Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 12: O Que Não Volta

O livro pesava mais aberto.
 Fechado, era couro e costura. Aberto, era tempo comprimido. Satoshi sentiu isso assim que o colocou no chão do dormitório, entre eles. A luz fraca das catacumbas não ajudava. Mesmo assim, ninguém sugeriu trazer mais.
 — Aqui — disse Mira, ajoelhando primeiro. — Antes do sino.
 Torvel fechou a porta de pedra. O som foi curto, definitivo. Rask sentou com as costas na parede, inquieto. Dalen ficou de pé, braços cruzados, como se a leitura fosse um cheiro ruim que ele precisasse medir antes de engolir. Arume aproximou-se por último e sentou ao lado de Satoshi, o caderno fechado no colo, a pulseira fria no pulso.
 Satoshi abriu o livro.
 A primeira página não tinha título. Só marcas de mão, apagadas e reescritas, como se alguém tivesse tentado decidir se aquilo devia existir. A letra mudava de uma linha para outra. Não havia prefácio. Não havia pedido de desculpa.
 O formato mudou depois de algumas páginas.
 Colunas estreitas. Símbolos laterais. Desenhos esquemáticos feitos a carvão.
 Veado-de-Cinza
 Habita florestas de borda antiga.
 Não ataca. Observa.
 Sua presença indica território em transição.
 Quando avistado repetidamente, recomenda-se retirada gradual.
 Caçadores que o seguiram relataram desorientação e perda de noção de tempo.
 Nenhum registro de confronto direto bem-sucedido.
 — Já ouvi histórias disso — murmurou Torvel. — Sempre antes de trilhas desaparecerem.
 Satoshi virou a página.
 Coruja-da-Raiz
 Criatura noturna vinculada a árvores mais antigas que o reino.
 Não vocaliza.
 Marca presença apenas quando algo foi deslocado do lugar correto.
 Seu surgimento antecede crescimento irregular da mata.
 Tentativas de captura resultaram em desaparecimentos.
 Procedimento recomendado: registrar e recuar.
 — Sempre a mesma palavra — disse Mira, baixo. — Recuar.
 Dalen franziu o cenho.
 — Isso não é bestiário comum. É manual de sobrevivência.
 Satoshi avançou.
 A página seguinte não tinha nome.
 Nenhum desenho completo. Apenas linhas interrompidas, como se a mão tivesse parado no meio do traço.
 ???
 Classificação: indeterminada.
 Não responde a chamados.
 Não reage a oferendas.
 Não persegue.
 Permanece.
 Abaixo, em letra diferente:
 Observado como clarão fixo em regiões elevadas.
 Intensidade constante.
 Não associado a fogo, raio ou reflexo solar.
 Registros indicam que desaparecimentos humanos antecedem seu surgimento.
 Após o desaparecimento, observa-se recuo gradual da vegetação.
 Mais abaixo, espremido na margem: Intervalo médio entre manifestações: cinco anos.
 O dormitório pareceu encolher.
 — Cinco anos… — murmurou Satoshi.
 — Não — Rask falou rápido demais. — Isso é coincidência.
 Satoshi virou as páginas seguintes.
 Datas.
 Muitas.
 Algumas riscadas. Outras cercadas por símbolos que não se repetiam.
 “Grupo deslocado. Sem retorno.” “Perda considerada total.”
 “Área fechada por reação espontânea.” — Cadê o resto? — Rask perguntou.
 — Não tem — respondeu Mira. — Isso é o resto.
 Dalen aproximou-se do livro, aspirando o ar.
 — Coincidência não deixa padrão — disse. — Padrão deixa rastro.
 Os registros mudavam de mão. A letra ficava mais seca. Mais institucional. Menos humana.
 “Após o desaparecimento, observou-se recuo gradual da vegetação.
 Período de dormência estimado: quatro a seis anos.” — Dormência — repetiu Mira, quase sem voz.
 — Como se fosse bicho — disse Rask. — Come. Dorme.
 Arume fechou os olhos por um instante.
 — Não é fome — disse. — É resposta.
 Satoshi sentiu o fogo em seu peito se mover. Não em impulso. Em alinhamento.
 Mais abaixo, uma anotação marginal, escrita às pressas: “Tentativa de contenção ampliada falhou.
 Presença excessiva acelera fechamento.” — Por isso Kael mandou ficar — disse Arume. Não era acusação. Era encaixe.
 — Por isso não mandam tropa — completou Torvel.
 Rask bateu o punho no chão.
 — Então é isso. Mandam alguém subir. Alguém some. A floresta recua. O reino respira.
 Ninguém corrigiu.
 Na última parte, o tom mudava.
 Não era mais registro. Era aviso.
 “Se a luz aprende a esperar, o erro é humano.
 Se o erro se repete, não é erro.
 É escolha.”
 O silêncio ficou pesado.
 — Eles escolheram — disse Mira.
 — Sempre escolheram — respondeu Dalen.
 Rask levantou-se de um salto.
 — Então vamos quebrar o ciclo! Subir e— — Não — cortou Arume.
 Não houve relâmpago. Só a palavra.
 — Não como eles querem — continuou. — Não do jeito que fecha o livro.
 Satoshi fechou o volume devagar.
 — O livro não manda subir — disse. — Ele manda ler.
 — E depois? — perguntou Rask.
 Satoshi olhou para cada um. Não buscava concordância. Buscava presença.
 — Depois a gente decide sabendo — disse. — Sem fingir que é acidente.
 Torvel soltou o ar.
 — Isso muda tudo.
 — Muda quem paga — corrigiu Mira.
 Passos ecoaram do lado de fora. Leves. Medidos. A porta não se abriu.
 — Kael — murmurou Arume.
 — Não — disse Dalen. — É cedo.
 Os passos pararam. Seguiram.
 Rask esfregou o rosto.
 — Quem você acha que vai subir dessa vez? — perguntou, baixo.
 Satoshi demorou a responder.
 — Ainda não somos nós — disse. — Mas alguém vai pagar antes que entendam o erro.
 Arume inclinou a cabeça.
 — E quando entenderem?
 Satoshi guardou o livro sob a túnica.
 — Aí não vai importar mais.
 O sino grave da Academia vibrou, distante. Chamado para rotina. Para fingimento.
 Quando saíram, o verde lá fora estava quieto demais.
 Não avançava.
 Esperava.

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