Volume 1
Capítulo 20: Separação e nova conciliação
O céu estava azul-cobalto, prestes a anoitecer. Um clima gélido percorria as ruas estreitas por onde Lana seguia vagarosamente. Seus pensamentos eram tristes, tão tristes que sua expressão e seu jeito de andar denunciavam uma depressão silenciosa.
Parecia que os sentimentos de dias atrás, que ela até havia esquecido e nunca imaginara voltar a sentir, retornavam agora com intensidade ainda maior.
Sentia que não havia lugar no mundo para si. Sentia que o amor sempre tentaria lhe escapar, não importasse o quanto tentasse agir diferente, fazer diferente, esperando resultados diferentes. Mesmo mudando seu jeito de ser, o fim sempre parecia o mesmo.
Parou. Olhou para o lado. Começou a observar uma casa com um pequeno portão de grade.
Um silêncio pesado e um ar melancólico pairavam sobre ela. Aparentemente estava vazia já fazia dias — a antiga residência de Iuri.
— Onde você está...
Lana sentiu um aperto frio no peito. Estava prestes a se afogar em lágrimas novamente.
De repente, algo vibrou entre suas mãos.
Era seu celular.
Pensou que fosse Saketsu ligando, outra vez. No entanto, quando viu a tela, se surpreendeu de tal forma que sua tristeza começou a se converter em felicidade: era seu pai quem havia mandado uma mensagem. Seu pai — a pessoa que ela não via e de quem não tivera nenhuma notícia há bastante tempo.
A mensagem dizia que ele estava de volta., já estava em casa, esperava por ela, para jantarem juntos.
Isso foi suficiente para alegrar Lana e fazê-la esquecer completamente dos problemas. Era a única pessoa que poderia realmente fazê-la feliz no momento.
Às pressas, começou a seguir rumo à casa.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Sozinho em seu quarto escuro, iluminado apenas pela claridade do computador, Saketsu navegava na internet com os olhos fixos na tela, embora sua mente estivesse em outro lugar, um lugar que o deixava desanimado.
Então sentiu algo estranho.
Virou rapidamente a cabeça para o lado.
Uma coisa rápida havia passado por ali, algo que não conseguiu identificar antes que se enfiasse para debaixo da cama.
Aquilo despertou suspeita.
Saketsu levantou-se e, com receio, aproximou-se para verificar o que havia se escondido ali.
Ao inclinar-se para olhar, de repente ouviu a porta do quarto ranger enquanto se abria lentamente.
Ao erguer os olhos, viu que era Lana.
Ela estava parada, com um aspecto perturbador, acentuado pela escuridão do ambiente.
Saketsu não disse nada, apenas sentiu estranheza ao vê-la imóvel daquele jeito.
Então Lana se moveu.
Começou a se aproximar lentamente, despindo-se do uniforme escolar de maneira um tanto... sedutora.
— Lana? — Saketsu ficou sem reação.
— Eu sou o que você está procurando aí embaixo, Saketsu…
Ela se aproximou ainda mais.
Saketsu sentiu o corpo nu dela abraçando-o.
Não que estivesse achando ruim, parte de si sempre desejara esse momento, mas algo não estava certo. A pele dela estava mais pálida, mais fria, e, ao mesmo tempo, estranhamente confortável, ao ponto de fazê-lo fechar os olhos e começar a se entregar automaticamente.
Conforme o contato continuava, sentia o abraço se intensificar cada vez mais. Mais forte. Mais apertado. Um abraço que envolvia seu corpo inteiro em voltas sucessivas.
Algo estava errado, era desproporcional demais para o porte dela!
Quando percebeu isso, Saketsu abriu os olhos para reagir — e sentiu o aperto aumentar ainda mais, esmagando-o.
Era tarde demais.
— Você me traiu, Saketsu... mas mesmo assim eu te quero... — sibilou a voz dela, calma e sensual junto ao seu ouvido.
Apesar da escuridão do quarto, Saketsu percebeu claramente que estava envolvido, do pescoço para baixo, por uma grossa e escamosa mangueira negra que o enrolava e o apertava cada vez mais.
A dor veio acompanhada pelo som dos seus ossos começando a trincar. Não demoraria para serem moídos completamente.
Tentou se mexer, mas foi inútil.
O sufoco começava a dominá-lo. O ar não entrava, e o pouco que restava em seus pulmões escapava rapidamente.
Foi então que notou uma cabeça surgir ao seu lado. Era a cabeça da serpente negra que o abraçava de modo fatal. Possuía olhos completamente vermelhos, diabólicos, e enormes presas que se abriam numa proporção suficiente para engoli-lo inteiro.
A mandíbula se arreganhou ainda mais. Então caiu sobre ele, devorando-o com uma única abocanhada brutal.
Saketsu acordou sentando-se rapidamente na cama, totalmente sem fôlego.
Olhou ao redor, percebendo que tinha acabado de sair de um terrível pesadelo.
Suspirou aliviado.
Ao mirar a ponta da cama, porém, viu um par de olhos vermelhos o observando. Teria se espantado, se não tivesse reconhecido imediatamente a quem pertenciam.
— Droga, Ukyi! — exclamou, frustrado.
Olhou para o relógio de LED no criado-mudo ao lado, notando que eram duas e duas da madrugada.
Ainda estava de uniforme. Devia ter adormecido sem perceber quando se deitou para refletir depois de ler a carta de Lana.
— O que está fazendo aqui a essas horas?
— Apenas lhe observando. Senti certa instabilidade em tua energia. Aconteceu algo?
— Não, só que…
De repente, notou gemidos abafados vindos do lado de fora.
Aproximou-se da janela com cuidado e observou dois zumbis-sobrenaturais vagando no meio da rua, aparentemente sem propósito algum.
Tranquilo por saber que não seriam problema — ainda mais se não o vissem — apenas puxou a cortina e voltou a sentar-se na cama.
Não tinha a mínima vontade de voltar a dormir, o pesadelo havia sido desconfortável demais, fazendo-o perder completamente o sono. Precisaria arrumar algo para fazer até dar a hora de ir à escola.
Desceu até a cozinha, ligou a luz, pegou três sanduíches da manhã passada e um copo de refrigerante, depois seguiu para a sala e ligou a TV.
Por sorte, um anime havia acabado de começar, ainda estava no primeiro episódio, um acaso perfeito.
Tentou acomodar-se confortavelmente no sofá para assistir.
Nos primeiros minutos ainda permaneceu um pouco abatido. O incômodo estranho no peito insistia em ficar. Mas, quando percebeu, a sensação já havia desaparecido. Tinha se esquecido do quanto era bom sentar no sofá e maratonar um anime.
Antes, era quase um compromisso diário, até que chegou aquele fatídico primeiro dia de aula de poucos dias atrás e tudo mudou.
Enfim, entre começos e finais de episódios empolgantes, o dia amanheceu.
Eram sete e sete quando Saketsu, depois de tomar banho, se arrumar e descer novamente até a sala, reparou no horário no canto da tela da TV.
Estava mais leve, mais relaxado. Sentou-se ao lado da mochila, apenas esperando a hora de ir à escola.
Assistia distraidamente a um programa aleatório de culinária quando uma estranheza o atravessou como uma lâmina. Era como se alguma coisa ali estivesse errada. E estava. A ausência de Lana havia deixado um grande vazio na casa.
Já havia se acostumado com a presença dela em todas as manhãs. Acordar no mesmo quarto. Comer torrada com geleia, que parecia ter um gosto especial quando feita pelas mãos dela.
Ela sempre fora gentil, sempre com um sorriso aconchegante, agora não havia nada disso.
Enquanto tentava compreender o motivo que a levou a ir embora, um plantão noticiário surgiu na TV, chamando sua atenção.
A jornalista, com o mesmo ar de terror de sempre, confirmava que o número de vítimas do coma já havia atingido o teto de 20% da população do país, e que várias delas haviam desaparecido sem deixar rastro algum. Ainda não existiam evidências concretas que explicassem o que estaria acontecendo.
Pelo jeito, o pouco que Saketsu sabia era bem mais que a imprensa. Sabia que os desaparecidos haviam se transformado em zumbis-sobrenaturais, e boa parte deles havia morrido — vários por suas próprias mãos.
Sabia também que Dracarys tinha alguma relação com isso. Nunca esquecera o dia em que o vira pela primeira vez, no meio daquela quantidade impressionante de zumbis. E, mais estranho ainda, desde aquele dia eles não haviam perturbado novamente.
De qualquer forma, Saketsu não podia relaxar, já havia caído nessa armadilha antes. Sentia — e de alguma forma sabia — que essa era a famosa calmaria antes da tempestade, e tudo o que podia fazer era se preparar e esperar que ela viesse.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Quando Saketsu chegou à escola e entrou na sala de aula, a primeira coisa que fez foi olhar para a carteira de Lana, novamente vazia.
— Bora, Sakê — apressou Tales, chegando atrás e dando leves empurrões no amigo que permanecia parado à porta com uma expressão preocupada.
Já sentados em seus lugares, Saketsu contou tudo a Tales sobre o que havia acontecido no dia anterior, incluindo o beijo entre ele e Aine.
— Não acredito! Seu primeiro beijo foi com a Aine?! — Tales mal conseguiu conter a surpresa.
— Xiu, cara! — Saketsu tentou silenciá-lo. — Sim, foi com ela... — E não se sentia nem um pouco confortável em dizer isso. — Mas não é isso que importa.
— Mas e Lana?
— Eu já disse: eu e ela não passávamos de simples amigos. O que nos fez ficarmos juntos foi todo esse negócio estranho que andou acontecendo…
— Foi mal, é que pensei que vocês realmente estavam juntos — desculpou-se Tales, parecendo meio constrangido. — Parecia que vocês se gostavam muito. Você não acha que, talvez, ela tenha visto você e Aine se beijando?
— Eu pensei nisso também. Afinal, foi a única coisa que daria motivo para ela se magoar comigo. Mas não foi culpa minha…
Nesse momento, Saketsu olhou em direção à porta justamente quando Aine entrava. Corada, ela deu um sorriso constrangido para ele e seguiu para seu lugar.
Saketsu desviou o olhar, incomodado. Não sabia como resolver aquela situação. Embora a culpa tivesse sido de Aine, não podia odiá-la. Ela parecia ser uma boa garota — e linda, por sinal — que apenas havia demonstrado seus sentimentos. Isso era errado? Ela só tinha sido ousada demais…
Quando mal percebeu, olhou novamente para a porta — e seus olhos se arregalaram.
Era Lana. Mas não foi isso que o surpreendeu: Dracarys estava ao lado dela. Eles estavam de mãos dadas!
Murmúrios começaram a correr pela sala, principalmente entre as garotas, enquanto Lana e Dracarys se separavam e seguiam para seus lugares.
Lana estava com Dracarys?
Desde quando?
Por quê?
Ninguém parecia acreditar. Muito menos Saketsu.
Talvez tivesse entendido errado. Tinha que ser isso.
Talvez tivessem apenas tocado as mãos por coincidência na hora que entraram…
Mas a expressão provocativa e maliciosa de Dracarys, do outro lado da sala, destruiu completamente essa tentativa de explicação.
Havia sido real.
Saketsu sentiu uma vontade imensa de partir para cima dele, mas se conteve graças a Tales, que disse:
— Calma, Saketsu. Não tem por que dar atenção a ele. Lana nunca faria isso…
E Saketsu percebeu que também acreditava nisso.
Ele contara tudo a ela. Lana sabia quem Dracarys realmente era. Se tivesse o mínimo de noção, não chegaria nem perto dele.
Mas essa certeza também desmoronou quando olhou novamente para ela.
Sentada em seu lugar, postura rígida, olhos fixos à frente, aguardando o início da aula, havia algo diferente nela, uma frieza estranha, intensa, quase como se fosse outra pessoa.
Interrompendo o momento, o professor Noah entrou na sala, cumprimentou os alunos e anunciou uma tarefa em dupla, fazendo com que todos começassem a arrastar suas mesas para se organizar com seus parceiros.
Saketsu não pensou duas vezes antes de ir até Lana, que permanecia parada em seu lugar, como se nada ao redor importasse.
— Ei, Lana, podemos conversar?
Ela o ignorou completamente.
— Lana?
— O que você quer, Saketsu? — perguntou friamente, sem sequer olhá-lo. — Achei que tinha deixado claro que você não deveria nem falar comigo.
— Mas...
Saketsu desviou o olhar para o canto, chateado. Nunca pensou que passaria por isso novamente. Lana costumava tratá-lo assim antigamente, mas agora era diferente, muito pior, depois de tudo que passaram...
— Saketsu, vamos fazer a tarefa juntos? — Aine surgiu de repente, segurando animada um dos braços dele.
Sem chance de reagir, Saketsu foi levado por ela enquanto ainda olhava para Lana, que não esboçava reação alguma.
Quando se sentaram, ele continuou observando as costas imóveis da garota amada. Foi então que viu Dracarys se aproximar. Ele puxou uma mesa próxima e sentou-se ao lado dela, apoiando o braço no encosto da cadeira para abraçá-la, virando-se em seguida para olhar Saketsu por cima do ombro, com um sorriso provocador.
Saketsu sentiu-se completamente humilhado, revoltado, frustrado. Sua vontade era levantar e destruir tudo. Mas não podia se descontrolar. Reconhecia a força superior de Dracarys, e Ukyi já havia dito, em um breve papo na madrugada, que era melhor evitar confronto, acontecesse o que acontecesse.
Sendo assim, teve que suportar a cena durante toda a aula sem poder fazer nada.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Depois da aula do professor Noah, Lana continuou fria e distante durante o restante do dia, interagindo apenas com Dracarys, como se ele fosse agora seu único “amigo”.
Eles não se separaram um instante.
Na hora de ir embora, silencioso e mantendo distância, Saketsu seguiu o mesmo caminho que os dois, observando-os caminhar de mãos dadas.
O pôr do sol à frente deles formava um enquadramento romântico digno de uma pintura, porém para Saketsu parecia um pesadelo, ainda mais quando precisou assistir ao beijo rápido que trocaram, seguido do sorriso carismático — e claramente falso — de Dracarys.
Se não fosse pelo longo cabelo negro e sedoso, pelas presilhas que prendiam sua franja para o lado esquerdo, pelos olhos verde-esmeralda que sempre foram lindos e agora pareciam vazios, Saketsu nem diria que aquela era Lana.
Queria acabar com isso, avançar e acertar um soco naquele maldito, mas de que adiantaria iniciar uma briga que sabia que não poderia vencer?
— Não esquenta, Saketsu — disse Enzo, tocando de repente seu ombro ao parar à sua frente. — Esquece ela. Bola pra frente, cara.
Saketsu respondeu apenas com um leve balançar de cabeça, nada convencido.
— Enzo, você vem? — chamou Inácia, à distância.
— Se precisar de alguma coisa, me avisa. — Ele olhou fundo nos olhos de Saketsu.
— Pode deixar. Valeu.
Eles se despediram.
Enzo seguiu com Inácia por outro caminho, enquanto Lana e Dracarys já haviam desaparecido de vista.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Já era noite. Saketsu estava em casa, deitado no sofá, olhando para o teto, sentindo-se péssimo.
A angústia era tão intensa que parecia a dor de ter um membro arrancado do próprio corpo.
Sempre fora apaixonado por Lana, sempre tentara de tudo para se aproximar dela, foi preciso até uma intervenção sobrenatural para que isso finalmente acontecesse, e agora simplesmente a perdera, por causa de um beijo roubado por uma garota que mal conhecia?
Será mesmo que Lana jogaria tudo fora por causa disso?
No meio desses pensamentos, a campainha tocou. Achou estranho, afinal quem poderia ser? Ninguém costumava aparecer a essa hora.
Talvez fosse Tales. Ou talvez…
Uma pequena chama de esperança acendeu dentro de si.
Mas, quando abriu a porta e viu quem era, sentiu o pouco de ânimo que havia surgido cair para o abismo.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios