Volume 1
Capítulo 20: Sem Retorno
O frio chegou antes da luz.
Na vila, os fogos já estavam baixos quando Satoshi abriu o livro. Não chamou atenção. Não pediu espaço. Apenas se sentou perto de um tronco queimado demais para ainda ser lenha e folheou até a parte marcada por dobras antigas.
A página do Curupira.
O texto era curto. Antigo. Frases gastas, escritas por alguém que não tinha ficado tempo suficiente para saber o que anotar. Avisos vagos, palavras que serviam mais para lembrar que algo existia do que para orientar quem pisaria ali depois.
Satoshi leu uma linha. Depois outra.
Pegou o carvão.
Escreveu por cima, entre as frases velhas, sem cerimônia, anotando apenas o que tinha visto e o que tinha custado, porque qualquer coisa além disso virava enfeite.
Fechou o livro.
Rask observava de onde estava, sentado no tronco que a terra ainda segurava. O rosto parecia mais fundo, como se o cansaço tivesse decidido ficar. As mãos tremiam levemente quando não estavam ocupadas.
— Vai sair cedo — disse ele.
— Sim.
Rask assentiu. Olhou para o chão. Depois para a vila. Depois para lugar nenhum.
— Escreve uma linha pra mim.
Satoshi parou.
— Não no livro — completou Rask. — Uma só. Fora dele.
Satoshi tirou um pedaço de papel grosso do fundo da bolsa. Não era página. Não era registro. Era sobra.
— Depois — disse Rask. — Quando der.
Satoshi dobrou o papel uma vez e guardou.
A vila acordava aos poucos. Curupiras incompletos se moviam sem pressa, mexendo em ossos, empurrando restos de comida, reacendendo fogo. Dois deles se colocaram no caminho de volta, não como ameaça, mas como limite. Dali não se passava.
Arume chegou por último.
Parou perto de Rask. Não falou nada. Ficou ali tempo demais, como se o corpo esperasse uma ordem que não vinha.
Um Curupira mais velho bateu o pé no chão, seco.
Arume recuou um passo.
— Cuida de ficar vivo — disse, baixo.
Rask tentou rir. O som saiu torto.
— Vou tentar.
Quando o grupo começou a andar, Rask respirou fundo demais.
— Satoshi.
A voz saiu errada.
Satoshi ouviu.
Não virou.
Rask tentou de novo, e o nome veio atravessado por um choro que ele não conseguiu segurar. Não foi alto. Não foi longo. Foi curto e feio, como quando o corpo entende antes da cabeça.
— Satoshi.
Ninguém virou.
Arume fechou os olhos. Mira manteve o olhar fixo à frente. Torvel apertou a mandíbula. Kael ajustou o passo para manter o ritmo.
O grupo seguiu.
Os Curupiras não acompanharam. Pararam no limite da vila, onde o chão deixava de ser usado. Acima, o caminho ficava mais estreito, mais inclinado, e a pedra começava a aparecer sem pedir licença.
Ninguém falou.
A vila ficou para trás sem som de despedida.
Mais acima, o verde rareou. O vento batia diferente, carregando menos cheiro, e o silêncio parecia mais pobre, como se o lugar não devolvesse o que engolia. O chão não devolvia pegadas com facilidade; era preciso escolher onde pisar, e cada escolha custava atenção.
Torvel tropeçou uma vez. Recuperou o equilíbrio sem comentário.
Mira errou um desvio simples e corrigiu o passo no último momento.
Arume acelerou demais. Kael segurou com um gesto curto.
Seguiram assim por um tempo, respirando curto, sem pressa de chegar e sem vontade de parar.
Foi Kael quem percebeu primeiro.
Parou. Levantou o braço.
— Movimento.
O chão à frente se mexeu como se respirasse errado.
O Caititu de Pedra saiu de trás de uma elevação baixa, grande demais para ser ignorado. O corpo era maciço, placas grossas cobrindo os flancos, mas havia algo errado na forma como se movia. As juntas atrasavam, o peso vinha depois, e o som dos passos era seco demais para um bicho vivo.
Ele investiu.
Arume saiu da linha com facilidade. Kael desviou um passo curto. Satoshi puxou Mira para trás.
O impacto veio no lugar onde eles tinham estado um segundo antes. A pedra rachou.
— Dá pra derrubar — disse Arume.
Ela avançou, rápida, descarregando o golpe no flanco do animal. O impacto foi seco, pesado, suficiente para derrubar qualquer coisa viva daquele tamanho.
O Caititu caiu.
Levantou.
Sem hesitação. Sem som de dor.
Quando se moveu, o cheiro chegou — não de carne, não de sangue, mas de poeira molhada e pedra recém-quebrada, como quando algo antigo é aberto à força.
Torvel franziu o cenho.
— Ele não reagiu.
Kael avançou, golpeando a cabeça. O som foi de rachadura oca. Parte da placa cedeu.
O Caititu cambaleou.
Não caiu.
Investiu de novo, mais lento, mas sem parar, rangendo por dentro como coisa mal montada.
Arume recuou um passo.
— Isso não sangra.
Satoshi sentiu o chão tremer quando o animal passou. O impacto era errado. O corpo não respondia como corpo devia.
Eles atacaram juntos dessa vez. Golpes certeiros, repetidos, acumulados. Força suficiente para parar qualquer coisa daquele porte.
O Caititu caiu de lado.
Ficou imóvel por um instante longo demais.
Depois tentou levantar.
Algo cedeu por dentro.
O corpo rachou. As placas se partiram. Não houve sangue. Não houve grito. O som foi seco e curto, como pedra partindo onde não devia.
O Caititu parou.
O silêncio que veio depois foi estranho, como se faltasse um som que o mundo sempre entrega quando um bicho morre.
Arume respirava rápido.
— Ele não sentiu — disse.
Kael observou o corpo, atento.
— Não reagiu à dor.
Torvel se agachou e tocou de leve a superfície rachada.
— Isso não está vivo do jeito certo.
Ninguém respondeu.
Satoshi não olhou por muito tempo.
— Vamos.
Eles contornaram o corpo sem cerimônia. O caminho além era pior, mais estreito, mais íngreme, mas não pararam. O cheiro de pedra molhada ficou para trás rápido demais.
Enquanto andavam, Satoshi puxou o livro. Abriu. Escreveu duas linhas curtas. Fechou.
Continuou andando.
O vento aumentou. O som ficou ainda mais raso.
Quando pararam para descansar, Satoshi tirou o papel dobrado. Abriu. Escreveu uma linha só. Dobrou de novo. Guardou.
Ninguém perguntou.
Quando seguiram, o caminho não ofereceu retorno.
O grupo subiu.
Sem olhar para trás.
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