Volume 1
Capitulo 3.1: O CÂNTICO DAS ALMAS
A manhã chegou sem alívio. Satoshi acordou com o mesmo calor no peito, agora familiar como o batimento de um coração doente. O alojamento provisório, antes cheio de sussurros ansiosos, estava sepulcralmente silencioso. Dezoito jovens vestiam túnicas de linho cru, idênticas, tentando apagar com tecido as diferenças de nascimento e poder que os separavam. Não funcionava.
Cássio ajustou as mangas com movimentos precisos, seu olhar passando por Satoshi como se fosse uma coluna de pedra. Renan e Ruan, os gêmeos, estavam encostados um no outro, como se pudessem compartilhar o nervosismo por osmose. Ninguém falava. O ar cheirava a suor seco e medo fresco.
Um sacerdote de mantos cinza entrou, seus pés descalços fazendo um som de folhas secas no chão de pedra.
— Sigam — disse, sem introdução.
O corredor que levava ao Grande Salão era uma garganta de granito. Tochas projetavam sombras que dançavam como entidades aprisionadas nas paredes. Satoshi conseguia sentir a pulsação do Fogo aumentando a cada passo, não em ansiedade, mas em… expectativa. Era como se a Presença soubesse para onde iam. Como se estivesse ansiosa.
As portas do Grande Salão se abriram.
O espaço era circular, tão vasto que a respiração ecoava. No centro, elevada sobre um pedestal de pedra negra, estava a Lâmpada de Itaimbé. Não era uma lâmpada como Satoshi imaginava. Era uma escultura orgânica de cristal dourado, translúcida, com veios de âmbar e carmesim correndo em seu interior como sangue solar. Ela não queimava, mas irradiava uma luz própria, quente e viva. A Pedra-Sol de Arakua. A lenda dizia que um fragmento do primeiro sol que nasceu sobre o mundo estava preso ali.
Nas galerias altas, a corte observava. Satoshi viu o vulto do Rei, imponente e distante. O Estrategista, ao seu lado, inclinado para a frente como um abutre. E, ligeiramente afastada, a Rainha das Cinzas. Seus olhos prateados encontraram os dele por um instante. Neles, não havia encorajamento. Havia reconhecimento. Aqui é onde eles tentarão te definir, pareciam dizer. Resista.
O Sumo Sacerdote, um homem velho cuja pele parecia feita do mesmo pergaminho de seus mantos, ergueu as mãos.
— O Cântico das Almas não escolhe — sua voz era surpreendentemente forte, preenchendo o salão. — Ele revela. Ele não vê poder, vê propósito. Não vê sangue, vê caráter. A chama que acenderá para vocês hoje já queimava em seus ossos antes mesmo de nascerem. É a assinatura do seu fogo interior.
Ele pegou uma tesoura de prata.
— Um fio. Apenas um fio.
Os recrutas formaram uma fila. Um a um, se aproximaram. Um sacerdote secundário cortava uma mecha mínima de seu cabelo, a depositava em um incensário de bronze e a acendia com uma chama azul. A fumaça, em vez de subir, era sugada em espirais pela base da Lâmpada de Itaimbé.
O primeiro recruta, um garoto magro, viu a Lâmpada emitir uma luz suave, cintilante, com tons de rosa e verde água. O som que saiu dela era um sussurro melodioso.
— Aurorano — anunciou o Sumo Sacerdote.
O garoto sorriu, aliviado, e foi direcionado para a esquerda, onde um instrutor com uma túnica bordada com motivos do amanhecer o recebeu.
Renan e Ruan foram juntos. Quando a fumaça de seus cabelos gêmeos tocou a pedra, a luz que emanou foi uma aurora dupla, duas hélices de luz suave que se entrelaçaram. O som foi harmonioso, como duas flautas.
— Auroranos. Gêmeos da mesma alma.
Cássio avançou com passos firmes. Sua fumaça foi absorvida. Por um momento, nada. Então, a Lâmpada emitiu um brilho dourado constante, forte e implacável, como o sol do meio-dia em um dia sem nuvens. O som foi uma única nota grave e sustentada, poderosa.
— Solário.
Cássio ergueu o queixo, seu rosto uma máscara de satisfação soberba. Era o lugar dele. O lugar da ordem, do controle, da hierarquia. Ele lançou um último olhar para Satoshi antes de seguir para a direita, onde os instrutores vestiam dourado puro.
O salão ficou mais quieto. Restava apenas Satoshi.
Seus pés pareciam de chumbo. O calor em seu peito era agora uma pressão quase insuportável, como se o Fogo estivesse tentando forçar seu caminho para fora através de sua pele. Ele caminhou até o pedestal. O sacerdote cortou um fio de seu cabelo negro. O toque da tesoura foi frio.
A fumaça subiu, escura, e foi sugada pela pedra.
Silêncio.
A luz interior da Lâmpada de Itaimbé pareceu vacilar. As veias de âmbar e carmesim pararam de fluir.
Então, começou.
Um pulso. Surdo, profundo, que fez o próprio granito do pedestal vibrar. A luz dentro da Lâmpada tornou-se opaca, depois escureceu completamente por um segundo - um eclipse dentro do cristal.
E então ela explodiu em vida.
Não foi um brilho, foi uma convulsão. Pulsos caóticos, violentos e irregulares de luz dourada e carmesim dispararam do núcleo, padrões frenéticos que não se repetiam, cores que Satoshi não tinha nome para - um violeta profundo, um laranja doente. A luz não iluminava; ela atacava o ar. O som que emanava não era uma nota, mas um rugido abafado e distorcido, como um incêndio rugindo do outro lado de um muro de montanhas.
A luz pulsante lançou sombras dançantes e grotescas pelas paredes do Grande Salão. Vários nobres na galeria recuaram. O Sumo Sacerdote cambaleou, seu rosto pálido de puro desconcerto. Aquele não era um dos três cânticos. Era algo… outro.
O silêncio que se seguiu ao último pulso foi mais alto que o rugido.
O sacerdote olhou para o Rei, perdido.
Foi a Rainha das Cinzas quem falou, sua voz cortando o ar gelado como a lâmina que era.
— Eclipse.
A palavra ecoou.
O Sumo Sacerdote engoliu em seco e repetiu, com menos convicção: — Eclíptico. Um… Eclipse Total.
Na galeria, o Estrategista escrevia furiosamente. O Rei estava imóvel, seu rosto inexpressivo, mas seus dedos apertavam os braços do trono com tanta força que as juntas branquearam.
Satoshi não se sentiu aliviado. Sentiu-se exposto. A verdade dele, caótica, imprevisível e perigosa, havia sido gritada para o mundo inteiro. Ele não era um Solar, ordenado e controlável. Ele era a interrupção. A anomalia.
"Sim," sussurrou a voz de carvão e âmbar dentro dele. "Este é o lar do fogo que não se deixa domesticar."
Um homem se separou das sombras atrás do pedestal. Não era um sacerdote, nem um instrutor pomposo. Era um veterano, talvez com trinta anos, seu rosto marcado por queimaduras que iam da têmpora ao queixo, a pele em um padrão de derretimento e regeneração. Seu cabelo era grisalho e curto, seus olhos, da cor de cinzas molhadas, não tinham calor algum. Vestia uma túnica de couro negro, sem insígnias.
— Sou Kael — disse, sua voz era áspera, como pedras sendo arrastadas. — Você é meu problema agora. Venha.
Sem cerimônia, ele virou as costas e começou a andar para uma porta lateral baixa e obscura. Satoshi, ainda atordoado pelo espetáculo da Lâmpada, seguiu-o.
Eles deixaram o brilho dourado do salão para trás e desceram. Não para acomodações nobres, mas para as Catacumbas do Eclipse. O ar ficou frio, depois quente de uma forma úmida e metálica. O corredor abriu-se em uma caverna natural ampliada por ferramentas. Não era um dormitório. Era uma forja abandonada. Fornos frios de pedra negra alinhavam-se nas paredes, bigornas maciças pontilhavam o chão irregular, e correntes pesadas pendiam do teto abobadado. A luz vinha de cristais embutidos nas rochas que emitiam uma luminescência fraca e esverdeada.
Outras figuras ocupavam o espaço. Um homem com braços envolvidos em ataduras fumegantes esculpia algo em um bloco de carvão. Uma mulher com cabelo totalmente branco e olhos completamente negros observava as chamas em um caldeirão de água que fervia sem fogo. Ninguém olhou para Satoshi. Ninguém falou com Kael. O isolamento aqui era diferente do alojamento provisório. Lá, era rejeição. Aqui, era indiferença absoluta.
Kael parou diante de uma bigorna especialmente grande, diante da qual havia um único bloco de pedra negra e lisa, do tamanho de uma cabeça.
— Esta é a Pedra do Sussurro — disse Kael, sem rodeios. — Ela não quebra com força. Ela racha com verdade. Coloque suas mãos nela. Chame seu fogo. E faça uma rachadura. Uma só. Reta. Clara.
Satoshi olhou para a pedra, depois para suas mãos.
— E se… se eu perder o controle?
Kael encostou-se na bigorna, cruzou os braços. As cicatrizes em seu rosto pareciam mais profundas na luz esverdeada.
— Então você me queima. E provavelmente a metade desta sala. — Ele fez uma pausa. — É assim que aprendemos, Eclíptico. Com risco. Com consequências. Não temos regras para conter o fogo. Só temos o aviso do que acontece se ele escapar. Agora, faça.
O desafio era claro. A Presença rosnou de interesse dentro dele. Satoshi colocou as mãos na superfície fria da pedra. Fechou os os olhos. Não tentou suplicar ou ordenar. Ele fez o que a Rainha sugerira: mergulhou para dentro.
O deserto em chamas o esperava. A Consciência de Fogo estava lá, maior, mais definida agora. Não um deus em um templo, mas um incêndio primordial que se estendia até o horizonte.
"A pedra," pensou Satoshi, concentrando a imagem do bloco negro. "Apenas uma rachadura."
A resposta foi um impulso de puro poder, uma torrente que subiu por seus braços. Ele a sentiu, bruta, indomável, faminta por destruição. Por um instante de pânico, ele sentiu que seria varrido. Que queimaria tudo.
Então, ele lembrou. Esta casa tem um dono.
Não foi sobre controlar o rio. Foi sobre direcionar sua fome. Ele não reprimiu o Fogo. Ele apresentou um alvo. A rachadura. A verdade. A linha entre a ordem e o caos.
O calor explodiu de suas palmas.
Não foi uma explosão. Foi um jato de calor concentrado, tão fino quanto uma agulha, incandescente e branco. Tocou a Pedra do Sussurro.
Um estalo seco, como um osso quebrando, ecoou na caverna.
Satoshi abriu os olhos, ofegante. Suas mãos estavam intactas. Na superfície da pedra negra, uma única rachadura perfeita e reta a dividia ao meio, suas bordas brilhando com um vermelho incandescente que rapidamente escureceu para o negro novamente.
Ele conseguira. Controlara. Direcionara.
Kael observou a rachadura, depois olhou para Satoshi. Em seus olhos de cinza, não houve aprovação. Houve algo mais perturbador: desapontamento.
— Você obedeceu — disse Kael, a palavra soando como um insulto. — Interessante.
Ele virou e desapareceu na penumbra da forja, deixando Satoshi sozinho com a pedra rachada e o peso paradoxal de sua vitória. Ele obedeceu ao comando, mas a um Eclíptico, isso era uma falha? O que eles queriam dele?
A exaustão o atingiu como um golpe. Um dos outros residentes da caverna — a mulher de cabelos brancos — apontou silenciosamente para um nicho escavado na rocha, com uma palha velha e um cobertor fino. Seu quarto.
Satoshi arrastou-se para dentro do nicho, o corpo pesado, a mente um turbilhão. O cântico caótico da Lâmpada, a desilusão de Kael, o sussurro triunfante da entidade… Ele fechou os olhos, e o sono o levou como um afogamento.
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