Volume 1
Capitulo 4: A Forja do Eclipse
O som do martelo era a primeira coisa que existia naquele mundo.
Lento. Regular. Grave.
Clang… Clang…
Satoshi despertou com o corpo pesado, como se tivesse sido enterrado vivo e lentamente desenterrado pelo próprio ar quente das catacumbas. O teto de pedra suava vapor. O cheiro de metal aquecido e fuligem impregnava tudo.
Ele saiu do nicho de pedra ainda tonto.
A forja estava mais viva.
As correntes do teto vibravam levemente. Os cristais esverdeados pulsavam como se respirassem. O homem das ataduras fumegantes martelava um bloco de metal negro incandescente. Cada batida fazia o material emitir um som que não era de ferro — algo mais denso, mais antigo.
Kael estava ao fundo, observando.
As labaredas serpentinas do Boitatá fragmentado giravam lentamente em torno de seu corpo como sombras de fogo vivo. Não explodiam. Não rugiam. Apenas vigiavam.
— Você demorou para acordar, Eclíptico. — A voz dele veio seca.
— Eu… sonhei. — Satoshi respondeu.
Kael não perguntou com o quê.
Ele apenas virou de lado.
E então, Satoshi viu os outros.
Cinco figuras reunidas perto da bigorna central.
Alguns ele reconheceu.
A garota de cabelos totalmente brancos e olhos escuros como poços sem fundo agora estava mais próxima da forja. Seu nome era Mira.
Diferente do dia anterior, a presença dela parecia mais… pesada.
Ao lado dela, um homem alto, de pele acinzentada, com vapores escuros escapando das juntas do braço e do pescoço. Dalen, o portador do Rasga-Morta.
Mais dois estavam encostados na parede:
Um rapaz magro, com tatuagens que se moviam sob a pele como sombras líquidas.
E outro, de postura torta, cujos olhos brilhavam como brasas apagadas.
E então… a novata.
Ela estava sentada sobre uma bigorna menor, os pés balançando no ar. Cabelos longos, cacheados, presos num rabo desleixado. Usava túnica escura larga demais para seu corpo. Tinha marcas luminosas azuis e douradas correndo pelos braços como rios vivos.
Quando percebeu Satoshi olhando, sorriu.
— Então você é o Eclipse.
O grupo se virou.
O homem das ataduras parou de martelar.
O bloco de metal ainda pulsava em vermelho vivo.
— Quem mais é Tier S? — perguntou a garota, direta, inclinando a cabeça.
Satoshi piscou.
— Eu… acho que sim.
— Hm. — Ela analisou ele de cima a baixo. — Tem cara de quem vai dar trabalho.
Dalen soltou um riso seco, que veio acompanhado de um sopro de fumaça podre.
— Todos aqui dão.
Mira se aproximou de Satoshi devagar. Diferente da Caipora que ele imaginava antes, a energia dela agora lembrava terra molhada, ossos antigos e feitiços esquecidos.
— Você carrega um incêndio preso num corpo que não devia aguentar. — disse ela. — Vai doer mais em você do que nos outros.
— Qual é sua entidade? — Satoshi perguntou, engolindo em seco.
Os olhos de Mira piscaram uma única vez.
— Comadre Fulozinha. — disse. — Mas não a dos contos infantis. A mais antiga. A que enlouquece caçadores inteiros só com o assobio.
O ar ao redor dela distorceu sutilmente.
O rapaz das tatuagens se apresentou apoiando as costas na parede.
— Me chamam de Torvel. Tier B+. Entidade: Encantado das Profundezas.
O rapaz de olhos de brasa apagada falou em seguida:
— Rask. Tier A. Mãe-de-Ouro corrompida.
A garota saltou da bigorna.
— Eu sou Arume. Tier A.
O silêncio mudou de densidade.
Até Kael virou o rosto.
— Entidade? — perguntou Mira.
Arume abriu a mão.
A luz no centro da palma se condensou.
E então, o chão tremeu.
Um rugido surdo ecoou dentro da própria matéria da forja.
A imagem de uma cobra colossal feita de relâmpagos azuis e dourados, com olhos como trovões vivos, surgiu por um segundo no ar — e desapareceu.
— Cobra-Grande dos Rios do Céu. — ela disse. — A que atravessa tempestades.
Satoshi sentiu a espinha gelar.
Tier A.
Entidade forte demais para uma novata.
Ele respirou fundo… e finalmente fez a pergunta que martelava sua cabeça desde que acordara.
— Por que vocês ficam aqui embaixo?
Todos ficaram em silêncio.
Ele apontou para as correntes, as bigornas, o calor sufocante, o teto de rocha viva.
— Isso não parece um alojamento. Parece… um subterrâneo esquecido.
Arume inclinou a cabeça.
— Parece uma prisão, você quer dizer.
Dalen respondeu com a voz carregada de podridão:
— Aqui é onde colocam tudo o que ainda não sabem se podem controlar.
Mira completou, em tom baixo:
— Aqui é onde a cidade finge que não existimos.
Satoshi sentiu o peso daquelas palavras afundar em si.
Se eu estivesse do lado de fora… também fingiria.
Também teria medo.
Kael caminhou até a bigorna principal.
O bloco negro finalmente perdeu o brilho incandescente.
Agora revelava sua forma.
Uma máscara lisa de Itaimbé negro, sem olhos, sem boca, cortada apenas por uma rachadura vertical no centro.
— Estávamos forjando isso. — disse Kael. — Um foco de contenção.
— Para quê? — perguntou Satoshi.
Kael o encarou.
— Para quando a sua entidade tentar sair.
O ar ficou pesado demais para respirar.
— Isso vai me selar? — Satoshi perguntou.
Kael negou.
— Vai te atrasar três segundos.
— Só isso?!
— Três segundos salvam uma cidade inteira.
O estômago de Satoshi afundou.
Não era um equipamento.
Era um plano de emergência para quando ele perdesse o controle.
— Então vocês estão criando um caixão pra mim. — murmurou.
Dalen sorriu.
— Todos aqui já viram o próprio.
As chamas serpentinas de Kael se moveram em espirais lentas.
— Amanhã você começa o treinamento de verdade, Eclipse. — disse ele. — Hoje… apenas sobreviva ao peso do que carrega.
Ao fundo, as marteladas voltaram.
Clang… Clang…
Satoshi voltou ao nicho com a respiração pesada.
Agora ele sabia.
Aquela forja não criava armas.
Criava tempo.
E, no fundo de seu peito, o fogo antigo sorriu como algo que já esperava por tudo aquilo.
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