Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 7.1: O Peso das Palavras

 O fogo em seu peito estava quieto.
 Não adormecido.
 Não submisso.
 Quieto como algo que observa.
 Satoshi percebeu isso antes mesmo de abrir os olhos. O alojamento dos Eclípticos ainda dormia, envolto naquele silêncio pesado que nunca era vazio — apenas contido. A pedra respirava. As correntes no teto rangiam com o calor acumulado da noite. Nada havia mudado.
 Exceto ele.
 Sentou-se devagar, sentindo o corpo dolorido da aula que não devia existir. Não era cansaço físico. Era o tipo de desgaste que vinha depois de uma decisão correta… tomada cedo demais.
 No pátio, o dia começava.
 Acima deles, a Academia despertava em níveis que os Eclípticos raramente viam de perto: passarelas iluminadas, sinos solares, o som de vozes seguras demais para quem ainda não tinha visto algo morrer de verdade.
 — Eles estão agitados hoje — murmurou Mira, surgindo ao lado dele.
 Ela observava para cima, olhos escuros refletindo o movimento distante.
 — Vão fingir que foi um exercício — disse Satoshi.
 — Vão fingir que não fomos nós.
 Kael apareceu pouco depois, trazendo consigo algo pior que ordens: convocações.
 — Aula de Ética Aplicada — anunciou. — Todos.
 Arume franziu o cenho.
 — Desde quando Eclípticos têm isso?
 — Desde ontem — respondeu Kael. — Andem.
 O caminho até a sala não era longo, mas era calculado. Eles subiram. Não até os níveis solares, mas o suficiente para sentir o desconforto de quem atravessa fronteiras invisíveis.
 A sala ficava em um nível intermediário da Academia. Nem alta o bastante para tocar o sol. Nem baixa o suficiente para sentir o peso da montanha. Um lugar pensado exatamente para quem não pertencia a lugar nenhum.
 Os bancos eram dispostos em semicírculo. No centro, um púlpito de pedra clara, decorado com símbolos de equilíbrio e contenção.
 Havia outros alunos.
 Poucos.
 Solários. Auroranos. Nenhum Eclíptico além deles.
 E todos observavam.
 O instrutor já os aguardava.
 Solário.
 Alto.
 Idade indefinida.
 Túnica impecável.
 Mas não era isso que chamava atenção.
 Era o anel.
 Um selo dourado com três marcas entalhadas: Vigilância, Correção, Continuidade.
 Mira percebeu no mesmo instante.
 — Conselho Menor — sussurrou.
 Satoshi sentiu o fogo se mover.
 Esse não veio ensinar, murmurou a presença antiga. Veio medir.
 — Sentem-se — disse o homem.
 A voz não precisava se impor. Ela assumia obediência como algo natural.
 — Meu nome é Ilyan Vereth — continuou. — Represento o eixo de Continuidade da Academia de Arakua.
 Ele caminhou lentamente até o centro.
 — Ontem, um incidente ocorreu fora do protocolo.
 Incidente.
 A palavra caiu como uma lâmina cega.
 — Um evento de risco elevado foi neutralizado — continuou Ilyan. — Graças à intervenção… adequada… de certos alunos.
 O olhar dele pousou em Satoshi.
 Não acusatório.
 Avaliador.
 — No entanto, intervenção não equivale a autorização.
 Rask cruzou os braços.
 — A entidade teria rompido o eixo em mais três minutos.
 — Estatísticas não justificam desvio hierárquico — respondeu Ilyan, seco.
 — Mortes justificam — murmurou Dalen.
 Ilyan sorriu.
 — Mortes são parte do cálculo.
 O ar mudou.
 Satoshi sentiu.
 Não foi raiva.
 Foi algo pior.
 Frieza.
 O fogo em seu peito se mexeu.
 Ele acredita nisso, murmurou a presença antiga. Acredita que vidas são números administráveis.
 — A Academia existe para manter o mundo funcional — prosseguiu Ilyan. — Não para permitir decisões individuais baseadas em instinto ou emoção.
 Ele começou a caminhar lentamente pelo semicírculo.
 — Solários sustentam.
 Auroranos ajustam.
 Eclípticos… — o olhar dele percorreu o grupo — corrigem excessos.
 — Não escolhem.
 Satoshi se levantou.
 — Com licença.
 — Falar sem permissão também é desvio — advertiu Ilyan.
 — Então anote mais um — respondeu Satoshi. — Porque se tivéssemos esperado autorização, o número de mortos hoje não seria zero.
 O silêncio foi imediato.
 Alguns alunos desviaram o olhar.
 Outros observavam com atenção perigosa.
 — Cuidado, Eclipse — disse Ilyan. — Você está confundindo eficiência com virtude.
 — Não — Satoshi respondeu. — Estou confundindo virtude com sobrevivência.
 Ilyan se aproximou.
 — Você acredita que pode decidir quando agir?
 — Acredito que alguém sempre decide — respondeu Satoshi. — A diferença é se essa pessoa está presente… ou escondida atrás de um símbolo.
 Por um instante, o sorriso de Ilyan desapareceu.
 Apenas por um instante.
 — Eis o problema dos Eclípticos — disse ele. — Vocês não entendem que o mundo só continua existindo porque nem todos escolhem.
 A presença antiga se inclinou dentro de Satoshi.
 Hierarquia é a religião dos que nunca queimaram as mãos.
 — O mundo continua existindo — Satoshi disse, com calma — porque alguém escolhe carregar o que os outros não querem decidir.
 Silêncio absoluto.
 Ilyan o encarou longamente.
 Então assentiu.
 — Aula encerrada.
 Mas não foi uma derrota.
 Foi um marco.
 No corredor, Arume soltou o ar que segurava.
 — Você percebeu que acabou de chamar a atenção da pior pessoa possível?
 — Percebi.
 — Ilyan Vereth transforma alunos em exemplos — disse Mira. — Ou em advertências.
 — Bem-vindo ao tabuleiro — murmurou Dalen.
 Horas depois, sozinho na sala simples onde aprendera a escrever, Satoshi abriu um pergaminho novo.
 Não era um relatório.
 Era uma lista.
 Nomes.
 Não dos mortos.
 Dos vivos.
 Mira.
 Arume.
 Torvel.
 Rask.
 Dalen.
 O fogo observava em silêncio.
 Agora você escreve coisas que podem ser perdidas.
 — É por isso que importam — Satoshi respondeu em voz baixa.
 A pena deslizou.
 Ele escreveu mais abaixo:
 Ilyan Vereth.
 E parou.
 Não riscou.
 Não comentou.
 Apenas deixou o nome ali.
 Kael apareceu à porta.
 — O Conselho Menor vai te observar de perto.
 — Eu sei.
 — Vão tentar te dobrar. Usar. Reduzir você a função.
 Satoshi fechou o pergaminho.
 — Não.
 — Não?
 — Eles vão ter que aprender a me ler.
 Kael o encarou por alguns segundos.
 Depois assentiu.
 — Só não se torne aquilo que eles esperam temer.
 Satoshi sentiu o fogo se mover, atento.
 — Não — disse. — Vou me tornar aquilo que eles não conseguem controlar.
 A Academia de Arakua não mudou naquela noite.
 Mas algo dentro de seus alicerces — algo que aprendia a ler antes de queimar — havia escolhido existir.
 E agora, pela primeira vez, tinha um nome contra si.

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