Volume 1
Capítulo 18: O Lugar Mais Fácil
O primeiro erro aconteceu quando tentaram medir distância.
Não foi descuido. Foi hábito antigo. Depois da perda de Rask e do quase afundamento de Torvel, o grupo passou a avançar mais lento, atento demais ao chão, às copas, ao próprio corpo. A floresta continuava viva, mas agora se mantinha silenciosa de um jeito diferente. Não filtrava som. Não testava. Apenas deixava acontecer.
Satoshi percebeu isso quando o vento voltou a soprar sem resistência.
Não era sinal de permissão. Era ausência de interesse imediato.
Eles caminharam por quase uma hora sem outro incidente direto. O terreno oscilava entre raiz exposta e pedra úmida. A neve reaparecia em manchas irregulares. A montanha parecia cansada de decidir.
Torvel quebrou o silêncio.
A percepção não voltou, disse ele, tocando a própria têmpora. Ainda sinto falhas. Como pontos cegos móveis.
Mira assentiu.
A floresta não devolve o que tira rápido.
Rask caminhava com dificuldade, mas sem reclamar. A Mãe de Ouro ainda estava ali, mas distante, como se estivesse enterrada sob uma camada espessa de terra. Ele não parecia mais fanático. Parecia atento demais.
Então o erro é achar que isso passa, murmurou.
Kael parou.
Não levantou a mão. Apenas parou de andar.
Satoshi sentiu antes de ver. O chão à frente estava errado. Não perigoso. Não instável. Apenas simples demais. Um trecho limpo, sem raízes, sem marcas, sem irregularidade. Um convite disfarçado de alívio.
Aqui não, disse Satoshi.
Arume olhou para ele.
O quê?
Esse pedaço, respondeu. Não tem custo.
O grupo observou melhor. Era verdade. O solo estava seco, firme, quase confortável. Nenhuma marca. Nenhum cheiro forte. Nenhum sinal de território.
Rask soltou um riso curto.
Depois de tudo isso, você desconfia do chão bom.
Principalmente dele, respondeu Satoshi.
Kael fechou os olhos por um instante.
Não é trilha. É concessão.
Torvel deu um passo lateral, testando a borda do trecho limpo. O chão respondeu com leveza demais. Como se estivesse esperando.
Isso aqui quer que a gente atravesse, disse ele.
E atravesse rápido, completou Mira.
O silêncio se estendeu.
Ninguém queria ser o primeiro.
Foi Rask quem deu o passo.
Não por desafio. Por cansaço.
O pé afundou meio palmo e parou. Nada aconteceu.
Estou inteiro, disse ele.
Satoshi sentiu o fogo se mover no peito. Não em alerta imediato. Em algo pior. Reconhecimento tardio.
Volta, disse ele. Devagar.
Rask tentou recuar.
O chão segurou.
Não puxou. Não prendeu. Apenas resistiu ao movimento contrário. Como se dissesse que avançar era fácil. Voltar, não.
Rask, disse Kael, baixo.
Rask forçou um pouco mais. O solo cedeu de novo, desta vez até o tornozelo.
Não é força, disse ele, ofegante. É permissão.
A floresta respondeu.
Não com ataque. Com fechamento.
O trecho limpo se estendeu para os lados, engolindo raízes próximas, suavizando irregularidades. O caminho antigo desaparecia sob uma camada de terra nova demais.
Ela está redesenhando, murmurou Mira.
Satoshi avançou um passo, mantendo se fora da área limpa.
Rask, para de lutar. Para de decidir.
Eu não estou decidindo nada, rosnou ele.
Está sim, respondeu Satoshi. Está tentando sair.
O silêncio pesou.
Rask parou.
Respirou.
O chão afrouxou um pouco.
Então o que faço, perguntou ele, com a voz nua.
Satoshi engoliu em seco.
Fica.
A palavra caiu pesada.
Rask entendeu.
Ele soltou o corpo. Relaxou os ombros. Parou de resistir.
O chão não afundou mais.
Mas também não devolveu.
A terra subiu lentamente ao redor da perna, não como prisão, mas como encaixe. Até o joelho. Depois até a coxa.
Não, disse Arume, avançando.
Kael segurou o braço dela.
Não.
Ele vai ser engolido.
Não, respondeu Kael. Ele vai ser marcado.
Rask respirava rápido agora, mas sem pânico.
Então é isso, murmurou. Esse é o preço.
Satoshi se aproximou o máximo que podia.
Eu sinto muito.
Rask riu fraco.
Não sinta. Eu escolhi atravessar.
A terra parou no quadril.
Não subiu mais.
Rask ainda estava ali. Preso, mas consciente. Vivo. Inteiro o suficiente para olhar.
Se eu puxar, disse Kael, ela leva mais.
Então não puxa, respondeu Rask. Aprende.
O verde ao redor pareceu aceitar.
A floresta não avançou mais. Também não recuou. Apenas fixou.
Ela não quer ele, disse Mira. Quer o gesto.
Satoshi sentiu o fogo se alinhar de novo. Não para agir. Para registrar.
Ela quer que a gente entenda que conforto também é armadilha.
O vento voltou a soprar. Não frio. Não quente. Normal demais.
Torvel limpou o suor da testa.
E agora?
Satoshi olhou ao redor. Não para frente. Para trás. O caminho antigo estava quase irreconhecível.
Agora a gente aprende a não escolher sozinho.
Ele olhou para Rask.
Você aguenta ficar?
Rask assentiu.
Já fiquei pior em lugares piores.
Arume fechou os punhos.
Não vamos deixar você.
Não estão deixando, respondeu Rask. Estão indo.
Kael respirou fundo.
Se tentarmos resolver isso com força, perdemos mais.
Se ficarmos parados, disse Mira, perdemos o tempo.
O silêncio voltou. Não imposto. Escolhido.
Satoshi tomou a decisão que não queria tomar.
A gente contorna, disse ele. Não atravessa. Não puxa. Não desafia.
E ele, perguntou Arume.
Ele fica no centro da escolha, respondeu Satoshi. Visível. Vivo. Testemunha.
Rask sorriu torto.
Sempre quis ser exemplo de alguma coisa.
O grupo se moveu devagar para a lateral, seguindo a borda do trecho limpo. O chão aceitava. Com custo leve. Cada passo exigia atenção dobrada.
Quando se afastaram o suficiente, Satoshi olhou para trás uma última vez.
Rask estava ali, imóvel, a terra firme ao redor, o tronco ereto. A floresta não o engolia. Também não o libertava.
Ela o mantinha.
Como aviso.
O grupo seguiu.
Mais acima, a trilha improvisada reapareceu, mais estreita, mais torta. O verde fechou atrás deles, deixando Rask fora de vista.
Ninguém falou por um longo tempo.
O erro tinha acontecido.
Não por ignorância. Por hábito.
E agora ele estava registrado no chão.
Satoshi respirou fundo.
O fogo em seu peito não ofereceu resposta.
Apenas permaneceu.
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