Volume 1
Capitulo 6: A Aula que Não Devia Existir
A primeira aula prática da Academia de Arakua não constava em nenhum cronograma oficial.
Ainda assim, todos sabiam quando ela começava.
O som não vinha de sinos nem de anúncios. Vinha de baixo. Um tremor surdo que percorria a pedra como um aviso antigo, sentido mais nos ossos do que nos ouvidos.
Satoshi sentiu isso ainda no pátio dos Eclípticos.
Um arrepio atravessou-lhe a espinha, e o fogo em seu peito respondeu com um pulsar lento, atento, como um animal reconhecendo território perigoso.
— Aula de campo — murmurou Torvel, surgindo ao seu lado. As tatuagens sob sua pele ondulavam de forma inquieta. — Ou, como a Academia chama quando não quer assumir responsabilidade… correção de falhas.
Kael apareceu no arco de pedra que dava acesso ao corredor inferior.
— Formação. Agora.
Não houve perguntas.
Eles seguiram.
O caminho não levava às arenas oficiais, nem às salas de treino compartilhadas com Solários e Auroranos. Descia além das áreas mapeadas, por túneis mais antigos que a própria Academia. As paredes estavam cobertas por marcas de queimadura, rachaduras seladas às pressas e símbolos apagados à força.
— Aqui não é zona de aula — sussurrou Arume, observando os símbolos apagados. — Isso é área de contenção.
— Era — corrigiu Kael, sem olhar para trás.
O túnel se abriu em uma câmara vasta, sustentada por colunas irregulares de rocha viva. No centro, um círculo de contenção antigo estava gravado no chão, parcialmente quebrado, como se algo tivesse forçado a saída.
O ar estava pesado.
Cheirava a ozônio, cinzas e… medo antigo.
No limite da câmara, os instrutores aguardavam. Não muitos. Três Solários, rígidos como estátuas douradas. Dois Auroranos, atentos, mãos já envoltas em energia suave de contenção.
E, isolado deles, um homem de túnica cinza-escura, sem insígnia alguma.
O Instrutor Central.
Satoshi o reconheceu pelo silêncio ao redor dele. Onde o homem pisava, o ar parecia se dobrar.
— Esta aula — começou o Instrutor Central, a voz ecoando sem esforço — existe para lembrar por que a Academia foi construída dentro da montanha… e não acima dela.
Ele ergueu a mão.
No centro do círculo, o ar se rasgou.
Não houve explosão.
Houve abertura.
Uma fenda instável surgiu, cuspindo calor e sombras líquidas. Algo se moveu do outro lado, pressionando a realidade como um corpo tentando atravessar gelo fino.
Mira deu um passo atrás.
— Isso não é um exercício — sussurrou.
— Nunca é — respondeu Dalen.
O Instrutor Central continuou, impassível.
— Há sete anos, durante uma aula de contenção avançada, um erro foi cometido. Uma entidade reagiu à obediência absoluta de seu portador… e escapou do eixo de controle.
A coisa começou a emergir.
Uma massa disforme de fogo escuro e ossos luminosos, com membros que se rearranjam a cada segundo. Não possuía forma fixa. Apenas intenção.
— O resultado — continuou o instrutor — foi a morte de cento e cinquenta e sete alunos. Solários. Auroranos. Eclípticos. Todos treinados. Todos confiantes.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
— Hoje — o homem concluiu — vocês aprenderão por que não confiamos apenas em técnica. E por que Eclípticos existem.
Ele apontou para o grupo.
— Contenham.
O monstro avançou.
Rask atacou primeiro, liberando o brilho distorcido da Mãe-de-Ouro corrompida. Torvel espalhou sombras líquidas pelo chão, prendendo os membros instáveis da criatura. Arume colidiu contra ela em um impacto de relâmpagos azuis e dourados, fazendo a câmara inteira vibrar.
Dalen avançou logo atrás.
O Rasga-Mortalha foi liberado.
O ar apodreceu.
A entidade gritou — não em som, mas em pressão mental. Imagens de incêndios, ossos queimando e cidades derretendo invadiram a mente de Satoshi como um golpe direto. Ele caiu de joelhos, sentindo o mundo girar.
O fogo em seu peito rugiu.
A criatura o sentiu.
Virou-se.
— Satoshi! — gritou Arume.
Ela tentou se colocar à frente dele, mas o ataque da criatura atravessou sua barreira de raios, porém a alta eletricidade expôs sua fraqueza.
— Dalen! — Satoshi gritou, a voz falhando. — Onde?!
— No núcleo instável! — respondeu Dalen, abaixo do estômago no canto esquerdo.
Satoshi ali no chão.
Não explodiu.
Não respondeu ao impulso de destruir.
Ele respirou.
Concentrou.
Após estender sua mão o fogo dentro dele afinou-se, comprimindo-se como uma palavra escrita à força na matéria do mundo. Uma linha de calor absoluto cortou o ar e atingiu o núcleo da entidade.
Não queimou tudo.
Rasgou a estrutura.
A criatura colapsou sobre si mesma, implodindo em cinzas que não tocavam o chão antes de desaparecer.
Silêncio.
As cinzas se dissolveram lentamente, puxadas de volta para algo que não pertencia mais àquele plano. O círculo de contenção brilhou por alguns segundos — não em ativação, mas em alívio — antes de apagar de vez.
Os instrutores se moveram, restaurando selos, recolhendo resíduos de energia. Nenhum elogio. Nenhuma celebração.
O Instrutor Central ajoelhou-se, tocou o chão e fechou os olhos.
— Estável — disse. — Por enquanto.
Ele se levantou e encarou os alunos.
— A Academia não apaga erros. Ela constrói camadas sobre eles.
— Camadas de cadáveres — murmurou Dalen.
— Aula encerrada.
O retorno foi silencioso.
No pátio dos Eclípticos, o céu já estava tingido de laranja e cinza. Acima, alunos riam, ignorantes do que havia ocorrido sob seus pés.
— Eles fingem que não existimos — disse Arume. — Até precisarem.
Kael os aguardava.
— Relatórios. Agora.
Satoshi entrou na sala simples onde aprendera a escrever o próprio nome. Sentou-se. Pegou a pena.
Desta vez, não tremeu.
Escreveu sobre o erro, sobre a reação da entidade, sobre a linha. Não chamou de vitória.
Quando terminou, Kael leu em silêncio.
— Você entende o que fez? — perguntou.
— Não completamente.
— Bom. Quem entende cedo demais vira arma.
Kael saiu.
Sozinho, Satoshi sentiu o fogo se mover em silêncio dentro dele.
Eles têm medo, murmurou a presença antiga. Não do que você é. Do que você pode decidir.
Satoshi pensou nos cento e cinquenta e sete nomes que nunca aprenderia a escrever.
E decidiu.
A Academia não o treinaria para vencer batalhas.
Ela o treinaria para carregar culpas.
E ele aprenderia tudo o que pudesse.
Porque, se um dia tivesse que escolher o que queimar… Queria, ao menos, saber ler o mundo antes de reduzi-lo a cinzas.
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