Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 12: Festa Tradicional

Depois do desentendimento entre Saketsu e Tito, tudo voltou ao normal.

Saketsu e Lana estavam sentados em outro canto; ela o tratara depois de Esther trazer um saco de gelo para o inchaço que o soco de Tito causara bem no lado direito do rosto. Tito, por outro lado, estava ótimo: ele e Nino enchiam os bolsos de salgadinhos como se nada tivesse acontecido.

— Não ligue, Saketsu, você sabe que o Tito não tem jeito, não adianta perder tempo com ele — dizia Esther ainda próxima deles, tentando fazer o que podia para ajudar.

— Esse cara nem devia estar aqui — disse Saketsu, inconformado.

— Eu não sei por que vocês, meninos, gostam tanto de brigar à toa.

— Você não viu o que ele fez?! — exaltou-se.

— Nossa, desculpe, não está mais aqui quem falou — Esther chegou a arregalar os olhos.

— Não se preocupe, Esther, é que Saketsu está um pouco tenso hoje — comentou Lana.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada demais — mentiu.

Esther olhou para Saketsu, que ficou ainda pior. Ela tinha certeza de que Lana estava deixando de contar alguma coisa. Com uma certa desconfiança, sua intuição gritava alto, como sempre, mas não podia fazer nada além de aceitar.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Nove horas da noite ainda era um pouco cedo, o que tornava a ida ao cemitério menos interessante, mas mesmo assim decidiram ir, já que ficar na casa de Elisa estava perdendo a graça, mesmo com jogos, comida e karaokê.

Estavam ansiosos pelo que julgavam mais importante: visitar o antigo professor só para lembrar quem é que havia vencido no final.

Foram cerca de quinze minutos de caminhada que pareceram um instante até o cemitério, no alto de uma colina. O portão estava trancado, então tiveram de dar a volta, passando por uma trilha que Tito e Nino improvisaram no matagal até chegar aos fundos, onde alguns entulhos estavam ajeitados para que pudessem subir e pular o muro, que nem era tão alto assim.

Depois de entrarem, um a um, Lana e Saketsu por último, eles se depararam com um grande vazio preenchido por inúmeros túmulos.

A noite estava bastante estrelada, e uma lua grande pairava sobre suas cabeças, deixando o ambiente claro o suficiente para tornar inúteis as lanternas que cada um carregava.

Sem enrolação, começaram a seguir por entre os túmulos, contendo o medo e a hesitação por invadirem aquele espaço sombrio na escuridão.

Tito era o único que se portava como o “machão” — pelo menos até ouvir um ruído e ver um pequeno vulto passando atrás de um túmulo, o que o fez se assustar e recuar dois passos. Quando Enzo foi checar com cautela, concluíram que não passava de um gato rajado.

— Vocês pelo menos sabem onde fica o túmulo dele, né? Já estamos andando há minutos! — reclamou Esther, de braços cruzados e um pouco retraída, mais tensa que os outros, com calafrios leves que só ela parecia sentir.

— Claro, pô! É bem ali. — Tito apontou para uma placa de pedra coberta de musgo e muito malcuidada, com pedaços faltando, como se ninguém lhe desse atenção havia muito tempo.

— Então é aqui… o túmulo dele — disse Enzo, encarando a lápide depois de ajeitar os óculos, frio e sério.

— Não sei como ainda se deram ao trabalho de fazer isso por ele — comentou Tales, amargurado.

— Mas, afinal, o que viemos fazer aqui mesmo? — perguntou Agatha.

— Viemos zoar essa porra! — Tito chutou o concreto com agressividade, posando de rebelde insano.

Era visível que todos ali guardavam um certo ódio pelo homem que jazia sob aquela desprezível placa de cimento.

Heitor, o garoto mais antissocial do grupo, de repente e em silêncio agachou-se e começou a abrir a mochila. Os outros olharam confusos, até vê-lo tirar de dentro uma placa de madeira.

— Eh… Heitor, o que é isso? — perguntou Elisa, já desconfiando do que era, ainda mais quando ele colocou no chão a tábua cheia de letras e números, junto de uma grande palheta de madeira.

— Achei que seria uma situação ideal para fazermos isso — respondeu Heitor, no tom baixo e neutro de sempre.

Era uma Tábua Ouija. Tito abriu um sorriso.

— Fez uma, hein, nerdão? Finalmente algo que não é coisa de baitola.

Enquanto isso, Nino abria a mochila e tirava algumas velas, que Tito pegava para posicionar ao redor antes de acendê-las.

— A gente já pretendia fazer algo assim. Agora vai ficar mais divertido, hehe.

Esther observava tudo com uma preocupação que nem ela entendia. Não era como se achasse errado, mas também não parecia certo. Era como um sensor interno de perigo, trazendo calafrios estranhos e irregulares.

Saketsu se aproximou e parou ao lado dela.

— Você está bem? — perguntou mais para puxar assunto.

— Estou — sorriu. E estava mesmo; só se sentia um pouco estranha.

— Foi mal por ter gritado com você naquela hora.

— Hm… não, relaxa. Mas e você, está bem?

— É… acho que sim — refletiu.

— Vi que você e Lana se aproximaram bastante. Isso me deixou feliz — sorriu. — Sei que você é legal, Saketsu, e ela também. — Esther olhou rapidamente para Lana, que ajudava os outros com as velas. — Ela já passou por muita coisa, merece alguém que cuide dela. Estou contando com você.

— Com certeza — prometeu Saketsu.

Lana voltou até eles.

— Tudo pronto. Não quer participar, Esther?

— Ah… tá. Tá bom. — Ela começou a ir. — Você não vai também?

— Dessa vez eu passo — respondeu Lana, ficando ao lado de Saketsu.

Todos se sentaram em volta da Tábua Ouija, mas apenas os seis mais próximos participariam de verdade: Tito, Nino, Esther, Elisa, Lari e Heitor. Os outros decidiram apenas assistir.

Cada um colocou o dedo indicador sobre a peça, esperando para ver quem daria início ao “jogo”. Sem hesitar, Elisa perguntou em alto e bom som:

— Tem algum espírito aqui?

Todos ficaram receosos, quase imóveis, atentos a qualquer sinal que pudesse surgir. Os segundos passaram… e nada aconteceu. Então Elisa decidiu tentar de novo:

— Se tiver algum espírito aqui, nos responda, por favor.

Mais alguns segundos se escoaram e, como antes, nada aconteceu. Já estavam começando a desistir — não porque não estivesse funcionando, mas porque a tensão aumentava, como se a consciência de que estavam fazendo algo errado surgisse, fazendo-os se sentirem estranhamente culpados. Mas como ninguém se manifestava…

— Eu não sei vocês, mas eu vou parar — disse Esther, tomando a iniciativa.

Ela fez um movimento cuidadoso para tirar o dedo da peça quando, de repente, um barulho oco e metálico ecoou. Todos se espantaram e ficaram congelados, estupefatos, os ouvidos atentos, até conseguirem distinguir o som que reverberava pelo cemitério: uma latinha rolando em algum lugar.

— Tenho certeza que foi aquele gato — disse Tales, com um sorriso tenso.

— Ou o vento — contrapôs Agatha.

Embora todos ainda mantivessem a ponta dos dedos sobre a peça, Elisa era a única realmente focada. Então, de forma repentina e pegando todos desprevenidos, ela perguntou:

— Eu sei que tem alguém aqui. Tem como nos responder uma pergunta?

Para o espanto geral, a peça começou a se mover pelo tabuleiro, lenta e pesada, como se exigisse esforço, até parar no “Sim”.

Todos prenderam a respiração. Até mesmo os que estavam de fora ficaram atentos. O silêncio permitiu ouvir uma brisa gélida surgindo no mesmo instante, fazendo as chamas das velas ao redor tremularem. Sim… parecia que o que eles tanto queriam finalmente estava acontecendo.

Mesmo inseguros, carregados por um medo contido, começaram a fazer várias perguntas, indo das mais simples às mais profundas: “Há quanto tempo você morreu?”, “Como você morreu?”, e a peça respondia.

Até ali descobriram que o espírito se chamava Fran, um homem de trinta e quatro anos, que viveu em Veraluz desde que nasceu e morrera de ataque cardíaco, dez anos atrás.

Perguntaram também se o espírito conhecia o antigo professor deles, e a resposta foi positiva.

Eles não acreditavam cem por cento que aquilo fosse real — alguém poderia simplesmente estar empurrando a peça com sutileza —, mas como ninguém tinha coragem de contestar, continuavam seguindo adiante no que haviam decidido começar.

Por outro lado, Saketsu observava aturdido. Ele via uma espécie de fumaça espectral emanando de seus amigos e se unindo numa massa obscura acima de suas cabeças, como se estivesse se alimentando deles. Saketsu chegou a coçar os olhos para se certificar de que não estava imaginando, mas não estava: era real. E Lana também parecia enxergar aquela energia que ganhava cada vez mais intensidade, começando a assumir uma forma ainda indefinida, mas claramente viva.

— Mas então… Endrick, nosso antigo professor lixoso, está no Céu ou no Inferno? — Tito fez a pergunta que todos queriam, mas ninguém tivera coragem de lançar.

O grupo inteiro se paralisou, mais tenso que antes. A peça não se moveu. Parecia pensar, hesitar — ou talvez o suposto espírito tivesse simplesmente ido embora.

— Acho que isso não foi uma boa ideia — Elisa se agitou, temerosa, sentindo o mesmo que os outros, como se tivessem acabado de cometer uma violação. — Céu e Inferno são coisas muito delicadas quando se fala de sobrenatural. É quase um tabu.

— Ué, o assunto principal é esse maldito. Precisamos saber se ele teve o destino que merece.

— Gente, sério, vamos encerrar isso. A gente não sabe com o que está mexendo… — pediu Esther.

— Cala a boca, sua bosta! — Tito se enfureceu.

Ele claramente não entendia o que estava acontecendo, e dava para perceber que a coisa sobrenatural se formando acima deles começava a afetar o emocional do grupo, puxando tudo para um lado mais sombrio.

— Pessoal… acho melhor a gente sair daqui… — disse Lana em seguida, mas seu olhar não estava nos outros. Mirava algo mais além.

Todos acompanharam o olhar dela.

No caminho, um pouco distante, havia um homem. A nuvem que estava de passagem cobria a luz do luar, impedindo ver mais do que sua silhueta, mas nela já se percebia uma ameaça — ainda mais quando notaram uma barra de metal na mão esquerda e, na direita, algo parecido com garras afiadas.

— Eu sabia que isso não ia dar certo — ralhou Agatha, enquanto todos se levantavam às pressas.

— Vamos vazar! — Tito disparou junto de Nino, sendo os primeiros a correr.

Os outros, sem nem recolher as coisas, correram também.

Sem olhar para trás para ver se o homem os seguia, avançaram até o ponto por onde haviam entrado e começaram a escalar o muro, por onde só passava um por vez, criando um pequeno caos.

Estavam tão desesperados que, ao subir, já saltavam e se erguiam da grama quase sem parar para continuar a fuga.

Saketsu e Lana foram os últimos outra vez.

O grupo corria quando Enzo percebeu algo. Tito e Nino estavam mais à frente. Heitor também — dava para ver suas sombras e as lanternas. O restante estava ao redor dele… todos, exceto...

Ele parou abruptamente. Os outros pararam junto.

— Que foi, Enzo? — perguntou Tales.

— Cadê a…

— Não… não… não! — ouviu-se uma voz esganiçada suplicando entre gemidos e pancadas abafadas. Era Agatha. — Por favor… se afasta… sai… não…

Os sons deixavam claro: o homem a havia alcançado. Estava fazendo algo com ela, espancando-a brutalmente… até que ela silenciou.

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