Volume 1
Capítulo 14: Já Foi Lido
A pedra estalou baixo quando alguém pisou errado.
Foi um som pequeno, seco, mas suficiente para quebrar o silêncio contido do pátio. Satoshi abriu os olhos antes de identificar quem se movera. O fogo em seu peito não reagiu. Apenas registrou.
O livro não estava mais no centro.
Havia um vazio específico na pedra irregular que usavam como mesa — não ausência, mas deslocamento deliberado. Algo tinha sido movido com cuidado demais para ser descuido.
O volume estava encostado à parede do fundo, parcialmente coberto por um pano simples. Exatamente como haviam combinado.
Nada exposto. Nada esquecido.
Arume estava sentada ali perto, os joelhos dobrados, as costas apoiadas na rocha fria. Os dedos descansavam soltos sobre as próprias pernas, mas o olhar não descansava em lugar nenhum. Não havia marcas de contenção nela, nem sinais de escolta recente. Ainda assim, ninguém fingia que a liberação fora simples.
Mira permanecia de pé perto da saída inferior, dois dedos apoiados na pedra como quem sente vibração antes de ouvir passos. Torvel agachara-se junto ao chão, passando a mão pelas runas apagadas, testando irregularidades que não estavam ali na noite anterior. Rask observava tudo em silêncio, braços cruzados, o maxilar rígido demais para relaxamento.
— Não dormi — disse Rask, baixo.
— Nem eu — respondeu Torvel.
— Dormir agora seria fingir — completou Mira.
Satoshi se aproximou do livro e se sentou. Não abriu de imediato. Colocou a mão sobre a capa, sentindo o couro frio, gasto, real. Aquilo não era descoberta. Era confirmação repetida.
— Vamos reler — disse ele. — A parte que não muda.
Arume ergueu o olhar.
— A dos ciclos.
Mira puxou o pano e abriu o volume já na seção marcada. As páginas estavam dobradas nos cantos, riscadas com sinais quase invisíveis. Leitura feita mais de uma vez.
— “Após cada desaparecimento, a floresta recua” — leu Mira. — “A área de influência diminui. Trilhas reaparecem. O clarão enfraquece.” Torvel soltou o ar devagar.
— Sempre depois.
Rask inclinou levemente a cabeça.
— Tempo suficiente.
Satoshi assentiu.
— Não é contenção. É espera administrada.
O fogo em seu peito se moveu de leve, não em alerta, mas em reconhecimento seco. Aquilo explicava o silêncio do Conselho. A ausência de pressa real. A tranquilidade artificial.
— Eles não mandam Solários — disse Mira.
— Nem Auroranos — completou Torvel.
— Mandam quem não pesa — concluiu Rask.
Arume estendeu a mão e virou a página seguinte.
A anotação era curta. Crua demais para explicação.
Não enviar os que sustentam.
Não enviar os que ajustam.
Enviar os que podem ser perdidos sem colapso imediato.
Ninguém comentou de imediato.
O som de passos veio do arco de pedra.
Kael surgiu sem anúncio. Parou ao ver o grupo reunido, o livro aberto. O olhar percorreu cada rosto antes de pousar na capa fechada. Não houve surpresa. Apenas desgaste acumulado.
— Vocês não falaram disso fora daqui — disse.
— Não — respondeu Satoshi. — Nem vamos.
Kael assentiu uma vez.
— O Conselho não mencionou o livro — continuou. — Mas falou em precedentes. Em estabilidade prolongada.
Rask soltou um riso quase imperceptível.
— Palavras limpas.
Kael não negou.
— Eles vão mandar subir — disse Torvel.
— Não hoje — respondeu Kael. — Mas não vão desistir.
Mira cruzou os braços.
— Arume está aqui.
Kael olhou para ela. Depois para Arume. O olhar dela não desviou.
— Eu sei.
Rask respirou fundo, como quem mede distância antes de um salto que não pretende dar.
— Se formos cedo demais — disse —, tudo continua funcionando.
Satoshi fechou o livro com cuidado.
— Então não vamos cedo.
— Isso não impede a ordem — disse Kael.
— Impede o conforto — respondeu Satoshi. — E conforto é o que mantém ciclos.
Kael o encarou por mais tempo do que gostaria.
— Você sabe que isso cobra preço.
— Sempre cobrou — respondeu Satoshi.
Arume se levantou devagar.
— Quando subirmos — disse — não vai ser para manter rotina.
O pátio ficou quieto. Não vazio. Atento.
— Vai ser para quebrar leitura antiga — completou ela.
Kael respirou fundo.
— Guardem o livro. Se alguém perguntar, vocês não viram nada. Não sabem de nada.
— E quando perguntarem de novo? — disse Torvel.
Kael virou-se para o arco.
— Aí vocês fingem surpresa. É o protocolo.
Quando ele se foi, o som dos passos se perdeu rápido demais para conforto.
Satoshi ficou mais um instante com a mão sobre o couro frio do livro.
O que estava escrito não precisava ser entendido outra vez.
Precisava ser enfrentado.
Acima deles, a Academia seguia em movimento regular.
Abaixo, a montanha permanecia imóvel.
E, em algum ponto invisível da floresta, algo continuava brilhando — não porque chamava, mas porque sabia que ainda estava sendo lido.
Satoshi fechou os olhos por um instante.
Não para rezar.
Para contar.
E decidiu, com todos ali, que desta vez o ciclo não se fecharia em silêncio.
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