Volume 1
Capitulo 5: Letras tem poder
A Academia de Arakua não ficava acima da cidade.
Ela ficava dentro dela.
Escavada na rocha viva que sustentava o Palácio de Pedra, a Academia era um organismo antigo, feito de corredores concêntricos, pátios abertos ao céu e salas que pareciam ter sido moldadas por eras diferentes. Algumas paredes eram lisas e polidas, cobertas por runas solares. Outras eram cruas, marcadas por ferramentas e queimaduras antigas.
Satoshi sentiu isso assim que passou pelo portão inferior.
Ali, o ar mudava.
Não cheirava a incenso nobre nem a óleo de armadura. Cheirava a pedra, suor e magia mal contida.
— Bem-vindo à parte que eles mostram só quando precisam de soldados — murmurou Dalen, caminhando ao lado dele.
Os Eclípticos não entraram pelo mesmo acesso que os Auroranos e Solários.
Eles nunca entravam.
Um corredor lateral, estreito, descia em espiral até um pátio interno cercado por muros altos. Acima, Satoshi via outros alunos atravessando pontes suspensas, rindo, discutindo teorias, vestindo túnicas limpas com símbolos bem definidos.
Nenhum olhava para baixo.
— Primeira regra da Academia — disse Mira, andando à frente. — Finja que não existimos. Facilita pra todo mundo.
O pátio dos Eclípticos era amplo, mas austero. No centro, uma arena circular marcada por rachaduras antigas. Ao redor, salas abertas como cavernas domesticadas. Não havia estandartes. Não havia cores de classe.
Só pedra.
Kael esperava por eles.
— A Academia não ensina poder — disse ele, sem preâmbulo. — Ela ensina função.
Os Solários aprendem a sustentar o mundo.
Os Auroranos aprendem a ajustá-lo.
Vocês… — seu olhar percorreu o grupo — aprendem a não quebrá-lo cedo demais.
Ele apontou para corredores distintos.
— Aulas gerais são obrigatórias. História, escrita, leitura de runas básicas. Quem faltar, apanha. Quem atrapalhar, apanha mais forte.
Rask soltou um riso curto.
— Direto ao ponto. Gosto disso.
Kael se virou para Satoshi por um segundo a mais que o necessário.
— Principalmente você.
A sala de Escrita Fundamental era clara demais para Satoshi.
A luz vinha de aberturas altas, refletida em placas de pedra branca. Fileiras de bancos organizados. Um quadro de ardósia com símbolos desenhados com precisão.
Ele sentou no fundo.
O problema não era o ambiente.
Era o quadro.
Os símbolos não faziam sentido. Linhas curvas, marcas angulares, sons que o professor pronunciava como se fossem óbvios. Ao redor, penas riscavam pergaminhos com naturalidade cruel.
Satoshi sentiu o calor subir pelo pescoço.
Na Favela do Cipó, saber ler era luxo. Saber escrever, uma raridade perigosa. Letras atraíam cobrança. Dívidas. Soldados.
Ele apertou os punhos sob o banco.
Não aqui. Não agora.
Mas o fogo em seu peito reagiu.
Inquieto. Irritado. Como se o desconhecimento fosse uma afronta.
Quando a aula terminou, Satoshi foi o último a sair.
No corredor, Arume o esperava, encostada na parede, girando uma pena entre os dedos.
— Você não escreveu nada — disse ela, casual.
Satoshi travou.
— Eu… escrevo devagar.
Ela inclinou a cabeça, observando-o de lado.
— Mentira ruim.
Mira apareceu logo atrás, silenciosa como sempre.
— Ele não sabe — disse ela, sem julgamento.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Torvel desviou o olhar. Rask franziu o cenho. Dalen apenas cruzou os braços.
Satoshi respirou fundo.
— Eu sei lutar. Sei correr. Sei sobreviver. — A voz saiu mais baixa do que queria. — Letras nunca fizeram parte disso.
Arume sorriu.
Não de escárnio. De decisão.
— Então agora fazem.
Ela empurrou a porta de uma sala vazia próxima.
— A Academia é grande demais pra fingir que você vai aprender sozinho. E pequena demais pra isso ficar escondido.
Dentro da sala, havia uma mesa baixa, pergaminhos em branco e um tinteiro antigo.
Mira puxou um banco.
— Começamos pelo básico.
— Por quê? — Satoshi perguntou. — Por que ajudar?
Dalen respondeu, a voz carregada de algo antigo.
— Porque quando um Eclíptico cai, nunca cai sozinho.
Rask sentou à mesa.
— E porque ninguém aqui confia na Academia pra cuidar dos seus.
Arume colocou a pena na mão de Satoshi.
O objeto parecia mais pesado que uma lâmina.
— Essa letra — disse ela, desenhando devagar no pergaminho — é o seu nome.
Ela repetiu. Uma vez. Outra.
Satoshi tentou copiar.
A linha saiu torta. Tremida. Imperfeita.
O fogo em seu peito se agitou, frustrado.
— Não — murmurou a voz antiga dentro dele. — Não queime. Aprenda.
Ele respirou.
Tentou de novo.
A letra ficou melhor.
Não bonita.
Mas verdadeira.
Kael observava da entrada, em silêncio.
Não interveio.
Não corrigiu.
A forja ensinava a ganhar tempo.
A escrita também.
E, pela primeira vez desde que entrou naquele mundo de pedra, fogo e deuses presos, Satoshi sentiu algo diferente crescer dentro de si.
Não poder.
Base.
E aquilo, ele percebeu tarde demais, era o que mais assustava Arakua.
O sino da Academia não tocava como um chamado.
Tocava como um aviso.
Um som grave, espalhado pela pedra, que não vibrava no ar, mas nos ossos. Quando ecoou pelos corredores internos, Satoshi sentiu o fogo em seu peito se contrair, atento, como um animal que reconhece território inimigo.
— Aula geral — murmurou Torvel, já se levantando. — História Viva.
— Odeio esse nome — resmungou Rask. — Sempre termina em alguém sangrando.
Eles seguiram pelos corredores superiores, onde relevos antigos mostravam batalhas, pactos e figuras humanas ajoelhadas diante de entidades maiores que montanhas.
A sala de História Viva era um anfiteatro escavado na rocha. No centro, runas rachadas formavam um diagrama incompleto.
O instrutor aguardava.
— História Viva não é sobre datas — disse ele. — É sobre consequências.
Ele pisou no centro do diagrama.
As runas se acenderam.
O mundo mudou.
Uma planície queimada. Céu vermelho. Cinzas caindo como neve morta.
— Memória Ancorada — murmurou Mira.
— Uma das primeiras guerras de contenção — explicou o instrutor. — Quando Arakua decidiu usar um portador instável como ferramenta.
Satoshi viu o jovem no centro da devastação. Fogo azul e branco rasgando a terra. Correntes falhando. Ordens gritadas tarde demais.
— Ele obedeceu — disse o instrutor. — Até o limite.
O fogo explodiu.
A visão se quebrou.
O anfiteatro retornou.
— Cento e cinquenta e sete mortos — concluiu o instrutor. — Nenhum inimigo envolvido. Só Arakua.
O olhar dele desceu até os Eclípticos.
— Essa é a função de vocês. Lembrar o que acontece quando confundimos base com poder.
Quando a aula terminou, ninguém falou.
Arume se aproximou, com dois pergaminhos enrolados.
— Roubei da biblioteca inferior — disse, como se fosse nada. — Versão simplificada. Sem política.
— Existe isso? — Satoshi perguntou.
Ela deu de ombros.
— Pra quem sabe onde procurar.
Eles se sentaram no chão mesmo, encostados na parede fria. Mira ficou de pé, observando o corredor. Dalen permaneceu alguns passos atrás, atento demais para alguém que fingia desinteresse.
— Essa palavra — Arume apontou — significa “fundação”.
Satoshi repetiu em voz baixa.
— Fundação.
— Tudo em Arakua gira em torno disso — continuou ela. — Solários mantêm. Auroranos ajustam. Eclípticos… testam os limites da fundação.
— E quando ela quebra — murmurou Satoshi — o mundo vem junto.
Arume sorriu de canto.
— Está aprendendo rápido.
Ele não respondeu.
A tarde avançou com aulas práticas leves — controle respiratório, percepção de fluxo, identificação de sinais de ruptura. Nada de grandes explosões. Nada de bravatas.
E, ainda assim, Satoshi saiu mais exausto do que após qualquer treino físico.
Quando o dia começou a escurecer, Kael os chamou de volta ao pátio inferior.
— Vocês sobrevivem ao dia porque entendem uma coisa — disse ele. — Aqui embaixo, ninguém cresce sozinho.
O olhar dele parou em Satoshi.
— Continue aprendendo a ler.
Satoshi ergueu a cabeça, surpreso.
— Isso não é um pedido — completou Kael. — É uma ordem que você vai escolher obedecer.
E se afastou.
Naquela noite, no nicho de pedra, Satoshi tentou escrever de novo.
O nome.
Letra por letra.
O fogo observava, silencioso.
Não zombava.
Não pressionava.
Esperava.
E, pela primeira vez, Satoshi entendeu: não era ele que continha o incêndio.
Era o espaço que ele estava construindo dentro de si.
Com linhas tortas.
Com ajuda.
Com base.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios