Volume 1
Capítulo 9: Procedimento
Arume acordou com o som da própria respiração.
Não estava amarrada. A pedra sob seu corpo era lisa demais para ser cela comum, limpa demais para guardar memória. A luz vinha de um cristal fixado alto na parede, branco e constante. Não havia símbolos visíveis. Aquela ausência era o símbolo.
— Você sabe onde está — disse uma voz antes mesmo de ela ver alguém.
Arume se sentou devagar. O pulso com a pulseira ainda estava ali, frio demais.
— Sei — respondeu. — Onde fingem que nada acontece.
Ilyan Vereth entrou pela lateral da sala, túnica clara, o anel com três marcas refletindo a luz sem brilho algum.
— Averiguação não é punição — disse. — É leitura.
— De mim?
Ilyan tocou o cristal. O ar adensou, não como dor, mas como peso. Arume sentiu o pensamento desacelerar, como se cada ideia precisasse atravessar um filtro estreito demais.
— De escolhas — respondeu. — Especialmente das que são feitas tarde.
— Tarde em relação a quê?
— Ao objeto que não está onde deveria.
Silêncio.
— A biblioteca inferior não é monitorada por conteúdo — continuou Ilyan. — É monitorada por ausência. Ainda não precisamos do texto. Precisamos do leitor.
Arume fechou a mão. O metal da pulseira pressionou o osso.
— Teatro.
— Procedimento. Precisávamos confirmar se você protegeria o objeto… ou a pessoa.
O cristal vibrou uma única vez. O peso aumentou. Arume conteve o impulso de reagir.
— E o que eu fiz?
Ilyan caminhou até uma mesa baixa sem instrumentos, sem papéis.
— Confirmou que entende o risco — disse por fim. — E confirmou que confia no critério de quem ficou com ele.
— Você não sabe quem é.
— Ainda não — respondeu. — Mas agora sabemos como ele pensa.
O golpe não foi imediato. Veio depois, quando ela percebeu que aquilo bastava.
— Isso basta?
— Para classificar o evento.
— Classificar como o quê?
Ilyan foi até a porta.
— Observação contínua. Não contenção. Ainda.
A porta se fechou sem som.
Arume ficou só.
O peso diminuiu, mas não desapareceu. Ela apoiou a testa na parede fria e respirou fundo, sentindo algo mais incômodo que medo: ter escolhido certo e mesmo assim ter perdido espaço.
O amanhecer chegou fraco ao pátio dos Eclípticos.
A Academia acordava por camadas. Em algumas, passos ecoavam demais. Em outras, conversas cessavam rápido demais.
Mira permanecia sentada perto do arco, os olhos atentos demais para quem não dormira. Torvel fingia descansar, as tatuagens sob a pele inquietas. Rask passava o polegar repetidamente pelo fio de um metal sem corte real. Dalen ainda não tinha voltado.
Satoshi sentiu antes de ver.
O ar perdeu um grau.
As correntes no teto pararam de ranger.
O fogo em seu peito não recuou — inclinou-se, reconhecendo terreno antigo.
Ela estava ali antes de ser vista.
A Rainha das Cinzas surgiu na borda do pátio, entre duas colunas de pedra que nunca sustentaram nada além de sombra. Sem coroa. Sem escolta. A armadura de cinzas parecia mais opaca, como algo que já havia sido usada para atravessar demais.
Ninguém falou.
Ela não olhou o livro sob a túnica de Satoshi.
Olhou ele.
— Vocês sentiram — disse, baixo.
Mira assentiu. Torvel desviou o olhar. Rask prendeu a respiração.
— Quando a montanha responde — continuou a Rainha — não é convite. É reconhecimento.
A frase se fixou em um ponto onde o fogo não alcançava.
— O Conselho vai chamar isso de procedimento — disse ela. — Vai dizer que nada saiu do lugar. Que tudo ainda cabe nos nomes que eles têm.
Parou diante de Satoshi. Cinza fria no ar.
— Mas há coisas que não pedem permissão para serem vistas. — Seus olhos prateados não julgavam. Mediam. — Só esperam quem tenha paciência de não entender rápido demais.
— Então não devo abrir — disse Satoshi.
A Rainha demorou um instante.
— Não disse isso. — A voz foi quase um sussurro. — Disse que toda leitura que importa cobra antes. A pergunta não é o que você vai saber. É o que você aceita perder quando souber.
Ela recuou um passo. O ar voltou a circular.
— Quando decidir — concluiu — não decida sozinho. Cinzas se espalham. Fogo isolado só ilumina até apagar.
E se foi, engolida pela sombra.
O silêncio que ficou não era vazio. Era instável.
Rask foi o primeiro a se mover, os olhos acesos demais.
— Vocês entenderam o que isso foi? — murmurou, quase reverente. — Ela não aparece. Ela reconhece. Isso… isso é sinal.
Torvel soltou um riso curto, nervoso.
— Tier S não vem perder tempo. Quando alguém daquele nível fala de montanha, é porque o centro já se deslocou.
— Exato — disse Rask, dando um passo à frente. — Não é aviso. É permissão. Ela não disse pra esperar. Disse pra não decidir sozinho.
Mira se colocou entre eles.
— Chega. Vocês estão transformando cautela em chamado.
— Você não sentiu? — Rask insistiu.
— Senti — respondeu Mira. — E é por isso que não podemos ir. Arume não está aqui. — A frase caiu pesada. — Sem ela, qualquer passo vira erro duplo.
O entusiasmo de Rask vacilou. Não apagou — recuou, perigoso.
Torvel respirou fundo.
— Ela sempre mede antes — murmurou.
Satoshi sentiu o custo chegar atrasado.
Não como dúvida.
Como pressão no peito.
Como o fogo querendo avançar e sendo contido à força.
— Mira está certa — disse. — Sem Arume, não vamos a lugar nenhum.
— E ficamos parados? — Rask perguntou, a voz tensa.
Satoshi assentiu.
— Parados o suficiente para a poeira baixar.
— Isso não parece decisão.
Satoshi sentiu o calor subir um grau. Doeu conter.
— Parece fraqueza — disse. — E é por isso que funciona.
O silêncio voltou, mais curto, mais duro.
Rask se afastou um passo. O brilho nos olhos permaneceu, comprimido.
— Ela plantou isso — murmurou.
— Plantou dúvida — corrigiu Mira. — Dúvida não é ordem.
Satoshi fechou a mão devagar. O livro pressionou as costelas. Peso real.
— Ninguém age. Ninguém lê. Ninguém sobe montanha. — A voz saiu firme, mas o corpo não concordava. — Até Arume voltar.
Acima deles, passos demais ecoaram e cessaram rápido. Olhares desceram das passarelas e subiram depressa quando encontrados.
O mundo contava.
Satoshi permaneceu imóvel.
Esperar queimava.
Mas ceder queimaria tudo.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios