Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 22: O monstro se põe para fora

Depois de Saketsu sair de sua casa, algumas horas já haviam se passado. Eram 22:22 quando olhou no celular.

Até ali, havia vagado pelas ruas da cidade movimentada e já estava meio longe de casa. Sua raiva havia amenizado um pouco, mas não conseguia tirar da cabeça as cenas de momentos atrás.

Estava tão focado naquilo que nem percebia as pessoas o olhando de relance enquanto passavam ao seu lado, vendo-o parecer um lunático ensandecido, com um raso corte na bochecha feito pela faca de Aine, cujo sangue escorrido já estava seco; era o suficiente para causar afastamento.

Não sabia para onde estava indo. A única certeza que carregava consigo era o objetivo de encontrar Dracarys e fazê-lo pagar.

Não sabia nada sobre ele, absolutamente nada, exceto, talvez, que fosse um glasbhuk que prejudicou muita gente por mera "brincadeira".

Era certo que o real motivo do afastamento de Lana havia sido culpa de Aine, que apenas seguira as ordens de Dracarys. Tinha que ser.

Saketsu parou, sentindo o ódio ferver ainda mais dentro de si.

E se tudo estivesse sendo manipulado por Dracarys desde o início? Desde o ataque de Iuri, Dalton, aquele caipira, a morte de Esther… até mesmo Ukyi poderia estar do lado dele.

Não — e se, antes mesmo de tudo isso ganhar força, Dracarys já estivesse agindo?

Saketsu nunca tivera uma vida normal de fato. Sua infância parecia até um conto de fadas obscuro para quem ouvia.

Poderia ser, também, que o mundo todo estivesse envolvido, como se tudo isto ao redor — as pessoas — fizesse parte de uma peça teatral cujo intuito principal era testá-lo, ver até onde ele poderia chegar.

Realmente não sabia o que pensar. Agora se sentia como se mal conhecesse a si próprio.

Seria melhor parar de pensar nessas coisas. Precisava voltar ao foco. Precisava achar Dracarys e destruí-lo.

Quando se deu conta, estava passando por uma viela escura e deserta. Ao reparar melhor, viu, sobre fios de postes mais distantes, alguns urubus olhando em sua direção, como se esperassem alguma coisa.

A atenção de Saketsu voltou para frente quando notou quatro adolescentes marginais vindo sem pressa em sua direção. Sabia que eram o tipo de gente que não deixava passar a oportunidade de arrumar encrenca. Entretanto, não os temia, e nem estava com paciência para lidar com eles. Apenas continuaria seguindo, ignorando… como se isso fosse possível.

— E aí, mano! Pode parando aê! — disse um deles, segurando Saketsu pelo ombro.

— Passa as paradas que você tem. Aí você pode vazar de boas! — disse o outro, sorrindo enquanto segurava um revólver que havia acabado de sacar da cintura, encostando-o no peito de Saketsu, já com o dedo no gatilho.

Saketsu não fazia nada. Passou apenas a olhar de um para o outro, indo da raiva para uma estranha surpresa.

— Vai, mano! Quer morrer, mermão?!

Saketsu não respondeu. Sua atenção estava tomada pelos rostos deles. O semblante dos quatro parecia alternar entre formas humanas e monstruosas, mas, depois de alguns instantes, ao mirar melhor, não havia mais nada. Será que tinha sido só impressão? Parecia que, por um breve momento, sofrera uma tontura.

Foi de repente quando Saketsu sentiu um forte enjoo que o fez cambalear para trás. Sua cabeça então começou a doer com uma intensa enxaqueca. Estava se sentindo muito estranho. Mal.

— Ô, maluco, vai escapar não! Passa seus bagulhos aí logo! — se adiantou até o garoto que não havia feito nada além de se afastar alguns passos ao se debruçar de dor.

Sentia como se começasse a perder posse do próprio corpo, e sua consciência também parecia estar fugindo de si, assim como seus sentidos. Com a visão turvando cada vez mais, a última coisa que acabou vendo foi o chão vindo ao seu encontro.

────────⊹⊱💀⊰⊹──────── 

Saketsu havia desmaiado. Os assaltantes, em vez de tentarem socorrê-lo ou ao menos conferir se ele estava bem, aproveitaram e se aproximaram para fuçar em seus bolsos, checando e pegando tudo o que tinha de valor.

— Hehe. Que otário!

— Covardão. Aposto que deve ter se cagado.

— Opa! Achei um celular!

Ao garantir que não tinha mais nada para roubar, um deles ia se levantar para ir embora, mas acabou notando uma presença passando atrás de si, como um vulto. Ao virar, não viu nada, mas uma certa estranheza começou a pairar no ar.

— Foi só eu ou vocês também viram?

— Caramba… bateu um frio agora. Tão sentindo? — reclamou o outro, sofrendo com um inexplicável arrepio desconfortante.

— Vamos vazar daqui — outro apressou.

Seguiam, quando o que estava mais à frente parou de súbito.

— Mano… algo me tocou!

— Do que você está falando?! Bora, Zé! — disse, nervoso, ao lado dos outros dois que também haviam parado.

Algo certamente estranho estava ocorrendo. Algo que eles não compreendiam, mas que fazia o instinto do medo despertar, levando o corpo a paralisar. O cara mais à frente não moveu mais um único músculo. Não falou mais nada.

— Tá enrolando aí por quê?! — perguntou o comparsa impaciente, se aproximando.

Bastou uma pegada no ombro e, para a surpresa dos três, o corpo caiu para trás, mostrando, ao atingir o chão, os olhos desfocados, a boca entreaberta sangrando e um grande ferimento no torso.

— Que porra é essa!? — se espantou.

— Ele tá morto?

— Como vou saber, mermão?!

O terceiro, por sua vez, se agachou próximo para conferir o estado do comparsa. O cadáver parecia ter recebido um corte profundo, o que, com certeza, foi o que o levou à morte. Mas era estranho como aquilo havia acontecido. Afinal, ninguém simplesmente é atacado assim do nada.

Ainda distraído enquanto olhava para o rosto sem vida, ouviu o grito repentino dos outros dois ao seu lado, notando em seguida um grande jorrar de sangue.

Levantou-se assustado e recuou, mirando aquela visão horrível. Seus dois parceiros haviam recebido cortes no corpo, como se uma grande besta voraz os tivesse retalhado.

Ainda focado naquilo, percebeu algo na densa poça de sangue dos corpos caídos, como se estivesse sendo pisada por algo invisível que se aproximava.

Era surreal. O marginal percebia que, se ficasse mais tempo ali, acabaria igual a eles.

Na tentativa de fugir, porém, viu algum tipo de vulto passando rápido ao seu lado e, no instante seguinte, sentiu estar sendo barrado por alguma coisa.

Mesmo que não conseguisse ver, podia afirmar que havia algo à sua frente. Uma pessoa. E ela não perdeu tempo em fincar suas longas unhas bem no meio do peito dele.

Não teve nem tempo de sentir dor, muito menos de sacar a arma para se defender. Foi movido de forma violenta e prensado no muro ao lado, sentindo uma dormência pelo impacto.

A coisa permanecia o segurando, com a mão ainda presa dentro de si.

A consciência do marginal se esvaía e seu corpo esfriava. Sabia que era a morte chegando. E, à medida que ela se aproximava, a coisa invisível ficava mais nítida, revelando a imagem de um garoto de escuros cabelos rebeldes e pele clara, manchada de sangue, vestindo as mesmas roupas daquele que acabara de assaltar.

A grande diferença entre este e o garoto que ainda permanecia desmaiado no asfalto era um pedaço de chifre negro saindo de um lado de sua testa, garras do mesmo tom, diabólicos olhos vermelhos e um sorriso perverso, sentindo um intenso prazer em causar toda aquela dor.

E foi com essa imagem que o marginal terminou, perdendo a vida sem saber direito o que aconteceu.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Os olhos do garoto se abriram lentamente, sua visão focalizando aos poucos até se deparar com o céu estrelado.

Saketsu sentou-se bastante indisposto. Tentava raciocinar o porquê de estar ali, caído no meio de uma rua escura, e, quando menos percebia, seus olhos recaíam sobre um cenário sanguinário, com entranhas espalhadas por todos os lados — resultado de quatro delinquentes que haviam sido impiedosamente massacrados.

Sentindo uma enxaqueca pulsar na cabeça, as lembranças daquele momento começaram a vir mais claras, junto ao pânico que tomava seu rosto.

Ele havia mesmo feito tudo aquilo?

Não… não podia ser…

No entanto, mesmo que negasse, as provas estavam diante de si. Lembrava de cada movimento que fizera. De suas mãos com garras escuras os estraçalhando com vontade.

Ficava apavorado. Pensamentos perturbadores começavam a dominar sua mente, porém o que acabou quebrando esse inferno mental foi notar Ukyi mais à frente, o mirando com seus reluzentes olhos vermelhos no meio das sombras.

— Ukyi… o que eu faço? — perguntou Saketsu, assustado consigo mesmo, clamando por qualquer coisa que pudesse lhe aliviar.

— Não há nada a se fazer. O inevitável aconteceu. Apenas aceite e prossigamos — respondeu o felino.

— Como assim “inevitável”?

— Naturalmente, cedo ou tarde tu acabarias tendo de passar por isso. Isto é ser um glasbhuk.

— Eu não estou entendendo… — Saketsu se desesperava.

— Teu poder é de origem trevosa. Os glasbhuks têm a tendência de sucumbirem ao que chamam de “mal”. Tuas chamas negras que manifestaste até o momento não são cinco porcento da tua obscuridade. Uma hora o elemento trevas dentro de ti começaria a vos corromper.

— Ukyi… para… eu não sei o que está dizendo… mas não quero ouvir mais… — Saketsu entendia muito bem o que as palavras de Ukyi diziam, porém não queria aceitar o que, no fundo, sabia ser a verdade. Não queria ser o monstro que sempre suspeitou ser.

— Aceitais o fato. Lutar contra tua natureza é lutar contra quem tu és. E lutar contra quem tu és é lutar contra a vida, contra tua própria existência.

— Então está certo que eu deveria morrer.

— Se é isso que tu acreditas e queres, então é isso que será.

— É isso então… é aqui que eu vou terminar — dizia com um quê depressivo, porém logo se lembrou de algo mais importante.

Com dificuldade, começou a tentar se levantar.

— Infelizmente, ainda tenho algo a fazer. Eu preciso acabar com o maldito do Dracarys primeiro.

— Tudo bem. De qualquer forma, eu não permitiria que tu morresses. Não ainda.

— Por quê?

— Meu dever é proteger-te, mesmo que nem eu saiba o porquê. Devo guiar-te, mesmo que no meio disso às vezes eu deva lhe deixar lidar sozinho com as coisas, pois só assim tu conseguirás se reerguer apoiando em tua própria determinação, que é o que te fará mais forte.

— É sério que você vai vir com papo motivacional agora?

— Apenas quero que entendas que, enquanto tu mesmo se ajudar, eu lhe ajudarei. E assim tudo irá colaborar para o bem maior. Eu sou teu suporte. Teu guia. E agora sinto que devo te conduzir até Dracarys, se esta for tua vontade. Tu te sentes pronto?

— Como nunca. — Saketsu firmou um rancoroso olhar de determinação.

Assim, começaram a seguir, com Saketsu pegando apoio na parede ao seu lado enquanto recuperava as forças.

As intenções de Ukyi nunca eram claras. Ele nunca demonstrava emoções e muitas vezes falava de forma abstrata. Mas Saketsu sentia que podia confiar nele. Começava a entender que, nos momentos em que parecia não receber ajuda, na verdade não era bem assim.

Ukyi não era o tipo de espírito que pegava na mão, mas sim parecido com um adulto que deixa sua criança, ainda engatinhando, se virar para aprender a andar sozinha, permitindo que ela caia, aprenda a se levantar e assim se fortaleça, porém permanecendo sempre por perto, pronto para dar apoio caso algo realmente grave aconteça.

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