Volume 1
Capítulo 24: Véu da Morte
Saketsu havia se sentado rapidamente, movido por um instinto de sobrevivência como se por um momento tivesse perdido todo o ar.
Ainda um pouco ofegante, olhou ao redor e percebeu que estava em uma cama, em um quarto completamente desconhecido, mal iluminado por uma vela sobre um pires no criado-mudo ao seu lado, dando um avermelhado ar macabro ao ambiente.
Levantou-se depressa, confuso. Havia uma cadeira e uma pilha de livros sobre uma escrivaninha, além de um deles aberto que, ao se aproximar para observar melhor, parecia descrever uma espécie de procedimento para algum ritual, com alguns símbolos esotéricos; não entendia nada.
Mas sua atenção não se prendeu a isso. Ao olhar para o outro canto da parede, viu uma pequena estante com mais livros e alguns pequenos frascos de diferentes tipos de óleos e ervas; parecia uma espécie de coleção de ingredientes para poções.
Em outro lado do quarto, havia um pequeno altar sobre uma mesa coberta por um pano preto, com uma vela de sete dias acesa, suporte para incenso, uma taça de água, um baralho divinatório e outros elementos que não deixavam dúvida de que eram coisas de bruxaria.
O quarto estava impregnado com um forte cheiro de ervas, chegando até a lembrar a casa da sra. Gardênia, mas tudo ao redor não podia pertencer a ela ou a alguém de sua estirpe; era mais obscuro, e a pessoa com certeza mexia com coisas mais pesadas.
A única saída possível dali era uma porta composta por uma cortina de contas que escondia o que estava do outro lado, e, mirando-a, não pôde deixar de imaginar que a qualquer momento uma assustadora bruxa toda enrugada surgiria.
Voltou a se sentar na cama, com as inevitáveis lembranças da noite vindo à tona.
Ele e Ukyi haviam planejado invadir o lugar onde Dracarys estava. Tinha deixado seu corpo escondido em um beco deserto a poucos quarteirões de lá e usaria a estratégia de retornar para ele se a situação ficasse feia, surtindo assim como um “teletransporte” de fuga. Mas o que não entendia era como, e por que, tinha acordado neste lugar estranho.
Não demorou para se frustrar ao se lembrar de que havia decidido dar um fim em Dracarys, fazê-lo pagar por toda a desgraça que causou, e, quando estava perto — quando teve a oportunidade — foi como se tivesse batido direto contra uma muralha, sua força sendo plenamente inútil contra aquele maldito.
Tivera uma expectativa, e ela fora quebrada; pior, dilacerada.
E agora? Dracarys ficaria impune, causando mais mal para outras pessoas? Não. Não podia permitir. Teria que dar um jeito de lutar mesmo contra a impossibilidade de vencê-lo. Teria que dar um jeito de vingar Lana e as outras pessoas que ele prejudicou!
— Ei.
Quando se deu conta, Saketsu, com uma expressão odiosa, olhava para uma mulher inclinada com o rosto bem próximo ao seu.
Ele se assustou.
Ao ela endireitar o corpo, foi possível perceber o quanto seu vestido gótico lhe caía bem, acentuando suas curvas. Seu cabelo negro, igualmente à cor dos olhos, era longo e sedoso, tão bonito quanto o de Lana, com um roxo que degradava até as pontas. Apesar disso, porém, o que ela tinha de beleza logo pareceu faltar em simpatia.
— Finalmente acordou, Saketsu Sura — disse ela, em tom seco, parada e observando com seriedade o garoto, que assumiu um aspecto cauteloso.
— Quem é você? — perguntou, atento a qualquer estranheza que ela pudesse manifestar.
— Meu nome é Carla. Sou uma bruxa, feiticeira, vidente e médium — respondeu. — E adianto que o fato de você estar aqui é porque recebi uma mensagem do “Além”. Estive à sua procura por alguns dias para tentar te ajudar.
— Me ajudar… me ajudar com o quê?
— Eu é que te pergunto. Anda passando por alguma coisa estranha ultimamente?
— Estranha? — perguntou a si mesmo. Se andara passando por algo estranho? Com certeza. Mas já não sabia mais o que era realmente estranho; ou melhor, não sabia como responder àquela pergunta de maneira curta e objetiva.
— Anda vendo sinais ou algo do tipo?
— Sinais? — Saketsu forçou a memória. — Acho que não.
— Nem números, coincidências ou coisa assim?
— Bom… eu não sei direito, mas, ultimamente, toda vez que olho no relógio, ando vendo horas iguais… — respondeu vagamente.
Carla reagiu como se não fosse nenhuma surpresa, e continuava a olhá-lo, esperando escutar mais. Saketsu então continuou, enquanto ia se lembrando:
— Nessas últimas noites, andei tendo sonhos estranhos também. Não que isso seja novidade, mas os últimos foram mais intensos. Por exemplo, o de ontem: sonhei que a menina de quem eu gosto havia se transformado em uma grande serpente negra. Ela me agarrou e começou a apertar meus ossos, a ponto de eu sentir dor de verdade; depois me abocanhou… e eu acordei.
A mulher esboçou um leve sorriso.
— Entendo. Sonhos não são brincadeira. Normalmente mostram o que está acontecendo na realidade, só que de maneira abstrata e até fantasiosa. Não que esse da menina de quem você gosta seja o caso, talvez. Mas, enfim. Por acaso há algum tipo de sonho que tem sido mais recorrente?
Saketsu colocou uma mão pensativa sob o queixo.
— Acho que tem um. A cidade está em caos, tem um monte de criaturas caçando as pessoas, a noite está vermelha. Lembra até o Inferno… E, no final, eu sempre morro, seja pelas criaturas ou pela própria “morte”. Mas eu não sei bem se é isso, não consigo me lembrar dos detalhes; sempre esqueço quando acordo.
— Hum…
— Mas esse sonho eu já tenho há alguns anos.
Agora era a mulher que estava pensativa.
Alguns minutos depois, Saketsu estava no outro cômodo, que era onde a bruxa atendia seus clientes, já que ela era uma espécie de cigana dona de uma loja esotérica.
Ao redor da área em que estavam, tudo era cortinado, e a única iluminação continuava sendo a das velas espalhadas ao redor, que não tinham uma chama muito forte, inclusive a que estava sobre a mesa redonda onde se sentavam, um de frente para o outro.
Os dois permaneciam com a mesma conversa de antes, enquanto Saketsu bebia um chá de ervas que não conhecia, mas que tinha um gosto agradável. Ele começou a contar tudo pelo que estava passando, inclusive o fato de ser um glasbhuk. No entanto, Carla sempre voltava para a parte dos sinais através das horas iguais e dos estranhos sonhos, e com isso chegou apenas a uma conclusão:
— Você está prestes a passar pelo Véu da Morte.
Saketsu apenas se calou. Com uma expressão confusa, continuou ouvindo a explicação de Carla:
— Poucos conseguem reparar, mas o Universo o tempo todo dá sinais. Na verdade, até tem bastante pessoas que chegam a perceber alguma coisa, mas logo ignoram, achando não passar de impressão ou mera coincidência, e assim deixam completamente de lado.
— E o que exatamente é esse “Véu da Morte” que você disse?
— Essa é a parte a que eu queria chegar. Acredita-se que cada ser vivo, depois que nasce, tem uma data marcada para partir deste mundo. Quando o dia da pessoa está próximo, é aí que ela entra em contato com o Véu da Morte, que é como se a cortina que divide os dois mundos, o da vida e o da morte, estivesse passando por ela.
Saketsu ficou mais sério.
— Nisso, a conexão com o outro lado fica cada vez mais intensa à medida que o dia marcado se aproxima. O lado espiritual da pessoa ganha força, e a capacidade de clarividência pode ser despertada também, possibilitando começar a ver e perceber coisas que normalmente passariam despercebidas, que é o que está acontecendo com você.
— Ou seja, eu estou prestes a morrer. — Saketsu se sentiu desconfortável. Mesmo que poucas horas atrás estivesse preparado para se entregar à morte, querendo apenas matar Dracarys antes, agora que estava com a cabeça menos quente, a ideia soava absurda demais. Não estava gostando de pensar que estivesse prestes a deixar tudo para trás.
— E antes que você pergunte, igual às outras pessoas que atendo aqui: não, não existe maneira de evitar a morte. É um destino que você terá que enfrentar. E, de acordo com tudo o que me disse, pelo nível da coisa, ela está bem perto. Pode ser a qualquer momento, amanhã, ou até no próximo instante. E não se preocupe, é algo que todo mundo terá que passar uma hora. Nós nem sabemos o que há do outro lado; no pior dos casos pode não haver nada para você, e, se for assim, nem lembrará que um dia existiu ou que continua existindo, de certo modo.
A mulher confortava do jeito dela, falando de forma simples e tranquila, como se tentasse fazer parecer que o assunto não era tão problemático quanto deveria ser. Mas para Saketsu era. Afinal, achava que morrer significava deixar tudo para trás — e como seria passar a existir sem ter nada do que se fez presente durante toda a sua vida? Será que seria possível recomeçar do zero em outro mundo, se é que houvesse?
— O que me preocupa mesmo são os sonhos apocalípticos que você contou que anda tendo.
Saketsu, que estava reflexivo com os olhos voltados para o escuro pano da mesa, percebeu um baralho sendo colocado sobre ela, em seguida as cartas sendo abertas em escadinha até formar um leque. A mulher o olhou.
— Quero que você tire três cartas.
— Ahn... Certo.
Saketsu as analisou de ponta a outra e, sem pensar muito, começou a puxar uma por uma aleatoriamente, até formar as três. Carla juntou as outras em uma pilha e pediu para Saketsu virar as que havia tirado.
— O Diabo. A Torre. E O Mundo. É isso que está me deixando intrigada, porque toda vez que faço uma divinação questionando a situação do mundo, saem exatamente essas três cartas.
— Eu não entendi.
— O Diabo representa os aspectos sombrios da natureza humana, ou até mesmo energia negativa. A carta da Torre representa desmoronamento, destruição, sendo associada a eventos de ruptura. Já O Mundo pode estar simbolizando a totalidade de tudo que existe, o próprio mundo. Em si, a mensagem que esta tiragem traz é que o mundo está prestes a sofrer um colapso que abalará toda a sua estrutura, vindo de uma força maligna, levando a um cenário de destruição.
Saketsu se impressionou.
— De alguma forma que eu ainda não consigo compreender, você está relacionado com tudo isso. Eu fui atrás de você porque vozes me disseram para fazer isso, para te notificar. Então segui até o beco que me foi indicado, e lá te achei e te trouxe para cá. Seja lá quem ou o quê for, queria que eu te contasse tudo isso.
— Mas por quê? O que esse alguém espera que eu faça?
— Não sei. Realmente não sei. As únicas coisas de que tenho certeza é que você está prestes a morrer… e o mundo, prestes a acabar. Você está pronto para encarar esse destino?
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