Volume 1
Capítulo 11: Um dia tranquilo
Finalmente era sábado, meio-dia. O sol, alto no céu, brilhava forte, compensando a ausência dos últimos dias. O clima estava bom, perfeito para sair e aproveitar.
Em uma pracinha no centro da pequena cidade de Veraluz, Enzo e Inácia estavam sentados em um banco em frente a uma fonte de água; no banco ao lado encontravam-se Tales e Lari.
— Ah, finalmente final de semana, glória! — comemorou Tales, esticando-se preguiçosamente sobre o banco e, em seguida, apoiando um braço sobre o ombro de Lari, que mantinha uma expressão calma e sorria de leve.
— Afinal, cadê Saketsu e Lana que não chegam? — perguntou Inácia, já impaciente por esperar.
— Falando no diabo… — Enzo comentou, olhando além dela, referindo-se aos dois que se aproximavam tranquilos e bem descansados.
— Ei, Saketsu, você demorou, cara! — Tales levantou-se do banco e foi ao encontro dele.
— Foi mal, eu tava… você sabe — insinuou Lana apontando-a com a cabeça, como se fosse ela que tivesse demorado para se arrumar.
Lari se aproximou dos dois, com Tales passando o braço por sua cintura e a puxando para perto. Ela era bonita: tinha cabelos cor de caramelo, meio ondulados, presos em um rabo de cavalo com uma fita branca em forma de borboleta, pele clara e olhos castanhos.
— Lari, há quanto tempo — cumprimentou Saketsu. — Então quer dizer que agora você é a sofredora do Tales?
— Virou palhaço agora, Saketsu? — respondeu ela, fingindo-se de emburrada, o que arrancou uma risada dele. Por um breve momento, parecia que haviam voltado à época em que eram crianças.
Todos ali se conheciam há muito tempo. Cresceram estudando juntos, mas Lari, depois do fundamental no ano passado, fora para uma escola diferente. Eles entraram em contato recentemente por causa da festa e, a partir disso, começaram uma nova “amizade” que não demorou a virar um namoro oficial.
— Bom, vamos nessa? — Enzo tomou a iniciativa, aproximando-se com Inácia ao seu lado. — Temos o dia e a noite de diversão pela frente.
Com mochilas nas costas, seguiram até um ponto próximo para pegar o ônibus que os levaria à cidade vizinha. Diferente de Veraluz, que era monótona e sem grandes atrativos, aquela cidade era movimentada, cheia de comércios, luzes e um enorme parque digno de ser chamado de “diversão”.
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Sentado no fundo do ônibus, enquanto os amigos conversavam e faziam palhaçadas, Saketsu acabou se perdendo em seus próprios pensamentos. A lembrança do dia anterior na escola voltou com força.
Durante o intervalo, ele havia encontrado Dalton no corredor, conversando com a diretora Cari. Só o percebeu de verdade quando os dois encerraram a conversa e Dalton veio em sua direção.
Ele passou direto, sem sequer trocar olhares. Mesmo assim, deixou Saketsu paralisado, como se o choque só se dissipasse quando Dalton já estava longe e Cari o cumprimentara com um aceno simpático.
— Afinal, o que aquele homem faz aqui? — Saketsu perguntou, aproximando-se dela.
— Ah, Dalton veio fazer uma investigação da segurança da escola, por causa desses casos de pessoas entrando em coma. Ele é um grande amigo do meu pai, conheço ele desde pequena.
— Hum…
— Sabe, nem sempre ele foi frio e distante como é hoje. Mas também, depois do que ele passou, não é de se surpreender.
— Como assim? — Saketsu se interessou de verdade.
Cari começou a andar, e ele a acompanhou.
— Há alguns anos, a esposa e a filha dele foram mortas brutalmente. Ele conseguiu capturar o assassino, mas isso não aliviou o peso da perda nenhum pouco. Depois disso, ele simplesmente se fechou.
Saketsu sentiu um choque silencioso. Conseguia imaginar a dor de perder alguém tão próximo. Era digno de pena. Contudo, lembrar que fora sequestrado por ele, e que pessoas inocentes morreram por causa disso, apagava qualquer compaixão.
Aquele cara era um maníaco desgraçado.
— Dalton disse algo sobre mim?
— Só pediu para eu ficar de olho em você.
— Hã?
— Também não entendi muito bem. Aconteceu algo entre vocês?
Saketsu abriu a boca, quase contando, mas se lembrou de Ukyi dizendo que seria melhor não falar para ninguém da situação, que a luta já não pertencia mais às pessoas comuns, e que caso estas intervissem só pioraria ainda mais as coisas.
— Nada demais. Só acho que ele não é alguém confiável.
Cari riu.
— Fica tranquilo, Saketsu. O jeito carrancudo dele assusta, mas ele é uma pessoa do bem, acredite.
— Só peço que, se algo acontecer comigo, considere que Dalton pode ter culpa — disse sério demais para ser brincadeira.
Ela franziu o rosto, confusa.
— Hum… tá bom.
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De volta ao presente, ao descerem na entrada do parque, os olhos dos jovens brilharam diante dos brinquedos colossais.
Depois de comprarem os ingressos e passarem pela roleta, era como se entrassem em outro mundo. Pareciam crianças maravilhadas. Até Enzo demonstrava certa empolgação, ainda que contida.
— Pessoal — chamou ele, erguendo a voz por causa da barulheira —, com essa multidão é bem possível que a gente possa acabar se perdendo. Se isso acontecer, nos encontramos lá. — Apontou para uma grande torre no centro do parque.
Todos concordaram e já começaram a se espalhar, excitados, vagando pelo pátio lotado, observando tudo ao redor.
Enzo e Inácia logo desapareceram de vista — talvez de propósito —, mas ninguém percebeu. Saketsu e Tales se distraíram com uma barraca de tiro ao alvo cheia de prêmios chamativos.
— Ei, Saketsu! Que tal uma aposta? — provocou Tales.
— Tá pedindo pra perder, é? — Saketsu respondeu no mesmo tom.
— Ai, ai… quando esses dois se juntam, a infantilidade é invocada — comentou Lari ao lado de Lana.
— Pois é — Lana sorriu.
O rifle disparou, e Saketsu logo se frustrou: o jogo mal começara e ele já estava atrás.
— Então… quando foi que você e Saketsu começaram a namorar? — perguntou Lari, curiosa.
— Hã? Eu e ele não somos… — Lana corou, sem jeito.
— Não?
— Tcharam! — Tales surgiu de repente com um urso quase do tamanho dele. — Pra você, amor!
— Ah, obrigada! — Lari sorriu encantada, abraçando o presente.
Saketsu vinha atrás, distraído, analisando um monte de figurinhas uma a uma. Parou ao perceber o olhar levemente emburrado de Lana. Demorou, mas entendeu quando viu Lari agradecendo Tales pelo presente.
Ele sorriu sem graça. Talvez devesse ter feito o mesmo. Mas, na hora, seu desejo fora sequestrado pelas cartas de edição limitada de Fincs&Fancs.
Mais tarde, continuavam andando pelo parque. Saketsu e Tales corriam para cada barraca de jogos, voltando com brindes, enquanto Lana e Lari caminhavam conversando sobre coisas de meninas.
Na última barraca, Saketsu resistiu à tentação de pegar algo para si e, depois de pedir ajuda a Tales, escolheu uma pulseira cheia de estrelinhas e luazinhas. Ao entregá-la, Lana ficou visivelmente encantada.
— Vem, agora chega de presentes. A gente veio pra se divertir juntos — disse Lari, puxando Tales.
— Sim! — Lana fez o mesmo com Saketsu.
Eles foram no bate-bate, onde Saketsu e Lana conseguiram atropelar grandiosamente Tales e Lari; foram na colossal montanha-russa, onde Lari ficara muito tensa; e depois foram no barco-viking, onde Saketsu se sentira completamente enjoado e quase chorara para descer.
Eram para ter ido na Casa Assombrada, mas Saketsu não quis, dando uma desculpa estranha sobre ser um lugar ideal para ataques inimigos.
Tales e Lari debocharam acreditando que ele estava com medo. Lana percebeu que havia um receio ali por conta de tudo que andara acontecendo e não insistiu, ela o entendia.
Por fim, estavam em uma cabine da roda-gigante, os dois casais frente a frente, observando o pôr do sol se esconder atrás dos prédios da cidade.
Era bonito demais. Por alguns instantes, parecia que nenhum problema existia.
Quando desceram do brinquedo, uma mensagem de Enzo chegou no celular de Tales pedindo que se encontrassem na torre do centro, então seguiram para lá.
De longe, viram Inácia acenando no meio da multidão. Ao chegarem, jogaram-se preguiçosamente nas cadeiras do restaurante dali.
— Ah… cansei — murmurou Saketsu.
— E que fome — completou Tales. — Foi tão bom que nem lembrei do meu querido estômago.
— E é bom aproveitar pra repor as energias agora. Ainda temos a festa — comentou Inácia.
— É… — Tales lembrou, e apesar do cansaço, ficou ainda mais empolgado.
A escuridão começava a dominar o céu. Enquanto um funcionário servia porções de fritas sobre a mesa, Lana fitou Saketsu, que retribuiu o olhar. Existia uma tensão silenciosa entre os dois. Ambos sabiam que a noite estava chegando — e com ela, possíveis perigos sobrenaturais: zumbis, criaturas obscuras e coisas que só Deus sabia.
Saketsu chegou a dizer que não estava a fim de ir para a festa. Tales, porém, parou de morder a batata frita na mesma hora.
— Vai sim — afirmou. — Nem que eu tenha que te arrastar.
E foi quase isso que aconteceu.
Depois de deixarem o parque e voltarem da cidade movimentada para a região pacata onde moravam, desceram em um ponto mais distante por falta de opção e seguiram a pé até a casa de Elisa, onde a festa aconteceria.
Lana caminhava ao lado de Saketsu. O silêncio pensativo dele denunciava a preocupação: a qualquer momento algo sobrenatural poderia surgir, colocando todos em risco.
Como forma de mostrar que estava ali, ela segurou sua mão. Saketsu se surpreendeu com o toque e a olhou. Lana sorria despreocupada, um sorriso simples que, sem dizer nada, parecia afirmar que estava tudo bem.
Aos poucos, ele se sentiu mais tranquilo.
— Até que enfim — murmurou Lari para Tales, ao notar a cena quando olhou discretamente para trás.
Não demorou e chegaram a uma linda casa branca, com um jardim bem cuidado no hall de entrada. Dava para ouvir, de fora, o som abafado da música.
A campainha tocou, e Elisa abriu a porta quase no mesmo instante.
— Vocês vieram! Entrem, entrem! — recepcionou animada. — São pra mim? — perguntou sonhadora ao ver as sacolas e, principalmente, o enorme urso nos braços de Lari.
Se por fora a casa já era bonita, por dentro era ainda mais. A sala era espaçosa e luxuosa. Havia outros cinco convidados, bebendo refrigerante e comendo guloseimas das mesas posicionadas nos cantos.
— Sejam bem-vindos, fiquem à vontade — disse Elisa, fechando a porta atrás deles.
— Nossa, os outros não chegaram ainda? — perguntou Lana.
— Não. E nem vão — respondeu Esther, aproximando-se com dois copos de refri e entregando um a Lana. — Alguns disseram que tinham compromissos “mais importantes”. Outros acham que, só por estarem no primeiro ano do colegial, já são maduros demais pra isso.
— Nessa parte eles têm razão — interrompeu Tito, um jovem corpulento, egocêntrico, o típico idiota valentão que toda turma tem. — Eu só vim por causa da comida mesmo. — Ele mastigava um salgado e já levava outro à boca.
— Mas é bom ser só a gente. Quanto menos pessoas, mais confortável — comentou uma outra garota, Agatha.
Um garoto sentado no sofá concordou apenas com a cabeça. Observava em silêncio, sem quase nenhuma expressão. Era Heitor, sempre estranho, antissocial até mais que Enzo e Iuri juntos.
Todos ali haviam sido alunos do mesmo quarto ano. Estavam reunidos para a chamada “Festa Tradicional”, em comemoração por um dia ter vencido o Maldito Professor Abusador. Desde então, tornara-se costume se reunir no primeiro fim de semana do ano letivo, independente se estivessem em classes ou escolas diferentes, ou até mesmo se não estivessem estudando.
Mas neste ano, a maioria desistira. Até Saketsu iria fazer isso, se não fosse por Lana e Tales terem insistido.
— Então… como vai ser dessa vez? — perguntou Tales, quando todos já estavam sentados no sofá circular.
Tito pigarreou, tentando parecer importante.
— Eu e Nino demos um jeito de mudar as coisas. Fomos até o cemitério onde o “professor” tá enterrado e ajeitamos tudo pra gente invadir e zoar lá dentro.
— O quê? Vocês fariam isso mesmo? — Agatha arregalou os olhos. — Isso não vai dar certo…
— Claro que vai! — defendeu Nino.
Agatha olhou em volta buscando apoio, mas encontrou apenas expressões curiosas e interessadas. Suspirou, vencida.
Depois de decidirem, ainda ficaram mais um tempo aproveitando a casa.
Comiam, conversavam e riam. Saketsu, porém, estava num canto com Lana, falando baixo. Não conseguia relaxar. Sentia que estar ali era um risco para todos. Lana concordava, mas também queria aproveitar aquela rara chance de ser apenas normal.
Antes que ela dissesse algo, Tito se aproximou, envolvendo Lana pelo ombro e encarando Saketsu com provocação.
— E aí, Sakezinho, curtindo a festa?
Saketsu ficou tenso. Mas Tito já ignorava ele e focava no rosto de Lana, perto demais, sentindo o perfume dela.
— Que foi? Não gosta de carinho? — provocou quando ela tentou se afastar. — Eu sei que você gostava do Iuri, mas ele nem tá mais na cidade. Você precisa de um novo homem do seu lado… um homem como eu.
A raiva subiu pela cabeça de Saketsu. Seus punhos se fecharam.
— Por que você não vai encher outro alguém, lixo? — disparou.
— Opa, não ouvi direito por causa da música — zombou Tito. — Tá com ciúmes?
— Relaxa aí, “Sakezinho” — Nino entrou na onda.
Tito escorregou o braço ainda mais pelo ombro de Lana, apalpando de leve e passando a língua no canto da orelha dela.
Aquilo foi o limite.
Os olhos de Saketsu se encheram de ódio.
— Desgraçado!
Ele avançou. Tito empurrou Lana para o lado e partiu pra cima também.
Os dois trocaram socos. Por um instante, cada um mantinha o punho pressionado no rosto do outro. No segundo seguinte, ficou claro quem sentira mais: Saketsu recuou quase caindo, limpando o sangue da boca com as costas da mão.
Mesmo assim, o olhar dele só queimava.
Ia avançar de novo.
— Já chega! — Lana se colocou entre os dois.
— O que tá acontecendo?! — perguntou Elisa, levantando do sofá.
— Por que você convidou esse lixo?! — gritou Saketsu.
Ele já carregava ódio por Tito desde o passado: provocações, agressões, humilhações. Tudo dormia dentro dele… até vê-lo assediar a pessoa mais importante bem diante de seus olhos.
Agora, não conseguia sequer olhar para Tito sem querer quebrar o maldito rosto dele.
Tito mantinha o sorriso debochado.
— Tito, eu deixei você entrar com a condição de não arrumar confusão — repreendeu Elisa. — Por que você sempre faz isso?
— Foi ele que começou.
— Mentira! — rebateu Lana.
— Por céus… — uma voz firme cortou o ambiente.
Inácia havia se levantado.
Seu olhar era sinistro, pesado, quase sufocante.
— Vocês ainda não largaram esse tipo de coisa? Já somos quase adultos e continuam com briguinhas fúteis? Querem que eu ensine como se comportar direito?
O tom não tinha nada de amigável.
Tito desviou o rosto, frustrado, e ficou em silêncio. Os outros também.
— Não sei se você tem sorte ou azar por ter uma namorada dessas — Tales murmurou para Enzo, que apenas sorriu, orgulhoso.
Saketsu continou encarando Tito, não sabendo quanto mais se seguraria para esmurrá-lo até suas mãos se arregaçarem junto.
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