Volume 1
Capítulo 16: Jovem misterioso
Saketsu saltava por cima das casas, telha após telha, enquanto gritos indignados ecoavam dos moradores despertados pelo estrondo em seus telhados, ninguém entendendo o que estava acontecendo. Atrás dele, os zumbis não davam trégua.
Controlava cada movimento com a máxima consciência possível. Não podia pisar em falso, não podia hesitar. Forçava o próprio corpo a sustentar o ritmo, ignorando o ardor nos músculos e a respiração cada vez mais pesada.
Arriscou um olhar por sobre o ombro para avaliar as chances de enfrentá-los. O que viu fez seu estômago revirar: estavam muito mais próximos do que imaginara.
— Na frente — alertou Ukyi.
Distraído por um segundo fatal, Saketsu virou o rosto e se deparou com um zumbi saltando diretamente em sua direção. Por puro reflexo, moveu a espada. A lâmina cortou o ar com precisão brutal, abrindo caminho através da criatura, que se partiu no próprio impulso do salto.
Havia sido por pouco.
Outros já vinham logo adiante. Pelas ruas abaixo, mais vultos corriam, os olhares fixos nele, calculando o momento exato para saltar até o telhado.
— Que saco! Será que esses malditos tiraram folga só para voltarem com tudo agora?!
Saltou para um edifício de térreo mais largo e seguiu avançando.
Dos dois lados, vultos surgiam por trás de caixas d’água e estruturas de outdoor. Dois zumbis investiram ao mesmo tempo, um por cada flanco.
Saketsu freou com um derrape brusco. As criaturas, sem tempo para reagir, colidiram no ponto exato onde ele estaria. Ele não desperdiçou a abertura: com um brado seco, desferiu cortes rápidos e precisos, abrindo espaço suficiente para continuar.
— Eles nunca foram tão ativos assim… isso está ficando difícil!
Os que vinham atrás estavam ainda mais próximos.
— Pelo jeito, só vamos sair desta situação se matarmos todos eles.
— Tu sabes que as chances são mínimas — retrucou Ukyi.
— Eu sei!
Voltou a correr. Correr e correr. Já não tinha noção da direção. Talvez aquilo só terminasse ao amanhecer, que era quando os zumbis desapareciam como sombras dissolvidas pela luz. Mas ainda faltavam muitas horas.
Forçou a mente em busca de uma saída. Pensou nas chamas negras — mas essa energia era exatamente o que os zumbis desejavam devorar. Usá-la seria alimentá-los.
Era frustrante possuir poder e não conseguir usá-lo.
Então a lembrança de Iuri emergiu. Recordava-se dos raios que o rival liberara pelo próprio corpo, da eficiência devastadora, da fenda aberta no asfalto pelo impacto de uma única rajada elétrica. Contra zumbis sobrenaturais, um ou dois ataques focados daquele tipo seriam suficientes.
Impacto. Era nisso que precisava apostar.
Saketsu parou abruptamente.
— Que estás fazendo, Saketsu? — perguntou a espada.
De cabeça baixa, ele não respondeu. Concentrou-se. Os passos rápidos se aproximavam; faltava pouco para o alcançarem.
A espada negra, antes opaca, começou a se clarear, envolvida por uma aura acinzentada e instável, um brilho trêmulo que pulsava como se respirasse.
Os primeiros zumbis da linha de frente saltaram sobre ele, que permanecia parado, de costas. Ele apenas calculava. Esperava o instante exato.
— Corte Sombrio: Self-Service das Trevas! — bradou, girando o corpo e rasgando o ar com um golpe amplo e violento.
A pressão do movimento condensou-se em uma rajada de energia cinzenta, larga e plana como uma lâmina colossal. Ela avançou pelo espaço, atravessando os zumbis que vinham, cortando-os e dissolvendo-os sob a intensidade do poder liberado.
A onda percorreu vários metros, retalhando dezenas no caminho. Aos poucos, porém, perdeu afiação, atingiu seu limite e se estilhaçou ao colidir contra outros corpos adiante.
Foi efetivo — mas insuficiente.
Comparado ao número total, havia eliminado apenas uma fração.
Frustrado, Saketsu calculou que precisaria disparar pelo menos mais dez rajadas daquele nível para dar conta de todos. O preço, no entanto, cobrou-se de imediato. O ataque drenara sua energia de forma brutal. Precisou firmar o pé esquerdo no chão para não perder o equilíbrio.
Então percebeu algo estranho: os zumbis haviam parado, pareciam atraídos por outra coisa.
A rajada desfeita espalhara fragmentos pela área — pequenos focos de chamas que antes eram claras e agora escureciam gradualmente, tornando-se totalmente obscuras.
As criaturas aproximaram-se delas e, num instante, começaram a disputar os fragmentos como animais famintos. Agarravam e devoravam-os.
Logo após engolirem, paralisaram.
Aparentemente, o sabor não era o que esperavam.
Começaram a segurar a própria garganta, línguas pendendo para fora, movimentos convulsivos.
Saketsu nunca experimentara a chamada “pimenta do diabo”, mas imaginava que, se fosse fiel ao nome, produziria aquele mesmo efeito. Os zumbis começaram a fritar de dentro para fora, fumaça escapando pelas bocas abertas em berros agonizantes.
— Mas o que está acontecendo…?
Os que ainda não haviam provado correram para pegar os restos deixados pelos companheiros e também mandaram para dentro, logo sofrendo do mesmo mal.
Tudo estava estranho demais.
E outra pergunta o atravessava: por que sua energia assumira aquela coloração?
Enfim, não era hora para pensar nisso. A situação ainda não tinha sido resolvida. Se havia uma chance de fugir, era agora.
Então voltou a correr.
Alguns zumbis, menos distraídos, notaram e retomaram a perseguição.
Saketsu avançava no máximo que conseguia, mas sentia a perda de eficiência nos movimentos. O cansaço roubava precisão; seus saltos já não alcançavam as alturas com a mesma segurança.
Mais adiante, avistou uma fábrica abandonada no meio de um campo aberto. Talvez ali houvesse uma chance de se esconder — ou ao menos recuperar o fôlego. Mas antes precisava distraí-los outra vez.
Ainda em movimento, concentrou energia na espada, que voltou a se clarear, e saltou para dentro de um beco, espalhando chamas acinzentadas pelo chão.
Como previra, os zumbis mergulharam ali e se deixaram distrair. Felizmente, não eram criaturas de grande inteligência.
A estratégia, porém, cobrou seu preço.
Continuou correndo com a velocidade reduzida a menos da metade. A garganta ardia de seca. O peito arfava implorando por pausa. Cada passo exigia mais do que o anterior.
Mas não podia parar.
Quando finalmente alcançou a fábrica, constatou que o lugar estava em ruínas — sem portas, sem vidros, sem qualquer vedação nas entradas. Ainda assim, era um refúgio possível. Um abrigo provisório.
Ao menos, ali poderia tentar recuperar um pouco do fôlego antes que a noite cobrasse o que ainda restava dele.
Sentou-se sob a moldura de uma janela quebrada e respirou fundo.
A primeira ideia que lhe atravessou a mente foi ligar para Lana.
Enfiou a mão no bolso, retirou o celular e apertou o botão lateral. Nada. Tentou outra vez. A tela permaneceu negra, inerte, como se o aparelho tivesse simplesmente pifado.
— Não vai funcionar. És só uma réplica — afirmou Ukyi, agora em forma de felino, parado ao lado, observando-o insistir.
— Como assim?
— Quando te desprendes do teu corpo, os acessórios em contato contigo podem ser projetados para o mesmo plano. É por isso que continuas com as mesmas roupas do teu corpo carnal. Contudo, as coisas replicadas não possuem a mesma constituição. Teu celular, tuas roupas e até mesmo tua pulseira de raizes são apenas clonagens ectoplásmicas, cópias sem componentes reais.
— Hum…
Saketsu deixou a nuca recostar na parede fria e suspirou. Sua mente estava pesada demais para assimilar explicações técnicas de Ukyi.
Os minutos ali pareceram devolver-lhe parte da energia, mas ainda era insuficiente para sair e enfrentar outra horda. Pelo menos, os zumbis-sobrenaturais não pareciam estar por perto, pois não se ouvia nada além do canto constante das cigarras na noite fresca.
Aproveitando o intervalo, mais pensamentos vieram.
— Ukyi, eu sei que quando estou fora do meu corpo as pessoas comuns não conseguem me ver. Lari era uma delas. Então como, do nada, ela passou a me enxergar?
— Foi graças ao vibristeneus, creio.
— Você fala daquele ser que se prendeu nela, né? Nome esquisito… O que realmente são… como é mesmo?
— Vibristeneus são entidades das trevas responsáveis por transformar pessoas no que chamas de zumbis-sobrenaturais. Agem à noite, enquanto as vítimas dormem. São fracos individualmente, mas drenam a energia vital pouco a pouco. Podem levar dias até esvaziar completamente alguém, deixando-a antes em estado de coma. Quando a energia se esgota, preenchem o vazio deixado pela alma e se fundem à vítima. O resultado é um zumbi-sobrenatural.
— Nossa… e você só me conta isso agora? E Lari? Ele a atacou acordada.
— Não sei por que aquele vibristeneus a atacou desperta. Mas foi graças a isso que ela conseguiu ver-te. Nunca soube de alguém que sobrevivesse a um vibristeneus. Suponho que, quando isso ocorre, o lado espiritual é desencadeado.
— Acho que entendi. A senhora Gardênia comentou algo parecido uma vez.
De fato, ela dissera que experiências de quase-morte abriam o corpo para o plano espiritual, sujeitando a pessoa à mediunidade, a capacidade de interagir com o lado espiritual. Não era a única forma, mas era uma das mais comuns. Entrar em contato direto com algo sobrenatural poderia provocar o mesmo efeito.
— Então quer dizer que Lari agora é médium… Cada dia é uma surpresa — murmurou, com uma risada desconfortável.
Primeiro Iuri. Depois Lana. Esther. Agora Lari.
Saketsu começava a enxergar a mediunidade como uma maldição disfarçada de dom. Noites em claro, insegurança constante, vultos à espreita, a impossibilidade de baixar a guarda. Ele vivera assim desde sempre. Não queria que seus amigos fossem arrastados para o mesmo abismo.
— Falando nisso… que tal começarmos a treinar sério de agora em diante, Ukyi?
O felino moveu as orelhas.
— Seria prudente.
— Quando usei aquele ataque, causamos um dano enorme. Meu poder não é o melhor contra eles, mas quando carreguei minha energia em você e a liberei… foi tão eficaz quanto quando você os corta.
A cena retornava vívida à sua mente.
— Eu nem sabia direito o que estava fazendo, mas funcionou. Se juntarmos nossas forças, podemos lidar com eles com muito mais facilidade!
— Devo parabenizar-te por aquela ação — respondeu Ukyi com calma. — Contudo, não será simples replicá-la. Nossos poderes não se harmonizam com facilidade. O meu combate as trevas; o teu é de trevas. Para que tal técnica funcione, é necessária grande quantidade de energia vinda de ti. Um único ataque levou-te à exaustão, como podes ver. Não creio que seja compensatório.
— Então estamos ferrados…
Um ruído estranho cortou o silêncio da fábrica.
— Já chegaram aqui? — murmurou Saketsu, erguendo-se apenas o suficiente para espiar pela janela, com cautela.
O que viu fez seus olhos se arregalarem.
Zumbis-sobrenaturais caminhavam errantes diante do edifício. Muitos. Talvez mais do que antes.
— Só irão atacá-lo se o virem — alertou Ukyi.
Saketsu voltou a se sentar, a nuca pressionada contra a parede, os olhos fechados. O corpo inteiro estava tenso. Restava-lhe apenas permanecer imóvel e atento, escutando os passos arrastados e os gemidos que se misturavam ao farfalhar do gramado.
Quase um minuto se passou, até que, de repente, tudo cessou.
Nenhum passo. Nenhum gemido.
O silêncio foi abrupto demais.
Ele não os ouvira se afastar. A impressão era outra: estavam ali, mas imóveis — como estátuas cravadas na noite.
— Eles ainda estão lá — confirmou Ukyi, quando Saketsu começou a se mover com cuidado.
Algo estava errado. O suor escorreu pelo rosto do garoto. O coração martelava no peito. A vontade de olhar era quase irresistível.
Antes que cedesse, os passos recomeçaram — agora indicando afastamento. Gradual. Organizado.
Saketsu aguardou alguns segundos e tornou a espiar.
Os zumbis estavam realmente indo embora. Mas havia algo — alguém — entre eles.
Um rapaz permanecia parado no meio da multidão que se retirava.
Diferente de qualquer zumbi-sobrenatural, ele parecia conservar plena humanidade.
Tinha a mesma faixa etária de Saketsu. Cabelos longos e negros presos em um elegante rabo de cavalo, franja caída sobre o rosto, acentuando traços atraentes e frios. Vestia roupas escuras de tecido refinado, adornadas com detalhes em couro e metal, além de uma capa que lhe conferia imponência. Havia nele uma aura de nobreza antiga — lembrava um príncipe medieval deslocado no tempo.
Imóvel e soberano, ele olhava diretamente na direção da janela. Não era um olhar vazio. Era consciente. Egocêntrico. Malicioso.
Um pressentimento pesado se instalou no estômago de Saketsu. Ele tinha certeza de que o rapaz sabia que ele estava ali. Mas, se sabia… por que não fazia nada?
Ainda oculto o máximo que podia, Saketsu continuou observando enquanto os zumbis passavam ao redor do estranho como servos obedientes.
Quem era ele?
Por que as criaturas não eram atraídas por sua energia?
Seria ele um deles? Ou pior — seria ele a razão pela qual os zumbis estarem agindo de maneira tão anormal?
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