Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 11: Antes do Verde Fechar

A manhã não trouxe aviso.
 Veio como vêm as coisas que não pedem licença: sem sinal claro, sem urgência aparente, mas com o peso errado no ar. Satoshi sentiu isso antes de abrir os olhos. O fogo no peito não queimava. Também não dormia. Mantinha-se inclinado, como um corpo que escuta do outro lado da parede.
 O dormitório dos Eclípticos respirava baixo. O calor da noite ainda preso na pedra fazia as correntes do teto rangerem em intervalos irregulares. Nada fora do comum.
 Ainda assim, Satoshi se sentou.
 O livro estava onde deixara, sob a túnica dobrada. Ele não tocou. Levantou-se e foi até a abertura alta. O verde da encosta parecia mais próximo do que deveria. As copas das árvores se tocavam onde ontem havia espaço.
 A floresta tinha avançado um passo.
 — Você também sentiu — disse Mira.
 Satoshi assentiu.
 — Não foi sonho.
 — Não — ela respondeu. — Sonho não muda trilha.
 Torvel passou a mão pelo braço tatuado.
 — Selos cansados. A mata não dormiu.
 Rask acordou por último, elétrico demais.
 — Então é hoje.
 — Não — disse Satoshi.
 Rask esperou.
 — Ainda não. Hoje a gente vê quanto tempo eles deixam a gente quieto.
 Passos precisos cortaram o corredor.
 Kael surgiu no arco de pedra.
 — Mudança de rotina — disse. — Treino de deslocamento.
 Arume já estava de pé, mas Kael ergueu a mão antes que ela desse o primeiro passo.
 — Você fica.
 O grupo parou.
 Arume franziu o cenho.
 — Por quê?
 Kael respondeu sem dureza.
 — Porque alguém precisa observar de dentro. E porque, se você for, eles vão achar que estamos testando limite.
 — E se algo acontecer? — Arume perguntou.
 — Acontece comigo — Kael disse. — Fique.
 Ela sustentou o olhar dele por um instante. Depois assentiu.
 — Voltem inteiros.
 Eles desceram sem ela.
 A trilha de pedra subia em direção à mata como uma cicatriz antiga. O verde avançava pelos lados, atento demais para ser cenário.
 Dalen surgiu acompanhando, como se sempre estivesse ali.
 — Mata acordada fede diferente — murmurou.
 A primeira dobra apareceu cedo. Onde a pedra virava terra e a sombra engolia luz.
 — Até aqui — disse Kael.
 Um estalo veio da mata. Não galho. Não bicho. Madeira antiga se acomodando.
 — Ela tá fechando — disse Mira.
 — Tá se movendo — corrigiu Kael.
 Um tronco inclinou-se o suficiente para apagar parte da trilha atrás deles. Não caiu. Apenas ocupou espaço.
 — Aviso — disse Torvel.
 Kael não respondeu. Observava.
 — Linha — disse por fim.
 Eles se alinharam. Passos curtos. Sem pressa. A floresta se rearranjava no ritmo exato para testar paciência. Raízes surgiam. Buracos se escondiam sob folhas.
 O fogo em Satoshi pediu caminho. Ele segurou. Usou só o bastante para firmar os pés.
 — Assim ela não olha direto — Torvel murmurou.
 Na segunda passagem, um galho riscou a túnica de Mira, deixando uma marca branca.
 — Lembrança — disse Dalen.
 Na terceira, Kael ergueu a mão.
 — Chega.
 O verde não avançou mais. Ficou.
 — Isso não é treino — disse Rask.
 — É — Kael respondeu. — De não reagir.
 Satoshi encarou a mata.
 — Ela vai fechar.
 Kael assentiu, mas não explicou.
 — Vai — disse apenas. — Quando isso acontecer, não é força que resolve.
 Voltaram.
 No dormitório, Arume esperava sentada, o caderno no colo.
 — Testou vocês — disse ela, sem pergunta.
 — Testou — respondeu Satoshi.
 — Então vai fechar — Arume concluiu.
 Satoshi assentiu.
 — Antes disso, a gente lê.
 — Todos — completou Mira.
 O livro ficou no meio do chão, fechado.
 O verde lá fora estalou uma vez.
 Como quem escuta.
 Fora do alcance dos Eclípticos A Sala do Conselho não tinha janelas.
 Kael ficou em pé no centro, braços soltos, postura de quem espera impacto.
 O Estrategista falou primeiro.
 — A movimentação foi confirmada.
 — A mata está reagindo — disse Kael. — Ainda dá tempo de conter.
 O Rei não respondeu de imediato.
 Foi a Rainha das Cinzas quem falou, a voz baixa como cinza caindo.
 — Quando a floresta se fecha, ela não aceita contenção.
 Kael franziu o cenho.
 — Então o que querem que eu faça?
 O Estrategista deslizou um pergaminho pela mesa de pedra.
 Datas antigas. Anotações frias. Marcas repetidas.
 — Subir — disse ele. — Com seu grupo.
 Kael leu rápido demais para gostar.
 — Esses registros… — a voz saiu mais baixa. — Não há retorno anotado.
 — Não houve — confirmou o Rei. — E após cada desaparecimento, a floresta recuou.
 Kael ergueu o olhar, tenso.
 — Isso é padrão.
 — É sobrevivência do reino — respondeu o Estrategista. — A mata se alimenta de erro humano. Depois dorme.
 — Vocês estão me pedindo para— — Estamos designando — corrigiu a Rainha das Cinzas. — Você decide apenas como.
 O silêncio pesou.
 Kael fechou o pergaminho.
 — E se eu recusar?
 — Mandaremos outro — disse o Rei. — Menos preparado.
 Kael respirou fundo.
 — Então será comigo.
 Quando saiu da sala, a pedra parecia mais fria sob seus pés.
 Na encosta, longe dali, o verde se mexeu.
 Como quem soubesse.

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