Filho sem Reino Brasileira

Autor(a): Xiaozim


Volume 1

Capítulo 22: O Topo

O vento não soprava.

Ele atravessava.

Acima do último patamar de pedra, o ar deixava de rodar e começava a correr reto, como lâmina. Não trazia cheiro de mato, nem de neve, nem de bicho. Era ar limpo demais. Cruel demais para ser bom.

O caminho final era estreito. Não tinha raízes. Não tinha lama. Só pedra gasta, exposta, marcada por cortes velhos e sulcos profundos, como se algo tivesse tentado subir ali por muito tempo e falhado sempre no mesmo ponto.

Eles subiram sem falar.

Kael na frente, porque o corpo dele obedecia antes de discutir. Arume logo atrás, o olhar duro demais para descansar. Mira com a atenção espalhada, como se procurasse um erro antes que ele se formasse. Torvel tocando a parede de pedra de vez em quando, mas com menos convicção do que tinha antes. E Satoshi no meio, constante, sem acelerar, sem hesitar.

O topo não se revelou com grandeza.

Ele se revelou com ausência.

A pedra se abriu num platô largo, exposto. Sem árvores. Sem sombra. Sem abrigo. O chão era um círculo irregular de rocha escura, com partes polidas demais para serem naturais, como se a superfície tivesse sido tocada por algo que desgasta mais do que a chuva.

Ao redor, penhascos.

Arakua abaixo parecia menor do que deveria. Não por distância. Por sensação. Como se o reino fosse leve demais para segurar o próprio peso visto dali.

Arume respirou fundo e ficou imóvel.

Mira deu um passo curto e parou de novo.

Torvel se ajoelhou, tocou o chão com a ponta dos dedos e retirou a mão rápido, como se a pedra tivesse devolvido uma temperatura errada.

Kael observou a borda do platô.

— Não tem trilha pra frente — disse.

— Porque acabou — respondeu Mira.

O silêncio se alongou de um jeito que não era vazio. Era vigilância. O som dos passos deles parecia não encaixar naquele lugar, como se o topo recusasse eco.

Satoshi olhou para o centro do platô.

Havia uma fissura estreita ali, quase uma linha no chão, atravessando a pedra como cicatriz. Dela saía um brilho fraco, mas constante. Não era dourado. Não era vermelho. Era um brilho frio, como luz presa em água escura.

Torvel apertou a mandíbula.

— Eu sinto…

Parou.

As palavras dele não subiam até a boca.

Arume deu um passo na direção da fissura.

Kael ergueu a mão.

Arume parou no impulso, irritada com o próprio corpo.

— Por quê?

Kael não respondeu. Ele estava olhando para cima.

Não para o céu.

Para o espaço.

E então o topo mudou.

Não com barulho. Não com tremor. Não com ataque.

Com presença.

Uma figura estava ali.

Não surgiu como truque. Não caminhou até eles. Apenas ocupou um lugar que antes parecia vazio demais para permitir alguém.

Cabelos longos, verdes, caindo em fios grossos como folhas molhadas. O rosto pálido demais para ser humano e vivo demais para ser estátua. Um olho azul, limpo e fixo. O outro amarelo, como lâmina velha sob luz. A roupa cobria o corpo como véu — tecido fino demais para proteger do frio, pesado demais para ser comum, flutuando sem vento, como se não obedecesse ao ar.

Era bonito do jeito errado.

Era vasto demais para caber.

Arume travou.

A eletricidade nela recuou sozinha, como bicho que entende que mordeu o lugar errado. O peito dela subiu e desceu rápido, mas ela não conseguiu dar mais um passo.

Torvel ficou com os olhos arregalados, e pela primeira vez desde o início da subida ele não tentou interpretar. Só ficou. Como se qualquer leitura ali fosse ofensa.

Mira não piscou.

O rosto dela não entregou medo. Entregou cálculo quebrado. O tipo de atenção que não encontra onde se apoiar.

Kael endireitou o corpo como quem reconhece execução, mesmo sem espada. Não por obediência. Por instinto antigo.

Satoshi ficou parado.

Não em coragem. Em recusa.

O ar em volta parecia mais frio, mas não era frio. Era distância. Como se a presença dela colocasse tudo fora do alcance.

Arume engoliu em seco.

— Isso… — ela murmurou, e o som saiu pequeno demais.

A figura olhou para eles como se olhasse para algo que finalmente alcançou o lugar certo.

— Vocês chegaram — disse.

A voz não era alta.

Era clara demais.

O vento continuou atravessando, mas o som não tocava nela.

Arume abriu a boca de novo, e dessa vez a coragem veio com raiva.

— Quem é você?

A figura inclinou a cabeça.

— Um aspecto — respondeu.

Kael deu um passo mínimo.

— Da floresta.

A figura não confirmou nem negou. Apenas permaneceu.

Arume soltou um ar curto, como riso sem humor.

— Eu já li sobre coisa demais nesse reino — disse ela, a voz tremendo por um segundo antes de voltar a endurecer. — Eu sei que o mundo é grande. Que existe bicho, existe pacto, existe maldição… mas isso?

Ela apontou com o queixo, sem levantar a mão.

— Eu achava que isso não existia.

Torvel respirou fundo como se tentasse puxar ar de um lugar onde não havia.

— Você… estava aqui o tempo todo? — ele perguntou.

— Sempre — disse a figura.

Mira finalmente falou.

— Nós somos os primeiros?

A figura olhou para Mira.

— Os primeiros a chegar até aqui — disse. — E os primeiros a voltar.

O grupo ficou quieto.

A palavra voltar bateu mais forte do que chegar. Porque chegar era feito. Voltar era decisão.

Kael perguntou, voz baixa, sem ameaçar:

— Por que ninguém voltou antes?

A figura olhou para o chão, para a fissura que brilhava frio, como se o topo respirasse de baixo para cima.

— Porque subiram com pressa — disse. — E com fome.

Arume franziu a testa.

— Fome de quê?

— De provar — respondeu a figura.

Silêncio.

Torvel engoliu em seco.

— Eu perdi minha percepção várias vezes… por quê?

O olhar da figura passou por ele.

— Porque você tenta ver o que não quer ser visto — disse. — E insiste.

Torvel baixou os olhos. Não como submissão. Como quem não quer ser notado por algo grande demais.

Arume mordeu o interior da bochecha e foi direto no centro.

— Por que o verde tá descendo?

O topo pareceu apertar o ar. Não em ameaça. Em peso.

A figura virou para Arume.

— O verde desce porque o Reino sobe demais — disse.

Kael ficou rígido.

Arume piscou.

— O quê?

A figura apontou para longe, para baixo, para a encosta onde a floresta ainda existia como floresta.

— O Reino abre buracos — disse. — E depois manda gente tapar com o corpo.

Mira não desviou o olhar.

— Então é assim que eles sustentam o ciclo — disse ela.

Kael respirou fundo.

— Eles fazem isso há muito tempo.

A figura respondeu com uma frase curta, sem orgulho, sem acusação.

— Tempo demais.

Arume fechou os punhos.

Ela lembrou do Caititu sem sangue. Do corpo quebrando como pedra. Do silêncio depois.

— Aquele bicho… — ela começou.

Parou.

Porque não tinha prova. Só estranheza.

Mira falou, sem mudar o tom, como se anotasse com a voz.

— Ele não sangrou.

Kael olhou para ela.

— O que você está dizendo?

Mira não respondeu na hora. Os olhos dela não saíram do aspecto.

— Se o Reino força bicho a virar pedra… — ela disse. — então aquilo não era montanha. Era resto.

O silêncio pesou.

Torvel respirou curto, como se aquilo tivesse acertado a garganta.

Arume abriu a boca, mas não teve frase.

Satoshi não confirmou.

Não negou.

Só guardou.

Torvel perguntou, rápido demais, como quem teme que o topo feche a boca:

— Por que agora? Por que não recua?

A figura olhou para a fissura no chão.

— Antes, tudo sumia — disse. — Agora ficou.

Kael respirou fundo.

Arume olhou para Satoshi.

Dessa vez, esperando que ele dissesse alguma coisa.

Ele não disse.

Mira perguntou, baixa:

— Ficou o quê?

A figura não falou o nome.

Não precisou.

— Um gesto — disse.

Arume puxou o ar como se fosse cuspir fogo e não pudesse.

— Então você viu… e deixou.

Kael tocou o braço dela.

— Arume.

Arume não avançou. Mas o olhar dela prometeu que aquilo não ficaria quieto.

A figura inclinou a cabeça.

— Eu não deixo — disse. — Eu respondo.

Satoshi deu um passo à frente, lento.

— E por que falar com a gente?

A figura olhou para ele. O olho azul parecia distante. O amarelo parecia perto demais.

— Porque vocês chegaram — disse. — E porque vocês podem voltar.

Kael franziu o cenho.

— Então você permite?

— Sim.

A palavra caiu simples, como se retorno fosse só mais um caminho.

Arume quase riu de novo.

— Por que?

A figura se aproximou um passo.

O véu arrastou como água sem som.

— Porque voltar vivo é perigo — disse.

Satoshi sustentou o olhar.

Torvel sentiu o corpo arrepiar. Não por frio.

Mira respirou devagar.

Kael ficou imóvel.

Arume engoliu seco.

Satoshi perguntou a única coisa que importava.

— E se o Reino subir de novo?

A figura olhou para o vazio acima, como se a pergunta fosse pequena perto do que existia.

— Vai subir — disse. — Vai perder mais.

Arume rosnou baixo.

— Então a gente tem que impedir.

A figura olhou para Arume.

— Vocês não impedem o Reino com força — disse. — Vocês impedem o Reino com retorno.

Satoshi sentiu isso se fixar.

Não como ideia.

Como direção.

Voltar era arma.

Kael fechou os olhos por um instante.

— Então é isso. A missão acaba aqui.

— Não — disse Mira. — Começa.

O topo ficou quieto.

Satoshi deu um passo para trás.

Não em recuo. Em escolha.

Pegou a bolsa. Ajustou o peso no ombro.

— A gente volta — disse.

Arume olhou para ele como se esperasse outro plano. Mira não reagiu. Torvel apenas respirou. Kael assentiu como quem já tinha aceitado antes de subir.

A figura inclinou a cabeça.

— Vocês são os primeiros — disse. — Não desperdicem isso.

Satoshi sustentou o olhar por um segundo a mais.

— E Rask?

O vento mudou de direção.

A figura não respondeu de imediato.

Ela virou o rosto para a fissura no centro do platô, e o brilho frio pareceu subir um pouco, como água querendo luz.

A pedra abriu uma imagem.

Não inteira. Não limpa. Só o suficiente.

Rask apareceu sentado perto de um fogo baixo, cercado por Curupiras incompletos. Não estava preso pela terra como antes. Estava sujo, comendo com as mãos, rindo de um jeito que doía ver.

Ele levantou um dedo.

— Um.

Levantou outro.

— Dois.

Os Curupiras repetiam com dificuldade, como se a boca deles não gostasse de número.

— Tês — disse um, errado.

Rask riu.

— Não. Três. De novo.

Ele bateu o dedo no chão, paciente.

— Três.

— Três — repetiu outro, e pareceu orgulhoso.

Rask levantou a mão de novo.

— Quatro. Cinco.

Um Curupira menor errou de propósito e empurrou o ombro dele.

Rask empurrou de volta.

Sem raiva.

Como se ali, por um instante, o mundo não estivesse tentando matar ninguém.

A imagem tremeluziu.

O brilho caiu.

Sumiu.

Arume ficou com a respiração presa, e quando soltou o ar, foi como se tivesse levado um golpe.

Torvel desviou o olhar rápido demais, como se a cena fosse íntima demais para testemunha.

Mira não mudou o rosto, mas os dedos dela apertaram o tecido do próprio manto até marcar.

Kael fechou os olhos por um instante longo.

Satoshi não piscou.

A figura falou então, simples, sem consolar:

— Ele ficou onde vocês deixaram.

O topo voltou a ser só pedra e vento.

Satoshi assentiu uma vez.

Não era conforto.

Era continuação do peso.

Ele virou o corpo para a descida.

E então, pela primeira vez desde que entraram no platô, o vento soprou como vento comum, atravessando o topo sem cortar.

A figura continuou ali.

Não como despedida.

Como certeza.

Eles começaram a descer.

E Satoshi tomou a decisão que não teria como desfazer depois.

Ele não voltaria para contar como vítima.

Ele voltaria para usar.

E se o Reino não aceitasse ouvir, ele faria o Reino engolir.

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