Volume 1
Capítulo 21: Acima da Linha
A subida continuou depois do silêncio.
Não houve mudança brusca, nem revelação. O caminho apenas se manteve ruim por mais tempo do que o corpo queria aceitar. A pedra aparecia onde antes havia terra, e quando a terra surgia de novo era rasa demais para confiar. O vento vinha direto, sem desvio, e carregava pouco cheiro — sinal de que nada ali se importava em marcar presença.
Eles avançaram.
Kael manteve o ritmo constante, nem rápido demais para cansar o grupo, nem lento o bastante para permitir dispersão. Arume ia um pouco à frente, mas sem a impaciência de antes. O confronto com o Caititu tinha deixado um resíduo estranho nela — não medo, mas desconfiança do próprio impacto. Mira seguia mais atrás, observando o espaço vazio entre as coisas, como se esperasse que algo surgisse ali. Torvel caminhava com mais cuidado do que o habitual, tocando a pedra quando podia, testando irregularidades, como quem procura falha onde antes havia leitura.
Satoshi vinha no meio.
Não liderando por posição, mas por constância. O passo dele não variava. Nem quando o terreno piorava, nem quando alguém tropeçava. Ele seguia como quem mede o mundo pelo corpo, não pelo que espera encontrar.
Depois de algum tempo, o vento mudou.
Não ficou mais forte. Ficou diferente. Começou a bater de baixo para cima, subindo pela encosta, carregando um som distante que não vinha deles. Não era água. Não era animal. Era algo mais seco, repetido demais para ser natural.
Torvel parou.
— Isso não é daqui — disse.
Kael levantou o braço.
— O quê?
Torvel respirou fundo, como se o ar estivesse mais ralo.
— O som. Não responde ao relevo.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo. Era fraco, mas insistente. Um arrastar distante, como pedra sendo puxada sobre pedra, em intervalos irregulares.
— Não vem atrás — disse Mira. — Vem de cima.
Arume franziu o cenho.
— Então tem coisa mais acima.
Satoshi assentiu uma vez.
— Continuamos.
A encosta começou a se abrir em patamares estreitos. Não eram degraus feitos. Eram quebras naturais no relevo, largas o suficiente para duas pessoas ficarem lado a lado, estreitas demais para erro. Em alguns pontos, marcas antigas riscavam a pedra. Não símbolos claros. Apenas cortes repetidos, como se alguém tivesse tentado nivelar o espaço muitas vezes e desistido no meio.
Kael passou a mão por uma dessas marcas.
— Isso não é recente.
— Também não é velho demais — disse Torvel. — Ainda responde.
— Responde como? — perguntou Arume.
Torvel não respondeu de imediato.
— Como coisa que já foi usada demais.
Avançaram mais um patamar.
Ali, encontraram o primeiro sinal claro de que não estavam mais apenas na montanha.
Um poste baixo, quebrado, feito de madeira escurecida, cravado na pedra com cunhas de metal antigas. Não havia símbolo inteiro. Só restos de tinta descascada e um corte horizontal fundo demais para ser decorativo.
Mira se aproximou.
— Isso é limite — disse.
— De quê? — perguntou Arume.
— De alguma coisa que não deu certo.
O som voltou, mais próximo agora.
Arrastar. Pausa. Arrastar de novo.
Eles avançaram devagar, seguindo a lateral do patamar. O espaço se abriu em um vão irregular, largo como um pequeno pátio natural, cercado por paredes de pedra. No centro, o chão estava marcado por sulcos profundos, como se algo pesado tivesse sido puxado dali para fora muitas vezes.
E então eles viram.
O corpo estava deitado de lado, parcialmente coberto por terra e pedra solta. Não se movia. Não reagia à presença deles. Era grande demais para ser ignorado, mesmo imóvel.
Outro Caititu de Pedra.
Não igual ao anterior.
Este era maior. Mais pesado. As placas do corpo estavam desalinhadas, algumas sobrepostas de forma errada, outras rachadas e remendadas por algo que não combinava com o material da montanha. Havia marcas cravadas na pele endurecida — linhas geométricas quebradas, fundidas ao corpo como cicatriz que não cicatrizou direito.
— Não está vivo — disse Arume, baixo.
— Também não está morto — respondeu Torvel.
Kael não se aproximou.
— Não toquem.
Satoshi observou em silêncio. O cheiro era fraco, mas presente — poeira antiga misturada a algo metálico, seco, como ferramenta esquecida. Não havia sangue. Não havia mosca. Nada parecia interessado naquele corpo.
O som vinha dali.
Não do Caititu em si, mas do que estava preso ao corpo.
Correntes antigas, enterradas parcialmente na pedra, ligavam o flanco do animal à parede do patamar. Não eram finas. Eram grossas, feitas para segurar peso. Algumas estavam quebradas. Outras, esticadas demais, rangiam quando o vento mudava de direção.
— Isso foi contido — disse Kael.
Ninguém contestou.
Arume apertou os punhos.
— Então soltaram.
— Ou perderam — disse Mira.
Satoshi se aproximou apenas o suficiente para ver melhor as marcas. Não tocou. Não tentou entender além do que estava ali.
— Vamos contornar — disse. — Não é nosso.
— E se levantar? — perguntou Arume.
Kael respondeu antes de Satoshi.
— Não levanta. Isso não levanta mais.
Eles passaram pela lateral do patamar, mantendo distância do corpo. O som das correntes diminuiu à medida que subiam, até desaparecer por completo.
Mais acima, o terreno mudou outra vez.
A pedra começou a apresentar superfícies planas demais para serem naturais. Não lisas — gastas. Como chão pisado por tempo demais. Em alguns pontos, havia marcas circulares rasas, quase apagadas, como se algo tivesse sido arrastado ali em movimentos repetidos.
— Isso não é trilha — disse Torvel.
— É uso — completou Mira.
Arume olhou para frente.
— Uso de quê?
Ninguém respondeu.
O caminho estreitou de novo e levou a uma passagem entre duas paredes altas de pedra. O vento ali ficava preso, girando em redemoinhos pequenos que levantavam poeira seca. O som era estranho — não ecoava direito.
No meio da passagem, algo se moveu.
Não rápido. Não escondido.
Um grupo pequeno de figuras saiu de trás da pedra, bloqueando parcialmente o caminho. Não eram Curupiras. Não completamente.
Os corpos eram humanos demais para serem outra coisa, mas errados demais para serem só gente. Alguns tinham pés virados de forma imperfeita. Outros carregavam marcas profundas nos braços e no rosto, como se algo tivesse sido cravado ali e arrancado depois. Vestiam restos de tecido antigo, misturado a couro e fibra vegetal.
— Não avancem — disse Kael, firme.
As figuras pararam.
Um deles deu um passo à frente. O olhar era vazio, mas atento.
— Aqui não passa — disse, com a voz áspera.
Arume inclinou o corpo, pronta.
— Desde quando?
O homem hesitou, como se a pergunta exigisse mais do que ele tinha.
— Desde que mandaram.
— Quem? — perguntou Mira.
Silêncio.
Satoshi deu um passo à frente.
— O que tem acima?
O homem olhou para trás, para o alto da passagem, depois voltou o olhar para Satoshi.
— Coisa que não quer gente.
— Nunca quer — disse Arume.
— Essa quer menos — respondeu o homem.
Kael observou o grupo à frente.
— Vocês estão aqui por ordem?
O homem assentiu.
— Ordem velha.
— E funciona? — perguntou Kael.
O homem olhou para os outros atrás dele. Alguns desviaram o olhar. Outros mantiveram os olhos fixos no chão.
— Funciona o suficiente.
Satoshi respirou fundo.
— Não vamos brigar.
O homem pareceu surpreso.
— Então voltem.
Satoshi balançou a cabeça.
— Não.
O silêncio se estendeu. O vento rodopiou entre as paredes.
O homem deu um passo para o lado, abrindo espaço mínimo.
— Um de cada vez — disse. — Sem correr.
Kael assentiu.
Eles passaram.
As figuras não atacaram. Não tocaram. Apenas observaram enquanto o grupo avançava pela passagem estreita. Quando Satoshi passou pelo último, sentiu o olhar pesar nas costas, mas não ouviu nada.
Do outro lado, o espaço se abriu de novo.
Um platô largo, exposto ao vento, com vista para encostas ainda mais altas. Ali, a montanha parecia mais nua, menos viva. O verde quase desaparecia. A pedra dominava.
No centro do platô, restos de estruturas antigas se espalhavam: bases circulares, fragmentos de colunas baixas, pedaços de muro que não protegiam nada. Tudo gasto. Tudo abandonado.
— Isso era posto — disse Kael.
— Ou experimento — murmurou Torvel.
Satoshi caminhou até uma das bases circulares. Havia sulcos no chão, como se algo tivesse sido girado ali muitas vezes. Marcas de contenção. De falha repetida.
Ele puxou o livro quase sem pensar.
Abriu.
Escreveu.
Não descreveu o lugar inteiro. Não tentou nomear o que tinha sido. Anotou apenas o que se repetia: contenção, uso, abandono.
Fechou o livro.
Arume observava o horizonte.
— A partir daqui, não tem mais vila — disse.
— Nem volta — completou Mira.
Kael assentiu.
— Quem está acima disso não espera ninguém voltar.
Satoshi caminhou até a borda do platô. O vento batia forte ali, empurrando o corpo para trás se não houvesse atenção.
Ele parou.
Pensou em Rask. Não como imagem. Como peso.
Tirou o papel dobrado da bolsa. Abriu. Leu a linha que tinha escrito antes. Dobrou de novo.
Guardou.
— A partir daqui — disse ele, sem elevar a voz — ninguém volta.
Ninguém contestou.
O grupo seguiu.
Mais alto.
Para onde a montanha já não fingia ser floresta.
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