Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 10: Conciliação

A água quente do chuveiro caía sobre o garoto, espalhando vapor por todo o banheiro, mas não chegava nem perto de ser suficiente para confortá-lo.

Saketsu estava com a testa apoiada no ladrilho frio da parede. Lágrimas de remorso escorriam e se misturavam à água do banho. Nunca se odiara tanto. A única coisa que conseguia dizer era “perdão”: perdão por ter perdido o controle e matado alguém, perdão por não ter tido forças para voltar e salvar a mulher que fora morta por sua causa.

Após o banho e já com uma roupa leve, Saketsu estava sentado à mesa da cozinha, o olhar perdido no devaneio indesejável do trágico momento que insistia em permanecer em sua mente. Havia conseguido chegar a salvo em casa junto com Lana depois de fugirem, e não fazia ideia do que acontecera com Ukyi.

Depois de Lana também tomar banho e vestir uma camisa emprestada, ela desceu até a cozinha e puxou uma cadeira para perto dele, com expressão preocupada.

— Você está melhor?

— Não estou, eu... eu matei uma pessoa. — Saketsu não conseguia aceitar a situação e não esqueceria, mesmo que quisesse.

— Não foi culpa sua...

— É claro que foi, Lana. E o pior é que teve um momento em que eu gostei. Eu me senti verdadeiramente feliz por ter feito aquilo. Acho que aquele desgraçado tem razão: eu sou um monstro...

— Já chega, Saketsu! — exclamou Lana, puxando-o para um abraço forte, sem hesitar. — Seja lá o que tenha acontecido, aconteceu. Você não teve escolha. Foi tudo culpa dele. Eu sei que você é uma pessoa boa; você não teria feito aquilo se tivesse outra opção. Você apenas perdeu a cabeça. Por favor, esqueça isso, vamos seguir em frente.

— Lana... — Saketsu não tinha palavras. Enquanto permanecia abraçado por ela, sentia uma sensação estranha que, de certo modo, diluía um fragmento do peso que preenchia seu peito. Seus olhos fechados se apertavam tentando resistir às lágrimas. — Eu só queria poder viver uma vida normal, é tão difícil assim? Por que essas coisas acontecem comigo? Tenho medo de tudo voltar a ser como antes.

Ele começou a chorar com o rosto afundado no ombro da garota.

— Não se preocupe, você não está mais sozinho. Desde o momento em que nos reencontramos na rua naquele dia, a realidade mudou para nós. Só podemos contar um com o outro agora. Irei te acompanhar até o fim de tudo isso, Saketsu, ficando ao seu lado para recuperarmos os dias normais, nem que seja para lutarmos sozinhos contra o mundo todo.

Saketsu apenas chorou mais, descarregando tudo, enquanto Lana acariciava os cabelos rebeldes dele, de olhos fechados, quase se entregando às próprias emoções.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Pouco tempo depois, a noite caiu com o tempo chuvoso, que pelo jeito duraria até o dia seguinte. Os dois conversaram um pouco mais, disseram tudo o que tinham para dizer, questionaram a possibilidade de pedir ajuda às autoridades e debateram sobre arrumarem um novo lugar para ficar, pois permanecer ali poderia ser perigoso.

A casa de Lana era um dos últimos lugares a considerar, já que ela fora sequestrada lá. Pensaram em ir para a casa da sra. Gardênia, mas logo perceberam que seria um risco para ela. Então, sem muita escolha, decidiram arriscar e ficar ali mesmo, por ora.

Enquanto estavam na sala assistindo a uma série qualquer que passava em um canal aleatório, com a casa toda apagada, ouviram de repente um barulho estranho vindo de trás do sofá, mais exatamente da cozinha ao lado. Saketsu se levantou de prontidão, seguiu pé por pé, cauteloso, e acendeu a luz, esperando encontrar algo como, sei lá, um zumbi-sobrenatural. Para alívio, era um ser conhecido.

— Ukyi! — Ele se aproximou, preocupado com o estado estropiado do felino, os pelos arrepiados, como um gato que acabara de sair de uma grande briga no telhado.

— Então este é o espírito protetor que nos salvou lá? — Lana se surpreendeu.

— É, sim. Mas bem que poderia ter aparecido antes, né? Passamos por um perrengue que não precisaríamos ter passado. — Saketsu se exaltou, desviando o olhar.

— Ele apareceu na hora certa. Se não fosse por ele, eu não sei o que teria acontecido.

— O problema é que ele nunca está na exata hora em que eu preciso. Belo “espírito protetor”.

— Mas ele nos salvou! — Lana se incomodou com a grosseria.

Saketsu se afastou depois de confirmar que o felino, que apenas observava as pequenas farpas entre os dois, estava bem, dando-lhes as costas.

— Você não merece ser xingado desse jeito. Olha só, você até se machucou por nós. Com licença, deixe eu ver. — Saketsu apenas escutava.

— Eu estou bem, obrigado — disse Ukyi, no seu tom neutro de sempre.

— Que educado, diferente de alguém aí. — Saketsu percebeu a insinuação. — O que acha de ser meu espírito protetor? Prometo que vou cuidar de você.

— Se a senhorita fosse um glasbhuk, eu teria muita honra.

Ouviu-se risinhos. Por alguma razão, Saketsu começava a se irritar com isso, talvez por um ciúme infantil e inconsciente. Por outro lado, no fundo, começava a se sentir contente por vê-los se dando bem e, ao esfriar um pouco os ânimos, reconheceu que fora prepotente com Ukyi.

A casa, com espaço adequado apenas para uma pessoa, tinha sala e cozinha embaixo e, no andar de cima, banheiro e quarto, onde estavam minutos depois.

Saketsu havia improvisado uma cama no chão para ele, enquanto Lana dormiria na sua. Ukyi, que não tinha necessidade de cama, apenas se dispôs a ficar por perto como “vigia”, caso alguma ameaça surgisse.

Com as camas prontas e as luzes apagadas, a única iluminação vinha da rua por trás da cortina da janela consertada, onde os chuviscos batiam contra a vidraça. Saketsu estava sentado no chão, Ukyi de pé adiante, e Lana na cama, ouvindo o felino contar o que acontecera na casa de Dalton depois que os dois fugiram:

— Depois que o barrei no caminho, lutei contra ele. Como podem ver pelo meu estado, não foi uma batalha fácil. Ele és forte. Suspeito que não sejas um humano comum.

— Mas o que ele queria de mim? Por que eu? Como descobriu que eu sou um glasbhuk?

— Não sei. Apenas afirmo que ele sabe das coisas, tem grande experiência em batalha e no espiritual, além de possuir uma arma sobrenatural.

— Arma sobrenatural? Agora que você disse, lembro de ter visto o revólver dele se transformar em uma grande lâmina. Era aquilo? — perguntou Lana.

— Sim.

— Ou seja, ele não é uma flor que se cheire — concluiu Saketsu.

— Acho que ele é um agente da lei, ou ao menos se disfarça como um, para praticar essas maluquices — disse Lana. — Ele chegou a tentar me interrogar, mostrando um distintivo que eu não consegui ver direito por estar nervosa, mas parecia ter dito ser delegado.

Fazia sentido: terno e gravata, personalidade forte, óculos escuros, perito em tortura e autodefesa, carro preto e casa luxuosa no meio do nada. Parecia um típico personagem de série policial, analisava Saketsu em sua cabeça.

— Acho possível ele vir atrás da gente, já que sabemos bastante coisa sobre ele, e a essa altura ele deve saber tudo sobre nós — disse Lana.

— Com certeza — concordou Saketsu. — E é possível que ele seja mais esperto da próxima vez. Se for mesmo um agente ou algo do tipo, será impossível pedir ajuda à lei; estaríamos caindo nas mãos dele se fizéssemos isso.

— Será que não há nada que possamos fazer? Provar para a justiça quem ele realmente é?

— Talvez, mas pode ser difícil. Acho que o único jeito será eu vencê-lo em uma luta frente a frente usando meus poderes.

— Por ora, é melhor que não faças nada — interferiu Ukyi. — Tua última citação pode ser um caminho potencial, porém não sabemos a medida do poder dele, e tu és um novato: precisas te preparar melhor antes de agir.

— Então acho melhor pelo menos ficarmos sob os olhos de pessoas de confiança. Assim será impossível ele nos pegar, já que não terá motivos legais — concluiu Lana.

— É, pode funcionar. Enquanto agirmos naturalmente e as pessoas tiverem contato com a gente, dificilmente algo ruim poderá acontecer.

E assim o assunto se encerrou. Cada um deu seu boa-noite ao se deitar, e restou apenas o agradável barulho da chuva caindo do lado de fora.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

A sexta-feira amanheceu com o céu acinzentado. Já não havia mais sinal de Ukyi, que sempre sumia e aparecia quando queria.

Arrumado para a escola, Saketsu estava sentado à mesa tomando um bom café da manhã, incluindo um delicioso doce que Lana, com sua aptidão para culinária, havia preparado na noite anterior com bananas e laranjas que estavam prestes a estragar.

— Nossa, você preparou tudo isso? — Lana se surpreendeu ao ver a mesa ao descer para a cozinha. — Se continuar assim, vai dar um perfeito marido — brincou. Saketsu, prestes a dar outra mordida no pão com queijo derretido, parou, levemente corado, e quase se engasgou com o pedaço que ainda estava na boca. — Desculpe — ela riu.

A campainha tocou. Ele se levantou e, ao atender a porta, se deparou com ninguém mais, ninguém menos que…

— E aí! — Tales cumprimentou com seu jeito energético e extrovertido de sempre.

— Opa. Como vai?

— Tranquilo, e você?

— Também. — Saketsu começou a olhar para fora, procurando: — Ué, cadê o Enzo?

— Não deu para ele vir, disse que tinha que passar em outro lugar antes — respondeu. — Mas então, partiu escola?

— Saketsu, posso desligar a cafeteira? — chamou Lana da cozinha.

— Ué, tem uma garota aí? — perguntou Tales, curioso e surpreso.

Saketsu ficou sem reação. Não pretendia expor Lana — tanto para Tales não entender errado quanto para não incomodá-la —, mas agora isso tinha ido por água abaixo.

— Eh... pois é — disse, sem encontrar palavras para explicar, decidindo que seria mais fácil mostrar do que justificar. — Chega aí, pode entrar.

Tales parou na sala e, dali, ficou boquiaberto ao ver Lana arrumando um pão na cozinha. Não conseguiu evitar demonstrar felicidade pelo amigo, afinal sabia que ele gostava dela desde criança, mas também não pôde evitar fazer uma pequena careta.

— Poxa, poderia ter pelo menos me contado — murmurou.

Saketsu sorriu sem graça, certo de que havia um mal-entendido. Não era o momento de explicar, não na frente de Lana. Eles tinham passado tanto tempo pensando em como lidar com as circunstâncias difíceis que enfrentavam que acabaram deixando de lado algo simples, como a desculpa que dariam quando alguém os visse tão juntos — e até morando sob o mesmo teto.

— Oh, olá, Tales — Lana acenou ao notá-lo ali.

— E então, vocês vão para a escola? — perguntou Tales após cumprimentá-la de volta.

Faltava meia hora para chegarem lá. Saketsu olhou para Lana antes de responder.

— Podem ir na frente — disse ela —, tenho que ir em casa primeiro, me arrumar e pegar meus materiais.

— Eu vou com você — dispôs-se Saketsu. — Prometemos que ficaríamos sempre juntos, então não posso deixar você ir sozinha.

Lana corou, não exatamente pelas palavras, mas pelo tom com que foram ditas. Tales olhou, muito surpreso, com uma expressão de “nossa, eles já chegaram tão longe assim?”.

— Se quiser, pode ir na frente, Tales — disse Saketsu. — Lana e eu provavelmente chegaremos na segunda aula.

— Tranquilo. Mas, antes, posso falar um instantinho com você?

— Claro.

Os dois saíram para fora da casa e, sem delongas, Tales passou o braço por trás do pescoço de Saketsu e o puxou com força para perto.

— Então é assim, né? Não ia contar pro seu melhor amigo aqui? Desde quando você e Lana estão juntos, hein?

— C-calma, cara, eu ia contar, mas não é o que você está pensando. Aconteceram umas coisas aí que acabaram nos unindo.

— Que coisas?

— Eu... — Saketsu parou, ponderando se deveria contar. Não que quisesse esconder a verdade, mas não estava pronto. Revelar aquilo poderia colocar várias pessoas em risco.

— Vocês já estão até combinando acessórios, isso se não for um tipo de aliança.

— O quê?

— Parece bastante com a dela — disse, referindo-se à pulseira de proteção, presente que a sra. Gardênia lhe dera.

— Ah, isto… É uma longa história.

Tales se afastou um pouco, suspirando com ar desistido ao perceber que Saketsu não queria contar nada. Decidiu deixar o assunto de lado e foi direto ao ponto:

— Eu, na verdade, vim até aqui hoje para ver o que havia acontecido.

— Como assim?

— Lari, lembra dela? Então… ela contou que viu você e Lana correndo na rua ontem, como se estivessem fugindo desesperados de algo. E eu, como um bom amigo, vim ver se tinha acontecido algum problema. Fiquei preocupado. Mas parece que você está completamente bem, e que bom. — Tales sorriu, apesar da leve decepção.

— Foi mal, é que…

— Tá de boa, Sake. Não vou ficar te enchendo. Te conheço o suficiente para saber que deve haver um grande motivo para não me contar o que está acontecendo. Somos amigos há bastante tempo.

Saketsu tentou retribuir o sorriso, mas não conseguiu. Sentia-se mal por não poder dizer a verdade; envolvê-lo significaria colocá-lo em perigo — e já bastava Lana.

— Enfim, falando sobre a Lari agora: ela e eu começamos a conversar, e você sabe que nossa festinha tradicional na casa da Elisa será amanhã à noite, né? Estive pensando: que tal irmos ao parque durante o dia? Enzo agora está com a Inácia, podíamos ir nós seis.

— Seis?

— Sim, ué. Você e Lana, Enzo e Inácia, e eu e minha adorável... Lari — suspirou, sonhador.

Saketsu ficou raciocinando por alguns instantes. Enzo e Inácia começaram a namorar? Tales e Lari também? E ainda achava que ele estava com Lana?

— Pronto, eu já liguei para o táxi, está quase chegando. Vamos, garotos?

— Lana, você mesmo! — Tales se adiantou até ela e fez o convite para o parque.

— Claro, podemos ir, acho que vai ser legal.

— Claro que vai! Fechou então! Será amanhã ao meio-dia, e o local de encontro eu aviso depois.

— Beleza.

Enquanto o ânimo pairava sobre os jovens entusiasmados, atrás do muro da esquina um homem adulto, vestido como caipira, os observava com olhos cheios de ódio. Um sorriso doentio e sádico se abriu lentamente em seu rosto, enquanto sua mão trêmula, equipada com garras de metal, rangia de ansiedade, faminta por praticar uma maldade brutal.

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