Volume 1
Capítulo 26: Caçada mortal
Dalton destravou a arma, prestes a atirar. Saketsu fechou os olhos, sentindo o próprio suor frio escorrer pelo rosto. Seria o fim. Já estava tudo escuro; tudo se silenciaria de vez quando ouvisse um último e forte estouro.
Boom!
O som veio às suas costas. Assustado, Saketsu virou-se para ver o que havia acontecido.
A claridade de fora agora penetrava na sala através da porta partida ao meio, e, ao centro da passagem, havia uma figura escura e peluda, de porte médio, cujos olhos eram completamente vermelhos. Era Ukyi, com o braço esquerdo transformado em lâmina.
Saketsu nunca se sentiu tão contente por vê-lo.
Ukyi avançou rápido, passou por Saketsu e defendeu, ainda no ar, dois tiros disparados por Dalton, fazendo as balas ricochetearem ao baterem na lâmina.
— Saketsu, fuja daqui — ordenou Ukyi após voltar para trás do garoto e cortar sua algema.
Ele assentiu e saiu depressa para fora da sala, escutando outro tiro sendo defendido por Ukyi quando virava a passagem.
Correndo, logo percebeu Ukyi em seu encalço. Então ouviu Dalton e, por cima do ombro, o viu ordenar:
— Cerquem as saídas. E vocês, me ajudem a pegá-lo. Quero que o capturem, nem que seja morto.
— Droga, Ukyi, o que a gente faz? — indagou Saketsu, seguindo às pressas e sem rumo, passando por algumas pessoas que ainda nem sabiam o que estava acontecendo.
Logo à frente, notou agentes cercando o caminho.
— Por aqui — chamou Ukyi, virando-se em direção a uma escadaria com três curvas.
No topo dela surgiram mais agentes, todos com um revólver apontado.
Ukyi partiu contra eles, fazendo movimentos rápidos com os dois braços transformados, e passou por entre eles enquanto jorravam sangue através dos cortes profundos abertos pelo ataque, alguns capotando degraus abaixo.
Passando pelos corpos caídos dos agentes, Saketsu viu que havia outros no corredor, mas Ukyi, invisível aos olhos deles, já se adiantava, atacando-os sem hesitar.
Com o caminho livre, só restavam os do andar de baixo, que começavam a subir às pressas.
Saketsu acabou pegando um revólver e alguns cartuchos de munição do chão enquanto seguia Ukyi.
Quando subiram outra escadaria e viraram por um corredor vazio, acabaram parando bem no meio do caminho, pois, pelos sons, perceberam que estavam prestes a ser cercados novamente.
Notando uma porta ao lado, Saketsu entrou nela sem hesitar, deparando-se com um escritório vazio.
Havia fechado a porta rapidamente e se afastava sem tirar os olhos dela, aflito, sem saber o que fazer.
Não demorou para ver no chão as sombras dos homens através da fresta da porta, que se abriu com violência quando houve a invasão deles, apontando suas armas para todos os cantos, tentando achar quem já não estava mais ali.
— Mas eu vi ele entrando aqui — testemunhou um dos agentes, sem entender o que havia acontecido.
Saketsu havia saído pela janela bem no momento em que eles entraram. Agora estava do lado de fora, andando de lado pelas bordas externas do prédio, passo a passo, com as costas bem grudadas na parede. Havia acabado de virar a curva quando percebeu alguns agentes olhando para fora da janela, tentando encontrá-lo.
— Essa foi por pouco — suspirou.
Estava branco como um fantasma, esforçando-se para não olhar para baixo, onde passavam carros que pareciam até miniaturas vistos dali. Se estivesse em sua forma glasbhuk, não se sentiria tão apreensivo ao passar por essa situação de cerca de quarenta metros de altura.
Enquanto isso, Ukyi, com seu pequeno corpo, andava mais à frente pelas mesmas beiradas, sem dificuldade, até alcançar outra janela, por onde entrou com Saketsu após confirmar que a sala estava vazia.
Mesmo abafado, dava para ouvir o alvoroço que ocorria pelo prédio, com alguns dos homens dizendo:
— Ele ainda está por aqui!
— Procurem-no!
— Chequem todas as salas!
— Eles não vão demorar para chegar aqui — disse Saketsu, exaurido.
Ukyi olhava fixamente para cima, para uma entrada de ar tapada por uma grade. Logo Saketsu entendeu qual era a ideia dele.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
— Se lutarmos, podemos ter chance contra eles — disse Ukyi, alguns instantes depois, andando à frente de Saketsu, que engatinhava pela estreita e escura passagem de ar.
— Sei que sim, e aqui seria um bom lugar para deixar meu corpo a salvo — respondeu. — Mas não quero ferir nem matar ninguém, a não ser Dalton.
Saketsu havia decidido isso depois de pensar bem. Tudo o que estava acontecendo ali era culpa de Dalton. Gente morrer só por seguir ordens dele? Será que a vida de Saketsu valia mais do que a dos agentes, que provavelmente eram pessoas boas, com família e amigos, e que escolheram seguir a profissão para ajudar a sociedade?
— E o que vai fazer?
— Bom...
Saketsu parou e, com dificuldade pela falta de espaço, levou a mão para trás para pegar o celular no bolso.
— Não tem muito o que fazer, a não ser ligar para alguém e tentar conseguir ajuda.
Depois de alguns minutos, chegaram a um lugar um pouco maior, uma instalação tão escura quanto a passagem de ar, onde pelo menos dava para ficar de pé e esticar o corpo.
Saketsu ainda tentava ligar para alguém, mas o telefone dos amigos com quem realmente poderia contar estava caindo na caixa-postal; pelo jeito, estavam na escola. Ligaria para a polícia caso não estivesse sendo perseguido por ela. Estava perdido. Não sabia o que fazer.
Rolava a lista de contatos até parar no de Lana.
Pensou em ligar para ela, mas sabia que daria em nada. Mesmo que estivesse viva, ela não estava mais nem aí para ele. Contudo, foi tarde demais quando percebeu ter apertado por acidente o botão de ligar e ficou em choque ao ver que estava chamando.
Cada toque o deixava mais ansioso, mas, como esperado, no fim ela não atendeu.
— Eh... é isso... — expressou, desanimado.
Porém não tinha escolha. Lana era a melhor pessoa que poderia ajudar. Tinha que tentar mais.
Então tornou a ligar. Ela simplesmente desligou no primeiro toque. Mesmo assim, não desistiu. Tentou de novo. E de novo.
Em torno de uma hora se passou. Lana não atendera; havia desligado o celular de vez, passando a cair apenas na caixa-postal. Saketsu estava sentado em um canto, desistido.
O espaço pequeno o fazia se sentir preso dentro de uma caixa. Havia vapor de ar e já estava ficando sufocante ali. Queria sair o mais rápido possível, no entanto sabia que qualquer direção o levaria a dar de cara com agentes armados, e não duvidava que, a qualquer momento, alguém chegaria ali depois de vasculhar o prédio inteiro.
Parado, sem fazer nada, uma questão logo passou pela sua cabeça: mesmo que conseguisse sair vivo desta situação, para onde iria depois? O que faria? Dalton tinha o poder judicial em suas mãos e vários homens capacitados para prender criminosos. Ele não deixaria a chance de capturar Saketsu passar. Jamais.
Diante disso, só conseguia pensar em duas opções: morrer sem matar ninguém ou matar para sobreviver.
Antes que pudesse decidir qual era a melhor, um ruído metálico surgiu por perto. Era uma porta que rangeu ao ser aberta com cautela, mostrando que finalmente alguém havia conseguido chegar até ali.
Saketsu permaneceu escondido em um canto escuro e isolado ao lado de uma escadaria metálica, reparando pela primeira vez na porta no topo dela.
Sondando através das ferragens, viu dois homens entrando acima, claramente dispostos a não ir embora antes de checar cada canto do lugar.
Passos começaram a ecoar nas placas metálicas da escada enquanto um deles descia e o outro permanecia parado à porta, atento a qualquer movimentação.
Saketsu olhou ao redor e percebeu que Ukyi não estava mais ali.
— Ele está aqui! — gritou o agente que descera e agora estava parado a uns dois metros diante do garoto, com o revólver apontado para ele.
O colega recebeu o aviso e gritou para os outros que estavam no corredor.
Impulsionado pelo apavoro, Saketsu avançou contra o homem, apontando de qualquer jeito o revólver que havia acabado de sacar da cintura, e apertou o gatilho.
O tiro atingiu o ombro do agente, que perdeu totalmente a posição de disparo. Quando tentou recobrar os movimentos, Ukyi apareceu novamente, lançando um corte profundo no ombro dele e o fazendo cair no chão, jorrando sangue.
Saketsu continuou avançando. Sua arma agora estava apontada para o outro homem acima.
Houve um, dois, três tiros.
O homem fugiu, sangrando.
Saketsu conseguiu sair ileso pela porta, acompanhado de Ukyi, mas não pôde parar para respirar. Dos dois lados vinham vários agentes armados; não havia chance de seguir adiante.
— Por aqui — Ukyi o chamou de volta para dentro.
Ao entrar, Saketsu fechou rápido a pesada porta de metal e se afastou alguns passos. Em meio ao lugar escuro, ouviu Ukyi subindo com o apoio dos canos na parede e, logo depois, o som de metais se chocando e arranhando.
— Rápido, ele está aqui! Provavelmente chegou pela passagem de ar! Se ele entrar de novo, vai ser difícil pegá-lo! — gritou um dos agentes do lado de fora.
A porta foi aberta com força.
Eles se depararam com o garoto saindo por um pequeno buraco feito no teto por Ukyi.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
— De novo… essa foi por pouco. Muito pouco — disse Saketsu, aliviado, enxugando o suor da testa com as costas da mão.
Ele e Ukyi acessaram outro corredor. Ali estava totalmente quieto e vazio, mas ainda não podiam relaxar, pois os agentes sabiam onde ele estava e seria apenas questão de segundos até chegarem.
Saketsu já nem sabia mais em qual andar do prédio estava. Mesmo assim continuaria avançando para cima com Ukyi, já que a calmaria aumentava conforme subiam.
Foram mais alguns lances de escada e, no final do último, ao abrir uma porta, depararam-se com a claridade do céu entardecido.
Haviam finalmente chegado à cobertura.
— Eu juro… se conseguirmos sair vivos dessa… eu… vou praticar muito exercício… — ofegava Saketsu, parado com as mãos nos joelhos.
Já era pôr do sol. Saketsu se surpreendia com a rapidez com que o tempo havia passado desde a manhã. Isso explicava o cansaço.
Mesmo que ainda não pudesse se considerar totalmente a salvo, pelo menos conseguia sentir finalmente o ar fresco.
Quando se sentou na mureta da beirada do prédio, reparou no horário do celular e notou que era exatamente o momento em que estaria saindo da escola junto com seus amigos — se não estivesse ali, sendo perseguido até a morte.
Imaginou o que Tales pensaria disso tudo. Acharia muito maneiro, apostava.
Saketsu suspirou. Seu olhar desceu até a rua e percebeu a altura em que estava: cerca de sessenta metros.
Era possível ver carros de polícia cercando todo o prédio. Estava completamente encurralado. Mas desistir não era uma opção. Aproveitando o breve momento de pausa, precisava pensar em alguma coisa.
Foi então que levou um pequeno susto ao notar algo pousando abruptamente ao seu lado. Era um urubu. A ave começou a encará-lo, curvando a cabeça com curiosidade.
Ao olhar mais acima no céu, percebeu vários outros voando em círculo.
Aquilo gerava uma impressão ruim. A última vez que vira um urubu fora na noite anterior, pouco antes de haver quatro mortes. Logo se lembrou dos sinais de que a bruxa falara — de que o tempo todo o Universo tentava expressar uma mensagem através deles — e o que Saketsu interpretava agora não era coisa boa.
Sabia que poderia morrer a qualquer momento. Era inevitável. Mas como aconteceria?
Pensando nisso, sobressaltou-se ao sentir o celular vibrar em sua mão. Checou a tela e viu que era Tales ligando.
Finalmente conseguiria falar com alguém depois de passar o dia inteiro tentando.
Quando foi atender, porém...
— Se levante e mantenha as mãos à altura da cabeça — ordenou uma voz fria, muito bem conhecida. — Fim da linha, Saketsu Sura.
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