Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 28: Fantasma sombria contra o vingador

Dalton já estava prestes a apertar o dedo no gatilho. Saketsu olhou disfarçadamente para uma das mãos erguidas à altura da cabeça e deslizou o dedo pela tela do celular, atendendo à chamada que estava recebendo.

— E aí, cara, que foi? Tem um monte de ligação sua aqui — disse a voz de Tales. — Sake? Tá aí, cara? Oh...

Saketsu não dizia nada. Apenas fechou os olhos e respirou fundo, esperando o inevitável.

Então houve um forte som estridente.

Quando Saketsu abriu os olhos, viu Ukyi com um dos braços transformados se forçando contra o que antes era um rifle, agora um escudo sustentado por Dalton.

— És isto. Esta arma és uma arma sobrenatural — afirmou Ukyi.

— Correto. Eu a chamo de Metalmorfose. É capaz de assumir qualquer forma, e foi algo me dado por Deus.

A coisa assumiu um estado gelatinoso metálico e se tornou uma lâmina, o que permitiu a Dalton realizar um movimento que forçou Ukyi a recuar para perto de Saketsu, evitando o golpe. Em seguida, fez a arma retornar à forma de rifle novamente.

— Saketsu, eu irei segurá-lo. Fujas. Sobreviva a qualquer custo — ordenou Ukyi.

— Eu não posso…

Ukyi não compreendeu.

— Meu destino é morrer. Uma bruxa me contou isso. Meu fim está próximo.

— E tu irás te entregar sem nem resistir? Não sejas tolo.

As palavras fizeram Saketsu refletir.

— É… eu não posso partir. Não ainda. Dracarys ainda está solto por aí. Tenho que resistir o máximo que eu puder até acabar com ele, enquanto ainda tenho chance. E, se você ficar no meu caminho, irei te matar também! — o garoto ameaçou Dalton.

— Eu já disse para tu fugir. Comparando o nível de vocês dois, consigo ver claramente quem venceria. Fugir é a opção mais viável para ti.

— Mas como vou fazer isso? Mesmo que eu consiga, tem um monte de policiais atrás de mim. Eu não vou chegar tão longe.

— Sem fazer nada é que de fato não vais conseguir. Pule para os outros prédios e continue avançando até onde puder.

Saketsu suspirou.

— Certo, mas, cara… como eu vou pular daqui com este corpo?

Saketsu olhava e via que só havia um prédio mais próximo, e a distância deste para o outro era de pelo menos sete metros. Não daria — pelo menos não sem estar em seu modo glasbhuk.

— Já acabaram a conversa? Minha arma está apontada para você. Se mover mais um passo, eu atiro. E eu não costumo errar — ameaçou Dalton. — Desista.

Saketsu olhou-o e, quando menos esperou, sentiu um forte impacto contra o próprio corpo no mesmo instante em que viu o disparo vindo, sendo empurrado em direção ao outro prédio, onde rolou e rapidamente se levantou, dolorido.

Ao olhar para onde estava antes, percebia que Ukyi é quem o empurrara. Ele estava parado, com o braço ainda transformado em lâmina — só que havia algo diferente desta vez: grande parte dela estava trincada, depois de defender o tiro.

Era claro que aquela arma de Dalton disparava tiros muito mais intensos do que o normal, ainda mais se tratando de algo sobrenatural. E era claro também que Ukyi não conseguiria defender mais nada daquilo.

— Que estás fazendo, Saketsu? Vás — ordenou o felino, mantendo sua neutralidade. Mas, pela primeira vez, Saketsu percebeu que ele estava sofrendo um pouco.

Ukyi avançou com uma sequência de cortes, e Dalton se ocupou em desviar. Era a oportunidade perfeita para Saketsu fugir — e assim o fez.

Não queria deixar o companheiro. Mas, se foi o próprio Ukyi que sugeriu, apenas confiaria. Nunca teve motivos para não fazer isso. Sabia que tudo ficaria bem. Ukyi sempre ficava bem. Quantas vezes isso não aconteceu?

Dando o máximo de si para seguir, enquanto ouvia repetidas batidas de lâminas às suas costas, Saketsu começou a pular por cima dos prédios. Cada salto era um verdadeiro desafio, chegando a cair, rolar e até ralar algumas partes do corpo. Tinha que continuar.

— O que está havendo aí, Saketsu?! — perguntou Tales pelo telefone.

Havia se esquecido de que ainda estava em chamada com ele, que pelo jeito tinha ouvido tudo até ali.

Saketsu parou para falar.

— Tales… por favor, avise alguém que estou em apuros. Eu estou a ponto de morrer, cara…

— Como assim?

Abafados pela distância, os sons das lâminas se enfrentando ainda continuavam. Quando tudo cessou, Saketsu se virou para olhar, porém não conseguiu ver nada, já que a parte do prédio onde a luta ocorria estava fora do seu campo de visão.

Quando ia se perguntar quem havia vencido, a resposta surgiu.

A uns quarenta metros de distância, Dalton apontava seu rifle para o garoto.

Antes que pudesse pensar em reagir, Saketsu recebeu um tiro bem no lado esquerdo do ombro, arrancando fora o braço, o mesmo que segurava o celular, que caiu rolando pelo chão.

Saketsu colocou a outra mão sobre o ferimento, mas não era o suficiente para fazer o sangramento parar.

Era uma dor aguda e insuportável, como se queimasse por dentro.

Enquanto recuava cambaleando, não tirava os olhos de Dalton, que permanecia no mesmo lugar, com seu semblante frio de sempre, mantendo a arma apontada.

A visão começava a turvar. O foco lutava para tentar fugir, e sua força parecia se esvair rapidamente.

Só conseguia ver a silhueta embaçada do homem e de sua arma.

Não podia morrer ali. Não depois de ter chegado tão longe. Não depois de Ukyi ter dado tudo de si para protegê-lo.

Então percebeu outro disparo o atingindo novamente, notando no instante seguinte que havia acertado seu outro ombro, levando embora o outro braço.

A dor passou a não fazer tanta diferença. Só o medo ainda permanecia. Era assustador se ver naquele estado — mas até isso começou a se tornar cada vez mais indiferente.

— Droga… a única coisa que… eu quis… foi… viver… uma vida normal. Queria ser como os outros… mas… nunca adiantou…

Ele vomitou uma grande quantidade de sangue e o fôlego começou a ir embora.

— Nunca adiantou… foi só esforço jogado fora…

Ao dar vários passos para trás, finalmente parou, de alguma forma sabendo que estava bem na beirada. Bastaria apenas mais um passo para cair prédio abaixo, de uma altura que com certeza resultaria em morte.

— O céu é tão… bonito — vislumbrou com um sorriso bobo enquanto olhava para cima, vendo o fraco laranja contrastando com a escuridão.

Naquele momento, parecia que uma parte contemplativa havia despertado em si, reparando em coisas às quais nunca antes dera a mínima importância.

Então percebeu mais um tiro. E outro. E outro. E outro. E outro.

Um abriu um buraco grande em sua coxa. Três atingiram seu tronco. Um arrancou um pedaço do canto de sua cabeça, fazendo-o por fim cair para trás.

“Nunca adiantou eu negar minha realidade…”

“Eu queria ter tido uma vida normal como os outros… Mas agora entendo que todo mundo é diferente…”

“Eu devia ter aceitado primeiro todas as circunstâncias da minha vida antes de tentar construir uma nova…”

“Eu devia ter feito o que pudesse com aquilo que a vida fez de mim…”

“Eu devia ter abraçado quem eu sou… Eu devia ter tomado o meu poder…”

“Eu devia ter me aceitado…”

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

A arma de Dalton desfez sua forma de maneira gelatinosa, entrando para dentro de seu terno, quando ele pisou no terraço onde Saketsu estava antes, caminhando até a beirada de onde ele havia acabado de despencar.

Finalmente havia conseguido dar fim no glasbhuk, mas isso não o fazia esboçar nem uma pequena satisfação. Pelo contrário. Mas a escolha foi dele. No final das contas, nunca poderia contar com um glasbhuk. Todos são iguais, e merecem ser exterminados.

Dalton não se arrependia de nada.

Quando chegou à beirada para verificar o corpo do garoto, que com certeza estaria esmagado no chão, foi recebido, porém, por algo inesperado, que o lançou para trás.

Foi uma ação tão rápida que, quando percebeu, estava sob uma criatura obscura, que o prensava no chão com uma das mãos, enquanto a outra permanecia erguida, ambas possuindo enormes garras negras prontas para dilacerar.

Os olhos vermelhos e diabólicos do ser contrastavam sob o céu, e sua pele escura era preenchida por uma aura maligna.

Aquilo uma vez já havia sido humano. Dalton o conhecia como Saketsu Sura.

Mas agora estava com um par de chifres negros e um corpo mais robusto. Uma verdadeira besta demoníaca no corpo de um garoto, rangendo os dentes com fúria.

— Me perguntava quando veria sua verdadeira forma. E aí está — disse Dalton, sem se deixar abalar.

Saketsu — ou melhor, o glasbhuk — não estava para conversas. Já avançou com a garra com ferocidade contra Dalton, que saiu ileso por pouco graças à sua Metalmorfose surgida através de seu braço livre, se tornando uma espécie de escudo.

Dalton fez um movimento ágil e chutou o glasbhuk de cima de si.

Quando se colocou de pé, viu o glasbhuk voltando para atacá-lo.

A Metalmorfose começou a se modificar novamente e se dividiu, tornando-se duas lâminas longas presas sobre os pulsos de Dalton, que avançou com elas.

Os dois se moviam de forma surpreendente. A agilidade de ambos batia de frente. A diferença era que Dalton era calculista — atacava pensando na reação seguinte — enquanto o glasbhuk não se importava em se defender, seus pensamentos pareciam reduzidos ao puro instinto descontrolado de matar, matar e matar.

Os movimentos improvisados do ser começaram a se tornar um problema para Dalton.

Ele recuou alguns metros e, da superfície da lâmina sobre seu pulso, surgiram dois canos, que foram mirados e começaram a disparar.

Seus tiros não eram problema para o glasbhuk, que se movia de forma mais rápida e animalesca, desviando de um lado para o outro enquanto se aproximava.

Quando estava perto o bastante, com sua garra feroz somada à força bruta, desceu um ataque poderoso que, além de cortar, fez com que Dalton fosse arrastado até a beirada do prédio, não caindo por muito pouco ao conseguir firmar os pés a tempo.

O arranhão feito pelas garras pegou da testa até um pouco abaixo do peito, rasgando sua roupa e quebrando seus óculos escuros, deixando à mostra seus olhos amarelados submetidos à dor do ferimento.

Não houve sequer tempo para pensar no próximo passo. O glasbhuk já estava próximo o bastante, prestes a aplicar um ataque feroz incapaz de ser defendido até mesmo por sua Metalmorfose.

Mesmo assim, Dalton fez o que pôde e ergueu os braços à frente do corpo, recebendo outro golpe de garras como o anterior — mas desta vez não só um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Onze. Doze…

Os incontáveis arranhões consecutivos o ergueram do chão e, por fim, o lançaram para fora do prédio, com a frente de seu corpo agora completamente retalhada.

Em meio à queda que resultaria em seu fim, pela primeira vez depois de muito tempo, lágrimas escorriam pelo seu rosto — mas não eram pelo sofrimento dos danos.

“Desculpe, Isabel… Natália…"

Dalton fechou os olhos, se rendendo ao seu destino.

"Não conseguirei continuar cumprindo a promessa de proteger o mundo…”

O corpo acabou caindo sem vida ao lado do de Saketsu, ambos dilacerados um pelo outro.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Ukyi, fraco e todo atrofiado após ser derrotado por Dalton, havia acompanhado o final da luta do alto de outro prédio distante.

Seus olhos se moldaram em surpresa ao perceber que a presença terrível do glasbhuk era a mesma daquele dia da cabana.

Podia afirmar que aquele ser trevoso que agora havia parado e se acalmado em cima do prédio não era Saketsu — ou, de certa forma, havia deixado de ser.

Não entendia direito o que estava acontecendo.

O glasbhuk acabou caindo de joelhos depois de parecer perder as forças, com seu corpo esfumaçando, como se a energia trevosa estivesse o abandonando, abrindo cada vez mais espaço para os mesmos ferimentos causados por Dalton no outro Saketsu que estava lá embaixo.

Se o glasbhuk tem seu verdadeiro corpo morto enquanto está fora dele, ambos morrem.

Ukyi sabia que, se este Saketsu diante de seus olhos ainda existia, era porque o verdadeiro corpo, mesmo naquela circunstância lá embaixo, de alguma forma ainda estava vivo — e ainda teria a chance de ser regenerado caso a alma tivesse energia vital suficiente, do mesmo modo que aconteceu quando Saketsu teve seus ferimentos revertidos ao ser estraçalhado pelo caipira naquela cabana.

O Saketsu que estava sobre o prédio — no caso, o que seria sua alma — desabou totalmente de bruços no chão e começou a ficar transparente, não demorando para desaparecer por completo.

Ukyi, com dificuldade, saltou até esse mesmo prédio e se aproximou da beirada, olhando os corpos lá embaixo, que já estavam recebendo atenção de paramédicos, policiais e de várias outras pessoas.

O corpo de Saketsu ainda permanecia ali, todo ferido, algo horrendo de se ver, e parecia que não iria acordar nunca mais.

Era isso.

A energia vital de seu outro corpo — o da alma — não havia sido suficiente para curar seu corpo humano. Sendo assim, definitivamente, Saketsu havia morrido.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora