Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 23: Brincadeira de mau gosto

Depois de algum tempo andando, Ukyi parou de repente. Saketsu, ainda refletindo perturbadoramente sobre a cena no beco — onde matara quatro bandidos a sangue frio — deu mais um passo antes de também parar, percebendo que estavam diante de um belo portão gradeado de uma mansão de vasto terreno.

Olhando em volta, havia outras casas igualmente imponentes. Era presumível que já não estivessem mais na cidade de Veraluz, e sim em uma região mais afastada, habitada por pessoas de alta classe, o tipo de lugar de onde Dracarys dizia vir, pelo menos de acordo com o que ouvira ele contando na sala de aula.

De qualquer modo, sem dúvidas era o lugar certo.

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Bem arrumado com uma camisa preta, calça e sapatos escuros, segurando uma taça de vinho com a mão esquerda calçada por uma luva de couro que possuía costurado um crucifixo de prata composto por um pequeno crânio sobreposto no centro, Dracarys caminhava tranquilamente pelo grande salão de entrada, cuja única iluminação vinha do luar que penetrava pelos grandes e belos vitrais no topo da escadaria, metros à frente da porta.

Ainda diante dela, havia duas fileiras de pessoas posicionadas uma de frente para a outra — pessoas de semblante vazio e olhos cintilando em vermelho vivo: zumbis-sobrenaturais. Dracarys passava entre eles enquanto degustava o vinho com prazer, apenas aguardando o momento especial que sabia estar prestes a acontecer.

Boom!

A porta do salão se abriu com um forte estrondo, revelando Saketsu ao lado de seu espírito guardião, Ukyi. O semblante do garoto estava maléfico, e seu olhar possuía um brilho vermelho semelhante ao dos seres presentes ali — até mais sinistro.

— Ora, a que devo a honra, Saketsu Sura? — Dracarys abriu um grande e receptivo sorriso.

— Eu vou acabar com você! — grunhiu Saketsu, focando diretamente o rapaz, que estava a uns dez metros de distância entre as duas fileiras de zumbis.

— Acabar comigo? Por quê? — perguntou como se já soubesse a resposta, mas quisesse apenas provocar.

— Você acabou com a vida de uma garota inocente, tudo para mexer comigo!

— Uma? Você está sendo generoso — Dracarys sorriu de forma maliciosa.

Saketsu não compreendeu.

— Tem outra aí. Pense: lindos cabelos negros, olhos verdes, que, por sinal, são muito perfeitos, um corpinho... hum... magro e... sexy, do jeitinho que eu gosto; uma pele clarinha e macia… — Cada palavra de Dracarys parecia carregar excitação, como se estivesse lembrando dos prazerosos momentos em que apreciara cada parte da garota que descrevia.

— Lana…

— Trim, trim, trim! Acertou, seu miserável!

Saketsu sentiu um ódio ainda maior se apoderar de si. Seus punhos começaram a tremer com vontade de estraçalhar a maldita cara daquele sujeito.

— O que você fez com ela?!

— Por que a pressa em saber? Não quer ir ali na sala se sentar primeiro para degustar este delicioso vinho junto comigo?

Dracarys fez um sinal, e um zumbi próximo, que segurava uma garrafa, começou a servir outro que carregava uma taça. Em seguida, este se aproximou de Saketsu e lhe ofereceu a bebida. Saketsu não quis nem saber: bateu na taça com violência, fazendo-a se estilhaçar na parede.

— Que falta de educação. Deve ser por isso que demorou tanto para arrumar amigos — insinuou provocativamente.

Essas palavras surtiram efeito em Saketsu. Com elas, ficou claro que Dracarys sabia bastante — ou talvez tudo — sobre ele, e essa era uma das razões por estar ali: precisava esclarecer tudo. Mas a raiva era tanta que já não sabia se valia mesmo a pena esperar antes de acabar com ele.

— Conte logo de uma vez! — bradou.

— O que você quer que eu conte? É só me perguntar. Estarei encantado em responder tudo.

— Por que você está fazendo tudo isso?

— Ordens de alguém — respondeu, simples e direto.

— De quem?

— Deus.

Saketsu teve uma breve surpresa com a resposta, mas não demorou para a raiva tomar conta novamente; Dracarys só podia estar de brincadeira.

— Você é o culpado por tudo o que aconteceu desde sempre?

— Quem sabe? — Dracarys respondeu com tranquilidade.

— Fale logo!

— Na verdade, comecei a agir há poucas semanas — disse como se o que tivesse feito fosse apenas algo simples, como ir à padaria buscar pão. — Agora, acredito que mais dúvidas começaram a surgir nessa sua cabecinha fútil, não é mesmo?

— Então você tem a ver com Iuri?!

— Nem sei quem é.

— Dalton?

Dracarys negou com a cabeça enquanto movia o ombro.

— E por qual motivo esse “Deus” te mandou tentar me matar?

— “Tentar te matar”? — Dracarys teve que se esforçar para segurar um riso. — Se “Ele” quisesse isso, já teria feito. Eu não sei exatamente qual é o propósito Dele; a única ordem que recebi foi “brincar com você”.

— Agora compreendo — disse Ukyi, que até então apenas assistia à conversa ao lado de Saketsu —, esse deve ser o motivo de os vibristeneus estarem agindo de maneira intensa, resultando no surgimento massivo dos zumbis-sobrenaturais. Tu, de alguma forma, consegue controlá-los e teria usado essa capacidade para matar Saketsu caso quisesse, mas não o fez; apenas o fez lutar para testá-lo diversas vezes.

— Então o culpado pelas mortes de milhares de pessoas inocentes, Esther, Aine… é mesmo você... Você matou pessoas que não mereciam morrer só… SÓ PARA BRINCAR COMIGO?!

Sim! — Dracarys abriu um sorriso insano. 

Saketsu já sabia tudo o que precisava saber: Dracarys estivera por trás dos zumbis-sobrenaturais o tempo todo, tudo por diversão enquanto seguia as ordens de um suposto Deus. E também era o culpado pela morte de Esther, Aine e…

— Você havia se referido a Lana agora há pouco. Onde ela está?

— Você ainda não entendeu? — Dracarys arreganhou ainda mais o sorriso e, em tom mais alto, claro e zombador, respondeu: — Eu a matei.

Pronto. Faltava apenas isso para fechar a conta.

Saketsu se paralisou ao ouvir aquilo, com as emoções trevosas tomando conta de vez do seu ser. Não iria mais se segurar. Dracarys definitivamente não merecia perdão.

— Ukyi — chamou o felino com um tenso tom de voz.

Ukyi compreendeu e logo se desmaterializou em uma energia vermelha que foi até a mão do garoto, já estendida e pronta para segurar a espada negra que se materializou.

Saketsu começou a avançar, com tanta sede de vingança que, quando se deu conta, seu corpo já corria em direção a Dracarys.

Quando se aproximou o bastante para atacar, porém, Dracarys estendeu a mão direita e o conteve, segurando-o pelo cabelo.

Com os rostos próximos, Saketsu viu o sorriso de Dracarys se abrir de forma desdenhosa. Ia reagir, mas antes que pudesse de fato, viu o joelho dele vindo, acertando-o com força bem no meio da testa e o fazendo voar alguns metros de volta para a entrada.

— Sakezinho, Sakezinho — dizia com uma irônica decepção — nunca aprende que não pode bater de frente comigo? Bom, pelo menos devo te elogiar por não ser tão burro, já que veio em sua forma glasbhuk desta vez.

Saketsu se levantava, ainda um pouco desnorteado após levar um golpe daqueles, e voltou a encarar Dracarys com a mesma fúria de antes.

— Own, quer se vingar tanto assim de mim? — provocou meigamente. — Bom, eu não vou deixar que seja tão fácil.

Dracarys fez dois leves movimentos com os dedos da mão que calçava a luva de couro com o crucifixo de prata, e as dezenas de zumbis começaram a sair de seus postos, rodeando Saketsu.

Logo viu os primeiros zumbis partirem para cima. Conseguiu dar conta deles com facilidade usando a espada, mas não teve nem tempo de se recompor antes que precisasse lidar com outros.

Eles não eram tão fortes, porém eram muitos, e claramente estavam servindo de distração enquanto o verdadeiro alvo permanecia distante, parado apenas observando tudo do pé da escada. Não podia perder tempo com aqueles zumbis!

Quando finalmente conseguiu abrir caminho pela horda, avançou já indo direto para Dracarys. Tentou acertá-lo várias vezes com a espada, contudo Dracarys se desviava com facilidade enquanto sorria, zombando do esforço.

A diferença de habilidade entre os dois era evidente, mas Saketsu não queria nem saber. Estava disposto a matar Dracarys mesmo que tivesse que se sacrificar para isso; não se importaria em perder a própria vida, já que sua razão de viver havia sido morta pelas mãos dele!

De repente, notou outros dois zumbis saltando para cima, cada um de um lado. Saketsu teve que recuar para não ser atingido, e isso o afastou de Dracarys, que começou a subir com tranquilidade os degraus, cantarolando.

Saketsu ainda nem havia dado fim nos dois zumbis à frente quando percebeu outros vindo por trás. Estava cercado novamente, e sabia que, para sair dali, não haveria outro jeito além de lutar.

Passou então a não poupar esforços para dar cabo das criaturas que vinham. Estava lidando bem, até que, distraído, sentiu o peso de um punho gigantesco bater com força em seu peito, arremessando-o para além dos zumbis, de volta à porta.

Sentindo dor, começou a se levantar com dificuldade, sem entender o que havia acontecido. Então viu o responsável por tê-lo atingido com tamanha brutalidade: um ser demoníaco de cerca de dois metros e meio de altura, com músculos robustos e uma aura tenebrosa.

— O que é aquilo? — perguntou Saketsu, assustado por estar vendo algo assim pela primeira vez.

— São apenas algumas das milhares de espécies de criaturas trevosas que existem — respondeu Ukyi.

Saketsu então percebeu que ele se referia aos seres de diferentes tamanhos e formas que agora ocupavam o grande salão.

A aparência deles era peculiar; parecia até uma grotesca festa de fantasia de monstros, seres muito mais desenvolvidos que os simples zumbis sobrenaturais, e com isso Saketsu sentiu sua determinação ser abalada.

Passou a reparar em algumas feras caninas de pelagem escura, maiores que leões, que usavam crânios de algum outro ser desconhecido como adorno na cabeça. Foram as primeiras que começaram a se aproximar de forma lenta e ameaçadora.

Além delas, outras criaturas também chamaram sua atenção: estavam cobertas por um escuro manto esfumaçante e circundavam ao redor como fantasmas, mirando diretamente o garoto.

A influência da natureza obscura da presença daqueles seres afetava o ar, tornando-o pesado e desagradável. Saketsu não era tolo a ponto de achar que conseguiria dar conta de todos.

Os segundos passavam, e ele se via cada vez mais cercado.

As feras finalmente avançaram para cima. Saketsu se afastou da onda de ataques. Um dos grandões tentou atingi-lo por trás, e ele escapou por pouco ao desviar para o lado, notando em seguida os destroços no piso causados pela força esmagadora do golpe.

Investidas começaram a ocorrer de todas as direções sem parar. Não havia brecha para raciocinar uma estratégia; Saketsu já nem sabia mais como estava desviando, movia-se apenas pela força do puro reflexo, e qualquer movimento errado poderia ser seu fim.

— Use-me, meu corte será eficaz contra eles — falou a espada.

— Estou tentando!

Mesmo o salão sendo grande, a concentração de seres ao redor já começava a limitar demais seus movimentos.

Enquanto isso, do topo dos degraus, com sua taça de vinho em mãos, Dracarys se divertia assistindo ao sufoco do garoto. Estava tranquilo. O resultado da batalha já era garantido.

— Vamos ter que sair daqui! — disse Saketsu, olhando para a porta a alguns metros, por trás do mar de monstros.

Então saltou sobre um deles e passou a pisar em ombros e cabeças de outros, seguindo em direção à saída enquanto tentava evitar ser agarrado.

Quando estava prestes a atravessar a porta, porém, algo o repeliu para trás, fazendo com que batesse contra o abdômen de um dos grandes seres, que não perdeu a oportunidade de atacar com seu pesado punho.

Saketsu reagiu a tempo de mover a espada e abriu o braço do monstro ao meio com a lâmina, dando a volta em seguida e cortando facilmente sua cabeça.

Na breve pausa, olhou em direção à porta e entendeu por que não havia conseguido atravessar: uma barreira de aura escura quase invisível bloqueava a passagem.

— Me use — falou a espada novamente.

Saketsu a firmou nas mãos e avançou, aplicando um corte no meio da barreira, fazendo com que ela se dissipasse com facilidade. Então saiu.

Olhou para trás e viu que os seres vinham, em especial as feras negras, que eram muito mais ágeis que os outros — tão rápidas que Saketsu percebeu que não conseguiria superá-las.

Com isso, parou e se virou para elas, que vieram para cima com um salto e foram recebidas com cortes fatais, dissipando-se como fumaça negra no ar.

Respirou aliviado, mas foram apenas míseros segundos antes de se ver cercado novamente. Precisava aproveitar enquanto ainda havia espaço suficiente para se movimentar.

Outros seres se aproximaram com velocidade. Saketsu os encarou de frente e deu conta deles com a espada, cuja lâmina era eficaz ao ponto de fazer as criaturas parecerem frágeis como papelão.

Movimentos, ataques, defesas, desvios e mais ataques. Depois de dar fim a incontáveis criaturas variadas, Saketsu teve a chance de recuperar um pouco do fôlego, que já estava no limite. Porém, no instante seguinte, percebeu-se rodeado novamente; parecia que o número de seres não havia diminuído — pelo contrário, havia aumentado!

— Dracarys os está invocando. Não vamos vencer. Tu deves aplicar o plano de recuada agora — alertou Ukyi.

Saketsu viu incontáveis seres surgindo de diferentes portais negros no ar, próximos de Dracarys, que estava com o corpo inclinado na lateral da porta de entrada e os braços cruzados, se entretendo.

Saketsu havia feito tudo o que pôde para matar as criaturas, e quando o número deveria finalmente diminuir e a chance de lutar contra Dracarys surgir, percebeu que estava completamente enganado.

— Podes ir. Depois eu te encontro — falou Ukyi.

— Droga.

Saketsu se sentia frustrado, mas não tinha opção.

Então fechou os olhos e se concentrou em desejar retornar para seu verdadeiro corpo. Ouviu os seres se aproximando e, no momento em que sentia que seria alcançado — bem no milésimo crucial de segundo —, sentiu um solavanco no escuro enquanto tudo havia se calado.

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