Volume 1
Capítulo 27: Um passado que formou um vingador
Com seus habituais óculos escuros refletindo a claridade do sol que se punha às costas do garoto, apontando para ele um tipo de rifle de metal fosco de grande calibre, Dalton se aproximava sem pressa.
Saketsu recuava o quanto podia, até sentir sua perna bater na mureta atrás de si. Estava cercado.
Perplexo, tentou olhar para todos os lados, buscando alguma possível escapatória. Não havia nada que pudesse ajudá-lo. Até mesmo Ukyi havia desaparecido, de novo.
Dalton parou a três metros, o braço esticado, com a arma apontada diretamente para a cabeça do garoto.
— Esta é a última chance, Saketsu Sura. Una-se a mim ou morra de uma vez. Como vai ser?
Essa questão nem precisava ter sido levantada novamente, Saketsu já havia decidido muito bem o que queria.
Era visível que Dalton tinha um tremendo ódio por glasbhuks, então por que queria Saketsu ao seu lado?
Afinal de contas, por que Dalton carregava todo esse rancor?
A resposta estava sendo relembrada por ele.
Há quase cinco anos, Dalton passava um final de semana de folga em uma casa de campo, junto de sua mulher e filha. A noite calorosa havia sido muito agradável: divertiram-se, contaram histórias, jantaram e, por fim, terminaram comendo um mousse de sobremesa sentados em um sofá diante da lareira.
Naquela época Dalton não usava óculos escuros, e isso deixava à mostra a expressão leve e agradável de seus olhos, acompanhados de um sorriso tranquilo.
— Esta noite está sendo perfeita — disse a mulher, abraçada por ele enquanto a filha já dormia, cansada, com a cabeça em seu colo. — Pena que seu trabalho só permite que façamos isso raramente.
— Mas, Isabel, as coisas não são mais especiais quando acontecem em momentos raros? — olhou-a com carinho.
— É verdade. Quando algo é raro, tem mais valor. De certo modo, acabamos aproveitando mais.
— Sim. Devemos aproveitar… esquecer a vida na cidade, esquecer que depois de amanhã você e eu temos que ir trabalhar e nossa filha voltar para a escola.
— Sorte que ela está dormindo, não ficaria nada feliz de ouvir isso.
O casal riu.
Dalton abraçou a esposa com mais força e acariciou a cabeça da filha.
Minutos se passaram. A conversa dos dois foi ficando cada vez mais pausada conforme o sono chegava e, quando menos perceberam, restava apenas o som da crepitação da lareira.
Dalton era o único que não havia dormido. Seu olhar reflexivo encarava as chamas. Apesar de tudo, não conseguia deixar de pensar em alguns problemas cotidianos — afinal, ser adulto é isso: uma vida cheia de pendências que, não importa o quanto tente evitar ou esquecer, sempre acabam roubando os pensamentos quando menos se espera.
Momentos depois, Dalton estava no banheiro, acabado de se aliviar da bebida. Lavava as mãos diante da pia enquanto encarava seu reflexo no espelho, parando no mesmo instante ao ouvir gritos.
Eram sua esposa e filha.
Desesperado, saiu às pressas para ver o que havia acontecido.
Quando chegou à pequena sala, viu algo que o fez paralisar em choque. Suas pernas tremeram.
Não estava acreditando.
Não podia ser.
Por quê?
Por que sua mulher e filha estavam estiradas no chão, encharcando o piso de madeira com o sangue que escorria de seus corpos retalhados?
Havia um ser obscuro próximo a elas, de costas. Era possível ver que tinha garras animalescas. Ao perceber a presença de Dalton, virou o rosto e revelou seus brilhantes e demoníacos olhos vermelhos.
Tomado por uma fúria tremenda, Dalton moveu-se rápido até o outro lado da sala, aproximou-se do cabide e, do bolso interno do casaco pendurado, retirou um revólver. Apontou para o ser, que avançou sem hesitar em sua direção.
Ocorreram três disparos.
Pareceu ter ferido a criatura, que parou por um instante. No entanto, logo se recobrou e avançou com ainda mais intensidade.
Quando estava perto o bastante, Dalton deu um passo à frente e, ao mesmo tempo, encostou o cano do revólver bem na testa do ser.
Disparou.
O tiro foi certeiro, fazendo a criatura cair dura no chão no instante seguinte.
Dalton permaneceu parado, respirando com dificuldade, a visão fixa no corpo à sua frente, tentando digerir o que havia acabado de acontecer.
Depois de reunir coragem, voltou-se para sua mulher e sua filha — ou para o que restava delas.
Seu corpo começou a tremer.
Ainda não acreditava.
Aproximou-se lentamente e caiu de joelhos diante das duas.
Tocou no corpo da filhinha, não havendo mais pulsação alguma. O único sangue que circulava era o que vazava para fora de seu corpo.
Olhou para a esposa. Seus olhos estavam abertos, completamente sem vida. Grandes cortes marcavam a parte frontal de seu corpo, causados pelas garras daquela criatura desgraçada.
Dalton puxou os corpos das duas para si em um abraço, as lágrimas começando a escorrer, cada vez mais, até fazê-lo soluçar.
Nunca havia chorado tanto na vida, e jamais imaginou que, se um dia isso acontecesse, seria pela razão de sua única família ter sido assassinada.
Remoído por uma dor profunda na alma, Dalton voltou o olhar para o ser que jazia após o tiro bem dado no meio da testa e, ao observar melhor, percebeu: não era apenas um monstro, era um homem, um humano com garras e chifres negros, de olhos totalmente vermelhos.
Ambulâncias e policiais chegaram quase uma hora depois, acionados pelo próprio Dalton. Ele foi encaminhado para fora do local e recebeu todo o apoio necessário, sendo acompanhado até retornar para sua casa na cidade.
Já tarde da madrugada no final daquele mesmo dia, havia bebido tanto para afogar as mágoas que quase perdera totalmente a consciência de si. Ainda assim, não conseguia tirar da cabeça o que havia acontecido.
Sentado em sua cama na escuridão do quarto, deixou a garrafa de whisky cair no chão ao se debruçar para chorar.
Não se conformava. O que era aquela coisa que havia invadido sua casa? Por que ela cometera algo tão cruel como matar duas mulheres indefesas?
Seus pensamentos pararam ao perceber uma presença repentina sentando-se ao seu lado.
Era algo obscuro, trajado com uma capa e um capuz negros. Seu rosto era assustador: um completo esqueleto dourado, com um invertido crucifixo de prata encravado bem no meio da testa.
Para ele, era a própria Morte.
— Veio me levar também? — questionou, sem se importar com mais nada.
— Não — respondeu a entidade, com sua voz máscula e imponente, soando como um eco. — Vim para dar-lhe um amparo.
— Quer me ajudar? Traga as duas de volta.
— Eu não sou capaz de dar a vida de volta a alguém, eu apenas a retiro. Contudo, posso ajudá-lo dando-lhe algo: o poder para se vingar.
— Me vingar? Eu já acabei com o demônio que fez aquilo com elas.
— Ele não era único. Há outros como ele espalhados por aí, escondidos na sociedade, apenas esperando o momento para atacar. São chamados de “glasbhuks”.
— Você está falando sério? Então o sobrenatural existe?
— Você está falando comigo, e também viu, diante de seus próprios olhos, o que levou sua mulher e filha.
Dalton voltou a olhar para frente, sentindo a dor de reviver todo aquele momento.
— Vou deixar um presente para você. Use-o para vingar seus entes… e para evitar futuras vítimas dos outros como aquele que existem lá fora.
Quando Dalton se deu conta, o ser já havia desaparecido. Porém, no lugar dele, sobre a cama, havia ficado uma pequena e misteriosa caixa preta. A pegou, a abriu e, absorto, não compreendeu o que era aquela barra retangular de metal fosco.
Três dias depois, um velório para mãe e filha foi preparado. Enquanto a terra era jogada sobre os caixões, Dalton apenas observava aquilo com um olhar vazio, sem chorar, não porque não quisesse, mas porque já não havia mais lágrimas.
Parte de si ainda não aceitava que elas haviam partido. Ainda assim, era fato. Era a realidade. E ele não havia conseguido fazer nada para salvá-las.
Mas havia algo que poderia fazer dali em diante: caçar todos os tais glasbhuks. Por elas.
Quando colocou os óculos escuros para esconder os olhos carregados de mágoa e rancor, percebeu um amigo se aproximando, acompanhado de uma jovem moça de cabelo branco descolorido, sua filha.
— Dalton — cumprimentou.
— Wilson — retribuiu de forma totalmente fria.
A jovem o abraçou, compadecendo:
— Sinto muito pelo que aconteceu com Isabel e Nat.
— Obrigado, Cari — respondeu, sem esboçar a mínima emoção.
— Posso imaginar como é… — disse Wilson. Também perdi minha esposa e mãe na mesma semana. Vai ser difícil, mas você vai conseguir superar. Estou aqui para o que precisar.
Wilson apertava com as duas mãos a de Dalton.
— Obrigado.
Pai e filha sorriram gentilmente antes de passar por ele, tocando de leve em seu ombro.
Dalton continuou andando e parou, pensativo, olhando para uma floresta distante.
Logo percebeu seu chefe de departamento parar ao seu lado, passando a observar a mesma direção.
— Dia difícil, né?
Dalton não respondeu.
O chefe tirou um maço de cigarros do terno, pegou um e o colocou na boca para acender.
— Não vai me oferecer? — perguntou Dalton.
O chefe parou, meio surpreso.
— Sério? Mas você sempre recusou.
Mesmo assim sorriu, entregou um para Dalton e o acendeu com o isqueiro.
— Vou estender suas férias por mais um mês, para você esfriar a cabeça. E, se precisar de algo, pode contar comigo.
— Na verdade tem uma coisa.
O chefe o olhou.
— Quero que você me troque de departamento. Me coloque no setor de investigação criminal.
— E a advocacia?
— Não faz mais sentido para mim.
O chefe ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
— Tudo bem então. A partir de hoje, considere-se um investigador criminal. Conto com você, agente.
Dalton não tinha decidido entrar nessa área por capricho. Queria utilizar de sua função para acompanhar de perto possíveis suspeitos de serem glasbhuks e caçá-los. Queria encontrá-los antes que matassem alguém, e faria isso com o presente deixado pelo próprio Deus da Morte — um metal de composição estranha, que ao interagir com ele, descobriu ser capaz de assumir qualquer forma, como uma arma perfeita para assassinar.
Os anos foram se passando. Dalton conseguiu caçar vários glasbhuks. Encontrou alguns que não possuíam as mesmas características sobrenaturais obscuras, manifestando outro tipo de poder, mas não quis saber, eliminou todos, sem hesitar.
Talvez por acaso — ou destino — acabou encontrando uma organização oculta que lidava com casos sobrenaturais. Fez parte dela por um tempo, conseguindo conciliar isso com o serviço policial enquanto seguia cumprindo seu principal objetivo.
Foi um caminho árduo, cheio de investigações, batalhas, assassinatos. Sua vida passou a se resumir puramente a isso.
Não muito distante do dia atual, enquanto estava em seu escritório, com as luzes apagadas e pesquisando algo diante do computador, Dalton recebeu uma visita inesperada, a presença surgindo ali do nada.
Ele sacou imediatamente a arma da cintura e se virou para mirar.
Era Morte.
— Há quanto tempo, Dalton — disse a entidade.
Dalton guardou a arma ao saber que ele não representava ameaça.
— Eu vim aqui parabenizá-lo. Você tem feito um ótimo trabalho como “caçador”. E também vim apresentar o caso de mais um glasbhuk.
Morte retirou um envelope da manga longa e o entregou.
— Este é mais interessante.
— Saketsu Sura. Quinze anos. Estudante — Dalton conferia a folha tirada do envelope.
— São poucas informações, mas são suficientes. Para mais detalhes, prefiro que fale diretamente com um professor chamado Noah Azrael. O contato dele está aí também.
— Certo. Mas por que este caso é mais interessante?
— Saketsu é diferente dos outros. E pode ser útil para você.
Dalton se surpreendeu. Um glasbhuk servindo para ele? Não compreendeu como isso seria possível, mas não questionou, apenas guardou as palavras.
Quando conheceu Saketsu, percebeu que ele realmente era diferente, não por ser o primeiro glasbhuk daquela faixa de idade, mas por ter sido demonizado desde pequeno e ainda assim parecer ter conquistado certo domínio sobre sua própria natureza, conseguindo conviver entre pessoas normalmente.
Dalton sabia do que alguém esculpido desde jovem era capaz, sabia o potencial que poderia despertar, sabia o quanto isso poderia ser usado pelo bem da humanidade. Era uma oportunidade.
No entanto, percebeu que estava errado. Foi apenas questão de tempo até que Saketsu finalmente manifestasse seu verdadeiro eu, a verdadeira natureza de um glasbhuk, depois de ter matado o homem na cadeira no porão de sua casa, os quatro marginais e, possivelmente, a garota chama Aine. Talvez houvesse até outras vítimas.
No fim, todos os glasbhuks são iguais — sanguinários, maléficos.
Mesmo assim, continuava deixando aberta a possibilidade de uma parceria. Sabia que poderia atuar bem ao lado de Saketsu se ele colaborasse. Por outro lado, poderia matá-lo sem problema algum, tudo dependeria apenas da escolha dele.
— Eu já disse. Não vou me juntar a um merda como você. Prefiro morrer! — o garoto respondeu de modo desafiador, esperando apenas o momento que sabia que estava prestes a acontecer.
— Tudo bem.
Dalton pressionava o dedo contra o gatilho do rifle.
— Você escolheu sua morte, Saketsu Sura.
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