Volume 1
Capítulo 17: Resposta da Floresta
A primeira coisa que a floresta tirou não foi sangue.
Foi som.
O grupo percebeu isso aos poucos. Não como algo abrupto, mas como um erro estranho na realidade. O rangido das botas na terra ficou abafado. O farfalhar das folhas perdeu definição. Até a respiração parecia não viajar tão longe quanto deveria.
Satoshi parou.
— Vocês ouviram isso?
Ninguém respondeu.
Não porque não quisessem.
Porque a pergunta não chegou inteira.
Rask abriu a boca, fechou de novo. A palavra morreu antes de sair. Ele franziu o cenho e tentou outra vez.
— …porra.
Saiu. Mas saiu errado. O som se dissolveu no ar, como se tivesse sido engolido pela vegetação antes de alcançar alguém.
Mira levou a mão ao próprio pescoço.
— A floresta está… absorvendo.
Torvel estendeu a mão à frente. As tatuagens sob a pele dele reagiram tarde demais, se movendo como se corressem atrás de algo que já tinha passado.
— Não é silêncio — disse ele, com esforço. — É filtragem.
Kael cerrou os dentes.
— Então é isso.
— Isso o quê? — perguntou Rask, alto demais, irritado.
Kael respondeu curto:
— A resposta.
O verde ao redor deles não avançou fisicamente. Não fechou caminhos, não atacou, não rugiu. Ele fez algo pior: passou a decidir o que importava existir.
Satoshi sentiu o fogo em seu peito se contrair. Não em alerta de perigo imediato, mas em algo mais desconfortável. Reconhecimento.
— Ela não quer nos expulsar — disse ele. — Quer nos testar de verdade.
Arume assentiu lentamente.
— A avaliação acabou. Agora é convivência forçada.
Um estalo veio à direita.
Dessa vez, não foi distante.
Algo atravessou os arbustos com rapidez seca, baixa demais para ser visto por inteiro. Rask virou o corpo tarde demais. O impacto veio lateral, jogando-o contra o tronco de uma árvore.
— RASK!
Ele caiu de joelhos, arfando. Não havia sangue visível. Nenhum ferimento aberto.
— Não… me acertou — disse ele, com dificuldade. — Me… arrancou.
Satoshi se aproximou rápido.
— O quê?
Rask levou a mão ao peito e puxou algo invisível. O gesto foi errado, desesperado.
— O peso — disse ele. — Sumiu.
Mira sentiu primeiro.
— A assinatura dele…
Ela fechou os olhos, concentrou.
— Está mais fraca.
O silêncio pesou.
— A floresta não feriu — disse Kael. — Cobrou.
Arume se ajoelhou ao lado de Rask, marcas de raio pulsando fracas sob a pele.
— Você ainda sente a Mãe-de-Ouro?
Rask respirou fundo. O rosto, sempre duro, parecia… exposto.
— Sinto — disse ele. — Mas… distante. Como se alguém tivesse colocado terra em cima.
Satoshi entendeu.
— Não levou o poder — disse. — Levou o acesso.
O verde ao redor deles se moveu. Não em avanço. Em ajuste. Algumas folhas murcharam. Outras cresceram rápido demais. O equilíbrio errado de um organismo que testa limites.
— Esse é o aviso — disse Kael. — Aqui não se entra inteiro.
Torvel engoliu em seco.
— E se continuar assim?
— A floresta decide o que sobra — respondeu Mira.
Rask tentou se levantar. Caiu de novo.
— Ótimo — murmurou. — Fanatismo cobra caro.
Satoshi se agachou diante dele.
— Você consegue andar?
— Consigo — respondeu Rask. — Só não consigo mais impor nada.
O fogo no peito de Satoshi se moveu. Não em triunfo. Em peso.
— Então seguimos — disse ele. — Mas agora sabemos o custo.
Eles avançaram mais alguns metros.
Foi quando o chão cedeu.
Não em desabamento. Em afundamento seletivo.
A terra sob os pés de Torvel simplesmente perdeu consistência. Não virou lama. Virou vazio vegetal. Raízes se abriram como dedos, puxando-o para baixo.
— TORVEL!
Arume reagiu por instinto. Um arco de relâmpagos azul-dourados explodiu da mão dela, cravando-se nas raízes. Elas recuaram com um estalo seco, mas não soltaram completamente.
Torvel gritava agora. Não de dor. De esforço. As tatuagens em sua pele queimavam, se movendo rápido demais, tentando mapear algo que não obedecia.
— Não é força! — ele gritou. — É… critério!
Satoshi correu até a borda, ignorando o risco.
— Olha pra mim! — gritou. — Para de lutar!
Torvel obedeceu por reflexo.
O chão parou de puxar.
As raízes ficaram imóveis, ainda presas às pernas dele, mas sem apertar.
— A floresta não quer resistência — disse Satoshi, respirando pesado. — Quer leitura.
Ele estendeu a mão.
— Vem devagar.
Torvel subiu com cuidado. Quando saiu, caiu de costas, arfando. As tatuagens sob sua pele estavam apagadas demais.
— Também levaram algo — murmurou ele. — Parte da percepção.
Kael fechou os punhos.
— Duas cobranças. Nenhuma morte.
— Ainda — disse Mira.
O ar ficou mais frio.
Não por clima. Por decisão.
Foi então que Satoshi sentiu algo diferente.
Não à frente.
Não atrás.
Acima.
Ele levantou o olhar.
Entre as copas altas, algo se movia sem forma fixa. Não era criatura definida. Era concentração de verde, como se a floresta tivesse reunido sua atenção em um ponto só.
Não havia olhos.
Mas havia foco.
Satoshi sentiu o fogo em seu peito ser observado diretamente pela primeira vez.
Não com hostilidade.
Com curiosidade perigosa.
Ele deu um passo à frente.
— Eu entendo — disse, em voz baixa.
A palavra saiu inteira.
A floresta permitiu.
— Não viemos dominar — continuou. — Nem obedecer. Só ler… antes de errar de vez.
O foco verde se contraiu levemente. Não aceitação. Avaliação renovada.
Arume se aproximou.
— Satoshi…
— Não agora — disse ele, sem tirar os olhos de cima.
O fogo em seu peito se alinhou. Não cresceu. Não ameaçou.
Se ofereceu como risco calculado.
O verde se moveu uma última vez. Depois, se dispersou pelas copas.
O som voltou. Imperfeito, mas voltou.
Rask respirou fundo, aliviado e furioso.
— Então é isso — disse. — Não é caçada. É triagem.
Kael assentiu.
— Quem não aguenta, fica para trás. Mesmo andando.
Mira olhou para Satoshi.
— Ela te viu.
— Viu todos — respondeu ele. — Mas decidiu comigo.
O grupo ficou em silêncio.
Nenhum deles estava inteiro agora.
E isso era exatamente o ponto.
Satoshi olhou para frente. A trilha improvisada continuava, mais fechada, mais viva.
— Continuamos — disse ele. — Mas sem fingir que isso é exploração.
— O que é, então? — perguntou Arume.
Satoshi respondeu sem metáfora.
— É sobrevivência com testemunha.
Eles seguiram.
E, pela primeira vez desde que entraram, a floresta não apenas observava.
Ela acompanhava.
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