Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 10: O Custo do Silêncio

O pátio dos Eclípticos amanheceu sob olhos demais.
 A luz entrava pelas aberturas altas e morria na pedra. Acima, passos ecoavam onde não havia motivo para passar. Quando Satoshi levantava a cabeça, vozes se cortavam.
 Rask andava em círculos curtos, o metal na mão sem corte, mas insistente.
 — Ela não volta porque não querem — disse Rask.
 Mira não respondeu. Torvel parecia dormir, mas as tatuagens sob a pele ondulavam devagar. Satoshi manteve a mão sobre o livro escondido sob a túnica. O couro pressionava as costelas. Ele não abriu. O peso bastava.
 O som de sola dura no corredor não combinava com eles.
 Kael surgiu no arco de pedra, a expressão vazia, o Boitatá fragmentado girando lento ao redor do corpo como sombra de fogo.
 — Em pé — disse Kael. — Hoje vocês vão aparecer.
 — Desde quando— — Rask começou.
 — Desde que decidiram olhar pra vocês. Formação. Aulas gerais.
 Satoshi levantou primeiro. Mira e Torvel acompanharam. Rask demorou um instante, como se quisesse morder a ordem.
 Kael encarou o metal na mão dele.
 — Guarda isso.
 Rask guardou.
 — E Arume? — perguntou Satoshi.
 Kael não piscou.
 — Não é assunto meu.
 Subiram.
 Cada degrau limpava o ar e endurecia os rostos. Runas mais claras. Pedra mais polida. E o mesmo gesto: fingir que não viam.
 Na sala de escrita, o silêncio veio antes do instrutor falar. Auroranos e Solários estavam alinhados, pergaminhos limpos. Os Eclípticos entraram, e o som de penas parou por um instante curto demais para ser acaso.
 — Sentem-se — disse o instrutor.
 Ele desenhou um símbolo simples no quadro.
 — Copiem. Três vezes.
 Satoshi pegou a pena. A mão lembrava o tremor antigo da favela, quando letra virava dívida. Aqui, letra virava mira. Ele escreveu devagar. Linha por linha.
 Uma risada baixa cortou o fundo da sala.
 Cássio inclinou o rosto.
 — Ainda brincando de escrever seu nome, pavio?
 Rask puxou o ar.
 — Cássio—
 Mira tocou o braço dele. Aviso.
 Satoshi não levantou a cabeça. A pena riscou mais firme. Ele respondeu com linha, não com chama.
 Quando o sino grave vibrou na pedra, ninguém se levantou.
 — Fiquem sentados — disse o instrutor.
 Passos cruzaram o corredor. Não entraram. Pararam. Seguiram.
 Torvel murmurou:
 — Até o silêncio tá sendo contado.
 No pátio inferior, Kael aguardava.
 — Voltem pra baixo — disse. — E não façam nada idiota enquanto eu não estiver vendo.
 — Isso inclui respirar? — Rask resmungou.
 — Inclui.
 Eles desceram.
 O arco do dormitório estava aberto.
 Arume estava ali.
 Sem escolta. Sem anúncio. Como quem saiu para buscar água e esqueceu o tempo.
 O controle nela chamava atenção: cabelo preso mais firme, mãos quietas demais, olhos atentos a um ângulo que não era dela. No pulso, a pulseira marcava um círculo pálido, pressionado por horas.
 Mira se aproximou primeiro.
 — Voltou.
 — Voltei.
 Rask avançou meio passo.
 — O que fizeram com você?
 Arume escolheu cada palavra como quem pisa em chão rachado.
 — Nada que apareça fácil.
 O fogo no peito de Satoshi se contraiu. Não por medo. Por alerta.
 — Castigo? — Torvel perguntou.
 — Leitura — disse Arume.
 A palavra ficou.
 Dalen surgiu no corredor, o cheiro de coisa queimada vindo junto.
 — Soltaram sem barulho — disse. — Já pegaram o que queriam.
 — Perguntaram do livro? — Mira quis saber.
 Arume desviou o olhar por um instante mínimo.
 — Perguntaram de quem segura.
 Rask sorriu, tenso.
 — Então acabou. Agora a gente sobe.
 — Não — Mira cortou.
 — A Rainha falou—
 Arume ergueu a mão. Não houve raio. Só gesto. Rask parou.
 Ela olhou para o corredor aberto, esperou um segundo a mais do que precisava. Nada veio. Mesmo assim, não relaxou.
 — A porta abriu — disse. — E ninguém empurrou.
 Dalen soltou um riso curto.
 — Isca.
 — E barata — completou Mira.
 Satoshi assentiu.
 — Poeira ainda tá no ar.
 Rask fechou o rosto.
 — Então ficamos parados?
 — Ficamos vivos — disse Dalen.
 Satoshi lembrou da Rainha das Cinzas, da mão marcada, da frase sem conforto.
 Toda leitura cobra antes.
 — Mira — disse Satoshi.
 Ela virou.
 — Você falou: até Arume voltar.
 — Ela voltou — Satoshi disse. — Mas ainda tá com o cheiro deles.
 Rask balançou a cabeça.
 — Você vai segurar todo mundo.
 — Vou — respondeu Satoshi. — Ninguém sai. Ninguém corre. Ninguém mexe no que eles querem ver mexer.
 — Eles nunca vão largar — Rask rosnou.
 — Então a gente escolhe a hora — Satoshi respondeu. — Não eles.
 Kael apareceu no arco.
 — Sumam do mapa — disse. — Quem sair antes da hora volta comigo.
 Ele se foi.
 O dia passou em ordens pequenas e olhos grandes. Aula. Treino leve. Pausa sem descanso.
 À noite, Satoshi voltou ao nicho.
 Acendeu uma luz fraca. Tirou o livro de sob a túnica. Não abriu as páginas escritas. Foi ao começo. A primeira folha grossa, quase limpa.
 A pena esperava.
 O fogo dentro dele se inclinou, atento.
 Nomes têm peso.
 Satoshi escreveu devagar:
 SATOSHI.
 A tinta escureceu.
 Ele fechou o livro.
 Agora havia algo ali dentro que não podia ser tomado sem custo.
 Se viessem buscar, teriam que carregar junto o nome que ele aprendeu a escrever.
 E isso, ele sabia, não tinha volta.

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