Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 21: Vitória indesejada

Saketsu ficou meio sem reação ao atender a porta, infeliz por não ser Lana, mas sem parecer tão abatido graças ao ar de surpresa que assumiu ao ver a garota com quem tivera um momento durante o dia de aula.

— Me desculpe por estar te incomodando a esta hora — disse Aine, tímida, retirando algo de sua bolsa — é que este livro é seu... Acabei pegando sem querer.

Saketsu examinou o livro em sua mão, abriu-o e reparou que seu nome estava na parte de trás da capa.

— É, realmente é meu.

— Então... não sei onde está o meu... Acho que acabamos trocando...

— Será? Vou dar uma olhada. Entre, fique à vontade. — Convidou-a, afastando-se para o lado para ela passar.

— Obrigada.

— Minhas coisas estão lá no quarto. Vou lá pegar. Pode se sentar, se quiser. Já volto — disse após fechar a porta, subindo às pressas para o quarto.

Não demorou nem um minuto. Saketsu voltou e encontrou Aine sentada no sofá com a coluna reta, ainda corada, uma gota de suor escorrendo pelo canto da testa.

— É, realmente nossos livros foram trocados. — Trazia o dela em mãos. — Aqui está o seu.

— Obrigada — Aine agradeceu ao se levantar para pegar o livro, sorrindo.

Saketsu forçou um leve sorriso de volta e se virou para ir até a porta.

— S... Saketsu... — ela chamou, de um jeito tímido e suave.

— Sim? — virou-se para olhá-la, curioso, vendo-a mexer atrás da própria saia.

— É que... eu tenho algo a dizer para você…

— Pode falar.

— Eu... eu... a-amo... você...

No instante em que ouviu aquilo, Saketsu corou tanto quanto ela. Ficou completamente sem reação; o que poderia responder depois de ouvir algo assim?

Aquela linda garota estava mesmo se confessando para ele?

De qualquer forma, parando para observá-la melhor, Aine até que era linda, e vê-la envergonhada daquele jeito a tornava ainda mais atraente. Como nunca reparara nela?

Com uma mão para trás, Aine usava a outra para começar a desabotoar lentamente sua camiseta.

Ela se aproximava de uma forma que deixava Saketsu totalmente sem reação. Ele não conseguia tirar os olhos dela.

À medida que Aine avançava de maneira suave e ao mesmo tempo intensa, Saketsu acabou sendo conduzido para trás sem perceber, até bater as costas contra a porta.

Embora estivesse nervoso, ele queria aquilo. A cada centímetro que ela se aproximava, ele se perguntava por que não a aceitara antes. Ela era deslumbrante.

— Você não fugirá de mim, Saketsu... — dizia baixo e calmamente. — Fui eu quem troquei os livros. Usei isso como pretexto para vir te ver... — Levou a mão até a nuca dele, puxando-o para mais perto de seu rosto. — Eu te amo, Saketsu…

Naquele momento, Saketsu não conseguia pensar em mais nada. Já estava entregue de corpo e alma. Quando seus lábios estavam prestes a se tocar, sentiu o coração disparar — mas então percebeu algo prateado vindo rápido em sua direção.

Por puro reflexo, desviou a cabeça para o lado e evitou o ataque por muito pouco. Sem perder tempo, passou por baixo do braço de Aine, que tentou cercá-lo contra a porta.

Ao se afastar, observou com mais clareza: Aine havia fincado com força uma faca exatamente onde sua cabeça estivera um instante antes, cravando-a profundamente na madeira.

Mas o que significava aquilo? Por quê?!

— O que foi isso?! — perguntou, vendo-a permanecer parada após a tentativa, a faca ainda presa na porta.

— Hum? Como assim? — virou o rosto para olhá-lo, agindo completamente desentendida.

— Alguém te mandou, não foi?

— Do que está falando, Saketsu? Eu te amo.

— Diga logo!

— Ninguém me mandou... — respondeu em tom sutil, fazendo pequenos movimentos para tentar soltar a faca entalada.

— Não. Alguém te mandou. Senão você não teria se dado ao trabalho de tentar me seduzir esse tempo todo só para tentar me matar! — Saketsu sentia-se frustrado, traído e manipulado. Ela o fizera de bobo. Perdera Lana por culpa dela! — Foi Dracarys, não foi?

— Ninguém me mandou... Saketsu. Isso que acabou de acontecer foi só um mal-entendido. Na verdade, eu estava só brincando... Eu te amo, Saketsu. — Aine recuperou a faca e começou a caminhar lentamente em direção a ele.

— Se afaste! — recuava na mesma medida em que ela avançava, sem tirar os olhos dela.

— Mas... — agora ela parecia magoada.

— Já disse para se afastar!

— Eu só quero mostrar meu amor. Quer saber… MORRA, SAKETSU SURA!

Avançou com um grito assustador.

Saketsu desviou com um passo para trás, evitando por milímetros que a lâmina rasgasse seu peito.

Não pensou duas vezes antes de sair dali. Correu para a cozinha, sendo seguido por Aine, que também era rápida. Ela lançava vários cortes no ar.

— Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra...

Agia completamente ensandecida.

Saketsu não sabia por quanto tempo ainda conseguiria escapar. Perguntava-se o que havia acontecido com a bela e tímida garota loira que conhecia — agora substituída por uma psicopata totalmente descontrolada.

Quando virou as costas para subir os degraus até seu quarto, sentiu sua perna ser puxada, fazendo-o cair com força.

Aine o segurava com um sorriso vitorioso, prestes a esfaqueá-lo. Por impulso, Saketsu a chutou no rosto, fazendo-a cair para trás.

— Aine! — preocupou-se ao vê-la imóvel após o impacto contra o chão.

Mas foi só por um instante.

Ela logo se recobrava, pronta para continuar.

Saketsu decidiu sair dali imediatamente. Subiu os poucos degraus restantes, entrou no quarto e trancou a porta.

Agora estava seguro — por enquanto.

Recuou lentamente, sem tirar os olhos da porta, forçando a mente ao limite para tentar entender o que estava acontecendo.

Depois de alguns segundos, Saketsu percebeu algo muito errado: não se ouvia som algum do outro lado. Será que Aine havia finalmente desistido e ido embora?

Receoso, começou a se aproximar da porta para verificar.

Encostou o ouvido na madeira para escutar melhor e confirmou: havia silêncio absoluto do outro lado. Colocou a mão na maçaneta e começou a girá-la, bem devagar.

Teve certeza de que ela não estava logo atrás, à espera de uma emboscada, pois não ouvia sua respiração nem sentia sua presença. Ainda assim, abriu a porta rapidamente, preparado para reagir caso estivesse enganado.

Para seu alívio, ela realmente não estava ali.

Botou a cabeça para fora e olhou em volta para confirmar melhor.

Mas, se ela não estava ali, onde estava?

Sua pergunta foi respondida logo em seguida.

Começou a ouvir um pequeno som atrás de si — ruídos secos.

Virou-se e viu dedos surgindo na parte inferior da janela, buscando apoio para subir. Logo depois, cabelos loiros começaram a aparecer.

— Você não conseguirá fugir, Saketsu — disse Aine, revelando uma expressão assustadora.

— Mas como? — olhava incrédulo, impressionado por ela ter subido até a janela do segundo andar pelo lado de fora, onde quase não havia apoio algum.

— Eu deixei um vazamento de gás no andar de baixo — disse ela, já pulando para dentro do quarto e avançando lentamente em sua direção, ainda com a faca na mão — você não conseguirá passar por lá sem se intoxicar… e, caso consiga chegar até lá, irá morrer explodido. — Mostrou a chama de um isqueiro próximo ao rosto, tombando levemente a cabeça para o lado com um sorriso doentio.

Saketsu agora se via encurralado. Já não pensava mais em fugir, mas em entender o que realmente estava acontecendo.

O que a estava levando a fazer aquilo?

— Depois que eu matar Saketsu Sura… ele irá ficar comigo… — dizia como uma neurótica apaixonada, aproximando-se com a faca empunhada. — Eu serei só dele… e quem ousar chegar perto do meu Dracarys… morrerá também!

Aine avançou com tudo contra Saketsu.

Ele conseguiu reagir por muito pouco. Recebeu um corte na bochecha, mas conseguiu fazer com que Aine passasse por ele e saísse do quarto. Em vez de trancá-la do lado de fora, avançou imediatamente quando ela se virou, prensando-a contra a parede do corredor e imobilizando seus movimentos.

— Escute, Aine! Pare! Você não precisa fazer isso, não por ele! Dracarys não é quem você pensa que é! — tentou convencê-la, agora cara a cara com ela.

— Cale-se, Saketsu! Não ouse falar do meu amor assim! Eu vou te matar!

Aine reagia com unhas e dentes, como uma fera raivosa difícil de conter.

— Não, Aine! Por favor, me ouça! Pare! Ele só está te manipulando!

— Você não sabe de nada!

— NÃO ESTRAGUE SUA VIDA POR CAUSA DE UM LIXO COMO ELE!

O grito saiu com toda a força de seus pulmões.

Foi o suficiente para fazer Aine escutar.

Sua força desapareceu de repente, como se algo dentro dela tivesse cedido. A mão que segurava a faca — presa contra a parede pela de Saketsu — afrouxou, deixando a lâmina cair no chão. Seus olhos arregalados relaxaram e começaram a tremer, trazendo à tona emoções que pareciam submersas até então.

Ela se espantou ao perceber o que estava acontecendo.

— Você está bem? — perguntou Saketsu, preocupado, soltando-a e recuando um passo.

Ela não respondeu. Estava chocada demais.

— Aine?

— Saketsu… se afaste — interrompeu. — Se afaste… senão eu…

Desprevenido, Aine se agachou rapidamente e recuperou a faca com um movimento brusco.

Saketsu recuou para dentro do quarto.

Aine avançou novamente.

— Eu… não consigo… mais parar!

Tentava acertá-lo a todo custo. Mas algo estava diferente desta vez. Parecia que seu próprio corpo se movia contra sua vontade.

Lágrimas escorriam de seus olhos.

— Por favor, Saketsu… acabe comigo… Eu… eu não quero mais fazer isso… não sei por que prometi… eu quero parar… mas não consigo… me ajude!

Implorava em desespero.

O corpo de Saketsu reagia apenas por reflexo. Só percebeu que havia recuado novamente para fora do quarto quando sentiu as costas baterem contra a parede atrás de si.

Estava encurralado outra vez.

Aine teria agora a chance perfeita para atacá-lo com precisão.

Mas não atacou.

Ela se aproximava lentamente, com o corpo pesado, como se estivesse perdendo as forças. Parou ao lado dele e encostou a testa na parede.

Com a mão tremendo, levantou a faca até a altura do peito dele.

A ponta chegou a encostar, afundando levemente o tecido da roupa.

— Me desculpe…

— Aine… você não tem culpa de nada. A culpa é daquele maldito que te manipulou — disse sério, mantendo o olhar fixo à frente enquanto segurava calmamente, com as duas mãos, a mão dela que estava a um fio de cumprir a ordem recebida.

Aine soltou um riso leve e sincero. Isso chamou a atenção de Saketsu.

— Você é legal… Acho que... eu teria me apaixonado de verdade… Só queria ter te conhecido em outra circunstân…

Antes que pudesse terminar, seu corpo perdeu as forças restantes, junto com o brilho dos olhos.

Antes que Saketsu pudesse reagir para segurá-la, já era tarde.

O corpo de Aine pendeu para o lado e rolou escada abaixo.

Saketsu foi atrás para ajudá-la, mas ao descer o primeiro degrau paralisou diante da visão ao fim da escada.

O corpo de Aine estava caído de bruços, completamente imóvel.

Mas o mais perturbador era a poça de sangue sob ela. Seu próprio sangue, que vazava pelo ferimento profundo da faca cravada na garganta, ocasionado pela queda.

Pelo que se via, ela estava morta. Mesmo assim, Saketsu desceu rapidamente para tentar socorrê-la.

O cheiro de gás estava tão intenso que mal conseguia permanecer ali sem prender a respiração.

Os olhos de Aine estavam abertos e sem vida, o chão se encharcando cada vez mais com seu sangue. Era uma visão brutal. Um destino cruel que ela definitivamente não merecia.

Com expressão assustada, Saketsu não sabia o que fazer. Uma mistura de remorso, culpa e raiva começava a crescer dentro dele.

Sabia que ela havia morrido por sua causa.

De repente, notou algo escuro se formando sob o corpo dela: uma poça, mas não de sangue. Era uma sombra, onde algo começou a emergir, sendo mãos com braços em pele e osso, se agarrando no corpo da garota.

Pasmo, sem saber o que fazer, Saketsu apenas observou enquanto o corpo de Aine era puxado por aquelas mãos bizarras, desaparecendo completamente dentro da poça, restando apenas a substância escura, que começou a se comprimir lentamente… até desaparecer por completo.

Foi tarde demais quando percebeu que deveria fazer algo, qualquer coisa, mesmo que já não houvesse mais o que fazer.

O corpo de Aine havia sido levado, não se sabia para onde nem por quê.

Os joelhos de Saketsu cederam, o fazendo cair no chão, não sabendo se por exaustão ou por profunda decepção.

Tudo havia acontecido rápido demais. Ainda tentava processar o que tinha visto.

Aine estava morta, e ninguém jamais saberia, pois seu corpo havia sido levado por algo desconhecido, e, se contasse o que vira, ninguém acreditaria — talvez nem mesmo seus amigos.

Mas havia alguém que carregava a maior parte da culpa por tudo o que ocorreu: Dracarys. Só de pensar nesse nome, seus punhos se fecharam com força.

Decidido a não deixar aquilo passar impune, Saketsu se levantou e caminhou até a porta, abrindo-a com ferocidade.

Iria atrás de Dracarys, mesmo sem saber onde encontrá-lo. Caçaria aquele maldito a qualquer custo, e o destruiria, mesmo que tivesse que dar a própria vida para isso.

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