Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 15: Reino de Merda

O primeiro sinal não veio do céu.
 Veio do chão.
 Satoshi sentiu antes de entender. Não foi tremor, nem magia ativa, nem presságio ritual. Foi a sensação incômoda de pedra que passou tempo demais encostada em algo vivo. Um frio úmido subindo pela sola dos pés, lento, persistente, como raiz procurando fenda.
 Ele parou no meio do pátio dos Eclípticos.
 Arume sentiu no mesmo instante. O corpo dela reagiu antes do pensamento: postura firme, respiração curta, olhos presos na abertura superior do pátio.
 — Não era para agora — disse ela.
 Torvel levantou a cabeça. As tatuagens sob a pele se moveram fora de ritmo, como se alguém tivesse puxado um fio errado.
 — O quê?
 Mira tocou a parede com dois dedos. A pedra estava fria demais para aquela hora.
 — O verde — disse. — Avançou além do limite de ontem.
 Rask se levantou da bigorna onde estava sentado.
 — Quanto?
 Arume fechou os olhos por um segundo, sentindo o ar, o peso, o cheiro que não devia estar ali.
 — O suficiente para apagar trilhas antigas. — Abriu os olhos. — E o suficiente para que animais comuns não retornem.
 O pátio ficou quieto.
 Não era alarme. Era reconhecimento.
 Aquilo não reagia a nada. Aquilo decidira.
 — Ele cansou — murmurou Torvel.
 Satoshi sentiu o fogo em seu peito se contrair levemente. Não ameaçador. Atento. Aquilo não era resposta a desaparecimento algum. Era acúmulo. Tempo demais sendo administrado como tabela.
 Por um instante curto, involuntário, a memória veio.
 O cheiro de ferro quente.
 O pai curvado sobre a bigorna do reino, braços grossos, as mãos cobertas de cortes antigos. Um dos dedos sangrava de novo, o vermelho escuro já seco nas laterais, reaberto a cada batida do martelo. Ele não parava. Não limpava. Só mudava o peso do corpo e continuava.
 — Não para — Satoshi lembrava de dizer, criança ainda.
 O pai não olhava. Só batia.
 — Se parar, eles trocam a gente. — A voz vinha rouca, cheia de raiva contida. — Esse reino de merda não espera ninguém cicatrizar.
 O martelo descia de novo.
 Satoshi piscou. O pátio voltou.
 Passos ecoaram no arco de pedra.
 Kael surgiu sem escolta. Não veio devagar. Não veio anunciando. O rosto estava fechado, mais velho do que no dia anterior. Parou no centro do pátio e falou antes que alguém perguntasse.
 — Arrumem o essencial — disse. — Vocês sobem hoje.
 O silêncio que caiu não foi de choque.
 Foi de confirmação amarga.
 — Ultimato — disse Mira, sem levantar a voz.
 Kael assentiu.
 — O verde avançou além de qualquer padrão registrado. — Ele respirou fundo. — E desta vez não houve desaparecimento algum.
 Fez uma pausa curta, pesada.
 — Ele se moveu sozinho. O Conselho perdeu o controle.
 Rask inclinou a cabeça.
 — Então decidiram provocar o ciclo.
 — Decidiram tentar forçar a lógica antiga — respondeu Kael. — Antes que percam completamente.
 Arume deu um passo à frente.
 — Eles sabem que isso não vai recuar como antes.
 — Sabem — disse Kael. — E é exatamente por isso que chamaram vocês.
 Satoshi sentiu o peso daquelas palavras se acomodar de vez.
 — Quem mais? — perguntou.
 Kael olhou ao redor do pátio.
 — Só vocês.
 Torvel soltou um riso seco.
 — Claro.
 — Então ainda dá para recuar — disse Rask.
 Kael não respondeu de imediato. Olhou para cada um deles, como quem mede peso, não coragem.
 — Dá — disse, por fim. — Quem recuar será executado como traidor do reino.
 O silêncio não foi de choque. Foi de entendimento.
 — Não haverá julgamento — continuou Kael. — Nem registro público. O Conselho chama isso de prevenção.
 Arume não reagiu. Mira fechou os olhos por um instante curto demais para ser oração.
 — E você? — perguntou Satoshi.
 Kael sustentou o olhar.
 — Perco a tutela do grupo. — Fez uma pausa. — E qualquer margem de negociação futura.
 Satoshi assentiu devagar.
 — Estão apostando que a floresta resolve o problema deles.
 — Estão — confirmou Kael. — E desta vez a floresta parece disposta a aceitar qualquer coisa que empurrem.
 Um vento atravessou o pátio trazendo cheiro de terra molhada demais para ser lembrança. O verde estava perto. Não visível, mas presente.
 — O livro — disse Mira.
 — Vocês já leram o suficiente para saber o que ele não explica — respondeu Kael. — O resto não está escrito.
 Rask abriu um sorriso curto.
 — Nunca está.
 Satoshi olhou para cada um deles. Não havia discurso possível ali. Nenhuma coragem a ser inflada. Apenas realidade nua.
 — Se subirmos — disse ele —, não é para fechar ciclo.
 — É para interromper — completou Arume.
 — Ninguém nunca fez isso — disse Torvel.
 — Tentaram — respondeu Kael. — Não voltaram para registrar.
 O silêncio voltou, mais denso.
 — Então registramos antes — disse Satoshi. — E vamos sabendo que não somos resposta pronta.
 Kael assentiu uma única vez.
 — O Conselho espera que sigam o caminho antigo.
 — Não vamos — disse Mira.
 — Esperam que vocês desapareçam — acrescentou Kael.
 — Também não — respondeu Rask, sério agora.
 Arume fechou os olhos por um instante.
 — O verde se mexeu porque cansou de esperar. — Abriu os olhos. — Então não vamos como oferta.
 — Vamos como erro de leitura — disse Satoshi.
 Kael assentiu.
 — Levem pouco. Nada que pareça exército. Nada que vire símbolo.
 — Eles querem que pareça correção de erro — disse Torvel.
 — Exato — respondeu Kael.
 O som distante de sinos solares ecoou acima deles. A Academia se ajustava para fingir normalidade.
 — Duas horas — disse Kael. — Depois disso, não é mais escolha.
 Ele se virou para sair, mas parou no arco de pedra.
 — Uma coisa — disse, sem olhar para trás. — Se a floresta não recuar… — Ela não vai — disse Arume.
 Kael assentiu.
 — Então o reino vai aprender o custo de administrar o mundo como planilha.
 Quando ele se foi, o pátio permaneceu silencioso por alguns segundos longos demais.
 Satoshi respirou fundo.
 — Antes de subirmos — disse.
 Todos olharam.
 — Faz seis meses que eu cheguei aqui sem saber ler meu próprio nome.
 Silêncio.
 — Seis meses atrás, eu não saberia nem entender metade do que o Conselho está fazendo agora. — Ele respirou fundo. — E isso não foi mérito meu sozinho.
 Ele virou primeiro para Mira.
 — Obrigado por me ensinar a pensar antes de agir. Por me lembrar que parar também é uma escolha.
 Mira sustentou o olhar. Assentiu.
 Ele olhou para Torvel.
 — Obrigado por me mostrar que enxergar antes de tocar salva mais gente do que força. E por nunca fingir que entende tudo.
 Torvel sorriu de canto.
 — Ainda não entendo quase nada.
 Satoshi virou para Rask.
 — Obrigado por nunca me deixar esquecer quem eu posso virar se não escolher direito. E por me lembrar que fé sem limite vira desculpa.
 Rask levou a mão ao peito.
 — Alguém tinha que dizer.
 Por fim, Arume.
 — Obrigado por me ensinar foco. E por ficar quando era mais fácil sair.
 Arume desviou o olhar por um segundo.
 — Isso sempre cobra.
 — Eu sei.
 Satoshi sentiu o peso da decisão se fechar.
 — A gente não pode negar. Se recusar, morre como traidor. E outros sobem no nosso lugar. Pessoas que não sabem o que a floresta faz quando ninguém está olhando.
 O vento voltou, mais próximo.
 — Prefiro morrer andando do que fingir que esse reino é bonito. — disse Satoshi. — Prefiro subir sabendo o que estou fazendo do que deixar o povo lá embaixo pagar por silêncio administrativo.
 Ele sentiu o eco da voz do pai na memória, dura, cansada, verdadeira.
 — Esse reino é uma merda. — disse, sem raiva. — Mas tem gente vivendo nele.
 Arume falou primeiro.
 — Então a gente sobe.
 — Juntos — disse Mira.
 — Até onde der — completou Torvel.
 Rask sorriu, curto e perigoso.
 — E que o Conselho engasgue com os relatórios.
 Satoshi fechou os olhos por um instante.
 Não foi oração.
 Foi registro.
 Quando abriu, o verde parecia mais próximo.
 E, pela primeira vez, ele não sentiu que estava sendo empurrado.
 Ele estava indo.

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