Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capitulo 7.2: Especial de Natal — “Amigo Secreto Eclíptico”

A neve caía devagar sobre o pátio central da Academia de Arakua. Lanternas azuis pairavam no ar, sustentadas por runas simples que exalavam cheiros de chocolate quente, canela e lenha úmida. Por uma noite, o lugar que treinava armas vivas fingia ser normal.
 — Regras do amigo secreto dos Eclípticos! — anunciou Arume, de pé sobre uma mesa. — Presentes feitos à mão. Nada comprado, nada roubado e nada vivo… de preferência.
 Todos olharam para Dalen.
 — Foi UMA salamandra — ele retrucou. — E ela estava infeliz! Eu ofereci perspectiva!
 Arume piscou, confusa. — Não faço ideia do que isso quer dizer, mas parece criminoso.
 Risos se espalharam. Até Kael estava ali, com uma caneca de chá na mão e a expressão de quem aceitou, só por hoje, não controlar nada.
 Os papéis foram distribuídos sem cerimônia. Satoshi desdobrou o dele.
 Arume.
 O peso no peito não era medo. Era responsabilidade. Dificilmente sabia o que dar. Nunca teve prática com presentes. Nem com receber.
 Torvel encostou no ombro dele. — Se ajuda, ninguém aqui sabe o que está fazendo. Só finge até parecer real.
 Satoshi assentiu, guardando o papel.
 O pátio virou um pequeno ateliê improvisado. Torvel moldava sombras como pano. Mira entalhava madeira. Rask afinava detalhes de metal com cuidado quase religioso. Dalen discutia consigo mesmo e com uma salamandra invisível que claramente não existia.
 Arume trabalhava no que parecia um caderno. Ela escrevia, apagava, reescrevia. Não buscava perfeição — buscava precisão.
 Satoshi procurou o canto mais silencioso. Respirou fundo. O fogo dentro dele tremeluziu, atento.
 — Sem exagero hoje — murmurou.
 A chama respondeu como um músculo, não como um monstro. Ele aqueceu o metal, controlando o impulso. Forjou com cuidado um pequeno acessório com a ajuda de Kael.
 Quando chegaram as entregas, ninguém fez discurso.
 Torvel entregou a Mira um lenço de sombra sólida.
 — É para quando o medo bater — disse. — Não deixa ele decidir sozinho.
 Mira deu a Rask um broche com o símbolo da Mãe-de-Ouro.
 — Pra lembrar quem você quer ser — ela disse. — Não quem esperam.
 Rask baixou a cabeça num silêncio que valia um agradecimento.
 Dalen entregou a Torvel um frasco de luz mortiça.
 Kael suspirou ao fundo. — Se isso explodir, eu finjo que não vi.
 Então foi a vez de Arume.
 Ela caminhou até Satoshi e entregou um caderno de capa azul.
 — Tirei você — disse, simples.
 Satoshi abriu. Dentro, páginas com símbolos curtos, alinhados com disciplina.
 — O que são essas runas? — ele perguntou.
 — Runas de foco — respondeu Arume. — Servem pra te ajudar a escrever e ficar estável mais fácil.
 Ela hesitou um segundo.
 — Não quero te ver queimando sem querer.
 Satoshi passou o dedo pelas linhas.
 — Obrigado. De verdade.
 — Usa — ela completou. — Não guarda.
 Satoshi respirou e entregou a Arume uma pequena caixa.
 Dentro, uma pulseira de metal temperado, simples, com uma pedra marcada por uma linha curva.
 — Não é arma — disse. — É só um ponto de retorno. Se tudo desmoronar, lembra disso antes de reagir.
 Arume colocou no pulso e testou o peso.
 — Útil. É o tipo de presente que salva mais do que parece.
 Torvel abriu a boca para comentar algo provocador, mas bastou Kael levantar uma sobrancelha para que ele desistisse.
 A noite continuou com neve, risadas e o pequeno milagre de não haver tragédia. Alguns dançaram. Outros comeram até não aguentar. Dalen discutiu com alguém invisível sobre ética de salamandras. Rask observou todos com cuidado, como se gravasse a cena para o futuro. Arume afinava sua respiração nas runas que ensinara. Satoshi sentia o fogo dentro do peito quieto — não domado, mas em paz.
 Quando as luzes foram diminuindo, ele ficou para trás. Olhou para o céu. A neve caía, mas algo além dela brilhava: um clarão escarlate surgindo nas montanhas, como se um farol antigo tivesse sido aceso depois de anos de silêncio.
 Kael parou ao lado dele.
 — Você viu, então.
 — Qualquer Eclíptico veria — Satoshi respondeu.
 — Nem todos admitem — Kael corrigiu, encarando o horizonte. — As montanhas guardam coisas que deveriam continuar dormindo. Mas acordos velhos se quebraram. E o próximo semestre não vai ser simples.
 Satoshi fechou o punho, sentindo o fogo responder de maneira diferente. Não ameaçador. Preparado.
 A neve seguiu caindo, tentando esconder o que vinha depois. Não conseguiu.
 A noite de festa havia acabado. O mundo estava chamando.

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