Volume 1
Capitulo 3.2: O CÂNTICO DAS ALMAS
Enquanto Satoshi dormia, nas profundezas do Palácio de Pedra, abaixo até mesmo das Catacumbas do Eclipse, a porta da Sala do Primeiro Fogo se fechou. Onze pessoas estavam dentro.
O Rei ocupava o trono mais alto. O ar ao seu redor sussurrava com o som de florestas antigas e o peso paciente da terra. À sua direita, a Rainha das Cinzas, um vazio silencioso que sugava a luz das eternas brasas azuis ao centro da sala. À sua esquerda, o Estrategista, anotando em uma prancheta de madeira escura.
Formando um semicírculo, os outros oito usuários de Tier S de Arakua. Um velho cujos olhos eram redemoinhos de areia; uma mulher com cabelos que se moviam como algas em maré; um gigante que parecia esculpido da própria montanha; outros cujas formas pareciam instáveis na luz bruxuleante.
E, em uma cadeira arrastada para a beira do círculo, o Príncipe. Sua respiração era controlada demais, seu punho cerrado sobre o símbolo prateado em seu peito.
— O Cântico confirmou o que já suspeitávamos — começou o Rei, sua voz um rumor profundo. — A alma do garoto é caótica. Um Eclíptico natural. Mas a origem do fogo que ela abriga… é o problema.
O velho de olhos de areia falou, sua voz um assobio seco. — A Lâmpada reconhece assinaturas mitológicas. A assinatura é de Kagutsuchi. O Deus do Fogo de Yamato Kōtei. Inconfundível e inegável.
Um murmurinho de preocupação percorreu o círculo. A mulher de cabelos de alga falou, sua voz ecoando. — Yamato Kōtei guarda seus deuses principais com unhas e dentes. Se descobrirem que Kagutsuchi despertou em um plebeu de Arakua… não verão um acidente. Verão um roubo. Uma declaração de guerra espiritual.
— E uma desculpa perfeita para invadir nossas minas de Itaimbé — completou o gigante, sua voz grave.
O Príncipe não conseguiu se conter. — Então por que não devolvemos? Damos o garoto a eles e evitamos a guerra!
O olhar do Rei pousou sobre o filho, e o sussurro da floresta tornou-se um rugido abafado de galhos quebrando. O Príncipe encolheu-se.
— Não se devolve um deus, menino — disse o Rei, cada palavra gelada. — Especialmente não um que claramente escolheu escapar. Kagutsuchi não é um objeto. Fugiu de seu panteão. Veio para aqui. Para ele. Isso torna o problema dele, e nosso.
A Rainha das Cinzas falou, sua voz plana cortando a tensão.
— O problema não é político. É existencial. O garoto não porta Kagutsuchi. Ele o contém. E o que ele contém não é um deus domesticado por rituais. É a essência primordial que Yamato Kōtei um dia forjou em um deus. Está furiosa. Presa. E quer sair.
— E se sair? — perguntou um dos outros, uma figura envolta em sombras cintilantes.
— Se sair — respondeu a Rainha, fitando as brasas azuis —, não teremos uma guerra com Yamato Kōtei. Teremos um incêndio interno já que a entidade está em um nível semelhante ao nosso, a diferença é que contemos e controlamos. Kagutsuchi não é uma ferramenta de guerra. É a guerra em si.
O Estrategista interveio, pragmático.
— O protocolo permanece. Contenção e estudo. O garoto fica entre os Eclípticos. Kael o observará. Publicamente, ele é um herói que despertou um poder perdido de Arakua. O nome Kagutsuchi nunca será pronunciado fora desta sala.
— E se Yamato Kōtei enviar espiões? Se sentirem a presença de seu deus? — perguntou o velho de pele enrugada.
— Então — disse o Rei, e uma frieza absoluta desceu sobre a sala —, teremos que garantir que nenhum espião volte para contar a história. E, se necessário, que o próprio recipiente pare de… emitir.
A ameaça pairou no ar. Aniquilação.
O Príncipe parecia querer falar novamente, mas um olhar do Estrategista o silenciou.
— Há mais um fator — disse o Estrategista. — O garoto obedeceu hoje. Seguiu uma ordem e controlou o poder para cumprir um objetivo preciso. Isso é perigoso.
— Porque mostra que ele pode ser usado? — perguntou a mulher das algas.
— Porque mostra que ele pode escolher não ser usado — corrigiu a Rainha, levantando-se. Seus olhos prateados percorreram o círculo. — Vocês veem uma arma ou uma ameaça. Ele é apenas um menino tentando sobreviver.. Às vezes, ao tentar controlar as chamas, só se consegue soprar as brasas para o lado errado da floresta.
Ela se virou e saiu, sua figura sendo engolida pela escuridão do corredor de saída.
O Rei suspirou, um som que carregava o peso do trono.
— Vigiem o príncipe — ordenou ao Estrategista, em voz baixa, mas todos ouviram. — Sua inveja é um ponto cego. E vigiem a Rainha. Sua compaixão é outra.
A reunião estava encerrada. As figuras poderosas se dissiparam nas sombras, até que apenas o Rei e o Estrategista ficaram diante das brasas azuis.
— Tupã permitiu isso? — perguntou o Estrategista, baixinho, mencionando a entidade primordial do Rei pela primeira vez na noite. — Um deus estrangeiro entrar em nosso solo?
O Rei observou as chamas frias, seu rosto um mapa de preocupações antigas.
— Tupã não permite. Tupã observa. A terra testa todos os que nela pisam. O garoto e seu fogo estão sendo testados. E nós também. Agora, traga os relatórios de movimentação nas fronteiras de Yamato Kōtei. A tempestade não virá de um decreto. Virá de um sussurro...
Satoshi acordou de sobressalto no nicho de pedra, a visão do sonho queimando atrás de seus olhos. Ele vira novamente o rio de fogo primordial, sua divisão, seu aprisionamento em formas chamadas "deuses". Desta vez, vira claramente: mãos com armaduras de estilo estranho, com símbolos de um sol nascente, forçando parte do fogo em uma forma específica, batizando-a com um nome que ecoava como um gongo: Kagutsuchi.
E vira outras mãos, com runas de pedra de Arakua, roubando uma centelha daquele fogo já moldado e tentando, desesperadamente, re-forjá-la em algo chamado Inkara. Uma cópia pálida e raivosa.
O Fogo primordial odiava ambos os nomes.
A verdade era pior do que ele imaginara. Ele carregava um deus estrangeiro.
E o desejo desse Deus não era voltar para casa.
Era queimar tudo e todos..
Satoshi olhou para suas mãos no escuro da catacumba, o eco do nome proibido — Kagutsuchi — queimando em sua mente como um estigma recém-descoberto. E soube, com uma certeza que gelou seu sangue, que aquele segredo era a única coisa entre ele e a forca do rei.
O capítulo terminava com ele ouvindo, vindo das profundezas da forja abandonada, o som de marteladas lentas e regulares de Kael, forjando algo na escuridão. Era um som de paciência. De espera.
E Satoshi percebeu, com um frio na espinha, que ele também era a bigorna.
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