Volume 1
Capítulo 25: Interrogatório fatal
De noite, na movimentada cidade vizinha de Veraluz, Dalton andava com seu semblante frio de sempre, olhando totalmente reto para frente. Mais adiante, percebeu que havia um homem caído no canto da calçada, clamando por ajuda, mas ninguém lhe dava a mínima atenção.
Ao se aproximar, tornou-se entendível o motivo de tanto desespero. O homem estava coberto de mordidas pelo corpo, sofrendo com dor intensa e incapaz de se mover.
Dalton se agachou perante ele, acendendo um cigarro na boca.
— Por favor, eu preciso de ajuda. Eu estava andando e aí… aí um monte de pessoas com olhos vermelhos apareceu e me atacou com mordidas. Eu tô já faz uma hora chamando por ajuda, mas ninguém me dá atenção, parece até que estou invisível! Você precisa me ajudar, por favor! Está doendo demais!
— Você é um glasbhuk?
— O quê? Cara, eu não sei o que está acontecendo, eu simplesmente saí do meu corpo, e aí um monte de gente que parecia canibal apareceu e fez isso comigo. Eu só estou vivo porque consegui fugir!
— Já falou o bastante.
Da manga do terno de Dalton, uma gosma fosca surgiu e se moldou em uma faca, que ele utilizou para esfaquear o homem bem na cabeça — um golpe direto e eficaz.
Dalton se levantou, ajeitou seu terno e continuou seguindo sua rota, enquanto o corpo morto atrás de si começava a se desprender em essências luminosas, que desapareciam lentamente no ar.
Ao seguir mais um pouco, seu celular tocou. Ele o tirou do bolso e atendeu.
— Dalton, aqui é da base de operações. Acabou de surgir um possível caso de sequestro de adolescente, e o mesmo suspeito está envolvido na morte de quatro jovens. Quero que vá investigar. Mandei o endereço e mais informações no inbox. Outros oficiais te aguardam no local.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Era por volta de dez horas da manhã quando Saketsu voltava a pé para casa depois de ter ido embora da casa de Carla, lembrando-se das coisas que aconteceram lá.
No começo, Carla parecia uma pessoa meio hostil e fria, mas depois da conversa ele pôde perceber que ela era interessante; entendia de espiritualidade e outras coisas místicas tanto quanto a sra. Gardênia — talvez até mais.
Após a conversa sobre o provável fim do mundo, Saketsu perguntou se ela era capaz de se conectar com o tal do “Além” para contatar alguém que já havia partido. A resposta foi afirmativa, embora ela tivesse dito que não era fácil, nem garantido, mas poderia tentar.
Saketsu queria saber o que havia acontecido com Lana e, mesmo depois de quase uma hora de concentração de Carla, não houve contato algum.
Por um lado, isso o deixava um pouco mais tranquilo, pois o fato de não ter conseguido contato significava que Lana provavelmente não havia morrido, como Dracarys dissera. Por outro, ela estava viva em algum lugar — e poderia não estar bem.
Essa preocupação fez com que Saketsu não conseguisse descansar no quarto que a bruxa havia preparado para ele. Preferia ter continuado se ocupando com as criaturas das trevas de Dracarys do que passar horas em claro com os pensamentos infernizando sua cabeça.
Havia sido uma noite realmente pesada: primeiro a morte de Aine, depois a frustração de não ter conseguido matar Dracarys, a incerteza sobre o que havia acontecido com Lana, e, como se não bastasse, ainda precisava sustentar a alta possibilidade de morrer a qualquer momento.
Finalmente estava chegando em casa. Ao abrir a porta, que havia deixado destrancada, entrou e a exaustão logo bateu, fazendo-o cair sentado no sofá. Contudo, não teve nem tempo de respirar quando três homens de terno preto surgiram da cozinha, sendo um deles um loiro de óculos escuros.
— Dalton — Saketsu se espantou.
Encarando o garoto, ele apenas disse:
— Tenha o favor de nos acompanhar, Saketsu Sura.
Saketsu havia se levantado. Sentiu o estômago pesar com uma sensação horrível. Parte de si planejava alguma forma de fugir, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento, um dos homens surgiu por trás dele e prendeu seus pulsos com algemas.
— Vamos levá-lo à delegacia. Você está suspeito de cometer dois crimes graves — anunciou Dalton.
Saketsu nem precisou perguntar a que ele estava se referindo. Estava disposto a acatar a punição. Pelo menos, era bom ter outros agentes próximos; assim, Dalton não o forçaria a fazer coisas como da última vez e nem faria nada que ultrapassasse os limites da lei. Esperava pelo menos...
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
— Saketsu Sura, você está sendo acusado de sequestrar uma garota de quinze anos, Aine Vieira, e também é suspeito do homicídio de quatro adolescentes. O que você tem a declarar sobre isso? — questionou Dalton quando os dois estavam a sós em uma pequena e escura sala de interrogatório, sentados de frente um para o outro em uma mesa de metal e iluminados por uma fraca luz branca que pendia acima de suas cabeças.
O olhar de Saketsu permaneceu fixo na mesa. De fato, ele havia matado aqueles adolescentes — e Aine também morrera por culpa dele, por não ter reagido a tempo de segurá-la antes que caísse da escada.
— Então, você confirma os assassinatos? — questionou Dalton novamente, ao perceber que não havia recebido resposta.
Saketsu continuou quieto.
O homem apenas pegou um controle que estava sobre a mesa, apontou e ligou uma pequena TV ao lado, que até então permanecia oculta na escuridão, mas agora se tornava a maior fonte de luz do lugar, revelando a palidez de Saketsu e sua expressão triste e exaurida.
A imagem estava cheia de ruído e com contraste péssimo, mas ainda assim era possível ver o suficiente: em uma passagem estreita durante a noite, havia cinco adolescentes passando — sendo um deles o próprio Saketsu. Os outros quatro o abordaram e, em seguida, Saketsu recuou e caiu desmaiado no chão. Aproveitando a situação, os outros começaram a vasculhar os bolsos do garoto à procura de algo de valor e depois passaram a se retirar do local.
Até aí estava tudo “normal”.
Então um deles parou. No instante seguinte, caiu no chão — havia recebido um grande corte no peito, surgido do nada. A partir disso, tudo começou.
Algo invisível os atacava de maneira brutal, até que restou apenas o último, que teve seu fim iminente com um buraco no peito enquanto estava preso contra a parede.
Para uma pessoa comum, aquela gravação pareceria apenas uma montagem bem feita. Mas não para Saketsu e Dalton, que tinham plena consciência do que realmente havia acontecido.
— Então? — Dalton aguardava novamente uma resposta.
Mas o garoto agora olhava perplexo para a TV.
Não havia como negar, ele havia mesmo feito aquilo, mas o que poderia dizer?
— A autoridade não compreendeu este caso, e teria abafado tudo se não fosse por mim. Apesar de a câmera não ter captado sua verdadeira forma, você sabe que foi você quem os matou. Afinal, é da natureza de um glasbhuk fazer isso.
Saketsu não tinha argumentos para rebater tal julgamento. Dizer que fizera aquilo “sem querer” não mudaria o fato de que havia feito, e muito menos surtiria efeito contra Dalton, conhecendo o apreço dele por glasbhuks.
A melhor resposta que podia dar era permanecer quieto, cabisbaixo, enquanto a sombra do lugar ocultava completamente seu rosto angustiado. Só podia esperar e aceitar o que viria a seguir.
— Até um ano atrás, seria absurdo considerar tal situação um caso criminal. Mas, com tudo de inexplicável que vem acontecendo ultimamente, o Estado tem considerado seriamente abrir um novo departamento apenas para tratar desses tipos de ocorrências sobrenaturais.
Dalton tirou um maço de dentro do terno e acendeu um cigarro.
— Agora vamos ao caso de Aine Vieira. Recebemos uma denúncia anônima de que você sequestrou a garota. Pelo tom de voz da pessoa, até pensamos ser uma brincadeira. No entanto, decidimos examinar o caso mesmo assim e, de fato, a garota havia desaparecido. Fomos até a sua casa à procura de justificativas e encontramos pistas de um possível conflito: um forte cheiro de gás impregnado pela casa e, como principal evidência, marcas de sangue ao pé da escada.
Imagens do incidente passaram vividamente pela cabeça de Saketsu.
— Esse foi, na verdade, o real motivo de trazê-lo até aqui — continuou Dalton. — A gravação ainda está sendo estudada, mas o caso da garota você sabe que já é motivo suficiente para penalizá-lo, não é?
Ouviu-se o som da cadeira se arrastar quando Dalton se levantou, levando a mão ao lado da cintura.
— Porém, eu não acho que cadeia seria suficiente para você. No fundo, você sabe que tipo de punição merece de verdade.
De cabeça baixa, Saketsu viu o revólver ser sacado e apontado em direção à sua testa.
— Sua vida podre de glasbhuk está para terminar aqui, Saketsu Sura.
Não possuía objeções. Não queria morrer ainda, porém realmente achava que não merecia viver. De qualquer forma, não teria escolha. Seria sentenciado pela bala que estava prestes a ser disparada bem no meio de sua testa. Seria essa, enfim, a causa de sua tão esperada morte.
— Mas, antes de terminar de vez com você, preciso saber onde escondeu o corpo da garota.
— Eu não escondi… — respondeu, se deixando levar. — Ela tentou me matar. Eu apenas me defendi. Então ela caiu da escada e morreu com a própria faca cravada na garganta. Só que... depois, mãos surgiram de uma sombra ao redor dela e a puxaram para dentro de um portal negro, que desapareceu junto com ela.
— Isso que está dizendo é verdade?
— Sim. Por que eu mentiria? — Sabia que ajudaria mais contar tudo de uma vez; talvez alguém ainda pudesse fazer alguma coisa. — Eu nunca faria nada de mal com alguém como Aine.
Dalton ficou pensativo com a declaração do garoto.
— Lembro que recentemente houve um caso sobre um caipira que atacou adolescentes. Ele acabou morrendo, e o corpo desapareceu da mesma forma, puxado para um portal. Você também estava envolvido nesse caso, não estava?
— Caramba, será que você não percebe? Tem alguém armando tudo isso contra mim! — Saketsu perdeu a paciência.
— Seria outro glasbhuk? Vindo de monstros como vocês, coisas desse tipo já não me surpreendem mais.
Saketsu se indignava.
— Apesar de tudo, quero te dar uma última chance. Que tal você se juntar a mim e, juntos, caçarmos esses demônios?
Saketsu ergueu a cabeça, reagindo à oferta inesperada. Mas não demorou para sua expressão se fechar em desprezo.
— Até parece que eu iria me unir a um desgraçado feito você. Você me dá nojo. Prefiro morrer.
Dalton não pareceu se incomodar. Apenas manteve o revólver apontado, pronto para atirar, até Saketsu continuar:
— Mas talvez eu deva colaborar pelo menos um pouco… já que você gosta tanto de caçar glasbhuks.
Dalton escutava com o dedo pausado no gatilho.
— Há outro na cidade. Sabe os comas, os desaparecimentos e até mesmo as atitudes estranhas dos que acordaram e foram capturados? É tudo culpa dele. Ele manipulou Aine para me matar. Foi tudo armado. Ele está tentando transformar minha vida em um inferno já faz algum tempo, e olha só para mim, ele conseguiu!
Saketsu sorriu transtornado.
— Ele matou várias pessoas inocentes para me atingir. Ele é manipulador. Causa sofrimento pela própria diversão. Se eu mereço morrer, então ele merece o dobro!
O garoto ofegava de raiva. Já havia aceitado a morte, mas não morreria em vão. Queria fazer valer a pena, nem que fosse um pouco.
— Nome? — perguntou Dalton.
— Dracarys. Ele é da minha classe.
— Dracarys… entendo. Ele é um conhecido. Infelizmente, não posso fazer nada contra ele.
— Quê?!
— Seguimos o mesmo Deus. Recebi ordens para não entrarmos no caminho um do outro. Se não fosse por isso, pode ter certeza de que eu já o teria matado.
— Você só pode estar brincando…
Finalmente chegava à conclusão de que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Tudo a mando de um Deus.
Mas por quê?
Alguém chegaria tão longe assim — manipulando acontecimentos, causando desgraças incalculáveis — apenas para assistir outro se destruir? Se não, então o que Dracarys e esse Deus estariam ganhando com tudo isso?
— Tem algo mais a dizer? — perguntou Dalton prestes a puxar o dedo no gatilho.
— Vai se fuder — respondeu revoltado, mas rendido, fechando os olhos.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios