Volume 3

Interlúdio 4: Minha confissão

Quando cheguei em casa, vesti minha roupa de ficar à vontade e me deitei na cama. Na minha cabeça, remoíam-se memórias divertidas e outras que nem tanto. 

— Hoje foi muito divertido — murmurei para mim mesma. — A viagem também foi boa, e jogar juntos em casa também. 

Para ser exata, o divertido não tinha sido o jogo em si, mas estar tão perto do Yoshin enquanto fazíamos a mesma coisa. Eu apenas o observei jogar. 

Perguntei-me se o Yoshin também estaria satisfeito com isso. Esperava que sim. No entanto, ainda não tinha conseguido fazer com que ele me chamasse pelo nome. Agora que estava sozinha, a culpa pelo que eu tinha feito me invadia. Consegui apagar parte desse sentimento graças aos pais do Yoshin, mas me livrar dele por completo era outra história. 

Olhei distraidamente para o meu telefone. Ali, vi uma foto de nós dois e o ícone do aplicativo de chat que eu tinha instalado naquele mesmo dia. 

Fixei o olhar no ícone. Nunca imaginei que um dia instalaria um aplicativo como esse. Embora tivéssemos nos conhecido apenas por mensagens de texto, já dava para notar que o Baron-san, o homem que aconselhava o Yoshin, era alguém maduro. A Peach-chan parecia totalmente adorável, e todos os outros também eram simpáticos. 

Será que o Yoshin interagia comigo com tanta sinceridade porque andava conversando com pessoas como eles? Ou tinha mais a ver com a própria personalidade dele? De qualquer forma, era inútil pensar nisso. O fato de o Yoshin e seus amigos serem pessoas gentis já me bastava. Também fiquei feliz por ter podido agradecer a todos. 

E o mais importante: eu não tinha percebido a aversão do Yoshin em chamar as pessoas pelo nome. Quando me lembrei do que tínhamos conversado antes, esperneei violentamente na cama, com o corpo se contorcendo de ódio de mim mesma. Sabia que minha mãe me mandaria calar a boca, mas não conseguia me preocupar com isso naquele momento. 

Eu queria que o Yoshin me chamasse pelo nome porque sentia que ainda havia um muro entre nós. Nunca pensei, nem por um segundo, que ele ficaria tão magoado tentando simplesmente deixar de lado um honorífico. 

Senti-me tão patética quando percebi que estava sendo tão cruel com ele. Essa era a verdadeira razão pela qual eu tinha começado a chorar. Também foi errado da minha parte deixar que o Yoshin me visse chorar, mas eu não era a melhor pessoa para controlar minhas emoções. 

Quando pensava no que tinha feito, não conseguia ficar parada. Sentia que tinha que me mexer e fazer algo, fosse o que fosse. 

Sabia que tinha acabado de sair da casa do Yoshin, mas imediatamente quis vê-lo de novo. Não podia, é claro, já que era noite. Além disso, não tinha certeza se seria uma boa ideia vê-lo sentindo-me assim. Era como eu me sentia, de qualquer modo. Sendo eu, no entanto, provavelmente não seria capaz de fazer nada, mesmo que conseguisse vê-lo. 

— As pessoas são muito gananciosas. Passar um tempo juntos já é o suficiente, mas queremos sempre mais e mais. Eu me pergunto se aconteceu algo que fez o Yoshin lutar tanto assim — acabei murmurando para mim mesma. 

Com isso em mente, comecei a me perguntar se ligar para ele poderia ser um incômodo. Um pensamento tão pessimista não era comum em mim. Talvez eu devesse ir dormir, pensei. 

Enquanto refletia sobre o que fazer, apareceu uma notificação desconhecida no meu telefone. A mensagem dizia: 

[Novo convite de Peach-san.]

Naturalmente, a notificação não me era familiar: era do aplicativo que eu tinha instalado naquele mesmo dia. No canto do ícone aparecia um pequeno "1", então não tinha como eu estar enganada. 

— Hein? Peach-chan? 

Peach-chan era a garota de quem eu tinha ficado amiga hoje, quando conheci os amigos online do Yoshin. Quando cliquei no aplicativo, apareceu uma mensagem ligeiramente diferente. 

[Peach-san convidou você para uma conversa. Gostaria de participar?]

Uma conversa... A de antes tinha sido muito animada com todo mundo lá. Parecia que a Peach-chan tinha me convidado para uma conversa particular. 

Na tela, havia dois botões: "Aceitar" e "Recusar". Apertei "Aceitar". O formato parecia bastante similar à função de chat de grupo do meu outro aplicativo de mensagens. Os dois únicos participantes no chat éramos a Peach-chan e eu. Comecei a me sentir um pouco nervosa. 

PEACH: Boa noite, Shichimi-chan. Sinto te incomodar tão tarde. Você está sozinha agora? Tudo bem se a gente conversar?  

SHICHIMI: Oi, Peach-chan. Sim, estou sozinha. Não tem problema. Como vai? Eu adoraria conversar com você a qualquer momento, mas é um pouco diferente quando estamos as duas sozinhas, né? 

Peach-chan era uma garota muito linda... eu supunha. A forma como ela dizia as coisas era adorável, mas não parecia que estava fingindo nem nada do tipo. Eu só tinha interagido com ela através de mensagens de texto, mas ela me parecia totalmente sincera. Por isso eu tinha proposto que nos chamássemos de "-chan". Peach-chan pareceu relutante no início, mas acabou aceitando. 

PEACH: O Canyon-san não está com você? Vocês estão namorando, então achei que ele estaria no seu quarto com você. Oh, eu nem pensei nisso! Desculpe. Devo estar atrapalhando.

SHICHIMI: Não, não, não estamos juntos! É cedo demais para estarmos juntos a estas horas da noite! Já estou em casa. Oh, você queria falar com ele? Quer convidá-lo para o chat?

À Peach-chan realmente ocorriam ideias malucas. É claro que ele não estaria aqui a estas horas da noite... Bem, talvez outras pessoas fossem diferentes, mas era cedo demais no nosso relacionamento para fazer isso. No entanto, se ela estava preocupada se o Yoshin estava por perto, talvez quisesse falar com ele sobre algo... 

PEACH:  Oh, não. Na verdade, eu queria conversar com você, Shichimi-chan, então não tem problema.

Parecia óbvio quando parei para pensar, já que era a mim que ela tinha convidado para o chat. No entanto, tínhamos conversado bastante antes. Teria acontecido algo? De qualquer forma, eu estava com vontade de falar com alguém, então talvez isso funcionasse perfeitamente. 

Debati se deveria contar ao Yoshin mais tarde que tinha falado com ela. Não diria sobre o que conversamos, mas com certeza ele ficaria surpreso. Talvez até ficasse um pouco ciumento de novo. No entanto, pareceu-me um pouco bobo tentar deixá-lo com ciúmes. Afinal, era apenas uma conversa entre duas garotas. Talvez eu conte se acontecer algo relevante. 

Era o que eu pensava, de qualquer modo, mas a conversa que teríamos acabaria sendo um segredo entre a Peach-chan e eu. 

PEACH: Muito obrigada por hoje, Shichimi-chan. Não há outras garotas da minha idade no grupo, então de repente me senti como se tivesse uma irmã mais velha. Foi muito divertido.

SHICHIMI: Eu também me diverti! Tenho uma irmã mais nova, mas você é muito diferente. Você está no ensino fundamental, certo?

PEACH: Sim, estou no oitavo ano.

Nesse caso, ela tinha mais ou menos a mesma idade da Saya. Se a Saya era do tipo ativa e esportista, a Peach-chan parecia mais uma "rato de biblioteca" tranquila. Eu sabia que só tinha o texto, mas essa era a impressão que ela passava. Com certeza ela também deve ser muito bonita. 

PEACH: Na verdade, tinha algo que eu queria te dizer, Shichimi-chan, mas era difícil falar com o Canyon-san por perto. Por isso acabei te mandando mensagem tão tarde.

SHICHIMI: Difícil de falar? Eu estou bem de horário, mas e você, está tudo bem?

PEACH: Estou escondendo meu telefone sob os lençóis na cama. Minha mãe e meu pai já estão dormindo, então sinto que estou fazendo algo errado... Mas ultimamente tenho feito muito isso, então estou bem.

Tudo o que ela dizia era tão bonitinho. Sorri, perguntando-me se algum dia eu também tinha sido assim. No entanto, se ela sentia que estava fazendo algo errado, perguntei-me se deveria dizer que estava tudo bem. Enquanto isso, Peach-chan continuava digitando. 

PEACH: Na verdade, te enviei uma mensagem porque queria me desculpar. 

Desculpar-se? Ela não tinha nada pelo que se desculpar. Se alguém tivesse sido grosseiro, eu é que deveria me desculpar. Quero dizer, ela alguma vez tinha me feito algo? Enquanto eu me esforçava para encontrar uma explicação lógica, Peach-chan me atingiu com uma bomba. 

PEACH: No início, eu era a única pessoa que era contra o Canyon-san sair com você. Na verdade, cheguei a dizer a ele que ele deveria terminar com você. 

Pela nossa conversa de antes, eu não conseguia nem imaginar que ela estivesse pensando algo assim. Fiquei tão surpresa com sua confissão que minhas mãos congelaram por um momento, mas, ao mesmo tempo, senti-me envergonhada por ter feito uma pessoa tão adorável se desculpar comigo. 

Embora eu não soubesse, as preocupações que ela sentia eram provavelmente exatas. Com as mãos levemente trêmulas, escrevi uma pergunta. 

SHICHIMI: O que o Canyon-kun dizia quando falava com todos? 

PEACH: Ele nos disse que uma gyaru tinha se confessado para ele. Eu... eu sabia que o Canyon-san era uma pessoa séria e tranquila, ou pelo menos era assim que eu o imaginava, então pensei que você só estava brincando com a cara dele. Por isso fui tão contra ele sair com você. 

Senti que meu peito se apertava. Estava claro que a Peach-chan se importava com o Yoshin, e essa era, sem dúvida, a razão pela qual ela tinha se oposto ao nosso namoro. Ela queria se desculpar de verdade. Isso tinha que significar... 

SHICHIMI: Ei, Peach-chan, você disse que era contra, né? Isso significa que agora você pensa diferente?  

PEACH: Sim, é isso mesmo. Não se preocupe. Agora eu apoio vocês dois.  

SHICHIMI: Eu devia saber. Quero dizer, se não fosse assim, você não teria dito a ele que ele precisava me contar como se sentia, certo?  

PEACH: Sim. Todos os dias, o Canyon-san ficava empolgado nos contando o quanto se divertia com você. Quando ele falava dos encontros que vocês tinham, era evidente o quanto se importavam um com o outro. Por isso decidi que tinha que apoiar vocês dois. 

Eu sabia…

Assim que ouvi isso, eu soube. Sabia como a Peach-chan se sentia. Provavelmente eu não estava errada nisso. Na verdade, era eu quem precisava me desculpar. 

PEACH: É por isso que fiquei tão feliz de poder falar com você hoje. Ao mesmo tempo, eu me sentia envergonhada de mim mesma por me opor ao relacionamento de vocês devido às minhas suposições bobas. Esse sentimento foi crescendo, então eu quis te pedir perdão. 

Ao ver a pausa em nossas mensagens, eu também comecei a pensar em várias coisas. Quando pensei em como ela devia estar se sentindo, e no fato de que a garota que se sentia assim era tão gentil comigo e tinha reunido toda a sua coragem para se desculpar desse jeito, meu coração doeu. 

PEACH: Sinto muito. Sei que te dizer isso foi interesseiro e egoísta da minha parte, e devo ter te incomodado, apesar de você ter sido tão doce comigo.  

SHICHIMI: Ei, Peach-chan, posso te perguntar uma coisa?  

PEACH: O que é? Claro, se for algo que eu possa responder. 

SHICHIMI: Sinto muito se eu estiver enganada, mas... por acaso, você gostava do Canyon-kun? 

Durante um breve instante, Peach-chan não respondeu. Senti que a pausa em si era resposta suficiente para a minha pergunta. E, passado um rato, ela digitou sua resposta. 

PEACH: Sinto muito. Você tem razão. Eu gostava do Canyon-san. Não sabia o nome verdadeiro dele, nem como ele era, nem onde vivia, mas eu gostava dele. 

Ao ver sua mensagem, arrependi-me de ter perguntado de forma tão injusta. Peach-chan não tinha motivos para se desculpar comigo. Apenas por texto, era difícil transmitir sentimentos e pequenos matices, assim como também era difícil captá-los dela. Não tinha intenção de criticá-la, mas se minha pergunta teve esse efeito, certamente não era assim que eu queria recompensá-la por ter se armado de coragem. Na verdade, o que eu queria dizer era algo totalmente diferente. 

Um momento… Este aplicativo também permite chamadas de voz? 

Quando olhei as configurações, vi que havia uma função que permitia conversar por voz. Hesitei um pouco, mas decidi que era a melhor forma de transmitir meus sentimentos. Senti um nervosismo muito distinto do que sentia quando ligava para o Yoshin. No entanto, meus nervos não deviam ser nada comparados aos da Peach-chan, então me armei de coragem para perguntar. 

SHICHIMI: Ei, Peach-chan, eu estava pensando... seria possível falarmos por voz em vez de texto? Tenho muita vontade de conversar com você.  

PEACH: Hein? Você quer me ligar?  

SHICHIMI: Sim. Desculpe, sei que é um pouco tarde. Tudo bem para você?  

PEACH: Sim, está tudo bem. Eu também gostaria de falar com você. 

Preocupava-me que a Peach-chan recusasse, mas ela acabou aceitando minha proposta. Foi assim que, pela primeira vez na vida, acabei falando com uma garota mais nova cujo rosto ou nome eu nem sequer conhecia. 

— Olá, Peach-chan. Que alegria poder falar com você assim. Sou a Shichimi — disse ao telefone. 

— Vo-você também — respondeu ela, hesitante. — Sou a Peach. Hm, Shichimi...-chan? 

— Não precisa dizer como se fosse uma pergunta — falei rindo. — Não se preocupe, pode usar o "-chan". 

Embora eu estivesse nervosa por fazer isso pela primeira vez, escutei atentamente a voz da Peach-chan. Ela também parecia ansiosa; sua voz tremia ligeiramente. Para evitar que ela se sentisse ainda mais tensa, fiz o possível para que minha voz soasse o mais suave possível. 

Mas nossa, sério, a voz da Peach-chan é tão linda, pensei. Senti que poderia escutá-la a noite toda. Ela falava baixo, quase como um sussurro reconfortante. Era um tipo de voz que eu nunca conseguiria produzir. Por um momento, perdi-me na admiração por quão fofa ela era, mas tive que deixar esses sentimentos de lado ou não seria capaz de manter a conversa. Não faria sentido. De qualquer forma, fui eu quem sugeriu o chat. Tinha que me controlar. 

Como já estávamos comprometidas, consegui, mesmo lutando, começar a falar com ela. Parecia que o Yoshin também nunca a tinha ligado: era a primeira vez da Peach-chan também. 

— Desculpe por te ligar de repente. Senti que não estava transmitindo meus sentimentos por mensagem, então quis falar com você desta maneira — eu disse. 

— N-não, de jeito nenhum — respondeu ela. — Na verdade, fico feliz de poder ouvir sua voz. Você tem uma voz preciosa. Soa tão clara, como cristal. 

Ao ouvir uma descrição tão poética e bonita sobre minha própria voz, não pude evitar corar. Nunca tinham me feito um elogio assim pela minha voz. 

— O que você está dizendo? A sua voz também é super bonita! Que inveja. Se a minha voz é como cristal, qual seria a sua? Hmm... Ugh, desculpe. Não consigo pensar em uma forma boa de dizer. É como se você sussurrasse... como um sino, talvez? De qualquer forma, é muito lindo! 

— Oh, céus, não. Não é assim de jeito nenhum. Ninguém nunca tinha me dito isso antes. 

Os elogios pareceram ter aliviado a tensão, porque ambas começamos a rir suavemente. Como a Peach-chan estava na cama se preparando para dormir, ela provavelmente teve que guardar silêncio. Ainda assim, a risada dela era simpática. 

Depois de rirmos um pouco, fez-se um breve silêncio entre nós. Aproveitei a oportunidade para retomar o que havia perguntado antes. 

— Então, Peach-chan, você gostou do Yo—Canyon-kun, hein? 

Estive a ponto de dizer o nome real do Yoshin por costume, mas me contive e utilizei seu nome de usuário. 

— Sinto muito. Sei que só estou causando problemas ao te dizer isso — disse Peach-chan. 

— Não se desculpe. Não estou preocupada de jeito nenhum. Na verdade, eu te respeito. Acho que você é incrível. 

— Respeita? De maneira nenhuma. Isso não se diz de alguém como eu. 

"Alguém como eu"

A forma como ela disse isso me lembrou as coisas que o Yoshin costumava dizer quando tínhamos começado a namorar. Talvez o Yoshin e a Peach-chan fossem parecidos em certo sentido, e por isso ela tivesse se sentido atraída por ele. De alguma forma, não pude evitar me sentir mal por me interpor entre eles. 

— Eu te respeito. Quero dizer, ver o garoto de quem você gosta conseguir uma namorada e, ainda assim, ser capaz de torcer por eles... Eu não conseguiria fazer isso. Você é uma pessoa gentil e adorável, uma garota que eu admiro. 

— Você não está brava? Apesar de eu ter gostado do seu namorado e ter sido contra vocês saírem? 

— Não tenho por que ficar brava. Ou seja, se eu estivesse no seu lugar, também teria me oposto. Se eu soubesse que alguém tinha convidado o garoto de quem eu gosto para sair, provavelmente eu teria ficado super ciumenta. É uma resposta completamente natural. 

"Gracias, Shichimi-chan. Agora sinto que entendo por que o Canyon-san se apaixonou por você." 

Pude perceber alívio e amabilidade na resposta da Peach-chan. No entanto, ao mesmo tempo, senti uma pequena pontada no coração. 

— Peach-chan, você sabe coisas sobre o Canyon-kun que eu não sei, né? Eu adoraria que você me contasse mais sobre ele. Como ele é no jogo? — perguntei. 

— Bem, vejamos... Eu não tenho amigos na escola, então passo muito tempo sozinha. Foi quando comecei a jogar no meu telefone. 

Perguntei-me se essa era uma das coisas que ela tinha em comum com o Yoshin. Antes, eu só conhecia o Yoshin de nome, e ele também não tinha se destacado muito na classe. Acho que nunca o vi saindo com outros alunos. 

— Foi assim que conheci o Canyon-san. Não gostei dele de imediato nem nada do tipo. Só pensei que as coisas que ele dizia eram parecidas com as que eu diria. 

— Parecido, hein? Acho que entendo o que você quer dizer. Talvez seja porque ambos são do tipo mais tranquilo. 

— Na verdade, uma grande diferença entre nós dois era que, enquanto para mim era doloroso não ter muitos amigos na escola, o Canyon-san não parecia se importar nem um pouco. 

— Ele não achava que não ter amigos era um problema? 

O comentário da Peach-chan me intrigou. Ela continuou me contando o que o Yoshin tinha dito a ela na época. 

— Certo. Ele me disse que eu não tinha que me forçar a fazer amigos na escola, que podia fazer muitos amigos no jogo e em outros ambientes. Disse que não havia por que se incomodar por não ter muitos amigos e que ele me considerava sua amiga. 

— Ah. Isso soa como algo que ele diria. 

Nunca tinha visto esse lado dele, mas podia imaginá-lo dizendo algo assim. Não pude evitar rir. Peach-chan também riu e continuou. 

— Não acho que ele tenha pensado muito no que disse, mas senti que, de alguma maneira, ele me salvou. Sentia que ele estava me dizendo que tudo bem, mesmo que eu não tivesse muitos amigos no meu colégio e tivesse dificuldade em me relacionar com as pessoas. 

— E foi assim que você começou a gostar dele. 

A Peach-chan, que havia feito uma pausa em seu relato, respirou fundo antes de desnudar o coração diante de mim. Devia ter sido necessário muito valor para fazer isso e, ainda assim, ela compartilhou comigo. 

— Isso foi o que deu o início, sim. Depois disso, continuei me sentindo atraída pelas coisas que ele dizia. Cada vez era mais divertido conversar com ele no chat. Meu tempo na escola se tornou menos pesado graças ao que ele me dizia e, quando percebi, já gostava dele. 

A forma como ela falava, como se estivesse envergonhada, era adorável, mas no momento seguinte ela começou a parecer inquieta. 

— É estranho, não é? Senti-me como se tivesse sido salva por um comentário dele, feito de improviso. Não sabia nada sobre ele, nem como era, nem como se chamava, nem sequer onde vivia. Nem sabia se era um menino. Mas, mesmo assim, acabei me apaixonando por ele. 

Suas palavras, cheias de inquietação, combinaram-se com sua voz bonita e quase se desvaneceram no ar, então respondi imediatamente. Ela tinha que saber como eu me sentia. 

— Não é estranho. 

Isso mesmo, não havia nada de estranho nela. Não havia absolutamente nada de errado em gostar de alguém, mesmo que você não soubesse nada sobre essa pessoa. 

— Não é nada estranho — continuei. — Mesmo que você não saiba nada sobre eles, não há nada de estranho em gostar de alguém. 

Mesmo em seus jogos, o Yoshin continuava sendo ele mesmo. Por isso eu não podia dizer que era estranho ela gostar dele. Nem sequer podia pensar isso, porque eu também era assim. Esta garota estava apenas no ensino fundamental e, no entanto, tinha uma forma de pensar mais madura do que a minha. Se ela estava disposta a se abrir para mim assim, então era justo que eu também me abrisse para ela. 

Respirei fundo, exatamente como ela. Eu nem sequer tinha dito ao Yoshin o que estava prestes a dizer a ela. Talvez a Peach-chan passasse a não gostar de mim quando eu contasse, mas, ainda assim, queria dizer com sinceridade, ao menos para ela. 

— Na verdade, Peach-chan, eu só comecei a gostar do Canyon-kun depois de me confessar. Comecei a gostar dele depois que começamos a namorar... quando ele nem sabia nada do que estava acontecendo. 

Ouvi a respiração da Peach-chan ficar entrecortada. Eu a tinha escandalizado? Mas para responder aos seus sentimentos anteriores, comecei a compartilhar o meu segredo, um segredo que eu nem sequer tinha compartilhado com ele. 

— Você quer me ouvir? Eu não me confessei para o Canyon-kun porque gostava dele. Na verdade, aconteceu na ordem inversa. Primeiro eu me confessei para ele, e depois comecei a gostar. A razão pela qual me confessei com ele foi... Bem, foi por um desafio. Era tudo mentira — eu disse. 

Peach-chan me escutou em silêncio enquanto eu confessava coisas que deveriam ter feito com que ela me desprezasse. Eu não sabia como ela ia reagir. Comecei a suar de nervosismo. Finalmente, suas próximas palavras quebraram o silêncio que pareceu durar uma eternidade. 

— O quê? Por que... Por que você me diria algo assim?! O que você faria se eu contasse para o Canyon-san o que você acabou de me dizer? — perguntou ela, com a voz tão trêmula que mal conseguia falar. 

Ela tinha razão: era uma possibilidade. Mas o meu desejo de que a Peach-chan e eu, duas garotas que acabaram gostando da mesma pessoa, pudéssemos falar sinceramente era muito maior do que a minha preocupação com essa possibilidade. 

— Da mesma forma que você foi sincera comigo, eu também queria ser com você. Seria grosseiro se eu não fizesse isso. Quero dizer, a culpa foi realmente minha. Por isso não quero que você se preocupe com o que sentia em relação a mim ou com o fato de estar contra o nosso relacionamento. Quem deveria se desculpar sou eu. 

Parei um momento e depois endireitei a postura. Sabia que ela não podia me ver, mas o que importava aqui eram os meus próprios sentimentos. 

— Sinto muito, Peach-chan — eu disse. 

— Shichimi-chan... 

A voz dela tremia e percebi que ela estava chorando. Senti vergonha de tê-la feito chorar. Eu tinha sugerido que nos ligássemos em vez de falarmos por SMS justamente para evitar que ela se sentisse assim. 

Yoshin deveria ter sido a primeira pessoa a receber minhas desculpas, mas não me arrependi. Acontecesse o que acontecesse, eu queria abraçar a Peach-chan, a pessoa que gostava do mesmo garoto que eu. 

— Shichimi-chan, agora você gosta do Canyon-san, não é? — perguntou ela. 

— Sim, eu gosto muito dele. Gosto muito mesmo. Quanto mais tempo passo com ele, mais eu gosto. 

— Se esse é o caso, então por que você fez isso? Quero dizer, o que você teria feito se eu fosse uma pessoa rancorosa? 

— Eu não me arrependerei de nada, faça você o que fizer, Peach-chan. Além disso, quando completarmos um mês, pretendo contar ao Canyon-kun tudo o que acabei de te dizer. Vou contar tudo, me desculpar e, depois, me confessar para ele novamente. Vou deixar que ele decida o que quer fazer. 

— Mas por quê? Tudo ficará bem, mesmo que você não conte. Por que passar por tudo isso? 

— É a minha forma de ganhar tranquilidade. Por isso... Por isso... 

Custou-me muito articular meus próximos pensamentos. Só de imaginar, as lágrimas saltavam. Reprimi o choro, fingi rir e me obriguei a parecer mais alegre do que me sentia. 

— Por isso, se ele me deixar, quero que você cuide do Canyon-kun, ok? 

Uma única lágrima escorreu pela minha bochecha. Sentia um aperto no peito só de pensar no que eu tinha feito a ele e no que poderia me acontecer no futuro, mas, pelo menos, tinha conseguido ventilar essa possibilidade alegremente. Fiquei feliz que nossa chamada fosse apenas por voz, sem vídeo. Mas, com uma voz muito brilhante, Peach-chan me deu palavras de encorajamento. 

— Não se preocupe. Eu garanto que não vai terminar assim. 

— Você acha? 

— Absolutamente. O Canyon-san está totalmente apaixonado por você também, então eu só aceitarei um relatório feliz. O que conversamos hoje será apenas um segredo entre nós duas, garotas. 

Senti-me eufórica pela forma como a Peach-chan falava comigo: sem formalidades, como se falasse com uma amiga da mesma idade. Meu coração se aqueceu e fui invadida por uma emoção diferente da que sentia quando falava com o Yoshin. 

— Você me perdoa, Peach-chan? — perguntei. 

— Com certeza. Você também me perdoou, não foi? Não é só por isso, mas eu também te perdoo. Somos amigas. Oh... foi muito atrevido dizer isso para alguém mais velha que eu? 

Eu ri, achando divertido ouvi-la mudar do informal para o educado no final. 

— Não, isso me deixa feliz. Você tem razão, somos amigas, então ficaria contente se você falasse informalmente comigo. Obrigada, Peach-chan. 

— Obrigada, Shichimi-chan. 

E assim, agradecemos uma à outra. Apesar de nenhuma de nós saber como era a outra, nem nossos nomes reais, nem onde morávamos, nem sequer em que escola estudávamos, conseguimos nos tornar amigas. Aquele cenário me hipnotizou completamente, mas também senti que meus horizontes tinham se ampliado um pouco. 

Depois disso, Peach-chan e eu continuamos conversando por um tempo, desde falar sobre o Yoshin até outras coisas aleatórias. Já estava tarde, então não conversamos demais. 

— É difícil acreditar que uma garota tão doce como você não tenha muitos amigos na escola — eu disse. 

— Eu realmente não gosto muito de ir à escola, mas graças ao Canyon-san, ficou menos difícil, e agora tenho alguns amigos. A escola é realmente muito mais divertida agora. 

Entendo, então foi graças ao Yoshin... Ouvir isso me deixou feliz e, talvez por causa da minha conversa com a Peach-chan, comecei a sentir vontade de falar com o Yoshin de novo. Não, talvez eu devesse ir dormir esta noite. 

— Shichimi-chan, você vai conversar com o Canyon-san depois disso? — Peach-chan perguntou. 

— Hein? 

— Pensei que talvez você fosse terminar o seu dia falando com a pessoa de quem você realmente gosta. Obrigada, Shichimi-chan. Sinto que finalmente posso colocar um ponto final nos sentimentos que tive por ele. Eu também estava querendo virar essa página há algum tempo. 

Suas palavras me arderam um pouco. Eu tinha o direito de falar com ele depois de tê-lo deixado tão triste? Tinha o direito de falar com ele depois de tê-lo ferido com palavras tão desconsideradas? 

— Peach-chan, posso te perguntar uma coisa? O que você acha sobre deixar de usar honoríficos com alguém? 

Peach-chan pareceu surpresa pela minha pergunta repentina. Após uma breve pausa, murmurou:

— Eu não me sentiria muito confortável. Talvez porque me preocuparia que a outra pessoa não gostasse. 

— Entendo. Obrigada, Peach-chan. Boa noite, Peach-chan. 

— Oh? Uh, com certeza. Boa noite, Shichimi-chan. 

Assim que terminei minha conversa com a Peach-chan, deixei-me cair na cama e continuei pedindo desculpas mentalmente. Falando com a Peach-chan, que era parecida com ele, senti que começava a entender por que o Yoshin resistia tanto a me chamar pelo nome. Talvez porque não tivesse interagido muito com as pessoas, ele se preocupava que eu não gostasse, e mesmo assim eu o incomodava com uma exigência tão egoísta. 

— Desta vez eu realmente consegui... 

O Yoshin já estaria dormindo? Eu queria ligar para ele, mas meu corpo se negava a se mexer. No final, pela primeira vez desde que começamos a namorar, não entrei em contato com o Yoshin a noite toda.

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