Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 13: O Que Já Foi Decidido

Kael não dormira.
 Não porque esperasse algo novo — mas porque nada ali era novo. A decisão já fora tomada dias antes, em uma sala onde palavras não voltavam atrás. O que restava agora era o ajuste. O método. O quanto de sujeira ficaria visível quando tudo terminasse.
 A Academia sabia fazer isso bem.
 Os passos no corredor confirmaram o que ele já sentia. Não eram apressados. Não eram furtivos. Eram exatos demais para trazer esperança.
 — O Conselho solicita sua presença novamente — disse o oficial, sem pressa. — Apenas para alinhamento final.
 Alinhamento.
 Era assim que chamavam quando o sacrifício precisava parecer técnico.
 Kael assentiu e seguiu. Cada passo ecoava menos do que deveria. A pedra ali absorvia som. Sempre absorvera.
 A Sala do Conselho Menor permanecia igual. Pedra lisa demais. Nenhuma rachadura. Nenhuma marca antiga. Um espaço construído para que decisões não deixassem vestígios físicos, apenas humanos.
 O Estrategista já estava lá. Dois conselheiros ao lado. E, apoiada na sombra de uma coluna, a Rainha das Cinzas.
 Kael sentiu o peso da presença dela antes mesmo de erguer os olhos. Não era poder. Era memória. A lembrança de escolhas antigas que ainda ardiam.
 — Vamos economizar palavras — disse Kael. — O grupo sobe. Não é isso que mudou.
 O Estrategista inclinou levemente a cabeça.
 — Correto. O que discutimos agora é como isso será registrado.
 Kael soltou uma risada curta, sem humor.
 — Vocês se preocupam mais com o papel do que com quem vai desaparecer.
 — O papel é o que impede o pânico — respondeu um dos conselheiros. — Pessoas somem. Registros permanecem.
 Kael encarou o homem.
 — Permanecem para quem?
 O conselheiro não respondeu.
 A Rainha das Cinzas falou, sem elevar a voz, mas deslocando o ar da sala.
 — Quantos ciclos vocês já fecharam assim?
 O silêncio veio antes da resposta. Um silêncio velho.
 — O suficiente — disse o Estrategista.
 — Nenhum voltou — ela continuou. — Em nenhum deles.
 — A floresta recuou — rebateu o conselheiro. — Isso é fato observável.
 — E avançou de novo — ela respondeu. — Sempre.
 Kael cruzou os braços. Sentiu o peso da verdade se acumulando, não como revelação, mas como confirmação.
 — Vocês não querem contenção — disse. — Querem intervalo.
 — Queremos tempo — corrigiu o Estrategista. — Tempo para reorganizar fronteiras, fluxos, narrativas.
 — Narrativas — Kael repetiu. — Então vamos chamá-los de quê?
 — Missão de reconhecimento e estabilização — respondeu o conselheiro. — Termos neutros. Técnicos.
 A Rainha das Cinzas deu um passo à frente. A luz não a tocou direito.
 — Eles sabem o suficiente para escolher?
 — Não — respondeu o Estrategista, imediato.
 — Errado — disse ela. — Eles sabem demais para fingir obediência cega.
 Kael olhou para ela.
 — Você quer que eu diga tudo?
 — Quero que você diga o bastante — respondeu. — Para que, quando desaparecerem, não seja covardia.
 O conselheiro franziu o cenho.
 — Isso compromete—
 — O plano — ela concordou. — Mas salva o que ainda presta.
 Kael respirou fundo. Sentiu, com clareza incômoda, que aquela discussão não mudaria o destino. Apenas a forma como ele seria carregado.
 — Vocês me chamaram para ajustar método — disse. — Então ajustem comigo. O grupo sobe sabendo que ninguém voltou antes.
 O Estrategista sustentou o olhar.
 — Isso aumenta a chance de recusa.
 — Aumenta a chance de escolha — Kael corrigiu.
 Silêncio.
 Por fim, o Estrategista assentiu uma única vez.
 — Muito bem. Mas o registro será limpo. Nenhuma menção a ciclos. Nenhuma menção a desaparecimentos anteriores.
 — Claro — Kael disse. — A mentira continua institucional.
 A Rainha das Cinzas fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia cansaço ali. Não dúvida.
 — Kael — disse ela —, não minta para eles. Nem para si.
 Ele assentiu e virou-se para sair.
 — Amanhã ao amanhecer — disse o Estrategista. — A subida começa.
 Kael não respondeu. Não precisava.
 No dormitório dos Eclípticos, o ar estava pesado demais para dormir. As correntes no teto rangiam baixo, aquecidas pelo dia que não terminara direito. Ninguém fingia descanso.
 Satoshi estava sentado, o livro fechado ao lado, quando a porta de pedra se abriu.
 Kael entrou sem cerimônia.
 — Já sabemos — disse Mira, antes que ele falasse.
 Kael parou. Observou o grupo. Nenhum rosto vazio. Nenhum esperando ordem.
 — Sabem que alguém vai subir — disse ele. — Não sabem tudo.
 — Então diga — disse Arume, direta, sem desafio.
 Kael respirou fundo.
 — Nunca ninguém voltou — disse. — Em nenhum ciclo.
 O silêncio caiu pesado, físico.
 Rask apertou os punhos. Não falou de imediato. Quando falou, a voz veio baixa.
 — Quantos ciclos?
 — O bastante para virar procedimento — respondeu Kael.
 Torvel desviou o olhar. Dalen permaneceu imóvel demais.
 Satoshi sentiu o fogo em seu peito se mover. Não rugiu. Não explodiu. Ajustou-se, como se reconhecesse o tamanho do erro que se aproximava.
 — E a floresta recua — disse ele.
 Kael assentiu.
 — Por alguns anos.
 — Depois volta — completou Mira.
 — Sempre.
 Arume respirou fundo, os dedos tocando a pulseira no pulso.
 — Então não somos missão — disse. — Somos intervalo.
 Kael não negou.
 — Ainda assim — disse —, vocês vão decidir como subir.
 Rask deu um passo à frente.
 — Decidir como morrer?
 Kael sustentou o olhar.
 — Decidir como não fingir.
 O silêncio voltou. Mais pesado.
 Satoshi fechou o livro devagar.
 — Não hoje — disse. — Hoje a gente lê tudo.
 Kael assentiu.
 — Amanhã cedo — disse ele. — Antes que decidam por vocês.
 Quando saiu, ninguém falou por um tempo longo demais.
 Rask foi o primeiro a quebrar o silêncio.
 — Eles nos veem como tempo.
 Satoshi respondeu, baixo, sem teatralidade: — Então vamos ver quanto custa desperdiçar leitura.
 Lá fora, o verde permanecia imóvel.
 Não avançava.
 Esperava.

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