Volume 1
Capítulo 19: O Preço Que Fica
O caminho não se fechou.
Isso foi o primeiro incômodo.
Depois de deixarem Rask para trás, nada tentou empurrá-los para fora da trilha improvisada. As raízes não se moveram. A terra não cedeu. O vento passou como passa em qualquer lugar que não se importa.
O grupo seguiu.
Não rápido. Não em formação rígida. Apenas avançando, como quem anda depois de um erro grande demais para repetir logo.
Arume ia à frente, os passos curtos e atentos demais para serem naturais. De vez em quando parava sem avisar, testava o chão com o peso do corpo e só então avançava. Mira seguia próxima de Satoshi, os olhos nunca parados no mesmo ponto por muito tempo, observando desvios mínimos e escolhas que não viravam conversa. Torvel tocava o chão quando podia, como se procurasse algo que não estava mais ali. Kael vinha atrás, medindo o grupo, não a floresta.
Andaram assim por tempo suficiente para o silêncio deixar de ser escolha.
O cheiro veio primeiro.
Não forte. Não próximo. Apenas deslocado demais para existir ali. Gordura quente misturada a fumaça fraca. Nada vegetal.
Torvel parou. Ajoelhou-se e pressionou a palma contra o solo frio. Ficou ali alguns segundos a mais do que o necessário.
— Isso aqui já foi usado — disse.
Satoshi ergueu o punho.
— Quando?
Torvel balançou a cabeça.
— Não sei. Mas não foi agora.
Mira observou o entorno sem se mover.
— Então alguém ficou.
O vento trouxe o cheiro outra vez, mais definido.
— Tem comida — disse Arume.
Nada empurrou. Nada fechou.
— Vamos — disse Satoshi.
Poucos passos depois, surgiram as marcas.
Pegadas viradas para trás, irregulares, mal aprendidas. Algumas profundas demais. Outras quase apagadas. Não seguiam linha clara. Pareciam tentativas repetidas no mesmo lugar.
— Curupira — murmurou Torvel. — Ainda errado.
Arume levou a mão ao cabo da arma, mas não sacou.
— Eles não estavam aqui antes.
— Estão agora — disse Mira. — Porque o lugar mudou.
O estalo veio da direita, curto e seco. Depois outro, atrás.
Entre dois troncos, algo se moveu.
Magro demais. Alto demais. Os pés virados para trás de um jeito desconfortável, como se o corpo ainda não tivesse decidido se aquilo era permanente. O vulto parou e olhou.
Outro apareceu à esquerda. Um terceiro mais atrás, rápido demais para ser acompanhado com certeza.
Nenhum avançou.
Um deles bateu o pé no chão. O gesto saiu errado. Tentou de novo, esperando resposta.
— Não vieram caçar — disse Kael.
— Vieram conferir — completou Mira.
O cheiro de comida ficou mais forte.
Um Curupira mais alto, com o ombro marcado por casca seca, fez um gesto curto com a cabeça, apontando para a esquerda. Não insistiu. Não explicou.
Satoshi olhou para o gesto, depois para o grupo.
— Não corram. Não atravessem fácil.
Eles seguiram.
A vegetação mudou aos poucos. Troncos mais baixos. Galhos quebrados antigos. O chão endurecido em alguns pontos, gasto por passagem repetida. Pegadas invertidas misturadas a marcas humanas velhas demais para alguém lembrar de quem foram.
Um Curupira tentou andar ao lado de Arume, imitando o ritmo. Errou duas vezes antes de acertar. Quando acertou, sorriu de um jeito torto e se afastou, satisfeito demais.
Outro parou perto de Torvel e bateu o pé três vezes no mesmo ponto, como se quisesse endurecer o chão. Nada aconteceu. Tentou de novo, com mais força. O solo cedeu um pouco demais e ele quase caiu. Um Curupira mais velho puxou-o pelo braço e o afastou com um estalo irritado.
— Eles aprendem errando — disse Torvel.
— Igual gente — respondeu Arume.
Então o espaço se abriu.
Não em clareira.
Em ocupação.
Estruturas baixas de madeira torta e raízes trançadas surgiam entre árvores vivas. Algumas mal protegiam do vento. Outras permitiam ficar em pé, mas forçavam o corpo a lembrar do peso que carrega. Pequenos fogos queimavam aqui e ali, alimentados por gravetos grossos e ossos antigos.
O cheiro era pesado. Gordura, fumaça, terra molhada, pelo sujo. Ardía o nariz. Grudava na roupa.
Curupiras por toda parte.
Alguns atentos, imóveis, observando cada passo do grupo. Outros sentados, mastigando carne, disputando pedaços, empurrando-se em conflitos pequenos demais para virar briga de verdade. Machos e fêmeas sem diferença clara além da postura. Muitos com pés só parcialmente invertidos, como se ainda estivessem decidindo o que manter.
Uma Curupira menor tentou carregar um caldeirão de barro sozinha. Derrubou metade do conteúdo quente no chão e recuou, assustada com o próprio erro. Outra se aproximou, bateu nela com a parte de trás da mão e começou a recolher o que restava, xingando em estalos rápidos.
Nada ritual. Nada sagrado. Só vida torta funcionando.
Então Satoshi viu Rask.
Sentado num tronco largo. O corpo ereto. O rosto sujo. A perna presa até a coxa por terra endurecida que não apertava mais, mas também não soltava. Ele estava vivo. Presente. Visivelmente cansado.
Na mão direita, uma coxa de galinha dourada.
Ele mastigava devagar, como quem não tem pressa nem opção.
— Demoraram — disse.
Arume avançou antes de pensar.
— Seu idiota.
Rask deu de ombros com cuidado.
— Eu não sumi. Vocês que seguiram.
Kael se aproximou.
— Está ferido?
— Não. — Rask ergueu a coxa. — Alimentado.
Mordeu mais um pedaço.
— Eles cozinham mal, mas não deixam ninguém com fome.
Um Curupira passou atrás dele e bateu de leve no tronco onde Rask estava sentado, testando firmeza. A terra ao redor da perna não reagiu. O Curupira estalou a língua e seguiu em frente.
Satoshi se aproximou até onde podia e pousou a mão no tronco ao lado de Rask. Não falou nada.
Rask olhou para ele por um segundo a mais do que o normal.
— Não tenta puxar — disse. — Não vale a pena.
Satoshi assentiu.
Um Curupira mais completo se aproximou. Pés totalmente invertidos. Um colar de ossos pequenos pendia do pescoço. O olhar não era hostil nem acolhedor.
— Preço — disse.
— Pago — respondeu Satoshi.
— Não todo.
Rask riu fraco.
— Nunca é.
O Curupira apontou para a vila.
— Vocês ficam. Comem. Dormem. Depois seguem.
Arume fechou os punhos.
— E ele?
O Curupira olhou para Rask.
— Ele fica.
— Até quando? — perguntou Satoshi.
O Curupira tocou o próprio peito, depois o chão.
— Enquanto fizer falta.
Nada mais foi dito.
Rask terminou a coxa e jogou o osso no fogo mais próximo. A chama subiu rápido e morreu logo depois.
— Alguém tinha que parar — disse. — Melhor eu do que vocês tentando voltar.
Eles comeram.
Não juntos. Espalhados pela vila, aceitando tigelas tortas, pedaços de carne mal cortados, caldo gorduroso demais. O frio entrava pelas frestas das estruturas. A fumaça ardia os olhos. O cheiro grudava na pele.
Arume mal tocou na comida. Mira observava os Curupiras, percebendo padrões mínimos de hierarquia que não se fixavam. Torvel fez perguntas curtas e recebeu respostas incompletas. Kael manteve o corpo relaxado demais para quem não dormia em lugar seguro.
Quando a noite ficou densa, um Curupira tropeçou perto de Rask e quase caiu sobre ele. Outro o puxou a tempo, estalando de irritação. Rask observou tudo em silêncio.
Mais tarde, o Curupira do colar voltou.
— Amanhã vocês seguem.
— E ele? — insistiu Arume.
— Ele fica.
Satoshi respirou fundo.
— Então essa é minha decisão.
O grupo olhou para ele. Nenhum debate veio.
— Nós seguimos — disse. — Ele fica. Visível.
Rask sorriu torto.
— Sempre quis ser aviso.
O Curupira assentiu.
— Fica.
Quando o grupo se levantou para dormir, ninguém tentou tocar na terra em volta da perna de Rask.
Não por medo.
Porque não adiantaria.
Satoshi se afastou alguns passos e olhou para a vila uma última vez. Nada ali prometia retorno. Nada pedia desculpa.
Ele seguiu sem olhar para trás, sabendo que dali em diante sempre haveria alguém ficando para que outros avançassem.
E que um dia isso deixaria de ser montanha.
Viraria regra.
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