não o contrário?

Receber uma bronca tão dura da pessoa mais inofensiva que conhecia abalou a confiança de Reiko em seu ponto de vista. Não que não estivesse alheia a esta possibilidade — durante a virada do ano, Yumeko Chiwa também havia comentado que a filha estava estranha com o Guardião de Metatron.

Ainda assim, era um tapa seco escutar de terceiros seus erros. Dar o braço a torcer demoraria um pouco, Hanako sabia, então apenas a deixou absorver suas palavras por um tempo. O percurso de volta ao palácio foi regado por conversas curtas sobre a beleza da fauna e flora do reino das fadas, sobre as construções de madeira, sobre o almoço que teriam em breve…

A fluidez eventualmente as levou ao assunto que a princesa local queria evitar a qualquer custo.

— Você tava totalmente distraída agorinha — provocou a estrangeira, cutucando a lateral do corpo dela. — Pensando no seu príncipe encantado, Hana?

— N-Não e-estou, Rei! 

— Claro que isso é mentira, sua cara tá quase pegando fogo! 

— É porque v-você fica com essas ideias sem s-sentido! — devolveu Hanako.

Esconder a vermelhidão de seu rosto com seu longo cabelo destacou ainda mais o quanto estava corada. Gostaria que sua amiga estivesse errada, mas havia acertado em cheio.

No pouco tempo que passou com Tatsuyu, Hanako havia sido completamente capturada pelo charme dele. Fosse pelo cavalheirismo, por sua expressão suave, pela maneira que ele tratou-a com todo o respeito que nunca sentira fora de sua posição como princesa, a ruiva preencheu-se de um sentimento que não tinha conhecimento antes. 

Terminar uma viagem nunca tinha sido difícil até aquele ponto. Lembrou-se do momento da despedida enquanto tentava ignorar as provocações incessantes de Reiko.

— Uma pena já ter de partir — murmurou Hanako, caminhando com sua mala pelos corredores. 

— Oh, bom dia, Alteza! 

A voz atraente fez a ruiva desequilibrar-se de seus saltos altos. Tatsuyu foi rápido em impedir que caísse — a maneira que segurou os ombros da princesa destruiu qualquer chance dela se manter inerte à presença dele.

Logo que garantiu a estabilidade dela, o plebeu se afastou. À contragosto de Koufuku, claro, que estava um pimentão só de ter tais pensamentos indecentes quanto ao toque cálido dele.

— B-Bom dia, senhor Tatsuyu — disse a princesa, ainda abalada. — O que faz aqui tão cedo?

— Ora, vim me despedir! — A sinceridade dele a desarmou por completo. — Até tentei chamar o Heishi e a Haru, mas eles estão esgotados de ontem. Poderia ter a honra de acompanhá-la até seu destino?

— C-Claro… 

Os assobios despreocupados de Tatsuyu preencheram o silêncio da manhã junto das passadas de sua acompanhante. Como nos dias anteriores, ele não havia penteado seu cabelo e as olheiras estavam bem aparentes, o que deveria incomodar o senso estético de Hanako. Mas, se tratando dele, a única coisa que sentiu foi preocupação.

— Tem dormido apropriadamente, senhor Tatsuyu? — perguntou sem perceber.

A questão o fez abrir um sorriso caloroso e simplório, embora seus olhos rubi transmitissem um certo desconforto à princesa. O rapaz colocou a mão sob seu peito ao curvar-se para ela. 

— Aprecio o cuidado, Alteza — riu ele enquanto coçava a nuca — mas garanto que estou me cuidando. Na medida do possível.

Não entendeu muito bem o que o garoto quis dizer — naquelas horas que gostaria de conhecê-lo melhor para saber ler além da superfície de suas intenções. Isto, porém, ficaria para outro dia, visto que os portões do castelo surgiram em seu campo de visão.

Hanako amargou sua decisão anterior de ficar em silêncio quando estavam a sós.

— Bem, por ora, até mais! — anunciou Tatsuyu, virando para ela. — Te verei em Palas, Alteza. Tenha fé em si mesma! 

O rapaz já tomava rumo de volta ao castelo quando Hanako puxou a manga de suas vestes por instinto. Nem ela entendeu o que havia feito — seu rosto novamente foi tomado pela vermelhidão leve da vergonha. Se já tinha se condenado a esse posto, não custava nada seguir…

— Deixe-me apertar sua mão para… me despedir direito.

— Claro! Mas achei que não gostasse de contato físico, Alteza.

— Realmente não gosto, 

“Exceto se for você”, pensara naquele instante. Aquela desculpa de despedida era mais para si mesma do que para convencê-lo a estender a mão para ela.

— Mas o senhor merece um cumprimento decente.

— Vamos, Hana, me conta o que acha dele! — implorou sua amiga, as mãos unidas em frente ao rosto. — Juro que fico quieta! Por favor!

— Já disse que não estou gostando dele, Rei!

— Gostando de quem, florzinha?

Desta vez, quem as interrompeu foi uma mulher de cabelos muito similares aos de Hana, mas escuros como ébano. Trajada em um vestido de mangas longas azul-escuro, ela encarou a dupla com ternura irradiando de seus olhos cor de âmbar. Hanako engoliu em seco.

— B-Bom dia, querida mãe — saudou a herdeira de Alfheim. — Tal como todos os outros dias, a senhora está linda.

— Bom dia, tia Kiriya! — Reiko não teve o mesmo rigor. A rainha não pareceu se incomodar com esse detalhe, contudo. — Estou falando que a Hana está gostando de um rapaz de Dracone, e ela tá fazendo essa cara de desentendida.

— É porque eu não gosto dele!

— E eu sou a fada dos dentes — debochou Chiwa.

Kiriya Koufuku caminhou até sua filha, acariciando a lateral da bochecha desta. O gesto carinhoso teve outro sentido para a filha — sentiu-se ameaçada com a ideia de contar para rainha que seu interesse era um jovem plebeu de outra nação. Jamais, em hipótese alguma, isso seria um bom movimento para a elite social do reino das fadas.

Seria uma desonra para a coroa e corte faeri. A mulher colocou a mão sobre os cachos de Hanako, acariciando-os.

— Querida, já está nessa fase? — brincou Kiriya. — Apenas lembre de dar seu melhor exame de Palas. E, também, que terá que o convidar para a Dança dos Botões.

— M-Mãe! — A menção ao evento de casamento eliminou a formalidade. — Eu sou jovem d-demais para isso!

— Ora, seu pai me pediu em casamento quando eu tinha 18 anos. 

— Jovem demais!

— Não acho, Hanako. 

Escutaram a aproximação de uma pessoa pelo caminho florido vindo do castelo. O corpo robusto, cavanhaque ruivo bem feito e a coroa com rosas azuis de cristal — diferente das rosas vermelhas da tiara de Hanako — fizeram as Koufuku abrirem um sorriso. Suas vestes negras de inverno era uma perfeita combinação ao tom frio de sua esposa, embora os cabelos como fogo fossem cruciais ao contraste visual.

— Bom dia a todos — cumprimentou o Asahi Koufuku, o rei. — E bem-vinda, Alteza. Espero que aproveite a estadia em nosso país.

— Obrigada, Vossa Majestade — retribuiu Reiko, com uma reverência. - Trago também presentes de minha mãe em agradecimento à amizade milenar entre Alfheim e Sophis. A hospitalidade habitual é e sempre será uma grande honra para nós.

— Bem que poderia ter me ajudado a descarregar a tonelada de coisas que você trouxe, né, senhorita? 

Togami apareceu rapidamente atrás de sua amiga, assustando-a no processo. Ao perceber quem havia lhe dirigido a palavra, seu rosto voltou à expressão raivosa que Hanako viu antes. O mau humor de Chiwa não durou muito, uma vez que sua expressão suavizou logo.

— Tá, desculpa — bufou, apontando o dedo para ele — mas não pense que está tudo certo!

Mais uma vez, Reiko pegou o braço da outra princesa e a arrastou para o interior do palácio, deixando Togami sozinho para se apresentar aos governantes de Alfheim. 

“Definitivamente, ela não vai admitir cedo”, comentou Atena dentro de sua mente, com uma risada silenciosa.

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