Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 8: O Que Permanece Acordado

O clarão não desapareceu quando a neve voltou a cair.
 Ele apenas ficou mais distante.
 Um vermelho antigo nas montanhas, imóvel demais para ser reflexo, vivo demais para ser acaso. As lanternas azuis do pátio retomaram o brilho, mas nenhuma voltou a cheirar a chocolate. O ar parecia lavado de festa.
 Satoshi não foi o único a olhar.
 Nos níveis superiores, silhuetas se acumulavam nas passarelas. Solários paravam com taças na mão. Auroranos se inclinavam sobre os parapeitos. Ninguém comentava alto. O silêncio era uma decisão coletiva.
 — Eles viram — murmurou Mira, ao lado dele.
 Dalen soltou a fumaça devagar demais.
 — Fingem que não.
 O clarão pulsou uma única vez, fraco. Como quem testa se ainda é observado.
 Kael surgiu do nada habitual.
 — Acabou — disse ele. — Por hoje.
 Arume virou-se, incrédula.
 — Aquilo não acabou.
 — A noite sim — respondeu Kael. — E quem insiste em prolongar costuma virar assunto oficial.
 O pátio começou a se esvaziar rápido demais. Instrutores surgiam nos arcos. Conversas eram cortadas no meio. A normalidade voltava com pressa excessiva.
 O fogo no peito de Satoshi se moveu.
 Ele não reagiu. Reconheceu.
 Algo tinha sido visto.
 E visto demais.
 No dormitório dos Eclípticos, ninguém deitou imediatamente.
 As correntes no teto rangiam com o calor acumulado. Pela fresta alta da rocha, o clarão ainda era visível — mais opaco agora, como se tivesse aprendido a esperar.
 — Já vi luz assim antes — disse Torvel, sentado no chão. — Não aqui. Em mapas velhos. Sempre vinha antes de alguém desaparecer.
 — Isso ajuda muito — resmungou Rask.
 Mira permanecia de pé, encostada na parede.
 — Não foi chamado — disse ela. — Foi resposta.
 Satoshi ergueu o olhar.
 — Resposta a quê?
 Mira demorou um pouco antes de falar.
 — A algo que saiu do lugar.
 Ninguém disse “você”.
 Mas o silêncio chegou perto.
 Kael observava todos, braços cruzados.
 — Durmam — ordenou. — Amanhã a Academia decide o que fingir.
 — E se fingirem errado? — perguntou Arume.
 Kael sustentou o olhar dela por um segundo a mais.
 — Então sobrevivemos ao erro.
 As luzes foram diminuídas. Um a um, os Eclípticos se deitaram. O sono veio mal distribuído.
 Satoshi não dormiu.
 O fogo em seu peito estava quieto demais. Não como coisa domada. Como coisa atenta.
 Quando a noite se aprofundou e até as passarelas superiores ficaram vazias, ele se sentou no nicho de pedra. Pegou o caderno azul que Arume lhe dera e abriu em uma página qualquer.
 Nada escrito.
 Ele respirou devagar.
 Pensou no clarão.
 Pensou nos olhares.
 Pensou no modo como ninguém fez pergunta alguma.
 Base, disse a si mesmo. Antes do caos.
 Satoshi se levantou.
 No corredor, encontrou Arume, já acordada, sentada no chão, o caderno dela aberto no colo.
 — Você também viu — disse ela, sem levantar a cabeça.
 — Vi.
 — Não é coisa de amanhã.
 — Não.
 Ela fechou o caderno.
 — Biblioteca inferior — disse Arume. — Existe um registro antigo. Meu instrutor mencionou uma vez. Luzes que não pertenciam a lugar nenhum.
 Satoshi assentiu.
 — Agora?
 Arume balançou a cabeça.
 — Daqui a pouco. Quando até a Academia esquecer de fingir.
 Passos suaves se aproximaram. Mira parou na entrada do corredor.
 — Eu cubro a saída. Se alguém descer, atraso.
 Torvel surgiu logo depois, as tatuagens sob a pele mais calmas.
 — Se tiver selo, eu vejo antes de tocar.
 Dalen bocejou.
 — Odeio livro. Mas odeio mais não saber quem está nos olhando.
 Satoshi inspirou fundo.
 Não era impulso.
 Não era bravata.
 Era uma linha sendo traçada devagar.
 — Então vamos — disse. — E voltamos antes do amanhecer.
 O clarão nas montanhas não reagiu.
 Mas o fogo em seu peito se ajustou, como quem aceita vigília longa.
 Satoshi apagou a luz do nicho.
 Algumas coisas não dormem.
 E agora, ele sabia, não dormir também era uma escolha.
 A descida começou em silêncio.
 A Academia dormia por camadas, cada uma respirando em um ritmo diferente. Nos níveis altos, o silêncio era limpo. Abaixo, rangia sob os pés, a pedra marcada por ferramentas antigas demais para polimento.
 Mira parou na bifurcação e ficou. Tocou a parede com dois dedos e fechou os olhos. Base. Atraso.
 Torvel seguiu à frente, a mão flutuando a um palmo das runas apagadas.
 — Selos cansados — murmurou. — Mordem depois de acordar.
 Arume caminhava atrás de Satoshi, passos curtos, atentos. A pulseira em seu pulso marcava um ritmo que não era o dela.
 A biblioteca inferior não anunciava entrada.
 Ela engolia.
 O ar mudou primeiro. Poeira fria. Couro velho. Pedra que nunca viu sol. Fileiras baixas de estantes formavam corredores estreitos. A luz dos cristais era suficiente para ler, insuficiente para conforto.
 O fogo em Satoshi se comprimiu. Ele manteve a respiração baixa.
 — Aqui — disse Arume, parando diante de uma estante torta. — Registros de visibilidade. Antigos.
 Satoshi puxou um tomo sem título na lombada. O couro cedeu com um estalo seco. Dentro, páginas costuradas às pressas, notas de margem cortadas, símbolos riscados como quem pede desculpa depois de escrever.
 Ele leu devagar.
 “Luzes que permanecem após o olhar.” “Montanhas respondem quando algo sai do eixo.” “Não chamar. Não nomear. Registrar e selar.” — Eles sabiam — disse Satoshi.
 Arume não hesitou.
 — Sabem. E escondem.
 Outro registro. Outra mão. Outra época.
 “Quando a luz aprende a esperar, procedimentos falham.” Um som seco veio do corredor.
 Passos.
 Medidos demais para pressa.
 Torvel ergueu a mão.
 — Chegaram.
 Arume arrancou o livro da mão de Satoshi, folheou rápido e empurrou o volume contra o peito dele.
 — Fica com você — disse. — É sobre o clarão. Sobre quando ele não some.
 O couro frio bateu contra suas costelas. Peso real. Prova real.
 — Arume—
 Ela já se afastava.
 — É escolha minha.
 O ar estalou.
 Não foi explosão. Foi descarga contida. Um arco de relâmpagos azul-dourados rasgou o chão entre eles. O cheiro de ozônio queimado subiu seco, imediato. A vibração atravessou os pés de Satoshi e subiu pelas pernas como um golpe mal direcionado, empurrando-os para trás o suficiente para impedir qualquer avanço.
 — Arume! — chamou Satoshi, a garganta ardendo.
 Ela não virou.
 — Saiam. Agora.
 Lanternas surgiram no corredor principal. A luz bateu na poeira suspensa, fazendo-a parecer cinza em queda lenta.
 Dois Auroranos apareceram, postura neutra, mãos abertas. Atrás deles, um oficial de túnica clara.
 — Aluna — disse o oficial. — Averiguação de rotina.
 Arume respirou fundo. As marcas de raio em seus braços pulsaram uma única vez e então se apagaram, como brasa coberta por cinza fresca.
 — Qual motivo?
 — Visibilidade anômala. Presença no local errado, hora errada.
 Ela assentiu.
 — Posso guardar meus materiais?
 — Claro.
 Arume ajustou a túnica, tocou a pulseira uma vez — o metal estava frio.
 — Sem algemas — disse o oficial. — Não é prisão.
 — Eu sei — respondeu ela. — É procedimento.
 Ela seguiu com eles. Sem pressa. Sem luta.
 Quando passou pelo arco, Satoshi percebeu algo que doeu mais que o relâmpago: o chão ainda tremia levemente onde ela estivera.
 O arco de energia se dissipou devagar, deixando no piso uma linha fina, escurecida, quente ao toque — como se a pedra tivesse sido forçada a lembrar.
 Torvel soltou o ar.
 — Ela fez isso direito.
 Satoshi não respondeu.
 No pátio dos Eclípticos, Mira ainda estava ali, os olhos abertos demais para alguém que não dormira.
 — Levaram — disse ela. — Limpo.
 Satoshi abriu o caderno azul. A mão não tremeu.
 Escreveu uma linha curta:
 Quando a luz espera, alguém escolhe quem paga.
 Ele fechou o caderno.
 — Não pedimos — disse Satoshi. — Lemos.
 O clarão nas montanhas não pulsou.
 Ficou.

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