Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 29: Morte esteve aqui

Quando o dia estava prestes a cair, envolta em devaneios de tristeza, Lana caminhava devagar pela estreita rua, por onde também percorria uma friagem capaz de arrepiar as espinhas.

Parou em frente a uma casa e fitou-a, pensativa. Fazia tempo que não passava por ali, diante da casa de Iuri.

Era o lugar ao qual viera várias vezes, porém nunca o chamara por causa da vergonha. E, no dia em que finalmente teria coragem, fora justamente no primeiro dia de aula deste ano — o mesmo em que encontrara Saketsu e fora atacada por Iuri; o mesmo em que tudo começara a mudar…

Agora não sabia mais o que fazer. Havia acabado de sair da casa de Saketsu depois de brigar com ele, após vê-lo beijando uma garota atrás da escola. Não entendia exatamente o porquê, mas aquilo a havia deixado muito mal.

Além disso, culpara Saketsu sem pensar, agira por impulso, e agora era tarde demais para voltar atrás. Não tinha nem coragem de atender o celular, que já havia vibrado várias vezes com ligações dele.

Sentia-se perdida. Era como se não existisse lugar para si no mundo e, não importava o quanto tentasse ser feliz ou fazer as coisas direito para isso, a decepção sempre acabava vindo.

Ainda parada diante da casa vazia de Iuri, perguntou-se onde ele estaria. Para onde havia ido depois de perder tudo? Será que estava bem?

Um aperto frio tomou seu peito. Estava prestes a se afogar em lágrimas novamente.

De repente, percebeu o celular tremer nas mãos.

Pensou que fosse Saketsu ligando outra vez. Contudo, não era. Era seu pai, com uma mensagem que dizia: 

“Olá, querida. Sou eu, o papai. Estou de volta. Você ainda vai demorar para chegar? Espero que veja esta mensagem antes da hora da janta, para que possamos comer juntos e colocar a conversa em dia. Estou com saudades da minha filha.”

Isso surpreendeu a garota. As lágrimas agora eram de felicidade. Depois de tanto tempo, finalmente iria vê-lo.

Às pressas, Lana começou a seguir rumo para casa, ansiosa para chegar logo e poder dar um forte abraço no pai, compensando a grande ausência dele nos últimos tempos. Ele era a única pessoa com quem de fato poderia contar no momento.

Quando finalmente chegou em casa, estava até com a respiração ofegante.

Ainda do lado de fora, percebeu que estava tudo escuro e silencioso, com o mesmo ar melancólico de sempre. Aquilo lhe pareceu estranho.

— Será que ele saiu? — perguntou-se ao entrar pela sala e acender a luz.

Colocou suas coisas no sofá e caminhou para o corredor. A quietude despertava uma sensação ruim à medida que avançava.

Logo sentiu um cheiro estranho, pouco identificável, vindo da cozinha ao fim do pequeno corredor, lembrando, de alguma forma, comida estragada.

Ao se aproximar, o cheiro se intensificou ainda mais.

A porta estava entreaberta.

Seguiu com cautela.

Ao abrir um pouco mais a porta, ligou a luz e entrou na cozinha.

À primeira vista, parecia estar tudo bem. Porém, uma expressão de surpresa negativa surgiu em seu rosto ao olhar para o outro canto.

Seu estômago se embrulhou enquanto seu corpo paralisava, o enjoo causando tontura. Aquilo era horripilante demais. Nunca havia ficado tão perplexa.

Tapou a boca com as mãos, e suas pernas perderam as forças, fazendo-a cair sentada para trás no chão.

Sim, seu pai finalmente estava em casa, mas de uma forma totalmente diferente da que havia imaginado.

Com a cabeça pendida para baixo, sentado entre a parede e o chão sobre a poça do próprio sangue que vazava das pernas decepadas a partir dos joelhos, com os ossos fincados um em cada mão estendida contra a parede, as tripas retiradas do abdômen aberto enroladas pelo corpo como enfeites grotescos, o homem estava morto.

E, como se não bastasse, acima de sua cabeça havia uma mensagem escrita com seu próprio sangue: “Morte esteve aqui”.

Mesmo que quisesse, Lana não conseguia tirar os olhos carregados de pânico daquela crueldade assustadora.

Quem teria cometido algo tão desumano assim?

Mesmo quando conseguiu ocultar a visão ao tapar o rosto com as mãos, a imagem continuava nítida em sua mente.

Ainda não acreditava.

Queria acordar logo, caso fosse um pesadelo.

Finalmente juntou forças e se levantou.

Não queria ficar ali por mais um segundo. Queria ignorar tudo. Só queria fugir.

Então saiu às pressas dali.

A noite já havia dominado o céu. Lana corria, deixando lágrimas para trás. Estava desesperada. Não sabia mais para onde ir. Poderia voltar para a casa de Saketsu ou da sra. Gardênia, mas não queria — não enquanto essa “maldição” de afastar todos que amava continuasse a persegui-la.

Por que isso acontecia? Por que não podia ser feliz como todos à sua volta? Já havia abraçado seu verdadeiro eu. Já havia matado a velha Lana para dar espaço a uma nova, então por que as coisas continuavam não dando certo?

Ainda correndo, tomada por um desespero interno crescente, só voltou a perceber o mundo à sua volta quando sentiu algo à sua frente segurá-la pelos ombros.

Ao reparar melhor, viu que era ninguém menos que Dracarys.

— Ei, você está bem… hum… Lana? — perguntou, esboçando preocupação.

Lana se desvencilhou rapidamente e recuou um passo, limpando as lágrimas para esconder o choro.

— Se afaste — respondeu secamente, sem conseguir disfarçar a voz embargada.

Tentou passar por ele para seguir seu caminho, mas logo sentiu o pulso ser segurado.

— Por favor… me solte… — pediu, mantendo o rosto para frente.

— Eu não posso deixar uma linda garota como você andar por aí sozinha enquanto chora.

— Eu estou bem…

— Por acaso está indo para a casa do Saketsu agora? — perguntou direto.

— Não… eu… eu briguei com ele… — Lana respondeu, desviando o olhar.

— Nossa, jura? Que chato.

Ele tentou parecer empático, mas Lana percebeu que, no fundo, havia gostado do que tinha ouvido.

— E vai para onde agora? Se me permitir saber.

— Eu…

Ela queria responder, mas não era nem capaz de inventar um lugar para onde pudesse ir. No momento, só queria se livrar dele — afinal, sabia quem ele realmente era.

— Bom… sei que possivelmente você não gosta de mim. Acho que Saketsu deve ter feito minha caveira. Mas, se quiser, podemos dar uma volta juntos para nos conhecermos. Não estou te obrigando — reforçou apressado, soltando seu pulso e demonstrando não ter intenções ocultas.

Lana pensou por um momento.

Dracarys não parecia ser uma pessoa tão ruim. Pelo contrário: sempre o vira sendo gentil com as garotas na escola, e nunca havia feito nada diretamente contra ela. Não possuía motivo real para odiá-lo, então por que estava o evitando?

— Tudo bem — aceitou.

Dracarys sorriu satisfeito.

— Agora desamarra essa cara linda.

Ele passou o dedo limpando o resto de lágrima dos olhos dela, a fazendo soltar um sorriso.

────────⊹⊱💀⊰⊹──────── 

Sentados em um banco de uma praça movimentada, Lana contou o que havia acontecido em sua casa, e Dracarys expressou seus pêsames, demonstrando choque tanto quanto ela. Ele ofereceu o ombro para que ela chorasse e, no fim, conseguiu acalmá-la.

Minutos depois, Lana, ainda no banco, beliscando um algodão doce enquanto observava distraidamente algumas crianças brincando sob a vigilância dos pais, percebia Dracarys voltando após ter saído por um momento.

— Pronto, liguei para a polícia. Eles disseram que irão averiguar a situação em sua casa — disse, sentando-se ao lado dela. Olhando-a com atenção, perguntou: — Você está melhor?

— Estou — respondeu, devolvendo o olhar e forçando um sorriso, porém era claro que estava mentindo.

— Se quiser, você pode dormir em minha casa esta noite — convidou após alguns instantes, enquanto observavam as pessoas passando pela praça.

Lana não respondeu.

Sem conseguir mais conter, lágrimas começaram a escorrer novamente de seus olhos.

— Por que essas coisas acontecem comigo? — perguntou com a cabeça baixa.

— A vida é cruel para algumas pessoas — disse Dracarys, pegando uma das mãos de Lana com as duas para acariciá-la lentamente. — Eu acho que a humanidade é como dois lados de uma moeda: algumas pessoas nascem para serem felizes e outras, para serem tristes.

Lana levantou o olhar para ele.

— Mas por que comigo? Por que, entre tantas pessoas felizes à minha volta, eu tenho que ser a única que a vida tenta prejudicar?

— Eu não acho que seja bem assim. Na verdade, a vida é feita de momentos bons e ruins. Mesmo que sua vida pareça ser só de momentos ruins agora, há os bons também, além de que é possível sempre transformá-los.

— Mas como eu poderia fazer isso?

— Não é uma coisa fácil… mas uma forma de lidar com a parte ruim seria deixar um pouco da sua humanidade de lado e viver pelo prazer. Algumas pessoas acham que a felicidade só está nas coisas que a “sociedade julga como boas”, e eu acho isso muita ingenuidade. Não. Eu vejo isso mais como uma barreira. O importante é você gostar do que faz, ter liberdade para viver como quiser, tacar o verdadeiro “dane-se”, sabe? A verdadeira felicidade está nisso.

— Hum… — Lana parecia confusa.

— Resumindo: você precisa se apegar a coisas diferentes. Experimentar coisas novas. Coisas que antes você julgava sem ao menos conhecer. Mudar sua essência, até encontrar o que te equilibra, o que realmente te faz feliz. Seu erro foi querer ser feliz com as mesmas coisas que fazem as outras pessoas felizes.

— Eu nem sei o que poderia fazer para tentar descobrir uma nova felicidade…

Dracarys aproximou o rosto sutilmente do dela, e, em um tom mais baixo e intenso, respondeu:

— Bom… eu tenho uma sugestão. Que tal você começar deixando sua razão atual um pouco de lado? Eu posso te ajudar com isso… — Levou calmamente a mão até o queixo dela, aproximando ainda mais seus rostos. — Eu só preciso saber se você quer ou não.

Lana olhava-o nos olhos, reflexiva e levemente corada.

Poder se livrar de tudo e ter uma chance de recomeçar, desta vez com coisas diferentes? Na situação em que estava, parecia uma oferta impossível de recusar. Não demorou para se decidir.

— Eu quero.

Dracarys então se aproximou para beijá-la, e Lana se entregou, fechando os olhos ao sentir seus lábios sendo tocados pelos dele.

Não demorou para perceber um efeito estranho e ao mesmo tempo confortante preencher todo o seu corpo. Era como uma energia que extinguia as sensações de aflição que habitavam ali dentro. Começava a se sentir bem, empoderada, plena… excitada.

Essas sensações a fizeram se entregar de corpo e alma.

A partir dali, não existiam mais preocupações. Nada mais importava. E mesmo que surgisse algum obstáculo, pareceria insignificante diante da nova percepção que estava tendo de si mesma.

A sensação era tão prazerosa que se deixou ser guiada por ela sem culpa ou julgamento, tanto que, minutos depois, já estava caindo na cama com Dracarys em um quarto de motel próximo.

Eles se agarravam de forma intensa, tirando a roupa um do outro em meio aos beijos.

Deitados, Lana logo parou por cima dele, extasiada.

— Eu nunca… me senti tão bem.

— Isso é só a porta de entrada — Dracarys sorriu com malícia.

E voltaram a se beijar.

Finalmente Lana estava vivenciando algo que sempre buscou, mesmo que antes não conseguisse definir exatamente o que era.

Saketsu, Iuri… amizade, amor e coisas do tipo? A Lana que valorizava tuda essa idiotice havia desaparecido.

Só o que importava no momento era usufruir da sensação tão intensa.

Seu corpo agora pertencia a um homem lindo e desejável que estava transformando a noite em algo inesquecível.

Apostava que várias garotas fariam de tudo para estar no lugar dela. Talvez até morressem de inveja se os vissem juntos.

Mas o que estava pensando? Ainda haveria muito tempo para mostrar às pessoas o quanto havia mudado. Agora não queria pensar em ninguém além de Dracarys, que havia mostrado o caminho da verdadeira felicidade.

Iria compensá-lo, começando por fazer a noite valer a pena.

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